37 - Vislumbres

Com as mãos sobre o batente da janela, a tempestade encantava Ayla. Espessas muralhas de água circundavam a casa. Os destroços dançavam no ar, arremessados de um lado a outro, em belos e assustadores rodopios. Esticou a mão janela afora, motivada pela vontade de tocar as imensas cascatas cintilantes e murmurantes.

Em contraste com o cinzento gélido externo, o aposento banhava-se da luminosidade vermelha e quente, similar a um cabaré. Os três estavam nus. Gar recostado na cabeceira da cama entregava-se ao beijo ensopado e lascivo de Beatrice, a qual, feito sadomasoquista, abandonava ao namorado de quando em quando para acarinhar o semblante de Andras atrás dela, que inscrevia um símbolo sangrento nas costas da bruxa libidinosa.

A ponta da lâmina do punhal penetrava a carne e, gota por gota, o sangue brotava na pele leitosa e em carne viva, unindo-se ao longo das costas, num veio vermelho e viscoso, até gotejar lento sobre o lençol branco. Beatrice não gemia, parecia não sentir dor e voltou-se para trás, beijando Andras enquanto Gar sugava o seio rijo e untuoso.

O pranto engalfinhou-se na garganta e os lábios tremeram ao seu prenúncio. Desejou abandonar o recinto, porém, petrificada, não desviava o olhar da cena horrenda. Sufocada pelo ciúme, o desprezo e o descaso os punhos se fechavam. Andras roçava o membro rijo em Bia, a masturbando enquanto orvalhava o pescoço dela com seus beijos. Os gemidos da bruxa escarnecedora eram abafados por Gar ao beijá-la. Disse para Beatrice que estava apaixonada por Andras pela manhã. Por que fazia aquilo com ela? O que significava o símbolo sangrento o qual tingia a boca do amado?

Andras puxou o quadril da bruxa traidora e a penetrou, possante. Sugava o membro rijo de Gar e ambos deslizavam as mãos nas costas feridas de Bia. Os gemidos dos homens se transformaram num murmúrio semelhante ao som de várias vozes agonizantes presas em uma cripta. A raiva a consumia. O despeito abrasador a possuía. Odiava Beatrice. Detestava como a amavam, do modo que se devotavam a bruxa pervertida tal qual Afrodite portentosa.


O ar estava repleto por gotículas suspensas e não soube como conseguiu segurar uma entre os dedos, minúscula e frágil o bastante para desvanecer. Entretanto, capaz de observá-la como se de posse estivesse de um microscópio, soube que a minúscula gota consistia em milhares de vírus. Estava entre vítimas de bomba biológica. E os gemidos outra vez. Os três mudaram de posição. Bia montava Gar e acariciava o membro de Andras em pé ao seu lado com mãos e boca.

Nas paredes tingidas de rósea cor os vultos negros copulavam. Alguns alongavam os braços, como se despregassem do concreto, desejosos de tocar os três amantes. Imploravam pelo amor deles, gritavam, suplicavam, gemiam. E o som horripilante das criaturas sombrias enlevava Beatrice, gemia ainda mais alto. Andras a curvou gentilmente sobre Gar, empinando os quadris os quais se moviam sobre o moreno e a penetrou também, beijando a nuca de Bia.

Quis gritar. Espancá-los. Perguntar o motivo pelo qual a desprezavam. Carícias delicadas em suas pernas fez Ayla tomar consciência da própria nudez. Perplexa. Como começou? Estava sonhando? As mãos afastaram as pernas dela e Saul deitado sob ela, a lambeu. Arrebatada pelo prazer, esqueceu-se da bruxa traidora e jogou-se sobre o colchão no chão do quarto.

De olhos fechados, ao apertar a cabeça de Saul entre as pernas, Ayla sentiu-se tocada em todo o corpo por milhares de mãos. Causavam um prazer indescritível, intenso e violento. Tal o deleite que gemia mais alto do que o murmúrio exótico e lamuriento dos três. O demônio de estimação de Bia empurrou o sexo para dentro dela. Enlaçou-se no pescoço dele e o beijou. Nunca sentiu tanto prazer antes. O corpo explodiria em puro êxtase e desejou tocar os três amantes.

Empurrou Saul para o lado e ajoelhou-se sobre o colchão. Debruçou-se sobre a cama de casal onde os três ainda se amavam e Saul a penetrou outra vez. E estendeu os braços, desejosa por tocá-lo. Os queria incontrolavelmente, todos os três, Andras, Beatrice e Gar. Quanto mais tentava agarrá-los, mais se distanciavam. Precisava tanto tocá-los que arfava e choramingava a cada tentativa inútil. Não mais os odiava, nem se sentia chateada. Os amava, desejava, queria.

— Eles despertam o inferno quando se unem — Saul sussurrou. — Você quer tocá-los, não é?

— Sim — Ayla choramingou. — Eu preciso ao menos tocá-los.

— Sim, você quer servi-los, amá-los, pois todo o inferno também os quer.

— E por que isso? Por que assim?

— Porque toda a terra se curva diante do amor deles.

E súbito não havia mais paredes ou algo como quarto, embora no centro do terreno amplo os três ainda se amassem sobre a cama. Estavam rodeados por milhares de seres, vultos disformes, entidades míticas, fantasmas, humanoides. Gemiam, lamentavam, clamavam. Todos em profunda devoção e reverência. Uma melodia solene, fúnebre e grave insistia em se espalhar pelo ar. Como os via enquanto transava com Saul? Como sabia os desejos e pensamentos de todos os espectadores esquisitos?

— Sexo é a magia mais poderosa — Saul disse, carinhoso. — Mas, ninguém pode tocá-los, só servir.

