Capítulo três

Capítulo Três: Reencontros

Por Fernanda

A ansiedade tomava conta de mim enquanto desembarcava e minhas mãos estavam geladas, nervosismo puro e simples, quando cheguei à porta do túnel, aquela passarela que fica entre a área de pouso e a área interna do aeroporto. Paralisei como se minhas pernas tivessem parado de me obedecer e uma das comissárias de bordo chegou perto de mim, perguntando se eu estava bem, apenas fiz que sim com a cabeça, agradeci, respirei fundo e me forcei a continuar andando.

A primeira pessoa que eu vi assim que entrei no terminal de desembarque, foi a minha mãe, dona Estela, quando ela me viu, uma lágrima solitária rolou pela sua face e não me aguentei, larguei minha bagagem de mão e corri até ela, abracei-a tão forte que parecia que iria sufocá-la. Eu a amo muito, e mesmo que tenhamos nos visto pela última vez há pouco mais de oito messes, parecia que fazia muito mais tempo.

― Minha nossa, como você está linda, filha. ― Todas as vezes em que nos víamos, ela falava a mesma coisa.

― Você que está linda, o Tales está te fazendo muito bem. ― Deu um meio sorriso, minha mãe é realmente muito linda com seus 50 anos, é alta, não muito magra e tem uma pele clara, porém bronzeada, os cabelos agora curtos estão ondulados e cortados no comprimento da nuca. Herdei muita coisa dela, mas o principal foram os olhos, verde-azulados enormes e lindos, agradecia a Deus todos os dias por essa genética maravilhosa. Tales e ela estavam juntos há quase três anos, eles se conheceram em uma exposição que minha mãe tinha ido de uma grande amiga fotógrafa, a galeria onde foi realizada a exposição era dele, e ela disse para mim que foi paixão à primeira vista ― Por falar nisso, onde ele está?

― Meu bem, ele infelizmente não pôde vir, teve que ir até o Rio, mas essa semana vamos marcar para almoçarmos todos juntos.

― Será que posso dar um abraço na minha filha ou você vai continuar monopolizando ela, Estela? ― Ouvi a voz do meu pai reclamando, ele era ciumento assim mesmo, sempre foi.

― Deixa de drama Theo, você não muda? Minha nossa! ― minha mãe falou, dando uma piscadela na minha direção, e eu comecei a rir.

Me desvencilhei do primeiro abraço e me joguei em cima dele, segurando-o pelo pescoço e dando um abraço bem apertado. Entreabri os olhos e vi as outras pessoas que vieram me receber, Júlia, minha irmã mais nova de quase onze anos, estava ao lado da mãe, Denise. Segurando sua outra mão, nosso irmão Bento, minhas primas Lay e Mel estavam juntas com a Laís do lado oposto e meus tios Adriele e Quim estavam com elas, até o Alam tinha vindo. Ainda abraçada ao meu pai, abri um sorriso largo, como o do gato risonho da Alice No País Das Maravilhas, para cada um deles, eu não os via há muito tempo. Afastei-me do meu pai, lhe dando um último beijo, e quando dei por mim, a Ju veio correndo na minha direção e se jogou nos meus braços. Apesar da distância, éramos muito próximas, mesmo eu tendo estado distante nos dois primeiros anos de sua vida, por causa dos problemas pelos quais passei e por ter me mudado para São Paulo na mesma época, a primeira vez que eu a vi de verdade, sem que fosse por fotos ou vídeos, ela tinha quase três anos e foi amor à primeira vista. Abracei-a bem forte.

― Ai Nanda, você ta me esmagando ― disse risonha.

― É que eu estava morrendo de saudade de você, pequena. ― Ainda fiquei agarrada a ela por alguns segundos e dei um beijo estalado na sua bochecha. ― Lembra aquele livro que você tava querendo, o de fotografias da Holanda? Eu o trouxe, só que está na mala, assim que eu organizar tudo, vou levar pra você, tudo bem? ― Ela me deu outro abraço, agradecendo-me e ficando do meu lado, sabia que ela não sairia de lá. Enquanto meu pai pegava minha bagagem de mão que eu tinha deixado cair, a Ju pegou na minha mão e me guiou até onde os outros estavam.

