18 - Uma Noite Estranha
Aceitou com satisfação o convite de Andras para acompanhá-los à Mansão Nigba. Embora houvesse apreensão em toda a situação, estava curiosa demais para recusar. Entretanto, sentada à mesa de mogno longa o bastante para não ouvir o que falavam na outra extremidade, a amplitude do lugar e frieza das pessoas criaram distância entre a animação inicial e o estado enfadonho no qual se encontrava.
Foi introduzida a todos os membros presentes apesar de estarem claramente compenetrados em Beatrice, assim lembrava-se de alguns nomes, não todos. Os lustres de cristal delicados como cascatas luminosas suspensos sobre a mesa, cintilavam as mais finas louças. Não que inadequação fosse sentimento raro, todavia havia uma lacuna, algo não se encaixava, e dessa vez, estava certa de que não tinha nada a ver com ela.
A estranheza estava por toda parte, sobretudo no olhar soturno de Beatrice. A atmosfera a influenciou desde que pisaram na Mansão, mantinha um quê de crueldade em seu semblante, o qual apenas desvanecia quando focava Gar, bem trajado e elegante, sentado ao lado dela. Ora Bia cravava Débora. Ora escorria o olhar ao redor, ressabiada. Comportava-se de modo espantoso, fazia uso de taças, agradecia a champanhe, não tocava na comida e não falava palavrões.
Débora não tinha nada de excepcional, o cabelo sobre os ombros sequer mantinha um penteado, os óculos passavam a impressão de intelectual, sem grande atrativo, tão artificial quanto todos os outros. Conversavam e sorriam. E Ayla esperava ouvir as coisas mais espirituosas e profundas, e, no entanto, nada de memorável foi dito. A moça sentia, com certa tonteira, que todos invejavam os que eram admitidos entre os Nigba, e os admitidos invejavam-se porque os outros os invejavam.
Todos ilustres, todos assentados em requintados pedestais, uns mais influentes e outros menos, sem embargo as palavras, onde estavam os sábios dizeres? Os Antigos? Não que não fossem atrativos, todos tinham traços apessoados, jovens, vestidos em trajes sofisticados, perfumados, a Elite do Submundo, afigurava-se nome adequado para intitulá-los. Mas, cheiravam a mofo, se fosse cabível o paradoxo de cheirosos e fedorentos, tinham o aroma de coisa velha e guardada, como se todo o requinte e boa aparência fosse artificial, vazio, raso. A sensação insólita de que nada era o que parecia.
Um falava sobre como um elemental deixou a perna esquerda e escorreu para a direita, outro falava do momento em que recebeu fulano na casa de praia, mulheres contavam estórias sobre festas pomposas, detalhando milhares de itens insignificantes do salão. E os três continuavam em silêncio, bebiam e observavam, como três cadáveres revividos, sem nada a dizer. E Ayla comia, nem sabia o que saboreava, apenas que o prato bonito enchia aos olhos e estava delicioso.
Duas ou três horas depois de puro enfado, Masda os convidou para outro salão. Subiram a escada carpetada e prolongaram pelo corredor comprido, com Débora e outras três pessoas na retaguarda. Poltronas estavam dispostas em semicírculo, contudo designaram a Ayla a única poltrona afastada. Sobre a mesa coberta pela toalha verde-musgo, havia cálices de prata e Débora colocou três cadeiras de madeira entalhada a poucos metros do móvel. Beatrice se sentou entre Gar e Andras.
Outra mulher, a qual Ayla não se recordava do nome, enfileirou vários cálices e os encheu com o líquido de milhares de garrafas diferentes. Masda e os três assistentes conversavam entre eles num idioma desconhecido, e entonaram o canto exótico em uníssono. Em ressonância o colar de Bia emanou certo brilho, sutil e pulsante. As luzes elétricas se apagaram e as velas se acenderam sozinhas por todo o salão. A mulher da qual não se lembrava do nome ofereceu o cálice.
— Eu me chamo Lena. Sei que esqueceu meu nome, todavia não tem problema.
Como sabia? Lia pensamentos? O líquido vermelho assemelhava-se a vinho, no entanto, desconfiada, agitou o cálice espiralando a bebida. Beatrice estava sob hipnose, contemplava o amuleto de Masda, equiparava-se a flor com seis pétalas, o centro de esmeralda, as pétalas de rubi e o contorno puro ouro. Disfarçou, virou-se para o lado, afundou o indicador na poção e colocou na boca. Não, não era vinho, não obstante doce e gostoso. E intimidada pelo olhar firme de Lena, entornou, devolvendo o cálice vazio. Se Gar e Andras estavam esquisitos, não sabia dizer, não os conhecia para saber o que esperar.
