20 - Prata dos Anjos

As garrafas tilintaram no farfalhar das sacolas plásticas quando Beatrice as colocou sobre a mesa de centro, atenta ao noticiário, uma perseguição policial. Desinteressada, tomou uma garrafa, sentou-se ao lado de Ayla, retirou a tampa e focou o celular, levando o conhaque à boca. Estava contente pela bruxa tarada concordar em ficar na casa dela. Desde o evento na Mansão Nigba, sentia-se vigiada, desconfortável, ameaçada.

— O noticiário é patético. Nunca falam sobre o que realmente interessa, esforçam-se apenas em fazer as pessoas pensarem o que querem que pensem, comprar suas brigas inúteis, eleger seu político de estimação. — Jogou os pés sobre a mesa.

— Quer assistir alguma coisa em particular?

— Tanto faz. Raramente assisto televisão. — Fitou o celular outra vez.

— Está esperando a ligação de alguém?

— Calmo demais. Silencioso demais. Odeio isso.

— Por que te deixaram sair da Mansão? Tem a ver com o que aconteceu com Pietro?

— O que sabe sobre isso? — Entornou a garrafa e a encarou.

— Andras é perigoso e não tenho a menor dúvida disso. Porém, preciso ser sincera, Bia. Estou insegura ao seu respeito. Com medo do seu poltergeist e das coisas as quais tenho te visto fazer. Está na lista negra.

Beatrice riu, despreocupada.

— Se tivessem algo contra mim não teriam me deixado sair da mansão. E por mais que desejasse um final de semana nessa quietude infernal, tenho negócios para resolver.

— O que tem para resolver?

— Preciso agradecer um amigo. E confirmar se existe a possibilidade de acessar a biblioteca dos Maier. Dependendo de quem esteja de posse do território dos bruxos, terei passe livre.

— Qual amigo?

— Pietro.

— Ah não, não está falando sério! — Saltou, contrariada.

— Regras existem para serem quebradas. E com o furdunço em que tudo se encontra, uma confusão a mais ou a menos não fará qualquer diferença.

— Sabe que impuseram toda a sorte de limitações a você. Milhares de lugares aos quais está proibida de frequentar. Eles estão te vigiando, Bia, você mesma me disse isso.

— Vou a um bar em outra cidade, longe daqui. Não tem como dar errado.

Tinha tudo para dar errado, Ayla sabia.

— E se Pietro tomou posse de alguma propriedade dos Maier? — Beatrice mirou o rótulo da garrafa e bebeu mais um pouco. — Preciso saber. Preciso entrar naquela maldita biblioteca. Tenho certeza de que se há um livro onde possa ler sobre esse colar, está lá. E se eu souber o que é esse colar, vou saber por que Andras está interessado na gente. Esses objetos mágicos o aproximaram de nós. E ainda não posso alegar o quanto ele é perigoso.

— Então não seria melhor nos afastarmos deles? Não seria mais seguro?

— Nos encontrará em qualquer local. Ainda não faço ideia de como te encontrou. Mas, eu estou fodida, colega. Melhor se aproveitar da proteção dele contra os milhares de inimigos, porque querendo ou não, desde que se aproximou os demônios os quais me perseguiam diminuíram. Não ouço mais os lamentos dos mortos o tempo todo como antes, nem sou atacada por outras coisas doidas e inexplicáveis com tanta frequência.

— Será que ele liderou esses demônios para te caçar?

— Andras teria de ser muito fodido para isso. Um bruxo pode controlar um ou outro demônio, conjurá-lo e subjugá-lo. Contudo, vários deles e materializá-los, vai bem além do que um bruxo, mago ou guardião de portal pode fazer. Um talvez, mas milhares, impossível. Só se fosse um rei infernal, um Sobrenatural poderosíssimo. Nem sei se existem, para ser sincera.

— E por que acha que Andras não pode ser um rei infernal?

— Porque é meio humano. A não ser que as coisas mudaram demais, um Sobrenatural pode ter traços humanos, como os Licantropos, entretanto não se engane, são monstros. Se caso Andras for um Mestiço de demônio, assim de dois ou três demônios conjurados, podíamos elevar o número para algumas dezenas, todavia, com bastante custo, muito sangue humano, bastante confusão e descontrole das emoções das pessoas. Não que o mundo esteja uma beleza, de toda forma, estabelecer um ambiente caótico e sombrio assim exigiria o impossível.

