Entrevista de Emprego
Continuo calada enquanto os outros candidatos lutam por atenção e por um espaço para falar.
Sinceramente, qual é a necessidade de juntar um monte de candidatos na mesma sala, na mesma hora e tratando do mesmo assunto para escolher apenas um deles para o emprego?
Se pensar bem, não é justo!
Em uma entrevista de emprego as pessoas ficam nervosas. É normal! Todo mundo fica nervoso antes, durante e depois de uma entrevista de emprego...
E isso com relação a uma entrevista normal, de apenas um candidato sentado na frente de apenas um entrevistador.
O que eles esperam que os candidatos sintam ao serem colocados em uma mesma sala sabendo que, de todos eles, só um vai conseguir a vaga de emprego!?
Sei lá... Eu acho que não dá nem para eles avaliarem direito cada candidato dessa forma!
Quando só tem um, o entrevistador pode fazer várias perguntas pessoais, pode prestar atenção na linguagem corporal do candidato e pode ouvir tudo o que ele tem a dizer. Por outro lado, quando coloca todo mundo junto, não tem como fazer essa avaliação!
Um ótimo exemplo é o que está acontecendo neste momento.
Duas pessoas, uma mulher mais velha e um rapaz jovem estão sentados lado a lado e conduzindo a "entrevista". Eu acredito que ele seja um estagiário ou esteja em treinamento, já que ele praticamente não falou nada desde que entramos nesta sala. De qualquer forma, ela já propôs várias atividades para a gente fazer e, adivinhem só, todas foram em grupo!
A gente precisou sentar em grupos para conversar sobre nós. Depois ela pediu que trocássemos de grupos e falássemos sobre as pessoas dos grupos anteriores. Quando isso finalmente acabou, ela passou um pequeno vídeo e pediu que sentássemos novamente em grupo para conversar sobre ele. E agora ela pediu que nós expuséssemos nossas opiniões para todo o grupo.
O problema é que todo mundo quer falar. Todo mundo quer ter a sua vez. Todo mundo quer mostrar que é o melhor dentro desta sala. Todo mundo está falando ao mesmo tempo e a entrevistadora precisa dividir a atenção para que possa ouvir cada um!
E, por mais que saibamos que temos que falar, que esta é a oportunidade que temos de mostrar quem somos e do que somos capazes, nem sempre conseguimos dar conta!
Eu, por exemplo, sou muito envergonhada, muito mesmo! Então eu estou praticamente calada desde que a entrevista começou!
Eu até falei um pouco quando a gente teve que se apresentar, e também quando tive que falar dos concorrentes (ou melhor, candidatos como a entrevistadora insiste em dizer)... Só que eu não falei muito. Principalmente agora que a conversa foi aberta e temos que falar alto para poder ganhar a vez.
Neste momento eu simplesmente não estou falando nada!
Só balanço a cabeça quando concordo com alguma coisa que outra pessoa fala... Mas não sei como falar, não sei como me sobrepor a todo esse falatório dos outros candidatos.
Eu sei que não é a melhor tática, imagino que o rapaz esteja anotando tudo o que a gente diz no caderninho que está nas mãos dele, e, com certeza, ao lado do meu nome vai estar em branco, ou talvez ele escreva "Será que ela muda? Por que ela não fala nada e só balança a cabeça?"
De repente, percebo que as pessoas estão se levantando e fico confusa.
Apesar de eu não falar nada, eu estava prestando atenção a tudo o que era dito, mas quando comecei a refletir sobre esse tipo de entrevista, eu acabei viajando e não ouvi mais nada. Ou seja, eu não faço ideia do porquê todo mundo está levantando.
Penso rápido em como vou descobrir o que a gente deve fazer agora.
Definitivamente falar com a entrevistadora não vai ser nada bom!
Minha única chance é de perguntar para algum candidato, mas para qual deles?
Conforme vou andando atrás de um grupinho para tentar descobrir algo sem precisar perguntar, me deparo com uma mesa de lanche na sala ao lado, onde a maioria dos candidatos já estão se servindo e conversando relaxadamente.
Ainda bem... Foi só uma pausa para o lanche!
Vou comer alguma coisa, ir ao banheiro e, na volta, vou fazer o possível para tentar falar por cima dos outros.
Pelo menos uma vez!
Pego um pedaço do sanduíche de presunto com queijo que estava em uma bandeja e um copo de suco de laranja. Me afasto da mesa para não atrapalhar quem quiser se servir e apoio o copo no beiral de uma janela.
-Oi!
Me viro para ver quem estava falando comigo. Era o rapaz que estava sentado ao lado da entrevistadora.
- Oi!
- Sofia, né?
- Isso.
- Cláudio.
- Prazer! - Respondo educada.
