Capítulo Dois

Capítulo Dois: Voltando para casa

Julho de 2014

Por Fernanda

Três semanas, esse foi o tempo que demorei preparando tudo para voltar para Cabo Frio. Eu não estava acreditando, eram mais de dez anos longe e sabia que não ia ser nada fácil, pois muitas coisas mudaram nesse tempo. Minha família já não era mais a mesma, em parte por minha culpa e em parte por culpa deles, além disso, tinha o casamento do Rafael. Meu plano inicial era conseguir uma vaga para o Hospital Geral do Rio de Janeiro e ir para casa não estava nos meus planos, mas as coisas não aconteceram como eu queria e agora estava de malas prontas com minha especialização concluída, indo embora de São Paulo. Jade bateu na porta de meu quarto, interrompendo meus devaneios.

― Nanda, você está pronta? O táxi já está lá embaixo. ― Acho que nunca vou estar pronta o suficiente para voltar, não depois de tudo. ― Nanda, o táxi. ― Abri a porta.

― Você me ajuda a descer com as malas? ― Ela abriu um sorriso lindo. Jade e eu dividimos o apartamento desde o terceiro ano da faculdade, no começo não nos dávamos muito bem, mas com o tempo ficamos próximas e hoje a considerava realmente minha amiga.

― Elas estão muito pesadas, o que você colocou aqui dentro? ― Soltei um meio sorriso que eu acho que deve ter saído como uma carreta.

― Sabe, estou feliz e bem mais tranquila por você ter resolvido ir para casa, já estava pensando em como eu ia voltar para Minas e deixar você aqui sozinha. ― Ela tinha passado em um concurso público na área de saúde e iria para casa, suas raízes são de Belo Horizonte, Minas Gerais. ― Agora estou sossegada. ― Nos tornamos amigas mesmo sem ela saber toda a minha história.

― Sério que você estava preocupada em me deixar aqui? Por favor, Jade, eu sou uma mulher adulta e não, uma criança. Mesmo se eu não estivesse indo para Cabo Frio, ficaria muito bem, essa cidade foi meu lar e refúgio por quase dez anos, quando deixei o Rio, e acabei me apaixonando por São Paulo, pela correria e agitação. Não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem, já passei por coisas bem piores e sobrevivi. ― Ela se virou na minha direção.

― Sabe, Nanda, eu realmente não gostava de você ― disse com ar de riso. ― Mas aprendi a gostar e valorizar sua amizade que hoje é muito importante para mim. Moramos sete anos juntas e eu acho que posso dizer algumas coisas antes de nos despedirmos, o táxi pode esperar mais uns minutos. ― Ela colocou a mala que estava carregando no chão e me encarou. ― Sei muito pouco sobre o seu passado, na verdade, eu não sei quase nada, a não ser fragmentos, mas vi suas lágrimas durante esses anos, vi sua tristeza e como sentia saudades da sua família. Quer saber o que eu acho? Acho que o destino resolveu mudar as coisas, já que você não teve essa coragem, a coragem de consertar e colocar as coisas nos seus devidos lugares, nunca é tarde de mais para se fazer o que é certo. ― A forma como ela estava falando aquelas palavras me deixou um pouco incomodada.

― Não acredito em destino, Jade. ― Eu não acreditava em contos de fadas há muito tempo.

― Isso não importa. Como eu estava dizendo, em minha opinião, o fato de você estar indo para um hospital, sendo que sua inscrição no projeto foi para outro, e o fato de ele ser na sua cidade, não é uma coincidência, nada nessa vida é, aproveita essa oportunidade e tenta colocar as coisas no lugar, às vezes na vida nos é dada uma segunda chance, mas nem todos têm esse privilegio, Nanda. Não sei o que aconteceu entre você e o Rafael, e entre vocês e sua família, mas talvez seja hora de concertar isso, eu te admiro, valorizo muito a sua amizade e quero que seja feliz, de todas as pessoas que eu conheço, você é um das que mais merece. ― Quando terminou de falar, me deu um abraço bem forte. ― E eu sei que isso vai acontecer. ― Me soltou e pegou as malas.