— Esteve envolvida em muitas confusões, Beatrice Faure — disse Masda, a voz profunda e grave ribombava contra as paredes e causava coceira nos ouvidos, bem no fundo, nos tímpanos. — Por muito tempo tem perambulado sem tomar conhecimento de sua origem. Intrometendo-se em assuntos os quais não são seus.
— Se está se referindo ao incidente da boate, eu não tenho nada a ver com aquilo. Cassius Maier usava o vampiro como guarda-costas, o lugar parecia um covil de sanguessugas quando os lobos invadiram. Eu só estava no local errado, no momento errado.
— Matou cinco sobrenaturais — insistiu o homem.
— Em defesa própria.
— Envolveu-se com Pietro.
— Transei com ele, entretanto nunca fiz parte do clã, nem sei nada sobre eles.
— Jamais teve permissão de se envolver com Pietro.
— Não me lembro de ter recebido o contrato pra assinar. E os lobos transam com qualquer coisa com pernas.
— Levanta-se, Beatrice Faure e escolha um cálice na mesa, porém não beba dele até segunda ordem.
Beatrice cheirou a maioria dos cálices e Ayla supôs ter feito a escolha pelo aroma. Ao sentar, Masda deu a mesma ordem para Gar. E por que Gar? O que tinha a ver com o incidente da boate? Estava com ela quando o furdunço ocorreu. Para que serviam as poções?
— Troquem os cálices. — Trocaram. — Bebam — ordenou, resoluto.
Andras os observava compenetrado enquanto bebiam. Havia um sorriso discreto no canto da boca do demônio? E Ayla não soube de onde veio o canto, monótono e hipnótico, vibrava no piso laminado, pulsava nas paredes cheias de relevos de casais em diferentes posições sexuais. Beatrice gritou e cambaleou. Debruçou sobre um dos pilares de alabastro que formavam a balaustrada nas laterais do salão. Tossiu como se fosse vomitar e gritou outra vez.
Sangue? O líquido viscoso, vermelho e cintilante escorrendo entre os relevos das paredes era sangue? Beatrice gritou outra vez, apertava a ferida na barriga e a mancha rúbea se alastrava no vestido requintado e claro. Bia sangrava? A ferida feita por Andras não tinha sarado? O sangue escorreu pelas coxas expostas da bruxa barulhenta. Xingou, praguejou e dramática, caiu sobre os joelhos. Gar a contemplava austero, em pé no centro do salão, e repentino, tossiu. Lentamente a tosse tornou-se crise e levou as mãos ao pescoço. Débora tentou tocar Bia e os gritos tornaram-se estridentes, assustadores, inumanos.
— Está me sufocando... — Gar engasgava as palavras. — Ah Bia, assim você me magoa.
Magoa? A bruxa estrondosa estava com hemorragia e o Sorrisinho quem estava magoado? Que gente doida!
O campo eletromagnético se formou ao redor da bruxa hemorrágica, seus gritos se assemelharam a rosnados, guturais, selvagens. Assombrosos! Ayla encheu-se de pavor, quis correr, as poucas estátuas angelicais choravam sangue. E o canto sinistro reverberou outra vez. Os gritos de Beatrice pararam e gargalhou. O riso devastador sobressaía a entoação sombria. O suor frio escorria sob o vestido requintado que Ayla jurou não devolver nunca mais. Bia elevou-se, impetuosa, e cravou Gar. O colar brilhava em vermelho intenso e tentáculos negros com aspecto esfumaçado despontaram da coluna dela e drapejaram ao redor. Santo Deus! Por que evocavam ao poltergeist?
— Você me envenenou, Gar. — Deu alguns passos lentos na direção dele.
— Não, minha princesa, não te dei veneno.
— Reine entre as hierarquias dos anjos caídos e celestiais, ó chefe supremo de todos os demônios. Sim, Supremo entre todos os demônios. Reina supremo no pandemônio. — Beatrice ergueu os braços.
— Merda! — vociferou Andras, atônito.
— Doce anjo da morte, ostenta tua insanidade e perversidade, tua excelente loucura, torna-me forte, seus são todos os lugares de culto e santidade.