— E pode ser um Mestiço de demônio?

— Alguns Lilins são Mestiços, outros, Sobrenaturais. Enfim, não fui tão fundo assim entre os coleguinhas monstruosos para falar com propriedade. Podemos dizer que nós vivemos no Érebo, enquanto os Sobrenaturais, no Tártaro.

— E o que você é? Se fosse uma bruxa não devia ser membro de alguma família?

Andras insinuara que Beatrice e Gar se assemelhavam, e Bia sabia o que era. Embora não fizesse sentido, pois, a bruxa bebum assegurou não conhecer o pai, assim como ele mesmo alegou não saberem da paternidade de Bia enquanto na Mansão Nigba. Não obstante, quiçá a moça tivesse alguma pista.

— Não sei. Alguns sugeriram que sou Mestiça e não Bastarda.

— E qual a diferença?

— Meu pai nesse caso seria um Sobrenatural, não um Mago, ou Bruxo, ou Mestiço.

— Tipo o quê?

— Qualquer coisa inumana.

— E acha que é?

Beatrice deu de ombros. — Preciso ir.

— Vou com você.

— Não pode.

— Por que não? Já que vai se meter em confusão é melhor que tenha alguém com você.

— Não posso dirigir com alguém em meu carro.

— Quê?

— Só consigo dirigir sozinha. Assim não pode ir.

— Vai ter que aprender a dirigir comigo no carro, porque eu vou.

— Pra quê?

— Porque preciso conhecer essa merda de mundo e tentar te manter longe de encrencas. Espere aí que vou me trocar.

Beatrice tentou fugir, o que forçou Ayla a trancá-la no apartamento para trocar de roupa. Resmungou, praguejou e xingou todo o trecho do elevador até o subsolo. Após longa e enfadonha discussão, Bia a permitiu entrar no carro e ficou chocada ao notar a vulnerabilidade. Somente por se sentar no banco do passageiro, a bruxa resmungona ficou inquieta, balbuciando, ligando e desligando o rádio, socando o volante, berrando para Ayla sair. Impossível acreditar que alguém com tanto sentimento de culpa e dor pela morte do amado, fosse um ser diabólico e terrível como Andras às vezes insinuava.

— Você pode dirigir comigo ao seu lado, Bia. É bonito que se preocupe com a vida das pessoas, que não queira machucar ninguém. Você consegue dirigir porque sempre dirigiu, o que aconteceu naquela noite foi um acidente, não teve culpa de nada.

Fumar canabis e dar grandes goles no uísque não apaziguava ao espírito de Ayla, aliás Bia quem dirigiria. E a bruxa frágil tremia, contemplando a parede cinza do estacionamento. Focou o celular, rolou a tela.

— Gar não me liga mais.

— Te incomoda?

Beatrice não respondeu. Não entendeu o que o medo de dirigir tinha a ver com Gar, não obstante falou milhares de outras frases desconexas, motivada pelo nervosismo, pensando em voz alta, talvez fosse outra frase solta. Gritou e o carro ligou. Afundou o cigarro no cinzeiro e tirou o automóvel da garagem.

A viagem durou cerca de duas horas. Longa conquanto calma. A cidade pequena estava cravada num vale, cercada por montanhas e torres elétricas. Casas coloniais abundavam e davam charme a cidade, muitas das quais bastante antigas embora restauradas. Uma cidade charmosa, histórica, possivelmente turística apesar de nunca ter ouvido falar a respeito.

— Por que será que nunca ouvi sobre essa Cidade de Med?

— Porque é nossa. Determinadas cidades, ambientes e sítios sagrados devem se manter desconhecidos dos humanos. O que não é algo fácil, tem gente demais no mundo, e os homens têm se enfiado em tudo quanto é região do planeta. Algumas são mantidas ocultas através de magia, outras por histórias de maldições e assassinatos, outras com placas alertando sobre perigo de radioatividade embora não haja nenhum. Depende de quem controla a cidade. Cada um usa a ferramenta que tem.

— E estamos seguras aqui?

— Não estamos seguras em lugar nenhum, Ayla, porém, alguns, são mais amistosos que outros. Esse é um deles.

— Quem comanda essa cidade? — Ayla perguntou ao descer do carro.

— Não importa.

