10 - Você é Doente como Eu?

Beatrice suspirou, aflita. Em pé ao lado da cama, perdida de si e do tempo, apertava as mãos contra o corpo, beliscava-se e andava de um lado para o outro. Eu, eu, eu... Me, me, me... Meu, meu, meu... Tudo bem. Certo, tinha entendido. Egoísta filha da puta! Precisava de aulas de devoção despropositada. Entrega despretensiosa. Aproximar-se de alguém sem se preocupar com o que a pessoa tem para oferecer.

Deuses, quem era assim nesse mundo de merda? Bel era sonhadora! Maldita idealista! Todo o papo de não tomar lado, não interferir em assuntos particulares e rixas antigas. Receber a todos de braços abertos, prezar a hospitalidade e ser respeitada por seus valores. Filósofa de merda! Hipócrita! Mulher mais linda do mundo! Traidora!

Sobre a mesa de cabeceira branca estavam as cartelas com comprimidos coloridos, frasquinhos plásticos rotulados, a jarra de vidro com água cintilando sutilmente sob a luminosidade cinzenta e natural invadindo o quarto pela janela. Gar cuidava dela. Cuidou dela a noite inteira com suas mãos mornas e a possível habilidade de cura. Ao menos o toque dele afastava a dor... E a tristeza, disso estava certa. O ciciar do galho chato e insistente a provocar arrepios, o longo dedo amadeirado fantasmagórico raspando a superfície transparente da vidraça competindo com o farfalhar da cortina leve e clara. Bel não ligou. Nem mandou mensagem.

Não, Bel não poderia ter chamado os LeBlanc. Não Bel. Não a mulher mais interessante e linda do universo. Contudo, ainda assim a assistia, na tela da imaginação, com os lábios brilhantes, olhos de ônix, a pele aveludada a emanar o perfume da própria noite, falando ao telefone. Informava Kael onde estava. Pior do que isso, a seduziu com beijos deliciosos. A entreteve com afagos para o filho da puta chegar em tempo de pegá-la. A entregou nas mãos do inimigo. A queria morta? Bel desejava isso? Estava magoada a ponto de desejar matá-la?

Por que o amor tinha de ser sempre complicado? Uma desilusão profunda. O descortinar do cenário e o assassino a se curvar sobre o cadáver estirado. Sabe quem morreu, sabe quem matou, e não quer se envolver naquela encrenca. A própria imagem do amor. Crime. A desilusão fazia a cabeça balançar de um lado para o outro, tudo era mais vazio e rígido do que antes. Em momentos assim que mulheres se tornavam freiras e os homens padres.

Bia freira? A imagem a divertiu sobremaneira e riu.

— Acordou de bom humor, minha princesa?

Gar ajoelhou-se defronte e ergueu a roupa dela, apalpou o abdômen, examinando-o com o esmero de médico. Era médico? Não, não. Gato. O tom pardo da pele quente e sedosa, tentadora demais para não ser tocada. Segurou o queixo dele e a cabeça pendeu pesada para trás para contemplá-la. Gato não, deus... e egípcio. Pois, delineou os olhos como eles, prendeu a parte superior do cabelo e o rabo misturava-se à parte solta da nuca. Curvou-se e beijou suavemente os lábios de Gar apesar do desconforto. Sabia como mestre, justo dizer, tanto incitar o desejo como fazê-la lembrar-se da dor dos ossos quebrados flutuando na barriga. E como doía.

— Não, não estou de bom humor. Estou bem chateada para ser honesta.

— Bel? — O chocalhar dos comprimidos no frasco plástico, a água batendo no fundo do copo de cristal e a oferta para o alívio da dor.

— Não é segredo para ninguém, não é? – A pílula mergulhou no estômago.

— Não para mim.

Afagou o rosto formoso ao devolver o copo. Inebriada pela forma intensa e desconfiada com a qual Gar sempre a encarava. Envolvidos no misto de extrema atração e absoluto desdém. O contrato mudo, pois ambos estavam mutualmente curiosos. E não era simples como convidá-lo para beber cerveja e ficarem longas horas falando a respeito do passado. Melhor que nem tivessem um.

A dor física deixada pelos LeBlanc, a dor da alma deixada por Bel, o cinzento pendendo sobre a manhã em pura névoa e o dedo abusado da árvore a arranhar o vidro pela eternidade. Todos apontavam a boca de Gar como destino e alívio. Destacava-se no quarto como se todo o mundo derretesse ao redor e perdesse a importância. E Beatrice pendurou-se no pescoço dele e o beijo tornou a cama desarrumada incrivelmente convidativa.