Andras saltou da cadeira e se colocou entre Gar e Beatrice. A onda vaporosa alastrou-se assim como os tentáculos da bruxa monstruosa. Ayla sufocava como se o ar tivesse se tornado tóxico, deixou o assento e caminhou para a porta do salão, determinada em abandoná-lo. Girou a maçaneta redonda cor de chumbo, sem sucesso, quis gritar por socorro. Quem a socorreria se seus companheiros estavam envolvidos no show de horrores? Bateu a cabeça contra a madeira, as pontas dos dedos escorreram entre os relevos assim como as lágrimas pelo rosto. Não entendia, porém sofria o sofrimento de Bia. Rasgavam-na, despedaçavam-na e infiltravam-se em cada célula e átomo da bruxa possuída. Por que via e sentia aquilo? Por que atormentavam a bruxa diabólica? Castigo. Castigo. Castigo. Cantavam. Não sabia como sabia, pois o hino reverberava em idioma nunca ouvido.
O que estava acontecendo? O que era aquilo? Bateu as costas contra a porta. Andras estava próximo o bastante de Beatrice a ponto dos narizes se tocarem, falava, mas Ayla não o ouvia, ou não entendia, milhares de vozes rimbombaram em seus tímpanos misturadas no canto sinistro. Gar atrás do amigo, não se movia, contudo, encarava Bia, austero, como se no processo insano todo o carinho que sempre devotava a bruxa desvanecera-se. Frases desconexas como ecos das eras, diálogos aleatórios encarcerados na memória da Terra, milhares e milhares de anos escorreram no som, o tempo ia e voltava ao bel prazer, sem início e nem fim. E os três se alinharam como Orion. A vibração do campo de poder do poltergeist zunia e as velas se apagaram. Beatrice era a única luz do recinto em tons de púrpura e carmesim.
— Venha em sabedoria. Conceda-me o poder de ser obedecida por todas as criaturas, faça meu reino através do teu desejo. Por teu toque nada me é oculto, por teu contato eu conheço. Potência, consciência e prazer são meus poderes plenos. Serpente Tentadora, Divino Adversário. Seja glorificado, eleva-se imponente em teu reinado, livra teu nome de todo pensamento equivocado. Seja em mim, tua filha, tua luz e tua essência.
O estrondo abafado da queda de Beatrice e o silêncio se fez, substancial, palpável, abrupto. Como vácuo. A escuridão cobrindo a terra em terna calmaria, entregue à letargia, o sono a arrastar a consciência e aninhar o corpo cansado. Não havia sangue nas estruturas, nem choravam as estátuas, nem energia vaporosa e tentáculos sinuosos fluindo do corpo de Beatrice. A paz profunda era antinatural. Como se os ouvidos estivessem tapados.
— Ela acessou a essência dela — Gar anunciou ao se curvar sobre a moça desfalecida.
A maçaneta se moveu sozinha em um estalido abafado. A porta se abriu lenta, silenciosa, convidando-a a se retirar. O que Gar queria dizer com aquilo? O que significava Beatrice acessar a essência? O que acabara de presenciar? Estava assustada, confusa, trêmula, e o contato de Andras sobre os ombros a acalmou.
Gar passou por eles, carregando Beatrice desacordada, os acompanharam pela longa ponte carpetada, ladeada por balaustradas de madeira nobre, suspensa sobre os amplos salões do andar inferior. Papéis de parede cafona decoravam o corredor de muitas portas. Defronte da porta escancarada do aposento, o mordomo apontou o recinto e Gar adentrou, deixou Beatrice sobre a cama e escancarou as três portas balcões. Respirou fundo com a lufada fresca a qual eriçou os pelos e a fez tremer.
Acometida por estranha atração, Ayla se aproximou de Gar que se voltou para ela como se pressentisse o toque. Os olhos brilharam, inumanos, um dourado intenso, como o tórrido sol sobre a areia do deserto, e queimou em chamas, o fogo dançava nos lumes bestiais, como animal selvagem, perigoso. E todo o fervor e monstruosidade dissolveu-se na avelã das írises e na beleza parda do homem conhecido. Sacudiu a cabeça, estava impressionada com o ritual, com o que aconteceu com Bia. A ignorou e acendeu velas em todo o quarto.
Sentou-se ao lado de Bia e a afagou, derramando o olhar cheio de ternura e devoção, como galã de filme de romance.
— O que aconteceu, Gar? — perguntou Ayla.
— Não sei.
— Você disse sobre essência. Eu ouvi.
— Sim, eu disse que ela acessou a essência dela.
— E o que quer dizer com isso?
— Quero dizer com essência o nível de consciência divina, o acesso ao sagrado interior.
— E o que invocar, seja lá o que foi que Beatrice invocou, tem a ver com isso?
— Achei que você saberia me dizer isso, é amiga dela há mais tempo que eu.
— Na verdade conheci vocês no mesmo dia.