As ruas de paralelepípedos iluminadas por postes coloniais davam à cidade uma atmosfera de sonho, fazia-a imaginar-se com Andras num passeio romântico, no qual declararia o amor dele ao dar um ramalhete de flores e um anel de compromisso. Contudo, a aglomeração de pessoas diante do casebre negro com jaquetas jeans desbotadas e rasgadas, correntes presas aos bolsos e cós das calças, nos narizes e nas orelhas, pulseiras cheias de pregos e moicanos de cores aberrantes a tirou de seu mundo perfeito.

— Não são lindos? — Beatrice sorria sedutora para um dos homens de moicano, o dele era verde, com tatuagens nos dois lados da cabeça.

— Não — respondeu Ayla, honesta.

— Você é muito convencional, Ayla.

— Não te faria mal ser menos bizarra de vez em quando.

— Não sou bizarra. — Bia abriu a bolsa para ser revistada à entrada do estabelecimento. — Tenho bom gosto e originalidade. Gosto do que gosto porque me agrada, não porque a propaganda me disse que devo gostar.

— Seus carros não dizem isso. — Ayla pegou a comanda a qual a moça, simpática, entregou. — São modelos exclusivos feitos unicamente para gente babaca.

— Concordo. Entretanto, apenas assim consigo carros que correm mais de duzentos quilômetros por hora. Não tenho escolha. A não ser que me transforme num sobrenatural, um vampiro, ou lobo, quem sabe? São bem velozes e fortes.

— Se tornaria um deles? — indagou, subindo a escada amadeirada, arrastando a mão no corrimão tom café, encantada com a beleza do casarão antigo. Os cômodos amplos dividiam-se em vários ambientes distintos e muita gente esquisita.

— Não. Os lobos são bem gostosos, transam bem, porém isso basta. Não os vejo com o romantismo da ficção. São bestiais, terríveis, te amam num momento e te devoram, literalmente, em outro.

Beatrice se sentou no sofá confortável embora cheio de manchas, o que a fez questionar o que poderiam ter derrubado ou feito no móvel. A ideia de sentar em fluidos corporais a paralisou, imagens de gente transando ou vomitando no móvel saltaram à mente e se enojou. A pouca distância da pista de dança, separada por uma parede de vidro capaz de abafar o som, a musica apenas incomodava por alguns instantes quando a porta, marcada pelo jateado delicado e bonito, se abria para entrada ou saída das pessoas.

— Pietro também?

— Pietro é lindo — disse, e fez o pedido de várias bebidas. O que resultou numa mesa colocada posteriormente diante delas, com uma dúzia de garrafas de bebidas alcóolicas, um copo de sangria e outro com suco de morango com leite.

— Mais do que Gar?

— Quer transar com Gar, Ayla? Achei que estava interessada em Andras.

— Por que pergunta isso? — questionou, perplexa.

— Fala dele o tempo todo.

— Só queria que admitisse que gosta dele.

Beatrice trocou a sangria pela garrafa de vodca, incomodada.

— Não há nada de errado em se apaixonar — Ayla insistiu.

— Consegue pensar em alguma coisa que não seja romance?

— Sempre quis ter uma amiga para conversar sobre isso.

— Eu não sou essa amiga.

— O que pensa sobre amor?

— Não penso.

— Por que não?

— Porque não importa.

— Acha que alguém como Gar ou Andras é capaz de se apaixonar?

— Como saberia disso?

— Olin era um de vocês, não era?

Focou a garrafa, soturna.

— Olin era um Pavlov. Um Bruxo Bastardo aceito pelos Pavlov. Mas, não teve tanto tempo para usufruir do glamour de uma família tão tradicional e antiga. É uma pena que estão fora do país há algum tempo, por razões as quais desconheço, ou os LeBlanc iam ter muito com o que se preocupar. — Levantou-se. — Vou dançar enquanto Pietro não chega. — Jogou a bolsa sobre Ayla.

Péssima ideia falar de Olin, óbvio que Bia não superou. Também, que ideia falar sobre isso! Como se sentiria se tivesse perdido o namorado num acidente? Ao menos confirmou que Beatrice não era psicopata, ou não seria tão difícil falar dele.

De capa e capuz azul-escuro a mulher atravessou a antessala, acompanhada por um grupo de mulheres as quais por alguma razão causou a onda de calafrios que sacolejou Ayla alertando-a do perigo. A musica se tornou alta, ocultando o vozerio das pessoas animadas entregues ao divertimento no sofá compartilhado.