As minhas três "almas irmãs" me deram um abraço quádruplo, Lay, Mel e Laís, minhas primas estavam com lágrimas nos olhos, pois sempre foram manteigas derretidas, e estavam lindas como sempre. A Mel estava com aquele jeitinho de menina levada, mas ao mesmo tempo doce, com o mesmo rostinho de boneca, inclusive a chamávamos de bonequinha quando criança, dos primos era a mais nova e, consequentemente, a mais mimada por todos. Hoje, aos 24 anos, perdeu o posto de mais nova para a Ju, o que a faz imensamente feliz, e tinha se tornado uma bela mulher. Laís e eu tínhamos a mesma idade, mas sempre a defini como simplesmente linda, uma morena tipicamente brasileira de traços marcantes, entre nós quatro sempre a considerei a mais centrada, não por ela ser psicoterapeuta e sim, por ela ser mais razão que emoção desde a adolescência, essa era sua essência.

Já a Layanara era seu oposto, era mais emoção que razão, seu aniversario de 26 anos tinha sido há dois messes e infelizmente eu não consegui vir, a pessoa mais leal com a família, amigos e consigo mesma que eu já conheci. Filha de mãe branca e pai negro, eu só a definia como sendo um mulherão e morria de inveja dos seus cachos, mas era uma inveja boa. Senti muita falta de tê-las sempre por perto e combinamos de conversar melhor depois, só as quatro. O Alam foi o próximo, o Be veio logo depois, me deu um abraço de urso e ficamos uns quarenta segundos agarrados, eu senti muita falta dele e da irmandade entre nós dois, dei um último beijo no meu irmão e fui direto para os braços dos meus tios, sendo abraçada pelos dois. Nos separamos e em seguida me entrelacei à minha boadrasta, Denise e meu pai se casaram dois anos depois do divórcio e não era um mar de rosas no início, mas conquistamos uma a outra com o tempo.

― Parece que faz séculos que eu não vejo vocês, estava morrendo de saudades. ― Enquanto eu falava, íamos todos caminhando em direção ao check-in.

― Não faz séculos prima, mas faz anos com toda certeza, porém, o que importa é que você está aqui e não vai mais inventar de ir embora. ― A Lay falava de um jeito que era até engraçado.

― Como foi o voo? ― Melissa perguntou.

― Um tédio, detesto ficar horas sem fazer nada. Sem falar que eu estava tão ansiosa pra ver vocês, que a impressão que dava era de que o tempo não passava, foi um saco. ― Quando terminei de falar, meu pai colocou o braço em volta do meu ombro.

― Agora você está em casa. ― Eu o amava, apesar dos problemas e desentendimentos que tivemos. Ele e minha mãe eram muito importantes para mim.

O nosso grupo se dividiu em três carros para chegarmos até a casa do meu pai. Eu, a Laís e a Mel fomos com minha mãe e o Bento; Lay e Alam foram com meus tios e meu pai; a Denise e a Ju foram em outro. Minha comemoração de boas vindas foi um almoço delicioso com tudo o que eu mais amo feito pela Silvia. Ela ajudava lá em casa desde que eu era criança e quando a vi, dei um abraço bem forte nela, que me trouxe muitas lembranças boas de um tempo que não iria mais voltar. Foi bem divertida aquela bagunça, estavam todos animados e falando ao mesmo tempo. Os Avilar sempre foram assim, mesmo que a família esteja um pouco diferente hoje. Mas eu já sabia de os meus tios e o Rafael não viriam, era como se tivesse um vazio na mesa e não sei se só eu percebi, porém, ele estava lá.

Depois do almoço me despedi de todos e fui com a Lay, a Mel e o Bento para o apartamento, prometendo para minha mãe que logo marcaríamos um almoço com ela e o Tales, e ao meu pai e a Ju que logo eu viria tomar banho de piscina. Durante todo o caminho foi uma falação só, e é uma pena que o Alam teve que voltar para o escritório. Ele agora era o engenheiro chefe e sócio, juntamente com o Rafa e meu tio Carlos, da construtora CAVA. A Laís também não pôde vir, pois ela tinha um cliente para ser atendido logo depois do almoço, então me entregou as chaves do apartamento, disse que o quarto já estava pronto para me receber e que eu poderia ficar à vontade.

― Eu ainda acho meio estranho você e o Alam estarem morando juntos, quer dizer, quem poderia imaginar que vocês iriam se casar? Brigavam tanto e agora estão quase casados. ― A Mel nunca entendia a cabeça das pessoas e questionava tudo, mas sempre foi assim desde criança, uma verdadeira pentelha. A Lay me olhou pelo retrovisor e revirou os olhos, ela e o Alam estavam morando juntos há alguns meses.

― Nós não estamos casados Mel, morar junto não é casamento, pelo menos na minha concepção, mas como sua cabeça funciona de uma forma diferente, vai saber. ― Ela estava segurando o riso.