― Jade, por que nunca me perguntou o que houve? Por que eu deixei o Rio e vim para São Paulo? ― Ela nunca insistiu em saber, nem mesmo quando encontrei o Rafa por acaso há uns cinco anos, mais ou menos, ele tinha vindo para um congresso de novas técnicas arquitetônicas.

Ficamos juntos por uma noite e quando ele foi embora, chorei por semanas, já estávamos morando juntas há pouco mais de um ano, mas ela só me apoiou e me ajudou com as coisas da faculdade. Nesse período nos aproximamos e em nenhum momento ela insistiu para que eu falasse o que tinha acontecido ou o porquê de ter ficado naquele estado lamentável quando ele foi embora, porém acabei contando em uma das minhas crises de choro que tínhamos tido um relacionamento de anos, falei sobre minha família não ter apoiado e que ele pensava coisas horríveis sobre mim, que eu tinha tomado decisões que magoaram nós dois e que se ele descobrisse o que tinha feito de verdade, jamais me perdoaria por ter mentido. Não contei tudo, pois era complicado demais, às vezes era um peso muito grande para carregar, mas a escolha foi minha, então eu é que tinha de conviver com ela e ninguém mais.

― Porque, naquele momento, você estava precisando de uma amiga e não, de um juiz ou júri, e se não estava preparada para me falar, você devia ter seus motivos. Venha, vamos, seu voo sai daqui a duas horas e temos que correr ― disse, pegando as malas.

― Obrigada por tudo, principalmente pela sua amizade. ― Ela sorriu para mim e foi saindo pela porta, eu saí logo atrás e não sei se ela estava certa ou não nas coisas que disse, porém, de uma coisa eu tinha absoluta certeza, não ia ser fácil.

Tinha falado com a Layanara, nos falávamos toda semana desde que fui embora, ela e a Laís, uma grande amiga minha da adolescência com quem dividi os melhores e piores momentos da minha vida, eram as únicas que sabiam do meu segredo, e foi ela quem me deu a notícia que esperei ouvir desde que ele havia saído da minha vida definitivamente há mais de dez anos. O Rafa iria se casar e o nome dela era Luisa, eles estavam juntos há quase três anos, ficaram noivos em janeiro e o casamento estava marcado para o início de agosto, ou seja, daqui a quatro semanas.

O que restou do meu coração tinha sido arrancado naquele momento. Fiz inúmeras escolhas erradas por imaturidade, ingenuidade, inexperiência ou egoísmo, não sei bem, e naquele momento pouco importava, pois elas já haviam sido feitas e eu não tinha mais como mudar nem o que eu fiz e nem as mentiras que foram inventadas. Esse foi meu pensamento durante todo o trajeto até o aeroporto.

― Obrigada por tudo. ― Dei um abraço bem apertado na Jade. ― Se cuida, tá? E me manda notícias sempre que der, promete?

― Prometo, e você também, mande notícias me contando como andam as coisas, ok? ― Nos abraçamos uma última vez, fui fazer o check-in e ela foi embora.

Meus pais já deviam estar super ansiosos, pois faz quase um ano que eu só falava com eles pelo skype, estava morrendo de saudades deles, da minha irmã Julia, do meu irmão Bento, meus tios Adriele e Quim e dos meus amigos. Estava contando as horas para poder vê-los, depois do amor, a saudade é o sentimento que mais consume as pessoas, e como alguém que sentiu e sente os dois na pele, sei do que estou falando.

