4 - Paraíso?
Não se podia confiar em ninguém que falasse idiomas mortos e esquecidos pelo tempo. Gostaria de não ser um imã de gente doida, pois não dava para considerar normal um cara que levava a mulher para o quarto e em vez de transar, ficava pelos cantos rezando em aramaico. Se é que esse fosse o idioma o qual murmurava.
Tinha por intenção aproximar a pontinha do dedo na chama da vela longa e negra, porém queimou e com um gritinho, sugou o indicador. Saliva curava tudo! Melhor teria sido se tocasse as pétalas suaves das rosas, tão vermelhas quanto o sangue. Rosas aos milhares. No altar, na cama enorme de lençóis negros, nos vasos. Rosas por toda parte. Qual o problema daquele cara com rosas vermelhas? E os crânios. Aquele pessoal não tinha muita originalidade, beijavam-se tal qual os crânios do altar do porão.
Os nós dos dedos deslizaram pela espinha de Beatrice, vértebra por vértebra. A tensão, o tesão, o rastro frio na umidade deixada pelos beijos nos ombros e pescoço, provocavam um tsunami de arrepios. Roçava nela, excitado, tentador como o diabo. Que rezasse em acadiano se quisesse, desde que não parasse.
— Do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: vós não comereis, nem o tocareis, para que não morrais* — suspirou no ouvido dela.
Doce e dengoso. Como era o nome dele mesmo? Girou sobre os calcanhares. Os seios roçaram atrevidos sobre o peito musculoso e os braços de Beatrice envolveram o pescoço longo. Quem se importava com nomes? Qualquer mago que se prezava se preocupava com nomes. Quem deu voz à consciência? Todavia não era uma maga que se prezasse. E era um sedutor bíblico, e todo mundo quer transar com um sedutor bíblico, ainda mais um bonitão como ele. Lambeu lentamente o pescoço do demônio sedutor e se deliciou no perfume almiscarado. Mordeu a orelha e sussurrou, manhosa.
— Oh, não! Vós não morrereis! Mas, Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.
O riso do ruivo reverberou em puro deleite no aposento. As mãos cálidas apertaram sua carne, febril, enlevado. A tomou no colo e a deitou, gentil, sobre a cama ampla, no centro do aposento, que não encostava em nenhuma parede. Os lençóis negros de seda e as pétalas de rosas escorregavam sob o corpo de Beatrice com a mesma velocidade da calcinha que insistia em se agarrar a pele.
— Então seus olhos se abriram e viram que estavam nus — murmurou, beijando as pernas dela.
— Adão e Eva são patéticos.
— Logo percebi que você só se simpatizaria com Caim.
— Não me simpatizo com ninguém.
Pesou sobre ela, fazendo-a afundar ainda mais na cama macia.
— Não seja cruel comigo — disse, manhoso.
— Por que abandonou a banda?
— Porque apareceu uma serpente no meu jardim a qual eu não pude resistir.
Mas, que diabos! O nome dele? Como era mesmo? Escorregou para o lado e livrou-se das garras sedutoras. Não que fizesse diferença, não se lembrava da maioria dos homens com os quais transou, porém algo nele a incomodava. Agarrou ao copo sobre a mesa de cabeceira, uma dose de uísque. As árvores sacudiam, a única parede de vidro convidava a imensidão para dentro do aposento, não que houvesse muito para contemplar, as gotas escorriam na vidraça, a escuridão ocultava os seres noturnos e a calmaria...
A calmaria era o que havia de mais desconcertante. Jamais houve quietudes. Aonde foram todos os demônios? As almas dos mortos a berrar pela noite? Os possuídos violentos? Os convidados caricatos retirados de algum filme gótico de quinta categoria? O silêncio, o tesão, a combinação de magia e fascínio. Onde estavam os demônios que os perseguiram até ali?
— Qual seu nome?
— Andras, minha princesa. – O afago paciente combinava com a morosidade dos beijos orvalhados nas costas dela.