― Claro que é Lay, vai dividir seus dias, as contas, os problemas e frustrações, quer estar mais casada do que isso? Você só não quer admitir porque morre de medo de compromisso, assim como ele, nunca vi duas pessoas mais parecidas. ― De certo modo, ela estava certa. Mel fez uma pausa antes de continuar: ― Tudo bem, o que importa é que vocês se amam. E então, Nanda, e aquele advogado gato que você tava pegando, como andam as coisas? ― Nossa, como ela mudava rápido de assunto! E teve que focar o novo assunto logo em mim, fala sério!

― Não anda. ― Eu estava no banco do carona. Ela enfiou a cara entre o Be, que estava dirigindo, e eu.

― De que cara vocês estão falando? ― o Be perguntou.

― Mas, por quê? Ele era um fofo e vocês pareciam se dar tão bem... ― Como ela podia classificá-lo de fofo? Só o tinha visto uma vez, quando foi a São Paulo há um ano ajudar uma amiga em seu casamento, já que era organizadora de eventos. Continuou como se o Bento não tivesse perguntado nada.

― Simplesmente não deu Mel, ele esperava muito de mim e esperava coisas que eu não poderia dar a ele mesmo se eu quisesse ― respondi e olhei para ela. ― Além do mais, eu estava vindo para casa. Meus relacionamentos não dão certo nem quando eu moro na mesma cidade em que a pessoa, imagina se daria certo morando em estados diferentes? Acho que não, foi melhor assim. ― Olhei pelo retrovisor e a Lay estava me encarando.

Ela sabia que o Ismael estava disposto a vir para Cabo Frio comigo, se eu tivesse aceitado o seu pedido de casamento, mas eu não poderia fazer isso com ele e nem comigo mesma, casar sem amor não era algo que desejasse para minha vida, e nós dois não tínhamos realmente um compromisso, o que compartilhávamos era só físico mesmo. A Laís e a Lay eram as únicas que sabiam, eu amava a Mel e dividi com ela e com as meninas os melhores e piores momentos da minha vida, mas ela era irmã do Rafa e eu sabia o quanto ela amava o irmão. Alguns segredos devem ser guardados e eu jamais a colocaria em uma situação em que tivesse que escolher entre o irmão e eu, não seria justo.

― Nanda, Nanda, FERNANDA. ― Devo ter me perdido em pensamentos de novo, quando me dou conta de que ela estava me chamando. ― Terra para Fernanda. ― Ela sempre teve o mesmo humor do irmão e do tio Carlos.

― Nossa, também não precisa disso tudo ― falei, fingindo ter me incomodado com sua alteração no tom da voz.

― Quem manda ficar viajando na Terra do Nunca? Então, como eu estava dizendo, e eu só digo isso porque você é minha prima e eu te amo, um namorado te faria bem. Afinal de contas, só estudar e trabalhar não é vida. Estava pensando que podíamos sair para algum lugar qualquer dia, quando você estiver de folga ― ela dizia enquanto voltava para seu lugar no banco traseiro.

― Tenho que concordar com a Mel, sair e se divertir uma pouco vai te fazer bem. Agora, com relação ao carinha de São Paulo, não tenho muita coisa pra dizer, só o vi uma vez pelo computador e, tipo, só deu para notar que ele era gato.

― Quem é esse cara, Nanda? ― o Bento perguntou pela segunda vez, mais por curiosidade do que por ciúmes.

― Nossa, obrigada meninas, quantas perguntas e opiniões! Primeiro, eu saio, só não com tanta frequência, com relação ao Ismael... Esse é o nome dele, Ismael, é apenas uma pessoa com quem eu saí por um tempo. Agora, podem parar, vocês estão cheios de opiniões sobre minha vida e isso está me dando nos nervos ― falei meio séria para ver se o assunto morria, porém, acho que não deu muito certo.

― Eu só falei porque, depois que você e o Rafa romperam, nunca mais você namorou sério de novo, e eu acho que um namorado te faria bem. Olha pra você! É linda, tem uma carreira promissora e é super independente ― ela falava e falava. Olhei novamente para o retrovisor e encarei a Lay, até que percebi meu irmão tencionando o maxilar, sei que a Mel não fez por mal, ou fez? Mas devia ter evitado citar o nome do Rafa.

― Chega Mel, você adora dar uma de casamenteira. Além do que, a Nanda tem coisas mais importantes em mente agora, como, por exemplo, sua carreira, já que ela vai trabalhar em um hospital que é referência. E então, está animada? ― Depois que a Lay me tirou da enrascada de ter que responder a Mel, o assunto mudou e falamos apenas do meu novo trabalho.

― O Dias Campos é pioneiro em novas técnicas médicas, é um hospital modelo, por isso está no programa de residência. Realmente estou muito ansiosa para começar. ― Se desse, estaria dando pulinhos no carro.