Por Rafael

Enquanto a água caía pelo meu corpo, tirando o esgotamento do dia, porque hoje no escritório tinha sido realmente complicado sem o Alam, os meus pensamentos ainda estavam um turbilhão, o que a minha irmã me disse não saía da minha cabeça. Ela iria voltar, definitivamente. Durante os anos em que ela passou em São Paulo, foram poucas as vezes em que veio para casa, e quando evinha, ficava aqui de dois a três dias, não mais do que isso, e nós nunca nos víamos.

Como será que ela estava? Fazia uns cinco anos desde a última vez em que estivemos juntos e pelo que a Melisa disse, ela já sabia sobre o casamento, mas se a Lay não tivesse dito, a Laís ou a Mel fariam as honras, então era só uma questão de tempo. Duas mãos me abraçaram pela cintura, subindo até meu peitoral.

― Tão pensativo... Aconteceu algum problema, meu amor? ― Luisa se encostou em mim e beijou meu pescoço. Eu adorava quando ela fazia isso e se fosse outro dia, teria a atacado aqui mesmo, mas hoje não estava com cabeça e meus pensamento estavam longe. Sabia que não era justo com ela, eu a amava de verdade, só que era muito diferente do que sentia pela Fernanda. Me virei para ficarmos de frente, ela era uma mulher realmente linda, tinha olhos de uma tonalidade de azul lindo, cabelos abaixo dos ombros com mechas loiras e um corpo lindo que já dava sinais da gravidez, mesmo com a barriga ainda plana. Ela olhou para baixo, em direção ao meu pênis, e fez uma cara de decepcionada. ― Está tudo bem, Rafa? O que houve? ― falava enquanto acariciava meu peitoral e barriga.

― Nada, só o Alam que não foi para ao escritório hoje, ele teve que fazer vistoria em algumas obras e a carga ficou toda nas minhas costas, é só o cansaço ― disse, virando ela de costas e começando a massagear seus ombros. ― E você, como foi seu dia? E meu filho, com está aí dentro? ― Acariciei sua barriga e ela começou a rir, tinha cócegas naquela região do corpo. ― Você se comportou? Hein, filho? Fala pro papai. ― Ela ria ainda mais alto.

― Para Rafa, está fazendo cócegas. ― Eu me abaixei, dei um beijo no seu baixo ventre e subi. ― Respondendo sua pergunta, meu dia foi cheio como sempre, o restaurante está uma loucura e seu filho está ótimo, finalmente os enjoos melhoraram com o remédio que o doutor João passou, senão, seria complicado até ficar de pé. ― Ela começou a me ensaboar, dando banho em mim e tentando me animar, sem muito sucesso, os hormônios dela estavam loucos por causa da gravidez e ela ficava querendo sexo o tempo todo.

― É só cansaço, amor, e muito trabalho, apenas isso, prometo que vou te compensar amanhã. ― Beijei seus lábios levemente, pois achei melhor não me aprofundar muito.

― Verdade? Então o fato de estar tão pensativo não tem nada a ver com a Fernanda? ― Ótimo, só o que me faltava. Fiquei me perguntando quem será que tinha contado a ela, mas já tinha uma ideia de quem poderia ter sido. ― Fiquei sabendo que ela está voltando para Cabo Frio, você sabia? ― Foi mais uma afirmação do que uma pergunta em si. A Luisa era uma mulher independente e confiante, só que quando a história era a Fernanda, bom, era complicado. Mentir não era uma opção, então optei por falar uma meia verdade.

― Sim, eu sabia, a Mel me disse. E não, meu cansaço e o fato de estar pensativo não têm nada a ver com ela. ― Luisa fez uma cara de que eu sabia, que me deixou puto. ― Foi a dona Marta que disse a você? Não nega tá, conheço minha mãe bem o bastante e sabemos que a Mel não te contaria. ― A ensaboei e quando terminei, fui me enxaguar e a puxei comigo.

― Você nunca foi de negar fogo e de repente está cansado demais. Ela ainda mexe com você, não é? E foi a sua mãe que me contou sim, ela ouviu a Mel falando com a Adriele. ― Bingo, eu sabia. Encarou-me enquanto tirava o sabonete do corpo.