Princesa? Só se fosse a Fiona. Não, não! Estava mais para Maria Antonieta. Mas, Maria Antonieta não era rainha na França? Tinha de ser princesa para se tornar rainha, certo? Não, era duquesa, Maria Antonieta era duquesa. E duquesa podia virar rainha sem ter sido princesa antes? Não era uma escadinha? Duquesa, princesa, rainha... Ih, melhor nem tentar entender essa gente. Sacudiu a cabeça.
— Estou certa de que não deveria me sentir tão à vontade com você. – Voltou-se para Andras. A boca ávida atracou-se na dela e a língua como âncora afundou no oceano de seu beijo.
— Não me reconhece? — Andras perguntou, acariciando-a com a pontinha do nariz.
E como haveria de reconhecer? Não o viu nenhuma vez na vida. E disso estava certa! Era bonito, perturbador e luminoso demais para ser esquecido. E a inquietação não sobrepujou o desejo, não naquele instante em que a beldade a puxou contra si, rendido, e estirou-se feito um cadáver sob Beatrice. Sexo era sexo. Não, Bia, nunca fez drama com isso. O que há de errado com você?
— Colocaram droga na bebida?
— Não. Eu te seduzo, não é? Sou irresistível para você, do mesmo modo que é para mim. Te incomoda, não incomoda?
— Te incomoda?
— Um pouco. – Colocou o cabelo de Beatrice atrás das orelhas, carinhoso. — Vou cuidar de você de hoje em diante, minha princesa.
— E como cuidaria? – Difícil falar, beijar e roçar em simultâneo, e jamais ocorrera antes. Era uma puta barata e se comportava como uma virgem desajeitada, daquelas de filme, porque nem na própria vida foi uma virgem romântica. Algo estava definitivamente errado, por isso abandonou a bebida sobre o móvel, o montou, afundou no falo rijo e roubou um gemido dos lábios sôfregos que buscaram pelo beijo dela.
— Posso afastar seus inimigos. – Sentou-se, tornando a posição incômoda.
— O que sabe sobre isso? – As pernas envolveram a cintura de Andras, ajeitou-se e tornou a se encaixar nele.
Desenhou um símbolo entre os seios de Bia com a ponta do indicador, embora não deixou marca, o signo queimou na alma no momento em que o sedutor soprou palavras ininteligíveis.
— Não se sente protegida? Alguma vez se sentiu em paz como se sente agora?
— Não devíamos falar coisas pervertidas um para o outro? Algo como, me fode gostoso, Andras? Ou, eu vou te chupar todinha até gozar, Beatrice?
— Eu te farei gozar a noite inteira e será tão inesquecível que não demorará até bater em minha porta de novo, Faure. — Deslizou a ponta do dedo em torno do rubi, enquanto Beatrice ondulava sobre ele, incomodada com tanta conversa.
— Enfeitiçar-me para fazer com que eu bata em sua porta novamente não vai funcionar. Não é assim que a banda toca, querido.
— Esperava algum romantismo.
Puro deboche, Beatrice sabia. E Andras confirmou, pois não houve delicadeza ou romantismo ao jogá-la na cama, apertou a cabeça na maciez sedosa, a puxou pelos quadris e a penetrou, vigoroso. Enrolou o longo cabelo na mão, forçando-a a inclinar-se para trás, num puxão doloroso, contorceu o pescoço de Bia apenas para beijá-la. Sem piedade, pressionava-a contra o corpo musculoso com uma chave de braço, sufocava-a, mordia a orelha.
— É assim que gosta de ser tratada, não é?
Óbvio. Que mulher não morria de tesão com uma chave de braço no pescoço e estocadas violentas a ponto de fazê-la vomitar o próprio útero? Ainda mais ouvindo palavras nalgum idioma diabólico e desconhecido? Invadindo-a com visões, milhares de mãos vindas do além, ávidas por tocá-los, clamando para serem amadas por ambos, para dividirem o prazer.
— Me deixa cuidar de você. Eu posso te dar tudo.