A intuição empurrou Ayla para fora do sofá, abandonando o suco sobre a mesa e colocou a alça da bolsa de Beatrice no ombro. Outra mulher, coberta por manto e capuz similar, diferenciado somente pela cor negra do tecido aveludado, adentrou na pista de dança. Beatrice dançava, beijando duas pessoas ao mesmo tempo, sem se dar conta do círculo sinistro formando-se ao redor.

Com ou sem Pietro, a situação não se prefigurava certa e Ayla caminhou, preocupada, até a pista. Havia um quê de inumano nas mulheres circundando Beatrice, ocupada demais com as duas bocas para perceber a emboscada. De beleza excepcional, pálidas como se aterrorizassem o sol, cabelos compridos e negros como o ébano cobriam-nas como manto. Rodopiavam drapejando as franjas de tiras largas do tecido leve e maleável dos vestidos. A dança lúgubre e hipnótica enfeitiçou todos ao redor. Lindas, como fadas negras nascidas do lago noturno e pintadas de estrelas.

— Oh merda! — Beatrice exclamou, apercebendo-se da situação e visivelmente imune ao feitiço

Santo Deus! Ayla se dobrou em agonia. As mulheres gritavam em uníssono deixando os tímpanos a ponto de estourar, o sangue escorreu dos ouvidos quente e incômodo. A dor alucinante a fez apertar as mãos contra as orelhas e o gosto do sangue espalhou pela boca. Beatrice, como todas as pessoas do lugar, se curvou, sangrava pelo nariz e olhos, apertou a cabeça, como se o gesto pudesse aliviar a dor latejante e gritou.

— Banshees, Ayla!

— O que são Banshees? — gritou, aflita.

— Um tipo de fada noturna e destrutiva — Bia respondeu e a tomou pela mão.

— O que a gente faz?

Correram junto com os histéricos, com os cabelos arrepiados e coloridos a sacudirem-se como penachos, alucinados pelos gritos e pela dor. Por sorte o carro não estava longe. Tão logo entraram, Beatrice ligou o som, colocou uma musica horrorosa, entretanto a letra consistia em uma invocação de um deus pagão. Beatrice abriu o porta-luvas e entregou um amuleto preso ao colar de ouro.

— Use isso!

— Nenhum amuleto ou magia te protegerá hoje, Beatrice Faure.

A voz rouca, grave e quase inumana veio do banco de trás. Não, não queria ver, queria acreditar que estavam salvas. Beatrice ajustou o retrovisor. Curiosa e temerosa virou-se. No semblante moreno, os olhos brilhavam como ouro líquido, tinha uma beleza angelical, ainda assim terrível e ameaçador. O que era aquilo?

— Nada contra dar caronas. Porém, não me lembro de convidar um maldito Nephilim para um passeio.

— Nephilim? Filhos de anjos? — perguntou, Ayla, confusa. Filhos de anjos eram bondosos, não?

— Sim. Mestiços. Metade anjo e metade humano.

— Então estamos seguras?

O Nephilim riu. E Beatrice não precisou responder. Os gritos. Ah como doía! Beatrice berrava, em profunda dor e agonia, bem sabia porque fazia o mesmo. Enlouquecedor era pouco para descrever o sofrimento. O sangue descia pela garganta desde os olhos, afogava e sufocava, a cabeça prestes a estourar doía desde o centro, enfraqueciam os músculos e nauseava. O carro ziguezagueou ao tomarem a rodovia, o raciocínio prejudicado pela mortificação e a ameaça do desmaio tornava a direção tão ou mais perigosa quanto as Banshees.

Os gritos intensificaram, ficavam cada vez mais próximos, vibravam dentro dos ossos, o sangue a sufocava e se engasgou. O mestiço envolveu o pescoço de Ayla com uma chave de braço, gemeu e o braço queimou e fumaçou ao encostar no amuleto, entretanto não a soltou. Bia puxou o freio de mão, o carro girou na estrada, e, desequilibrado, o meio-anjo a soltou.

Beatrice berrou para Ayla sair do carro e cambaleou porta afora, apertando as orelhas, agoniada e vulnerável. Os faróis iluminavam poucos metros de estrada, e ao redor vários quilômetros de nada, o céu cintilante e o matagal a sacudir sob a aragem. O mestiço arremessou-se contra ela e a pancada a fez perder o fôlego, rolou no asfalto e mirou o Nephilim. Não estava interessado nela. E os gritos das Banshees não o afetavam. Investiu contra Bia. Caíram no matagal e os faróis intensos do carro a estacionar ao lado a forçou a apertar as pálpebras.