― A Fernanda e eu tivemos uma história juntos, que teve um fim muito doloroso para nossa família e para nós dois, mas acabou há muito tempo e o fato de ela estar voltando não muda em nada nossas vidas, pode parar com isso, está bem? Eu te amo e vamos nos casar em algumas semanas. Não comentei sobre a volta dela por achar irrelevante, ela faz parte do meu passado, mas você e o nosso filho são meu futuro. ― Ela me abraçou e falou no meu ouvido.

― Me desculpa, agi como criança, mas eu sei o quanto foram importantes um para o outro, acho que foi insegurança. ― Se afastou um pouco. ― Sempre achei que o assunto entre vocês ficou inacabado, sem um fim.

― O que eu e a Fernanda tínhamos, acabou há muito tempo. Éramos imaturos demais e fizemos besteiras demais. ― Beijei sua testa e saí do box, ela saiu logo atrás de mim, nos enxugamos e vestimos roupas confortáveis, o assunto Fernanda tinha morrido por enquanto.

No outro dia, tive uma surpresa inesperada, minha prima Lay veio me chamar para almoçar, ela estava linda como sempre com os cabelos cheios e bem cacheados indo até as costas. Estava com um prendedor lateral, deixando o resto do cabelo solto, negra e de pele achocolatada, de estatura mediana e os olhos castanho-claros, deixando os homens loucos. O Alam e ela namoram há mais de três anos e eles nem falavam em noivado, ela deixa o Alam maluco às vezes, mas é visível como se amam, eles são realmente muito felizes, mesmo com ambos fugindo de compromisso.

― Então, a que devo o prazer dessa visita? ― Estávamos em um restaurante bem charmoso no centro, Empório São Benedito era confortável e a comida era ótima.

― Sem ironias, tá priminho? Por favor, eu vou direto ao ponto e sem dar muitas voltas. ― A Lay era uma das pessoas mais maravilhosas que eu conhecia, dava um boi para não entrar em uma briga, mas se entrasse, dava uma boiada para não sair dela. ― A Nanda volta sexta de São Paulo e eu quero que ela fique permanentemente, então eu agradeceria muito se segurasse sua onda e da sua noiva também, pode ser? ― O garçom chegou para fazer o pedido. Ela falava como se tivesse sido eu o omisso, o errado, o que escondeu segredos, o que cometeu um erro atrás do outro, fiz muita merda sim, mas os meus erros não chegam nem perto dos que ela cometeu. Fizemos nossos pedidos e o garçom saiu.

― Lay, por mim eu não vou chegar nem perto da Fernanda, e para de falar comigo como se eu fosse o único errado, o vilão da história, não fui eu que menti e escondi segredos, foi ela, então pode parar ok? ― Eu também sabia ser curto e grosso. ― Com relação a minha noiva, não se preocupe, ela sabe que não há motivos para temer a volta da Fernanda. ― Fui bem incisivo.

― Sabe o que eu acho mais engraçado? É que você fala com tanta convicção que eu chegaria até a acreditar, se não te conhecesse tão bem. E a Nanda cometeu muitos erros sim, mas como você mesmo disse, você também fez muita merda. ― Nosso almoço e bebidas foram trazidos pelo garçom. Eu sabia que ela estava certa, saber que a Nanda estava vindo morar aqui de vez estava me deixando meio desnorteado.

― Eu nunca disse o contrário, eu sei o que fiz, só que não chega nem perto do que ela fez comigo. ― A Lay sabia de tudo, ela estava presente em cada briga, reconciliação e desentendimento, e às vezes eu tinha a sensação de que ela sabia mais até do que eu.