- Prazer também! - Ele olha em volta rapidamente e logo me encara de novo. Ninguém parecia estar prestando atenção em nós.
- Você trabalha há muito tempo aqui? - Pergunto para não deixar que o aquele silêncio estranho reinasse na conversa.
- Na verdade a gente não trabalha aqui. Nós somos de uma empresa de RH que foi contratada para fazer esse processo seletivo.
- Ah, sim!
- Mas, de qualquer forma, eu também não trabalho nessa empresa de RH há muito tempo. Ainda não tenho um ano.
- Entendi!
- E você, em busca do primeiro emprego?
- Sim! Eu já dei aula em outros cursos de inglês durante a faculdade, mas sempre fui Instrutora. Essa é a primeira vez que eu participo de um processo seletivo para Professora.
- Legal!
- É!
- E o que você tá achando?
- Ah, legal... - Respondo sem muito convicção.
- Só legal?
- É...
- Você não parece muito empolgada... - Ele comenta e nota a minha tensão na mesma hora. - Quero dizer, eu juro que não estou aqui como parte do processo! Agora é um momento de relaxamento e ninguém está sendo avaliado agora, juro!
- Tudo bem. - Finjo não me importar, mas volto a respirar aliviada.
- Perguntei só pra saber como você está... Percebi que você anda bem calada.
- É que eu não me sinto muito bem com esse tipo de processo seletivo, sabe?
- Por que não?
- Por que é estranho demais!
- Como assim, estranho? - Ele pergunta sorrindo.
- Ah, juntar todo mundo na mesma hora é bem intimidador.
- Isso te afeta tanto assim?
- Bastante... Por exemplo, eu tenho várias opiniões sobre diversos pontos que foram levantados naquele vídeo, mas eu não consigo simplesmente passar por cima dos outros para falar!
- Mas você não precisa falar por cima dos outros! Você fala na sua vez.
- Aí é que tá! Quando é a minha vez?
- Na hora que alguém estiver em silêncio e você começar a expor a sua opinião.
- Não seria mais fácil se eu tivesse um tempo só para mim e pudesse falar sozinha, sem ter um monte de gente julgando cada palavra que sai da minha boca?
- Não quero te deixar mais nervosa, mas não tem ninguém dentro daquela sala que esteja te julgando mais do que a Monique.
- Bem, nisso você tem razão!
- Olha, eu sei que eu não deveria estar fazendo isso... Quando a gente é contratado para fazer um processo seletivo a gente tem que fazer o nosso trabalho e ponto final... Não é para ter preferência por nenhum candidato! Mas eu tô vendo que você precisa de um empurrãozinho para mostrar do que você realmente é capaz. Não gostaria de ver você ser eliminada só porque não achou uma brecha para falar...
- Então eu realmente preciso falar, né?
- Claro que sim! Se não importasse, não teria esse processo seletivo!
- Eu sei! É só que eu estou tentando uma vaga para ser Professora de Inglês em um curso de inglês! Acho que o mais importante é o quanto de inglês eu sei!
- Com certeza! Só que o quanto de inglês você sabe já foi avaliado. A primeira parte do processo foi uma prova de inglês, não foi?
- Foi.
- Então... Só está aqui quem foi bem naquela prova e quem tem a qualidade de inglês que o curso exige que tenha para ser um Professor. Só que além de saber inglês, também tem outras qualidades que o curso espera que os seus funcionários tenham.
- Acho que eu já entendi... E essas qualidades são justamente o que vocês estão buscando neste processo seletivo de hoje?
- Exatamente!
- Eu vou tentar falar alguma coisa...
- Fala! Se você tentar falar, você vai acabar com o mesmo resultado que teve até agora... Simplesmente não vai encontrar nenhuma brecha. Você precisa falar. Só isso!
- Só isso?!
- Só isso.
- Obrigada! - Eu agradeço e ele apenas dá de ombros.
- Boa sorte, Sofia.
- Obrigada! - Respondo baixo, mas ele já virou de costas para mim e entrou na sala para a qual eu também vou entrar a qualquer momento.
Eu ainda tenho uma chance, e se eu realmente quero ser professora de inglês e passar nesta entrevista, eu tenho que falar!
Ando confiante novamente para perto da mesa para servir mais suco de laranja. Eu estou prestes a falar bastante, então preciso ficar hidratada.
Ah, como eu estava com saudade de escrever esses recadinhos para vocês ao final de um capítulo!
O que vocês acharam desse conto?!
Quem gostaria que "Claúdios" existissem para nos dar aquele "empurrãozinho" que falta quando estamos passando por uma crise na nossa vida?
E sobre a entrevista de emprego, já passaram por alguma situação parecida como essa?
Comentaram bastante e deixaram a sua estrelinha aqui, né?!
Até o próximo conto!
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