― Quando vai começar como residente? ― o Bento voltou a falar depois que os assuntos namoro e Rafael morreram.

― Na quarta, me deram cinco dias para eu poder me organizar, o que vai ser ótimo, já que eu tenho um milhão de coisas para deixar em ordem. ― A conversa seguiu normalmente durante o resto do caminho e os temas anteriores foram esquecidos, graças a Deus.

Chegamos ao apartamento e o Be ajudou com minha pequena mudança, que se resumia em quatro malas enormes e duas caixas maiores ainda.

― Eu tenho que voltar para o escritório, senão ficava pra ajudar.

― Já ajudou muito.

― É bom ter você de volta, mana. ― Dei um último beijo nele e o levei até o carro. Quando voltei, as meninas já estavam abrindo as caixas.

― É uma pena que a Laís tenha cliente marcado, não sei como ela consegue ficar escutando problemas dos outros o dia todo. ― Sentia falta dessa ironia da Mel, ela sempre tinha sido espontânea e falava o que pensava.

― Posso responder essa pergunta? Ela adora a profissão, Mel, gosta de ajudar as pessoas. Ela sempre foi assim, desde a escola, da mesma forma que você adora organizar e promover festas. A Laís tentou colocar um pouco de juízo na sua cabeça, mas acho que não deu muito certo ― falei com gracejo.

― Você chegou há menos de seis horas e já está me recriminando, bela prima você é.

― Sabe o que é, priminha do meu coração? ― falei com sarcasmo e ar de riso. ― É que eu não quero perder o hábito de te provocar. ― Dei um beijo bem estalado nela, que tentou ficar séria, mas não conseguiu e começou a rir, a Lay tentou segurar também, mas não conseguiu e nós três começamos a rir sem saber bem o porquê, apenas gargalhamos. Quando a euforia do momento terminou, elas olharam bem para mim.

― É muito bom te ter aqui, não era o mesmo sem você, com sua ausência éramos só as duas Penélopes, e não as três. ― Quando tínhamos dez para doze anos, os meninos nos chamavam de as três Penélopes, e acabou pegando, eles diziam que era porque éramos delicadas e adorávamos rosa. Usávamos pulseiras da amizade nessa época e eram cor de rosa, três tonalidades diferentes da cor, e eu ainda tinha aquela pulseira, estranho como o tempo passa. Não conhecíamos a Laís naquela época, quando a conhecemos, ela perguntou o porquê de eles nos chamarem assim e depois que explicamos, ela disse que queria ser uma Penélope também, então a Lay perguntou se ela podia ser uma Penélope honorária. ― Sei que é bobagem. ― Baixou a cabeça sorrindo. Lay ficou apenas escutando, a separação mexeu com ela, e foi com quem dividi parte da carga.

― Não é bobagem, nossa infância e amizade nunca vão ser bobagens, Mel. Eu também senti saudades, mas você entende porque eu fui, não é? ― Quando resolvi usar minha vaga na USP para ir embora de Cabo Frio, ela ficou sem falar comigo por um mês, o que para nós era uma eternidade. Ela tinha acabado de fazer catorze anos na época, e achei melhor não contar muita coisa, pois seria injusto, às vezes ser a vilã tem suas vantagens.

― Eu entendo, sempre entendi, só não queria dar o braço a torcer, porque fiquei realmente puta com você.

― No fim tudo deu certo e nós três, quer dizer, nós quatro estamos juntas outra vez, e vamos parar de falar no passado que eu fico me sentindo uma velha, ok?! ― Lay sempre deixava as coisas mais leves, era um dom natural herdado do meu tio Quim.

― Está certa, me ajudem a desfazer essas coisas, tentei resumir minha estadia de dez anos em São Paulo nessas duas caixas enormes, mas ainda tem muita coisa, de boa parte tive que me livrar, porque não tinha a menor condição de trazer tudo, trouxe só o que realmente era importante e minhas roupas. Temos que levar tudo para o quarto antes que a La chegue, veja essa bagunça e pire, já que ela é louca por organização.

― Espera um minuto, tá me dizendo que mais de dez anos em São Paulo se resumem a essas duas caixas? Sério isso? ― Lay fez cara de "você só pode estar de brincadeira, né?!" ― Cadê o resto das suas coisas? ― Fez cara de incrédula.

― Uma parte vendi, outras doei, quero começar essa etapa da minha vida como se fosse uma tela em branco, vai ser divertido e talvez um pouco complicado, mas eu vou tentar, afinal, a palavra impossível saiu do meu vocabulário há muitos anos. Venham, vão ficar aí ou vão me ajudar? ― Elas levantaram e começamos a carregar minhas coisas para o quarto, ou, melhor dizendo, arrastar, já que era isso o que nós três estávamos fazendo.