― Esse é o seu problema Rafa, ficar medindo as culpas, "não, porque a culpa é dela, ela foi à vilã mais do que eu, cometi erros, mas os dela foram maiores" e por aí vai, quando você vai parar de fazer isso? ― Ela imitando minha voz era horrível, porém, de certo modo, ela estava certa, mas eu não assumiria isso. ― Tudo bem, porque vim falar da minha prima, não de você. Por favor, não quero que ela vá embora de novo, sei que não vai ter tanto perigo de se encontrarem, já que o Theo, a Estela, a Marta e o Carlos não estão se falando tanto como antes, mas prevenir é melhor do que remediar, e tenta segurar a onda da dona Marta também, fala com ela, promete? ― Sabia que ela estava realmente preocupada com isso, pois as duas eram como se fossem irmãs e a Lay ficou muito mal quando a Nanda foi embora, a Mel também.

― No que depender de mim, não se preocupe, vou manter distância dela, afinal eu tenho um casamento em poucas semanas, e quanto à minha mãe, vou falar com ela, pode deixar. Agora, por falar em casamento, eu espero que não desista de ser a madrinha só porque a Fernanda está de volta. Eu ficaria muito chateado, afinal de contas, eu também sou seu primo. ― Ela começou a rir e finalmente aquele clima estranho que estava entre nós dois suavizou.

― É claro que ainda serei a madrinha, um dos padrinhos é meu namorado, esqueceu? Eu já falei com a Nanda, por ela tudo bem, eu te amo e não perderia esse momento por nada ― disse, dando outra garfada, o almoço estava delicioso. Quando terminamos, enquanto o garçom foi buscar a conta, não resisti e perguntei.

― Como ela está, Lay? ― Ela olhou para mim e deu um meio sorriso, quando fez isso, desviei o olhar, mas a encarei novamente. ― Ela ainda é minha prima, assim como é sua, e eu me preocupo com ela. ― A Lay não deixou de me observar nem por um minuto.

― Ela está bem, Rafa, linda como sempre, é visível que não é mais aquela menina que foi um dia. A Mel te disse que ela conseguiu uma vaga como residente no Hospital Dias Campos? Ela concorreu inicialmente para o Hospital Geral do Rio de Janeiro, mas lá só eram três vagas e foram rapidamente preenchidas, só que as notas dela foram tão altas que ela conseguiu aqui, mesmo tendo concorrido para outro hospital. ― Ela tinha um tom de orgulho na voz, a amizade delas era muito forte e nunca se abalou, nem na época em que tivemos crises familiares.

― A Mel tinha me falado por alto, mas não entrou em detalhes. Fico muito feliz por ela estar realizando seus sonhos. ― E eles custaram muito caro, pelo menos para mim, mas se ela estava feliz, que bom para ela.

Depois que paguei a conta, a levei até a butique. Ela trabalhava com a minha mãe como consultora de moda e gerente. Eram sete butiques no total e Lay era uma das responsáveis, pois, como estudou moda, minha mãe tratou de contratá-la assim que se formou.

― Não vai entrar? A tia ia adorar te ver ― disse assim que estacionei em frente à galeria onde ficava a matriz das lojas.

― Não, tenho muito trabalho me esperando no escritório.

― Está é chateado, porque ela contou para a Luisa sobre a Nanda. ― Ela era muito parecida com a tia Adriele, super perceptiva e também me conhecia muito bem, deu um meio sorriso, me beijou no rosto e saiu do carro. ― Ei, eu te amo. ― Soltou um beijo e foi embora, arranquei com o carro, pois não queria que dona Marta me visse e começasse a me analisar e a fazer perguntas. A caminho do escritório, coloquei para tocar The Scientist – Coldplay, adorava a banda e essa música era foda, mas eu não pude deixar de pensar nela, nós havíamos cometido muitos erros, eu fiz muita besteira e disse muita coisa, porém ela não ficava atrás e eu sabia que cedo ou tarde iríamos nos encontrar, só esperava que esse encontro não fosse trágico ou mórbido.