Por que tinha a impressão de que se arrependeria daquela foda? Por que seus ouvidos pareciam tapados? A vontade louca de implorar a Andras para não se afastar de maneira alguma conflitava com seu espírito independente. Os dedos atrevidos escorregavam na vulva úmida, iam e vinham, o membro e os dedos, como as ondas do mar, enchiam-na de um prazer enlouquecedor. As árvores balançavam, jamais se cansavam, para lá e para cá, sob o prazer do vento. Lá fora estava frio, chovia... Ainda assim abrasavam no sexo diabólico, como um contraste, zombando do mundo e da natureza, ferviam, gemiam.
Sufocava.
— Eu vou te proteger, minha princesa.
— Por que preciso de proteção? – A voz de Beatrice escapou airosa, sussurrada, entrecortada pelos gemidos.
— Quem te deu essa pedra? O rubi. Seu colar. Quem te deu?
— Minha mãe disse que meu pai me deu no dia do meu nascimento.
— Não o conhece?
— Não, não o conheço. E nada é mais broxante do que falar sobre meu pai enquanto transo.
— E se eu te dissesse que seu pai te deu uma joia que vale milhares de vidas humanas e estão te caçando por causa disso?
O que ele sabia sobre aquilo? Nik contou a ele? Não condizia com a natureza do amigo, confiava nele. Não, Nik não diria. Não podia trai-la, por mais amigo que pudesse ser de Andras, sabia do perigo em dar informações ao seu respeito para quem quer que fosse. A guiou de modo a deitar-se de costas, acariciou as pernas dela, guiando-a para recebê-lo. Carinhoso, conduziu o membro para dentro de Bia. Ela investiu com os quadris com movimentos quase bruscos. Não queria conversar durante o sexo, conquanto estivesse desejosa de saber o que Andras sabia sobre ela e o colar.
— Oh, não, minha princesa, Nik jamais me contaria.
Deu um soco nas costelas de Andras a fim de se livrar. A prendeu com ainda mais firmeza e concedeu uma série de estocadas violentas apertando ao pescoço dela.
— Consegue ouvir o que penso? — perguntou Bia, antes de acolher ao beijo dele.
— Não exatamente o que pensa. Palavra por palavra não, não mesmo.
— Por que não gosto do modo como fala comigo?
— Porque é uma serpente astuta.
— Vai me dizer o que realmente quer falar, ou continuará falando em metáforas?
— Eu disse o suficiente. E também paguei meu tributo a tua divindade. Ou alguém te amou como te amo agora? — Sugou ao lábio dela e se movimentou ainda mais possante.
— Já tive melhores e que falavam bem menos — debochou a moça.
— Está me desafiando?
Abandonou-a, brusco. Oh não, não era para parar! Volta, moço, prometo que serei uma boa menina. A gaveta se abriu. As algemas brilharam sob a luz tênue das velas. Beatrice esboçou um sorriso discreto, contente, e não lutou quando a prendeu na cabeceira da cama. Todavia, não esperava pelo punhal retirado do mesmo local logo depois e menos ainda das palavras esquisitas sussurradas.
— O que está fazendo? — perguntou, sem conseguir disfarçar a aflição.
Andras se sentou sobre as coxas de Bia e a prendeu fortemente entre as pernas. A dor, ah, era cruel. A lâmina não somente rasgava a pele, a queimava. Como doía! Caralho! Nunca sentiu nada como aquilo antes. Ou sentiu? Não se equiparava a um simples corte, não. Ardia como se desenhasse o maldito símbolo em seu ventre com uma lâmina em brasa. Queimava, faiscava. Faiscava? A rasgava como se arrancasse o útero e mais outros órgãos. Embora visse se tratar de um corte pouco profundo, era suficiente para fazê-la sangrar, e muito.
— Eu te chamei. Tenho te chamado por todos esses longos anos. – Andras bebeu do sangue da ferida.
A fraqueza a tomou, repentina e violenta. Estava morrendo? Desmaiando? Uma loucura, um misto de dor e prazer, de rendição e submissão. Quis chorar e sequer se lembrava quando chorou pela última vez. Não, nunca chorava, todavia, estava a ponto disso. As mãos negras e fantasmagóricas tentavam agarrá-los, a coloração vermelha nas paredes insípidas revelava sombras voluptuosas, os vultos copulavam sob a dança das chamas das velas.