Por Rafael

Como sempre o dia hoje foi uma loucura, já que o Alam estava verificando as construções em andamento, sua tarefa, assim como tomar conta de uma parte da administração. Ele é o engenheiro chefe da empresa e eu ficava com a parte divertida, a criação, era o diretor do setor de arquitetura e do financeiro, mas quando ele tinha que realizar as vistorias, todo o trabalho burocrático e os projetos que ainda estavam no papel ficavam sob minha responsabilidade, eu que tinha que coordenar e estruturar tudo, dar o aval. Resumindo, quando ele está realizando o trabalho externo, quem acaba ficando na merda sou eu, mesmo que minha equipe de trabalho seja muito talentosa e competente. A Michele finalmente encontrou o esboço do bistrô, fez as melhorias que o cliente solicitou e na reunião de hoje o Sr. Laerte finalmente se agradou e fechou o contrato com a gente, ela podia viver com a cabeça no mundo da lua, mas a menina era uma arquiteta de talento, muito boa no que fazia.

Ainda estava mergulhado nos papéis, me concentrando em um novo projeto que eu estava elaborando para um possível futuro cliente, um empresário de visão que tinha escolhido três construtoras no estado para elaborar um conjunto habitacional que fosse 90% autossustentável, a CAVA foi uma das contempladas. O Alam e eu estávamos empenhados ao máximo para ganhar esse contrato, não só pela credibilidade que um projeto dessa magnitude renderia para o escritório, mas também pelo projeto em si, porém, como ele teve que tirar essa semana para realizar as vistorias, tivemos que dar uma estacionada. Ouço apenas o abrir da porta, será que ninguém mais bate antes de entrar? Minha sala parecia mais a casa da mãe Joana, mas quando olho para cima, vejo que era apenas o Alam.

― Parece cansado. ― Ele me encarou com um semblante de "eu não estou muito para brincadeiras hoje, então pode parar".

― Por que será? Passei essa semana inteira de obra em obra, é serio, Rafa, temos que contratar mais um engenheiro, apenas eu e o Jonas não estamos dando conta, o trabalho só aumenta, fora o que fica acumulado aqui no escritório.

― Eu sei, já providenciei isso, coloquei um anúncio no jornal para duas vagas, uma de estágio e uma para engenheiro, na próxima semana a gerente do RH e eu vamos começar com as entrevistas ― digo, suspirando, andava muito cansado mesmo. ― Por que demorou tanto? Pensei que sua última vistoria seria às 10h30min, e que voltaria logo em seguida para darmos uma adiantada no novo projeto ― tentou mudar de assunto dando uma de desentendido. Ele devia ter dado uma escapulida com a Lay, típico dos dois. ― Tudo bem se você deu uma fugida hoje com minha prima. Se não quer contar, não me importo, é até melhor, pois me nego a saber os detalhes, ia ser estranho demais considerando que ela é minha prima.

― Não fui dar uma rapidinha com a Lay, seu idiota.

― Sei ― disse irônico.

― Como assim, sei? Pode retirar esse tom de ironia, e se eu tivesse ido, não seria da sua conta. ― Ele era muito fácil de tirar do sério, como a Lay aguentava ele, era um mistério para mim. ― Mas, só para matar sua curiosidade, fui até o aeroporto. A Nanda chegou hoje ao meio dia e por isso não vim direto pra cá, o Theo e a Denise fizeram um almoço de boas vindas e sua prima me carregou até lá, satisfeito? ― Ela tinha chegado. Mas, já? Quando minha irmã disse que a Fernanda chegaria na sexta, pensei que seria à noite e não pela manhã.

― Então ela já está na casa da Estela? ― perguntei com um tom de quem não quer nada, mas o Alam me conhecia há anos e bem demais para se deixar enganar.

― Não Rafa, ela não está na casa da Estela, vai ficar com a Laís por enquanto, e se eu fosse você, começaria a mudar essa cara, porque se a sua noiva sequer sonhar que você pretende dar um jeito de ver a Nanda... Meu amigo, eu não vou querer nem estar perto.

― Eu não estou planejando nada Alam, só perguntei por curiosidade, e outra, ela ainda é minha prima ― disse meio na defensiva.

― Fico me perguntando a quem está querendo enganar, porque a mim não é, te conheço há anos Rafa, eu estava lá, lembra? Quando toda aquela merda aconteceu. E sei o quanto você a ama, nunca te vi olhar para a Luiza como costumava olha para a Nanda, nunca te vi abrir mão da metade das coisas que você teve que abrir para fica com ela, por nenhuma outra. Na minha opinião, vocês deveriam conversar, tentar esclarecer o que houve, sei lá, eu não sou muito bom nisso, mas acho que têm muitas coisas que não foram ditas e que estão entre os dois.