Suspirou aliviada no momento em que os gritos silenciaram assim que as duas mulheres desceram do carro. Não fossem pelos mantos azul e negro, teria considerado o fato de reconhecer Débora e Lena Nigba como salvação. E, no entanto, a verdade se mostrava outra e não podia se agarrar no otimismo tóxico. As viu chegarem no bar acompanhadas pelas Banshees.

O raio amarelo manifestou-se do matagal escuro seguido do estouro. As duas Nigba se voltaram para o local e desviaram, atentas, do Nephilim corpulento, arremessado de um lado a outro na estrada. Não conseguiu visualizar o objeto que Bia lançou aos pés das duas, forçando-as a se afastarem, exceto o fulgor da luz, intensa o bastante para queimar as vistas.

— Então trouxeram as Banshees com vocês? — perguntou Beatrice, ao tentar limpar o sangue, espalhando-o ainda mais pelo rosto.

— Foi tola em acreditar que Pietro entraria em contato com você. E é possível que esteja morto, como você estará em segundos — falou Débora.

— Armaram isso para nós? — Beatrice estava surpresa. — Por quê?

— Você o ajudou a vencer Bóris, o finado alfa da atual matilha de Pietro. Por que o ajudou, Beatrice Faure? Como fez?

— Eu não sei do que estão falando, Débora.

— Não minta para nós! — Lena exclamou e avançou sobre Beatrice.

Ayla não soube o que se passou na cabeça de Beatrice por permitir tal aproximação. O punhal caiu da mão da bruxa idiota, brilhante ao fremir sobre o asfalto. Escancarou a boca em desesperada busca por ar e as mãos agarraram a pequena cimitarra de metal semelhante ao electro, cravado sobre o símbolo feito por Andras, faiscava e fumegava como um vampiro exposto ao sol. A pele empalideceu e as veias de Beatrice saltaram e azularam como se intoxicada pela lâmina.

Bia caiu sobre os joelhos e Débora cravou outro punhal, atravessando o ombro. Horrorizada e desesperada correu ao encontro de Beatrice, debruçou-se e colocou as mãos em torno dos ombros dela. Grunhia de dor, os punhais lampejavam e reluziam numa tênue luz dourada, as duas mulheres deram alguns passos para trás, sorridentes.

— Por quê? Por que estão matando Bia? — Ayla se levantou, munida de coragem e ódio. Até aquele momento não tinha se dado conta do quanto gostava da bruxa moribunda. Triste, sufocava o choro na garganta. O que podia fazer? Como podia lutar contra as duas Nigba, o Nephilim e as Banshees as quais flutuavam em meio a escuridão do matagal e salvar a amiga?

Sim, amiga. Beatrice era sua amiga, a morte lançou a verdade em sua cara, gostava da bruxa agonizante.

— O mundo precisa disso, Ayla. Não podemos permitir que viva. Há muito viemos tentando evitar que Beatrice continuasse perambulando por aí. Se soubesse o que ela é, você entenderia.

— Vocês conjuraram os demônios para matá-la?

— Não. E não sabemos ainda quem está por trás disso. No entanto, fomos nós que pedimos a Kael para entregar o livro com a invocação errada. Sabemos da capacidade de Beatrice de materializar seres, e que faria de tudo para saber sobre o pai.

— O quê? — Beatrice balbuciou, apoiada sobre mãos e joelhos. — Vocês fizeram o quê?

— Eu entreguei o livro a Kael pessoalmente. — Débora a chutou.

Estatelou-se, os olhos vítreos fitos no céu cintilante.

— Eu barganhei com o demônio que você conjurou, prometi trazê-lo para esse mundo através de você, desde que te matasse quando atravessasse o portal o qual você e Olin abriram.

A pele azulada cintilou com as lágrimas as quais escorreram na face de Beatrice. Estava chorando? Será que o demônio, o qual Débora mencionava, era o mesmo que perseguiu Bia na noite na qual Olin morreu? Ou a dor do ferimento era intensa demais? Não, não era momento para reflexão. Não ao notar o vapor sinuoso, denso, apesar de transparente, se desprender do estranho corpo gris da amiga. Ayla não sabia se corria, ou adentrava no carro, só sabia que ninguém mais estava a salvo.