— Dói, não é? A prata dos anjos queima como fogo. Assim é desde o início. Uma arma potente o suficiente para derrubar os impenetráveis. — Beijou Beatrice. — Desculpe te machucar, preciso te proteger, queira você ou não, princesa.
Embriagada, subitamente embriagada. O entorpecimento se espalhava. O corpo estava pesado, os pensamentos lentos, e a boca formigou com a pressão do beijo do sedutor. Escorreu sobre o corpo dela tal fio de água, e Beatrice ofegou, ardeu de novo, os lábios de Andras assemelhavam-se a ferro em brasa ao sugar o sangue da ferida outra vez. E a cabeça escorregou um pouco mais e afundou entre as pernas. Os gemidos transformaram-se em gritos, a dor a carregava para o inferno e o prazer... Não, o paraíso não a chuparia como ele.
Estúpida, agora Andras fazia o que queria com seu corpo. E veio o primeiro orgasmo, depois o segundo e o mundo se dissolveu, em gemidos, apertões, no ir e vir de Andras, nos rompantes de puro êxtase, na surrealidade do momento. O enlevo e o prazer estavam nas mãos fantasmagóricas buscando por eles, nas sombras que se amavam nas paredes. E surpreendeu-se tão logo o diabo explodiu em gozo, violento, barulhento, ofegante e recitou.
— Ó, Serpente, eu te invoquei dentro desse santuário chamado vida. Lutei ao teu lado na rebelião. Lutamos pela serenidade, a força e a beleza, pelo feitiço da respiração, pelo verbo feito carne. Em tua dança serpentina, na simplicidade de teu encantamento. Ó Serpente, tu és deus, enrolado em teu trono, reúno-me a ti, com teu sangue me reoriento. Bebo do néctar da tua fúria, da taça da fornicação, da sabedoria da loucura.
Andras com os olhos fitos nela, a beijou enquanto destravava as algemas. Os braços caíram pesados e inertes sobre a cama negra ao ser liberta. Se havia pensamentos, falavam com imagens e palavras estranhas, toda a energia vital escapou nos vários orgasmos. As gotas do sangue do ruivo pingaram em seus lábios e sugou o braço cortado, enchendo a boca com o gosto metálico, por puro instinto. Envenenada. A toxicidade corria feito vermes por suas veias. As pálpebras pesavam. Sonolenta e melancólica afrouxou o corpo.
— Se sentirá melhor — ele disse, ao acariciar o cabelo de Bia. — Te dará um pouco mais de vitalidade.
— O que fez? Isso não foi só sexo, não é?
— Não, não foi só sexo. Estamos conectados agora.
— Seu interesse por mim é doentio.
— Estou cuidando dos negócios da família, minha princesa.
— Que família?
— Da minha.
— Não sou do tipo que gosta de vínculos.
— Não fui eu quem decidiu isso.
— E quem foi?
— Nossos pais.
— Está dizendo que conhece meu pai?
— Se não estiver enganado quanto a quem você é, sim, Faure, conheço.
— E quem é ele?
— Se ele não te contou, não sou eu quem contará.
Malditas regras! Em momentos assim desejava ser a rainha do mundo e mudar tudo. Apesar de não apreciar a ideia de outros fofocar ao seu respeito. Consideraria barganhar com Andras quando o conhecesse melhor. Nenhuma vez encontrou alguém que afirmasse conhecer seu pai. Limpou o sangue do rosto dela e a aninhou.
— Vou te proteger, mas tem um preço.
— Meu pai te pediu para me proteger?
— Fico tentado em mentir para você e dizer que sim, pois aceitaria minha oferta sem muitos questionamentos. Porém, jamais minto, só omito.
— E se eu disser que não estou interessada?
— Não acho que terá escolha, minha princesa.
Os dois diálogos de Beatrice e Andras assinalados pelo itálico são citações bíblicas de Gênesis 3:1-7.
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