16 - Perigo

Beatrice parecia bem, dormia como uma criança, com a cabeça enfiada no pescoço dele, se sentia segura tal qual bebê aninhado nos braços da mãe. Linda, porque isso era mesmo. Gar acariciou os lábios rosados, afagou o cabelo e beijou a testa dela. Seduzido como jamais deveria. Não, não por ela, não por Beatrice Faure. O coração inchou e sufocou-se. O turbulento redemoinho intensificou-se em seu âmago, e tudo se tornou treva, dúvida, confusão.

O que fez? O que fizeram? Apertou a boca na dela e Beatrice ronronou, manhosa, feminina, fatal. Enrolou o cabelo longo nos dedos e resvalou o polegar nos lábios delicados, pálida, adoentada, frágil. Sorriu para Gar e dedilhou a face dele, preguiçosa, sonolenta. As pálpebras abriam e se fechavam lançando de quando em quando o brilho cinzento dos olhos. As almas amaldiçoadas sussurravam uma para a outra.

Intenso como chama, o desejo o tornou febril e indiferente a debilidade, montou nela. As roupas impediam o contato como ansiava, contudo, roçava o membro rijo. A queria e tinha de saber disso. Que devaneio era aquele? De onde veio a paixão? A impetuosidade do sentimento? Não, não era só desejo. Dele, Beatrice tinha de ser dele. Confuso, rolou para o lado. Andras não gostava de intrusos no quarto negro, não obstante precisava de limpeza como assinalaram as teias de aranha nos cantos altos.

— Gar?

Clamou, suspirante, seu nome, e, impaciente, apoiou-se no peito fazendo-o arfar e afundou a língua morna na boca dele. O que o fez hesitar? Por que contemplá-la? Por que pensar em sua alma? O que pensava? Beijo, apenas beijo, a dança do corpo, nada mais. Não necessitava de confusão, nebulosidade, treva, entorpecimento. Carnal, animal, biológico. Sexo, nada além disso. E sentia, apesar de não saber o quê. E sentir era alheio, não apenas alheio, proibido.

— Minha princesa... — suspirou, irresoluto.

— Por que está tão estranho? — Beatrice afundou-se no travesseiro.

— Não queria te acordar, estava observando para saber como se sente.

— Mentiroso. Queria transar comigo. — O afagou, meiga. — Sempre quero transar com você, Gar, mas, sinto como se tivesse sido atropelada por um trem. Não acho que conseguirei ficar acordada, estou cansada, muito cansada.

— Está segura agora, pode dormir. Cuidaremos de você.

— Minha lista de pessoas de confiança está ficando a cada dia mais curta. — Virou-se para o lado e puxou a coberta.

Deixou o aposento. Perambulou à procura de um criado tal qual alma penada, vazio de si, oco de sentidos, as paredes com seus quadros se arrastavam como borrões, ensimesmado, furioso. Ira, loucura e sedução. Beatrice o envolveu com a magia herdada? Misturaram-se ao esforçar-se para fechar o portal. Estava aborrecido o suficiente para considerar visitar os Maier para espairecer. Comprar outra briga com bruxos por causa de Beatrice? É sério, Gar?

Ah Bia, assim você me magoa, com a quantidade de confusão que você arruma, princesa, logo estarei em conflito com a cidade inteira. Encontrou o criado e ordenou que o servisse. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos no mármore e o queixo nas mãos.

— Como ela está? — Andras sentou-se ao lado e bebericou a champanhe.

— Esgotada. O que é esperado, não tem qualquer controle. A energia liberada foi descomunal, fez dissolver cinco vampiros no ar e se eu não tivesse agido em tempo, teria nos reduzido a pó e nos carregado para o portal. Deviam ter contado para ela, dito sobre o que é. Beatrice é um perigo ambulante.

— Não temos que interferir nisso, Gar. Quanto menos nos expormos, melhor.

— Por que não pegamos logo as armas delas e terminamos com isso?

— Não, ainda não é o momento. Eles se revelarão, e sabermos o que estão tramando é tão importante quanto pegarmos as armas. Faure está atraída por você, até arrisco dizer que gosta, e usará isso ao nosso favor. Conquiste a confiança dela, o amor eterno e corrompido se conseguir, deve protegê-la, Gar, dar a ela o que ninguém mais no mundo é capaz. Até que ele se mostre, porque se revelará cedo ou tarde, e saberemos quem está contra nós entre os nossos.

— Quando ela despertar —

— Não, não se preocupe com o despertar da essência de Faure, temos o contrato, devemos apenas ser cautelosos, muito cautelosos. E todo o resto se ajeitará a contento.

— E Ayla?

— Foi dormir, disse que quer conversar com Beatrice quando acordar.

— E o que tem para mostrar pra ela?

— Nada. Mas, precisava convencê-la a vir comigo. O que não se mostrou uma boa ideia com Faure a causar o caos na cidade. Se estava desconfiada, agora está bem mais.

— E Elias?

— Está exausto após curar vocês dois. E vai cuidar dos assuntos da Ordem para nos deixar livres para agir.



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