Por Fernanda

Fazia apenas quarenta minutos desde que o avião tinha decolado e eu tinha começado a assistir um filme, depois comecei a ler um livro, mas não consegui me concentrar em nenhum dos dois. Comprei uma passagem direta, sem escalas, e daqui a menos de uma hora eu estaria aterrissando no aeroporto de Cabo Frio, já podia sentir o sol queimando minha pele, o cheiro da maresia, o vento no meu rosto... Sentia tanta saudade. Peguei meu Mp4, pois música sempre me ajudava a relaxar, abri minha pasta de favoritos e liguei o play, Leãozinho de Caetano Veloso começou a tocar, adorava essa música e meu sorriso veio quase que automático, trazendo-me lembranças que estavam tão claras e vivas em minhas memórias que pareciam ter acontecido ontem.

Janeiro de 2003...

― Acorda leãozinho, anda, o dia está lindo e nós temos que aproveitar. ― Rafa era um chato às vezes, ele tinha que madrugar na praia só para surfar, fala sério! Além de ser sábado, estávamos de férias, pelo amor de Deus! Pessoas normas iam à praia no sábado depois das sete, mas ainda eram cinco e meia. ― Anda, Nanda, senão a gente vai perder o melhor do dia. ― Queria dizer que ele e os amigos iriam perder as melhores ondas do dia. Ele me infernizou com beijos até eu acordar, então não resisti e soltei um gemido.

― Você só pode estar de sacanagem comigo, sabe que horas são? Por favor, me deixa dormir um pouco mais, está cedo. ― Virei para o outro lado e coloquei o travesseiro no meu rosto, mas ele me descobriu, arrancou o travesseiro e começou a me encher de beijos por toda parte e a fazer cócegas. ― Para, Rafa ― falei gritando, morrendo de rir. Ele sempre fazia isso quando queria me acordar e eu ficava uma fera com ele depois. ― Você é um chato, sabia? Já acordei, está satisfeito? ― Saí da cama batendo o pé, com uma camisola super curta e com o cabelo todo armado, lavei-o ontem à noite antes de ir dormir e todas as vezes em que fazia isso, ficava com ele parecendo uma juba de leão no outro dia. Quando entrei no banheiro, ele começou a cantar.

"Gosto muito de te ver, leãozinho

Caminhando sob o sol

Gosto muito de você, leãozinho

Para desentristecer, leãozinho

O meu coração tão só

Basta eu encontrar você no caminho"

Aquele safado ficava de charme só porque sabia que eu ficava de mau humor quando ele fazia isso comigo, aí cantava todo meloso e sempre funcionava, era instantâneo, uns quinze minutos depois, ele abriu a porta e ficou lá encostado, eu já tinha tomado banho e colocado o biquíni, e estava aplicando protetor solar. E ele cantando, eu adorava essa música.

Quando eu tinha oito anos, Bento, Alam e ele me deram um susto enquanto eu dormia, então saí da cama correndo e com o cabelo parecendo uma juba, quando o momento do susto passou, o meu tio Quim começou a cantar Leaõzinho, os meninos começaram a rir e eu a chorar. O Rafa ficou com pena, me abraçou e pediu desculpas, me chamando de leãozinho, aí ele me chama assim até hoje, e ao invés de eu ficar com raiva da música por causa do episódio traumatizante, eu a adorei e o apelido também. Ele veio até onde eu estava.

― O humor melhorou? ― disse, enquanto me abraçava por trás.

― Um pouco, por que vocês têm que sair tão cedo? Poxa, Rafa, estamos de férias, queria dormir um pouco mais. ― Estávamos passando as férias de verão em Búzios, na casa dos nossos tios. Caio, Alam e Laís vieram também.