— Se confessar que ajudou Pietro serei misericordiosa e direi quem é seu pai antes que morra.

— Vá se foder, Débora! — rosnou Beatrice, soerguendo-se.

Os olhos de Beatrice arderam e o campo eletromagnético expandiu. Os punhais despregaram-se misteriosamente e flutuaram defronte da bruxa possuída. Giraram no ar e apontaram. As armas arremessadas violentamente acertaram a testa de Lena e do Nephilim simultaneamente. Ambos se suspenderam no ar. Com a palma voltada para cima, Beatrice fechou os dedos, um por um, como se agarrasse uma corda invisível e puxou a mão para si. Não tinha certeza se o gesto foi a causa, contudo Lena e o Nephilim secaram no ar. Luzes e sangue espalharam-se como torvelinho ao redor de Bia e o campo do poltergeist intensificou e densificou. Assustada demais para raciocinar e o retorno dos gritos fizeram Ayla adentrar no carro. Os tentáculos enfumaçados do poltergeist cresceram ondulantes.

Apertando as mãos contra os ouvidos, contemplava, perplexa, a resistência das duas mulheres. A fúria alimentava o poltergeist de Beatrice e por conseguinte, o espírito maligno a fortalecia. Débora mantinha um sorriso sádico e apertava os olhos detrás dos óculos. Odiava Bia, a invejava. Não sabia se os gritos das Banshees estavam derretendo seu cérebro de tal modo que alucinava, não obstante havia uma coloração na aura de Débora que mencionava que o ódio nascia da inveja, do desejo de ser como ela. Por que desejava ser como a bruxa endemoniada? O que de grandioso Bia poderia ter feito para Débora desejar ter o que tinha?

O campo eletromagnético do poder de Beatrice se espalhava e o carro vibrou, movendo-se lentamente sobre a estrada. Ayla gemia, o sacolejar tornava os ferimentos internos causados pelas Banshees dolorosos e agarrou-se no banco do carro. Com outro pulsar a energia de Bia acertou o automóvel e o arrastou para o acostamento, pressionando-o contra a amurada da rodovia. A medida em que a bruxa possuída se expandia, mais claro o conflito se tornava, uma história contada sem palavras, sabia, no entanto, não sabia como sabia.

O conflito antigo, tão antigo que havia milhares de anos entre o momento e quando tudo começou. Como Débora poderia ter uma rixa tão antiga? Teria a ver com o pai de Bia? E com horror, em outro poderoso pulsar, como a onda de choque de uma bomba atômica, entre as rachaduras dos vidros viu Débora, consumida e desfragmentada pela potência do impacto, perder a camada de pele e carne. Arremessou o braço contra Beatrice e a enlaçou com algo semelhante a cipós.

Bípede, o corpo descarnado se reconstruiu com cascas de árvore, os seis braços ondularam como troncos grossos e as mãos afiguravam-se com dedos compridos de cipós torcidos, ondeando no ar como serpentes. E temia por Beatrice, anelava e gania como um animal ferido, e o poltergeist não tinha idêntica intensidade como na vez em que enfrentou os vampiros. Raios roxos e vermelhos trespassavam pelo corpo azulado da bruxa ferida, espiralando ao redor como escudo. O colar refletia a luz vermelha, todavia estava levemente encurvada, fraca, vulnerável. E Débora sabia disso, a pouca carne podre, a qual cobria o rosto ossudo, denotava o sorriso e os estranhos lumes modificados acendiam-se com chamas etéreas e turquesas.

Investiu com os cipós monstruosos contra Beatrice. A espiral reluzente cortou os dedos horrendos e Débora guinchou, esganiçado e medonho. Falaram, todavia o zunido do poder de Beatrice, misturado aos gritos, a dor e a agonia, não permitia Ayla entender o que conversavam. Tudo acontecia numa velocidade vertiginosa, porém o tempo parou, estava apavorada, temia por Bia. O poltergeist podia protegê-la ou tomar o controle de tudo e arrastar todos juntos, Andras disse, e ela mesma experienciou. E não havia Gar para encobri-la, nem Nik para a tirar da enrascada. O que poderia fazer para ajudá-la?