― Primeiro, eu não a amo; segundo, não quero sua opinião e você não tem que achar ou deixar de achar nada, seu bastardo; e em terceiro, tudo o que tinha para ser dito ou esclarecido devia ter sido feito quando eu e ela nos encontramos em São Paulo há cinco anos, só que ela, mais uma vez, se negou a assumir os erros e a tentar esclarecer as coisas entre nós, e agora eu estou de casamento marcado com uma mulher linda, inteligente, que me ama e está carregando um filho meu na barriga. ― Tudo que tinha falado era verdade, mas não tinha sentido isso quando as palavras saíram da minha boca.

― Não precisa ficar na defensiva Rafa, a vida é sua, afinal de contas, quando resolver parar de mentir para si mesmo e precisar de um amigo, sabe que pode contar comigo, né? ― Ele se levantou do sofá. ― Vou separar uns contratos e projetos para levar para casa esse fim de semana, quero adiantar alguns ― falo, me levantando. A Lay vai ficar uma fera, mas eu não podia fazer nada.

― Tá sabendo que a Lay vai ficar uma fera quando você chegar em casa carregado de trabalho para o fim de semana, né? ― Me encarou.

― O que eu posso fazer se o gênio do meu sócio não me escutou há quatro meses quando eu disse que iríamos precisar de mais uns três funcionários se aceitássemos a licitação para o projeto das habitações autossustentáveis? Quando ela vier pra cima de mim, vou colocar toda a culpa em cima de você ― disse, piscando o olho direito e saindo porta afora, aquele filho da mãe iria me queimar com a Lay e eu é que iria ter que escutar os sermões dela, já estava até vendo. Senhor, me dê paciência!

Meus pensamentos se dispersaram depois que ele saiu, prometi para mim mesmo que não permitiria que o fato de ela estar aqui me atingisse dessa forma, mas era mais fácil falar do que fazer, tinha consciência que não demoraria muito até nos reencontrarmos, era só uma questão de tempo, nosso relacionamento sempre foi espontâneo, verdadeiro, turbulento e explosivo, ficávamos de chamego e eu sempre roubava beijos dela.

Era apenas uma brincadeira quando começou, depois foi crescendo e me consumindo, os ciúmes começaram, os beijos ficaram mais intensos e quando dei por mim, estava completamente apaixonado, e sabia que ela também estava muito envolvida, só de ela me olhar, eu já sentia, então a pedi em namoro e óbvio que ela disse não. Eu mereci aquele não, era um galinha convicto, nunca fui fiel a nenhuma das minhas namoradas e a Fernanda sabia de todas as minhas traições e escorregadas, ou pelo menos de boa parte delas, só conheci esse conceito de fidelidade quando eu comecei a namorá-la, mas foi preciso eu provar para ela que realmente não a trairia, que se eu ficasse com ela, seria diferente.

Acabei conseguindo depois de um tempo, brigávamos e batíamos de frente, às vezes ela me deixava completamente insano, mas em seguida fazíamos as pazes, ela era ciumenta e eu era controlador, ela era uma CDF e eu era o que se esforçava, ela era a careta e eu era o de boa, eu era a ação e ela a razão, com o tempo amadurecemos um pouco, os ciúmes dela, que era tão presentes, amenizaram um pouco, só que ainda estava lá. Como era possível eu ser capaz de me lembrar de detalhas, de acontecimentos que ocorreram há anos? Eles estavam tão vivos na minha memória, que a impressão era que tinha acontecido ontem e não há mais de dez anos.

Fevereiro de 2003...

A Nanda só podia estar testando a minha paciência, ela chegou a cogitar a possibilidade de que eu teria dado abertura para a Suzana, aquela garota era uma sem noção, tudo bem que não sou o que se possa chamar de modelo de boa conduta, sei que não ajuda muito o fato de eu ter sido um galinha há um tempo, mas, poxa vida, tenho me comportado como um verdadeiro santo nos últimos anos em que estivemos juntos. Aí agora ela me vem com essa de não querer me ver e de não atender minhas ligações, só porque aquela imitação de periguete resolveu ficar deixando mensagens para mim no Orkut e me mandando torpedos sacanas. Que culpa eu tenho se aquela maluca cismou comigo? Eu não encontrei meu pau no lixo para sair enfiando em qualquer lugar e a Nanda deveria confiar mais em mim.