― Todo mundo já está lá embaixo tomando café, só faltava você, acha mesmo que em um dia lindo como esse eu ia te deixar aqui dormindo? E nem adianta fazer essa cara, sabe que eu tenho razão ― falou, cheirando e beijando meu pescoço. ― Vamos, o pessoal está esperando ― disse, puxando-me.

*******************

Uma voz me trás para o presente e não sei por que pensei naquele momento em particular, talvez tenha sido a música ou por eu estar voltando, mas não importava, ele iria casar em poucas semanas. Tentamos nos entender antes e não funcionou, ele me acusava de coisas que eu não fiz e que só achava que eu tinha feito, me julgava sem saber pelo que passei sem ele e pelas decisões que acabei tomando, que não foram as melhores, mas foram necessárias.

― Senhorita, senhorita, desculpe, mas é que nós já iremos aterrissar e a senhorita precisa colocar o cinto de segurança ― ela falava em um tom educado e formal.

― Sim, claro, eu que peço desculpas, pois estava distraída. Já chegamos? ― perguntei meio estarrecia. ― Foi rápido, nem percebi. ― A olhei e ela me deu um meio sorriso.

― Isso acontece sempre, é normal perder a noção do tempo quando se está voando, acontece comigo o tempo todo. ― Ela me ajudou a colocar o cinto. ― Espero que tenha aproveitado o voo. ― Deu um meio sorriso e se retirou.

Uma nova página da minha vida começava naquele momento, mesmo que esta página tivesse elementos do meu passado. Eu sabia que tudo poderia ser diferente e estava feliz, mas meio que entorpecida, ou seria triste? Sentimentos contraditórios. É ruim se sentir triste e guardar esses sentimentos só para si mesmo, ao invés de transformar isso em palavras e colocar para fora. Eu simplesmente choro quando isso acontece e posso demorar de minutos a horas me derramando em lágrimas, não sei explicar o porquê e às vezes me sinto assim, é simples, esse sentimento apenas vem e me toma por inteira. Limpei minha face quando uma lágrima solitária caiu.

Chega. Eu não podia mudar o que aconteceu, só podia continuar vivendo. Tinha que organizar tudo nas próximas semanas para ir até o Rio visitá-la, não a via há mais de um ano, devia estar enorme. Assim que me estabelecesse no hospital e encontrasse um apartamento, iria vê-la. Iria ficar no apartamento da Laís por enquanto, ela o dividia com a Lay, que agora estava morando com o Alam, eles namoravam há uns três anos e resolveram morar juntos. Então a Laís estava com um quarto vago e o disponibilizou para mim.

Eu não queria ocupar meu antigo quarto na casa da minha mãe, muito menos ir para a casa do meu pai e da Denise, eu me dava muito bem e amava todos eles, só que depois de tanto tempo sendo independente e dona do meu nariz, não conseguia me ver morando novamente com nenhum deles.

Com certeza a tia Marta já devia estar sabendo que eu estava de volta. Ela e meus pais estavam meio distantes. Depois das brigas e desentendimentos, as coisas ficaram estranhas na família, às reuniões que fazíamos pelo menos uma vez por mês, os almoços e jantares dos fins de semana quase não aconteciam, na verdade eram raros, de acordo com minhas primas, o último tinha sido no aniversário da tia Dri há três meses e eu não pude vir por motivos óbvios.

O Bento e o Rafa, que passaram anos distantes um do outro, voltaram a se falar há pouco tempo, graças à intervenção da Mel e da Lay que não aguentavam mais ver os dois brigados, a tia Dri e o tio Quim tentavam manter-se neutros, e sempre que surgia uma oportunidade, tentavam aproximar a família e o aniversário foi uma dessas tentativas. Mais de uma vez, quando falava ao telefone ou por mensagem com eles, diziam que talvez, se eu estivesse aqui, as coisas normalizassem. Bem, agora eu estava. Escutei a voz da comissária de bordo dando instruções no alto-falante e minutos depois senti o avião aterrissar. É, finalmente em casa.

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