Os cipós estenderam-se e ondularam no ar. Enrolaram-se em Beatrice e a lançaram a alguns bons metros. Os faróis não iluminavam todo o espaço necessário a fim de que Ayla pudesse precisar onde a bruxa enrascada caiu. Porém, Débora deu as costas para o carro, medonha, o cabelo gosmento e negro entranhando-se no couro amadeirado das costas, estava recoberto por uma camada grossa e sebosa tal qual pus. E desesperou-se, a vibração do poder do poltergeist diminuiu. Beatrice morreu?

Saltou para o banco do motorista e ligou o carro. Atropelaria Débora. Contudo, hesitou, não conseguia ver Bia, não desejava a machucar ainda mais passando por cima dela. Os galhos enrolaram-se rapidamente ao redor do veículo, produzindo um som irritante como facas arranhando a lataria, apertou as pálpebras e protegeu os ouvidos. Maldita Débora. O monstro pressagiou sua ideia. Santo Deus! Os cipós envolveram o carro como tramas, tão velozes que quando deu por si a lataria amassada e rangente estava envolta por um casulo de ramos.

Agarrou ao volante ao notar o movimento. A sensação na barriga anunciou o lançamento. O choque e a invisibilidade a envolveram num torpor morno. O estrondo, o tilintar dos vidros quebrando, o teto do carro afundou e Ayla sem cinto de segurança despencou, bateu a cabeça e o ombro. E nauseou ao que o carro girou, como se sugado por um tornado. Que merda estava acontecendo? Esforçou-se para abrir a porta, e sem sucesso, concentrou em não vomitar. Outra queda e o ombro estalou. Merda! A clavícula. A dor insuportável. Os galhos afastaram, como se aspirados. Ayla abriu a porta, sem se preocupar com Banshees, ou Débora monstruosa. Bia, queria saber de Bia.

Encontrou Beatrice ajoelhada no meio da estrada, Débora estava aos pedaços, literalmente, o sangue verde-escuro e fedorento empoçava diante de Bia. E Ayla não sabia dizer onde estavam as Banshees.

— Estou morrendo. Vá embora! Matei dois Nigba, e podem te matar por ser minha cúmplice.

— Não vou te deixar sozinha.

— Não seja estúpida, Ayla! Se eu estivesse no seu lugar, te largaria aqui e correria pela minha vida.

— Eu não sou você, Bia.

— Pegue meu celular, ligue para Nik, peça para que venha te buscar e te leve para um local seguro. Talvez seja melhor que fique com Andras agora. Caminhe pela estrada ou volte para a cidade e consiga uma carona com alguém. Se afasta de mim, Ayla.

Beatrice vomitou, puro sangue. Nunca tinha visto ninguém ficar daquela cor antes por causa de facadas, estava mais do que febril, a pele ardia, tentou passar o braço dela pelos ombros a fim de alçá-la, não obstante a bruxa moribunda bateu na cara dela e berrou com dificuldade.

— Faça o que mandei! Liga pro Nik! Ele também precisa saber. Deixa-me morrer em paz! Vá embora, caralho!

Caiu, sacudindo-se em espasmos. Convulsionava. Ayla chorou. Angustiada, indecisa, temerosa. O celular de Bia, onde estava? Na bolsa. No carro. Mancava, todavia, correu pelo matagal até alcançar o veículo, tristemente destruído, tão chocada que sequer sentia dor. Tremia. Não, Bia não podia morrer. E se morresse não merecia fazer a passagem sozinha. Não abandonaria outra mulher a qual tentou ajudá-la de novo.

Pegou a bolsa, mancou até a estrada. Gritou em profunda dor e desespero para arrastá-la para o acostamento, ainda estrebuchando, e a aninhou nos braços, como uma mãe, apertando a cabeça dela contra o peito, balançando-a, enquanto procurava entender como funcionava o celular.

— Nik. — Ayla chorou como criança ao ouvi-lo em profundo alívio. — Nik, Bia está morrendo. Os Nigba. Sim, não estou mentindo. Débora e Lena tentaram matar Bia, uma emboscada. Não sei, disse que se encontraria com Pietro. Foi uma armadilha, para os dois, ele deve estar morto. Não, ainda não, está convulsionando. Não sei onde estou. Ela disse para ir embora também. Não, não vou abandoná-la. Não importa.