— Me aqueça e afaste essa dor — sussurrou e apertou o nariz contra o dele.

— Qual dor? — murmurou, beijando-a.

— Todas.

Gostava de estar com ele, e afeiçoar-se a um desconhecido era a pior das loucuras. Pior do que acreditar que Bel nunca a entregaria aos LeBlanc. Entretanto, as peles roçavam, os lábios ávidos produziam burburinhos, o hálito fresco e mentolado... Delícia de beijo! Tesão de homem! Jogou-se na cama, gemeu de dor, entretanto o arrastou consigo.

— Não quero te machucar — Gar sussurrou, manhoso.

— Pode me curar.

— Não, eu não curo. É paliativo. Logo Elias chegará para te curar.

— Por que se importa?

— Eu não me importo. Só quero continuar transando com você.

— Eu sei, sou gostosa pra caralho.

— Muito. Porém, não vamos transar até Elias te consertar. Teve sorte pelas costelas não perfurarem os pulmões. — A ajeitou na cama ao lado dele. — Qual seu interesse por Ayla?

— Ela já se foi?

— Sim. Disse que estava bem e quis ir pra casa. No hospital perguntou qual meu interesse em você.

— Por que Ayla se importa?

— Não sei.

— Se importa com ela também. — Beliscou o queixo dele. — Ela pergunta pra você qual o interesse em mim e você pra mim qual o interesse nela. Estou andando com um bando de interesseiros.

— Não banque a condescendente.

— O quanto você está envolvido com Andras?

Gar riu. Deitado de lado, apoiou a cabeça na mão.

— Somos amigos.

— E o que são?

— Ainda não percebeu, princesa?

— Mestiços?

Concordou com a cabeça.

— Qual tipo?

— Terá de descobrir por si mesma.

— Está mentindo. — O estapeou.

Gar gargalhou e se beijaram.

O quanto ele e Andras estavam envolvidos? Pois, o que queria com Ayla também poderia conseguir com Gar embora soubesse ser mais fácil lidar com a moça por causa da inexperiência. Por isso permitiu Ayla saber ao seu respeito, sobre o pai, Olin e Bel. A maneira encontrada de seduzir a moça, mostrar-se menos ameaçadora, pois estava assustada e desconfiada. E quem não estaria? Se não fosse por Nik para orientá-la, quando tomou conhecimento do Submundo, o que teria sido dela? A transição era difícil para bastardos e por mais que não fosse a Madre Tereza de Calcutá, apresentaria o Submundo a novata. E Ayla devia ser uma ou os demônios não estariam interessados. Entretanto, qual o interesse de Andras?

— Nik feriu a regra. Jamais deveria ter dito a você onde eu estava.

— Não seja premeditada em julgá-lo. Notei a entonação preocupada na voz dele ao falarmos no telefone. E Nik me conhece bem o suficiente para saber que não tinha nenhuma outra razão além de minha atração sexual. Não esperava te encontrar lutando contra os LeBlanc. Tinha planos de beber com você no balcão e falarmos sobre banalidades.

— Tão normal que chega a doer minhas costelas!

Riu e provocador como o diabo, a fez mergulhar no mar morno de seu beijo outra vez. As desgraças sempre começavam com beijos como aquele. Não era um beijo como os milhões nos quais se envolveu ao longo de sua vida de puta barata. Tinha a temperatura certa, o ritmo perfeito, provocava os arrepios adequados, o fervor capaz de umedecer a calcinha, a precisa intensidade de dor nas costelas flutuantes. Gar era mais perigoso do que os LeBlanc e os demônios juntos. Um beduíno lindo, um nômade estonteantemente charmoso retirado do Saara a envolvê-la em sensualidade tórrida. Fatal quanto o deserto. E delicioso. Delicioso...

Estava atraído, despretensioso, como ninguém capaz no mundo? Ou estava interessado em algo? O colar? O quanto estava de conluio com Andras? A única vantagem de Gar era ter Nik como amigo, e ele devia saber disso. Não como Ayla, perdida, confusa e assustada. Não precisava ser gênio para perceber que estava envolvido naquele mundo até os ossos. E não sabia nada sobre ele, exceto que o sexo era bom.




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