Depois de mais de oito ligações, resolvi ir até a casa da tia Estela, sei que ela estavaa lá hoje porque minha irmã me contou. Peguei as chaves do meu carro e me encaminhei para a casa dela, como moro no centro e ela perto do Canal de Itajuru, em menos de 15 minutos estava estacionando na entrada do condomínio de classe média onde mora com a mãe, cheguei e vi logo que quem estava de plantão era o senhor Zé, todos os porteiros me conheciam.

― Boa noite Zé ― falei sendo cordial. De todos os porteiros, gostava mais dele.

― Boa noite menino Rafael, como o senhor está? ― Ele me chamava assim porque trabalhava aqui há muitos anos e já havia me visto aqui inúmeras vezes desde pequeno. E agora me chamava de "senhor", mesmo eu tendo pedido para não chamar.

― Bem Zé, obrigado. E o senhor, como anda?

― Bem, meu filho, com as dores de sempre. Mas é a idade, sabe como é, um dia ela chega para todos nós.

― É verdade Zé, chega mesmo. Então, a Nanda está em casa? Não consigo falar com ela pelo celular. ― Usei a desculpa mais esfarrapada que veio na minha cabeça.

― Ta sim, ela nem saiu de casa desde que chegou da casa do Sr. Theo, quer que eu interfone?

― Não precisa, vou entrando ― digo, passando pela portinha de sua cabine da guarita. ― Melhoras com suas dores na coluna ― falei, e saí rápido antes que ele resolvesse comunicar que eu estava aqui.

Ela devia estar naquele modelo básico de raiva, mas eu não estava nem aí, de um jeito ou de outro teria que me escutar, nem que a gente brigasse outra vez, era ridículo ela ficar assim comigo, agindo feito criança, e minha paciência já havia se esgotado. Isso iria acabar hoje e não queria nem saber, a casa da tia não ficava tão longe do portão, cheguei em cinco minutos e toquei a campainha, deviam ser umas 20h mais ou menos, mas só sairia daqui com esse assunto resolvido. A porta foi aberta pela tia Estela, que estava com um vestido de casa confortável, minha sogrinha era muito linda e a Nanda se parecia muito com ela, principalmente nos olhos, que eram os mesmo, verdes azulados, eles mudavam de cor de acordo com o ambiente.

― Rafa, o que está fazendo aqui uma hora dessa? Entre, venha. ― Abriu a porta, dando caminho para que eu passasse.

― Oi tia, eu vim falar com a Nanda, ela está? ― Fui direto ao ponto.

― Está sim, na varanda lendo, por quê? O que houve dessa vez? Devia ter imaginado para ela andar calada nos últimos dias... Vocês brigaram?

― Foi apenas um desentendimento, só isso, conhece a sua filha e sabe como ela é, mas vou resolver isso.

― Eu achei essa implicância do Theo e da Marta com relação ao envolvimento de vocês muito exagerada, agora me pergunto se eles não estão certos de ir contra, mesmo que por motivos um pouco arcaicos.

― Eles não estão certos tia, só discutimos, foi apenas um mal-entendido e vim para concertar isso, posso ir até a varanda falar com ela? ― Ela estreitou os olhos e deu um suspiro.

― Esse é o problema meu querido, pelo menos uma vez por mês vocês têm mal-entendidos. Pode ir sim, eu vou estar no estúdio e tem bolo de chocolate na geladeira. Se comportem, está bem?! ― Entre os nossos pais, a tia era a única que era razoável e mais compreensiva, o que não significava que era a favor.

― Obrigado. ― Ela apenas acenou e se dirigiu até seu ateliê. Encaminhei-me até a porta de vidro que se encontrava entreaberta, abri um pouco mais e saí para a varanda iluminada. A Nanda não parecia estar lendo, o livro estava fechado entre suas pernas, com o dedo médio da mão direita ela enrolava um cacho do seu cabelo, sempre fazia isso quando se perdia em seus pensamentos.

― Posso saber por que não atendeu minhas ligações? ― Ela virou-se lentamente e me encarou com um olhar fulminante. ― A Mel não te passou meu recado?

― A Mel me deu seu recado, só que eu não estava com humor para conversar, por isso fui embora, o que está fazendo aqui? Eu não disse que queria um tempo? Qual foi a parte de difícil compreensão para você? ― Quando terminou de falar, virou a cara para o jardim novamente.

― Vai continuar agindo feito criança ou vai me escutar? Senão eu vou embora e terminamos agora mesmo. ― Quando voltou sua atenção novamente para mim, percebi que estava rígida. Ótimo, parece que tinha chamado a atenção dela. ― Então, o que vai ser?