Disse que viria, mas será mesmo? Estava preocupado demais com os Nigba, Nik estava com medo, todos os amigos de Beatrice corriam sérios riscos. O que faria? Permitiria que Andras a protegesse? Confiaria no demônio dos seus sonhos? Beatrice acalmou, para seu desespero.

— Não, não! Não ouse fazer isso comigo, Bia!

Pressionou a jugular, o coração estava fraco, quase imperceptível, entretanto ainda batia. A dor intensificou, o sangue corria mais lentamente nas veias, o choque não passou, a realidade caía como uma chuva fria e pesada, despertava. No que sua vida se tornou? O que significava fugir dos Nigba? Aceitar a proposta de Andras significaria abandonar toda a vida a qual conhecia? Diogo? O emprego? Tia Luíza?

O semblante enrugado de Beatrice, desfalecida, assinalava a dor e a agonia, o colar ainda emanava tênue cintilância e cantou uma canção de ninar. Desejava do fundo do coração que sobrevivesse. Não entendia nada de fisiologia para saber se eram ferimentos fatais, porém a incomum coloração azul da derme não dava muita esperança. Será que havia veneno na lâmina? O barulho do motor, os faróis como dois vagalumes, um carro se aproximava e encheu-se de expectativa.

Passou, deixando apenas uma nuvem de fuligem e poeira. E a escuridão reinou, sublime, com os grilos a cantar ao som do farfalhar do matagal e o tempo se arrastou como lesma. O que havia de pensar? O que devia fazer? Ligar para o resgate? Encarou o celular. E outro som, outros faróis entre os morros. Esperou antes de apertar o botão verde para falar com o resgate.

E dessa vez parou. As portas se abriram, reconheceu Andras ao passar diante dos faróis do próprio carro, e o chamou. Não atendeu de pronto, praguejando, o demônio galã examinou os cadáveres de Débora, Lena e do Nephilim. Retirou as lâminas das testas dos dois sem qualquer gentileza, talvez porque retirá-las devia ser como arrancar Excalibur da pedra. Gar soltou um grito agudo. Dor? Desespero? Tomou Beatrice nos braços.

— Oh não, não! — Resvalou o nariz no rosto dela e choramingou. — Aguente, princesa, aguente. — Com passos rápidos em direção ao carro, gritou. — Andras, temos de ir, está muito ferida, muito!

— Prata dos anjos — disse Andras carregando as cimitarras e acocorou-se diante dela. — Como você está?

— Acho que quebrei a clavícula, mas ficarei bem.

— Precisamos levá-la para Elias e Igor, Andras, agora! — Gar soava desesperado.

— Consegue andar? — indagou, enquanto Gar entrava no carro com Beatrice.

— Sim.

— Precisa me dizer o que aconteceu com todos os detalhes.

— Levou Beatrice para os Nigba para que eles a matassem? — questionou ao acompanhá-lo.

Andras surpreendeu-se com a pergunta e se voltou, ao parar.

— De onde tirou essa ideia?

— Deixarei vocês aí se não vierem logo! — gritou Gar, agoniado. — Beatrice está morrendo!

Ao entrar no carro, Ayla gemeu ao enfiar a cabeça entre os bancos. Agarrado ao celular, Gar gotejava do próprio sangue na boca de Beatrice. Quis questionar o que estava fazendo, porém não houve tempo.

— Ele precisa atender Beatrice. Sim, Prata de Anjo. Sim. Preciso saber o que fazer, a pele dela está azul, as veias pretas, estava muito quente, entretanto está começando a esfriar. Mantê-la aquecida? Tem certeza? Sim, estou dando do meu sangue. O helicóptero estará pronto? Estamos indo. Busque saber os motivos dos Nigba, isso já foi longe demais. Sabe que as coisas ficarão feias se Beatrice morrer.

Um espasmo e a pausa, uma curta onda de espasmos e a pausa, outra contração. Gar apertou o celular contra a orelha com o ombro, agarrou-a pelas axilas e a apertou contra si, como se soubesse, pois, sacudiu-se outra vez, violentamente. Abandonou o celular, sem se despedir, a apertando para evitar machucar-se mais com a segunda convulsão.

— O helicóptero esperará por nós. Temos de levá-la para Igor, não temos muito tempo, Andras. Ninguém suportaria dois ferimentos.

Andras a fez contar o ocorrido com todos os detalhes. Os dois escutaram a tudo num silêncio tumular.



Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top