— O que eles são?

Os beijos de Saul deixavam um rastro frio em suas costas. As mãos negras e sombrias deixaram de acariciá-la e a puxaram. A cama feito altar dos três amantes e o colchão onde estava com Saul desapareceram. Afundava na terra fofa e negra. Estava sendo enterrada viva. Os demônios a encovavam, puxando-a solo abaixo. Gritou em desespero ao erguer as mãos contra o céu pálido.

— Oh Deus, me ajude! Por favor, me ajude!

O vento zuniu entre os bambuzais que a circundavam, os vermes e minhocas rastejavam sobre a derme, cuspia a terra e se estrebuchava, tentando escapar das mãos firmes as quais a apertavam com força, as unhas compridas feriam a carne. Tentou gritar por socorro outra vez, porém a voz não saía.

— O que faz um anjo fornicando com demônios? — A voz era divina e estrondeante. — Te demos todas as chances para se decidir, para optar com lucidez e agir com confiança. Não escolher e se entregar as paixões também é uma escolha, Ayla, e como causa tem suas consequências.

Gritou por fim, graças a Deus, conseguiu gritar. E sentou-se, abrupta. Andras tocou os ombros e saltou do colchão, afastou-se dele aos gritos.

— Não me toca!

Beatrice estava acordada com a cabeça sobre o peito de Gar.

— Ayla, foi um sonho — disse Andras, ao tentar se aproximar dela.

— Vocês estavam transando!

— Colega, eu bem que queria, mas não consigo nem ficar sentada pra tomar água. — A voz de Bia soava fraca.

Ayla agarrou a barra da camiseta. Não, não estava nua. Avançou e puxou a coberta de Beatrice, depois a camisa, analisou as costas dela, indiferente aos tapas de Gar. Não havia símbolo sangrento algum sobre a pele alva e macia. Deu alguns passos para trás, trêmula, fitou as mãos frias e suadas. Morreria, se a voz não tivesse falado com ela, estaria morta.

— Vocês são demônios! — Ayla disse, por fim. — Até mesmo você, Bia! É provável que naquela noite quando você fingiu me salvar dos demônios na cidade abandonada, na verdade me enganou para trazer aqui!

— Surtou — disse Bia, tossindo ao rir.

— Sim, é por isso que vocês se chamam de príncipes e princesa. Vocês são príncipes infernais.

Desnorteada, Ayla abriu a porta do quarto, contudo Andras a segurou para seu alívio. Todas as sombras e seres do sonho estavam do outro lado da porta. As mãos estendidas, prontas para agarrarem-na. Gritou, apavorada e caiu aos prantos. Ele a abandonou, fechou a porta e refez o ritual enquanto as mãos fantasmagóricas invadiam o quarto. Beatrice tossiu várias vezes, emitia um som gutural ao tentar respirar, sufocada. Gar a sentou, envolvendo-a, gritou, irritado.

— Deu para perceber que estamos rodeados pela energia poderosa de um demônio? E que o príncipe infernal o qual você nos acusa de ser, é o demônio que está ali fora tentando nos matar? – E ao acariciar o rosto de Bia, disse, calmo e preocupado. — Respira, Bia, respira.

— Eu quero que isso pare! — gritou Ayla.

A insegurança, a indecisão e a consternação formaram um caldo borbulhante em seu íntimo. Nervosa e assustada, o corpo sacolejava e toda a confusão de sentimentos e pensamentos culminou num rugido tal qual um vulcão em erupção. Houve uma explosão e tudo ao redor se sacudiu como se fosse uma extensão de Ayla. Espalhou-se para todos os lados uma luz intensa e dourada, e com a visão ofuscada não percebeu o que aconteceu. O ambiente se encheu de um vozerio ensurdecedor, e em seguida tudo silenciou abruptamente. No desvanecer da irradiação já não mais havia tempestade, tampouco seres obscuros. A luz emanou dela? De seu âmago? O que era aquela luz? O aposento tornou a ganhar forma.

Corada, Beatrice se sentou, ofegante.

— Ayla, essa sua magia do caos é forte mesmo!

— Será que dá para arriscarmos sair? — indagou Gar.

— Quer arriscar? — perguntou Andras. — Podemos encontrar Elias no caminho.

— Temos de tirar Bia daqui. Não sabemos o que Ayla fez e por quanto tempo durará. — Gar saltou da cama do casal.

— O médico tinha razão, eu sou louca — Ayla choramingou e se sentou.

— Você não está doida, Ayla. Sua única maluquice é pensar que eu sou um demônio. Eu bem que gostaria. De todo modo, quanto a esses dois aí, acho bem provável que você esteja certa. Eu não te trouxe para eles, eu nem os conhecia. E também não te conhecia, só fiz magia para me proteger tão logo vi que outro demônio vinha da mesma direção da qual você veio, estava encurralada. Eu não fazia ideia de quem você era. Você precisa acreditar em mim.

Ayla acariciou os cabelos de Bia.

— Desculpa, Bia. Foi um sonho horrível. Tão real. Acho que Gar está certo, vai ver meu sonho foi afetado pela magia do demônio que está nos cercando.

— E que você mandou embora com a sua magia dos olhos laranjas. — Bia sacudiu a cabeça em consentimento.

— Que magia dos olhos laranjas?

— Não sei. Deve ser sua magia do caos, você disse que praticava, não é? Seus olhos ficaram laranjas e você colocou medo no demônio e fui capaz de respirar de novo. E agora estamos livres. — Bia bateu palmas de alegria feito criança.

— Dourados, Bia, os olhos dela estavam dourados — corrigiu Gar.

— Vou conferir se podemos sair. Esperem aqui — disse Andras ao deixar o quarto.



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