― Agindo feito criança, é isso que você acha? Que meu comportamento é infantil? ― disse com um ar de seriedade. ― Entro no Orkut do meu namorado e encontro um monte de mensagens daquela aprendiz de cascavel esfregando na minha cara que já ficou com você, encontro no celular mensagens cheias de insinuações, e o meu comportamento é infantil? ― Ela começou a alterar um pouco o tom da voz.

― Para começar, eu nunca fiquei com ela, foi apenas um beijo e você e eu não estávamos juntos. Eu não tinha visto aquelas mensagens ridículas postadas por aquela maluca pelo simples fato de que estava em semana de prova, como a senhorita bem sabe, e não tive tempo para nada além de estudar, e seu comportamento está sim, sendo infantil, porque ao invés de conversar comigo, veio gritar e pedir um tempo ― disse com um tom de voz tranquilo, bem distante de como estava me sentindo de verdade, mas continuei: ― E quanto às mensagens no celular, não sei se percebeu, mas as vi pouco antes de você e nem respondi e nem pretendia responder a nenhuma delas. Nanda, quando é que você vai entender que estamos juntos de verdade, que eu te amo e jamais trairia o que temos? ― Ela apenas ficou lá me encarando, talvez absorvendo tudo o que eu disse.

― Mais fácil falar do que fazer, queria ver você no meu lugar. Então realmente a beijou?

― PORRA FERNANDA! De todas as coisas que eu disse, você só escutou isso? ― Quem estava irado agora era eu, falando sério, tudo tem limite. ― Pra mim chega, eu não vou ficar aqui falando com as paredes ― Quando eu estava saindo, ela segurou minha mão.

― Espera, escutei tudo sim, mas como queria que eu reagisse com todas aquelas mensagens? Não é fácil pra mim Rafa, eu sei de tudo e via tudo, ou já se esqueceu? ― Ainda estava de costas para ela. ― Olha, eu sei que não tem culpa se aquela doida de pedra resolveu virar a mira maligna dela pra você, mas, poxa, se põe no meu lugar, e se fosse comigo? ― Fiquei de frente para ela.

― Se fosse ao contrário, eu te escutaria, sabe por quê? Eu confio em você, Leãozinho, independente de qualquer coisa, sei que é mais difícil por eu ter aprontado muito, só que crescemos juntos, e nem que seja apenas um pouco, mas você deve saber como eu sou. Ou estou enganado? ― Dei um olhar incisivo para ela.

― Não, não está, desculpa, me deixei ficar cega pelo que li, não devia ter tido aquela reação. ― Se aproximou de mim e enlaçou meu pescoço. ― Futuramente prometo escutar primeiro e julgar depois ― falou, ficando na ponta do pé e beijando a ponta do meu nariz.

― Sabe que te amo, não é? Leãozinho, te magoar não faz parte da equação a qual te faço feliz, simples assim. ― Dizendo isso, encostei os meus lábios nos dela, suavemente no início, mas logo ficamos perdidos um no outro.

*****************

Despertei das minhas lembranças quando ouvi batidas, e continuaram batendo, então percebi que o som estava vindo do outro lado da porta, acompanhado de uma voz.

― Chefe, a maquete do projeto de reforma que o senhor pediu está pronta, eu achei que ficou com algumas falhas e estava pensando que eu poderia consertar e... ― Sua voz morreu quando abri a porta. A Michele tagarelava mais que a Mel, nossa.

― Onde está a maquete? ― Se abaixou para pegar uma maquete enorme que estava no chão ao seu lado. ― Bem aqui, ficou linda, não é mesmo? Sempre admirei o fato de o senhor preferir trabalhar com maquetes do que só com imagens 3D, assim dá para enxergar o projeto mais amplamente. ― Ela tinha razão, como eu disse, a menina tinha futuro. ― Como estava dizendo, identifiquei alguns problemas, mas posso corrigi-los esse fim de semana sem problema nenhum, se o senhor me permitir, é claro. ― Minha nossa, essa criatura não tem vida não?

― Não será necessário, Michele, eu mesmo o farei, o cliente em questão é um grande amigo e prometi que realizaria as verificações e correções eu mesmo, tire o fim de semana para descansar, está terminando seu TCC ainda, não é? Então aproveita para finalizar. ― Peguei a maquete de seus braços e coloquei na minha mesa de projetos.

― Tem certeza, chefe? Porque eu posso auxiliar se precisar.

― Tenho sim, pode ir, e um bom fim de semana.

― Para você também chefe, até segunda.

A Luiza não iria fica nada feliz por eu estar levando trabalho para casa, mas esse trabalho seria meu bote salva-vidas e tinha que focar em outra coisa, senão iria acabar perdendo minha sanidade mental.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top