— Teremos que esperar Bia acordar e torcer para que se lembre. Entrou em êxtase, é possível que não se lembre de nada, ou se lembre de algo aleatório e com significado só para ela. Não dá para saber.
— O que era aquele canto, as bebidas, o sangue nas paredes?
Gar a fitou por um momento, mas permaneceu em silêncio, tornando a devotar a atenção para Beatrice, a acariciando.
— Precisamos deixá-los — informou Andras, gentil.
Desconfiada, não quis deixar o recinto prontamente. Não se importava com a rudeza e nem se Gar a ignorava deliberadamente ou não. Contudo, Beatrice abriu os olhos, arfou, sacudiu a cabeça, situando-se. Dedilhou o rosto de Gar, envolveu seu pescoço e buscou pela boca dele. Ela o estava beijando? Era isso mesmo? Não havia dito que a envenenou?
Andras entrelaçou os dedos nos dela e a puxou para fora do quarto. O mordomo fechou a porta.
Embora tentasse disfarçar, Andras estava aflito. Caminhava pela mansão como se a conhecesse bem, subiram o longo lance de escada amadeirada. Adentraram outro corredor enorme com papéis de parede horrorosos e abriu uma das várias portas. O piso jateado cintilava sob a luminosidade da lareira cercada por poltronas confortáveis e o divã dividia o espaço com o bar.
Cheirou a bebida quando o sedutor a serviu, não sabia o que tomara na outra sala, e mediante a loucura e falta de sentido de tudo o que presenciava, não desejava terminar a noite rosnando, nem invocando poltergeists duvidosos. Andras apertou os lábios contra os dela, forçando-a despertar de um pesadelo apenas para entrar em outro.
— O que aconteceu aqui?
— Está tensa, meu anjo.
— O que é aquele quarto onde Gar levou Bia?
— Templo de devoção.
— Templo de devoção? O que é um templo de devoção?
— Devem terminar o que começaram.
— E o que começaram? Você não parece seguro sobre o que aconteceu.
— Não, não estou. Beatrice é bem mais caótica do que julgamos. Imprevisível até para um grande sábio como Masda.
— Nada disso tem sentido. — Ayla colocou o copo sobre a mesa redonda próxima a poltrona. — Por que me permitiu vir? Por que estamos aqui, Andras?
— Beatrice está aqui porque os Nigba precisavam assegurar que dizia a verdade. Existe uma lista de pessoas as quais é melhor não se envolver. Pietro está nessa lista e por coincidência Beatrice acabou de entrar. E agora espiarão Gar para saber se entra ou não na lista negra. E é isso o que mais me preocupa.
— Gar entrar na lista?
— Sim. Seria péssimo para nós. De toda forma, saber que Faure não estava envolvida no incidente da Sunshine era imprescindível, nenhum humano sobreviveu. Estamos a um passo de uma nova caçada.
— Nova caçada?
— Detetives do sobrenatural foram colocados ao trabalho para nos caçar, atravessamos a linha tênue da tolerância. Por mais que algumas testemunhas foram descreditadas por insanidade, existe um grupo entre os humanos o qual sabe a verdade sobre nós. Os Nigba intermediavam essa fronteira, contudo estamos a um passo do caos.
— Sabia que Bia não tinha nada a ver com aquilo. Nós a encontramos na estrada, perseguida.
— Sim, a encontramos na estrada, todavia não podíamos dizer que sabíamos da verdade.
— E sabemos agora?
— Ainda não. Sabemos que muitos Maier estão mortos, inclusive Cassius, assim como vários vampiros. Pietro era um ômega e ao que tudo indica tornou-se alfa da nova matilha e ninguém sabia disso, nem os Nigba, todavia Faure sabia, sem querer falou que não sabia nada sobre o clã de Pietro. Como ninguém sabia que os Maier e os vampiros estabeleceram um contrato. Uma guerra contra os humanos na bagunça em que nos encontramos não é o melhor a acontecer, não quando famílias bruxas tradicionais, vampiros e lobisomens estão fora de controle. E se Faure tiver algo a ver com isso, nem eu e nem você, Nik ou Gar, estaremos seguros ao lado dela.
— Por que Bia desejaria isso?
— Pelo prazer do caos.
— Está dizendo que...
— Ela pode querer ver o circo pegar fogo.
— E se isso for verdade?
— Teremos de pará-la. Todavia, como é Bastarda, temos de ter certeza de quem é filha. É bem mais delicado do que aparenta.
— E até quando ficaremos aqui na Mansão Nigba?
— Até termos certeza de que Faure pode retornar com a gente.
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