Capítulo 4

" Não viva para sonhar. Sonhe para viver."


  
   É estranho viver toda sua vida em uma casa e de repente ter que mudar para um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas, ter que deixar tudo pra trás; amigos, lembranças, momentos felizes e tristes. A vida é uma mudança constante, na qual temos que estar preparados para todo tipo de eventualidade!

Estamos fadados a não compreender o que a vida nos reserva!

   
   Logo após meu tio me apresentar ligeiramente nossa nova casa, ele pediu para que eu fosse me apresentar, conhecer os vizinhos da casa ao lado, essas coisas... Diferente da minha, a casa ao lado era bem mais humilde.
Era uma vizinhança bonita, muitas árvores e principalmente, muitas flores, deixando tudo ao redor simplesmente fantástico. Sem contar que estava um dia lindo e ensolarado, tornando tudo mais fantástico ainda!

   Fui em direção da casa ao lado, na intenção de me apresentar, dizer que era o novo vizinho e tal...
Parei em frente a porta e bati.
Tinha um pequeno degrau, que dificultou um pouco para que eu pudesse bater com força na porta. Decidi bater e chamar dessa vez.

- Tem alguém aí? - chamei do lado de fora, na tentativa de alguém me escutar e eu finalmente me apresentar, só que pelo visto ninguém ouviu.

   Resolvi bater denovo, e me surpreendi ao ver que a porta simplesmente estava aberta e que abriu sozinha. Só então pude ouvir algumas notas de violão, vindo aparentemente de um dos quartos. Fiquei em dúvida se deveria entrar, já que não fui convidado, mas tinha certeza que se
alguém me ouvisse chamando, me convidaria para entrar. Quando notei já estava lá dentro. Primeiro vinha uma pequena sala, localizada num canto esquerdo da casa. Havia um sofá coberto por uma capa verde com algumas listrinhas  pretas. Logo a frente do sofá havia um centro de vidro com umas flores de plástico dentro de uma jarra, que parecia ser de porcelana. Achei bem bonita, e logo a frente do centro, havia uma televisão normal, daquelas que parecem ter uma caixa no fundo, sobre uma estante de madeira de tom marrom. Tudo isso eu vi enquanto seguia reto no corredor, que ia me levando em direção ao som do violão.

   A porta do quarto de onde estava saindo aquele som, que por acaso parecia ser autoral, já que eu nunca havia ouvido aquilo antes ( detalhe: sou loucamente apaixonado por música e sei tudo a respeito ), estava entreaberta...
Sinceramente eu iria bater na porta, mas daí, de repente, o que só era violão, se tornou voz e violão. Aquela voz unida ao violão era como um eclipse visto à beira de um lago ao lado da pessoa amada! Era simplesmente incrível!
Ao ouví-la cantar, pude tirar a conclusão que era música autoral, que na verdade estava sendo composta naquele mesmo instante!

    Aquela voz me fazia sentir emoções, que somente uma pessoa costumava me fazer sentir. Minha mãe! Quando costumava cantar canções de ninar para mim, quando eu ainda tinha dez anos. E naquele momento pude sentir como se minha mãe tocasse o meu ombro, também admirando a voz daquela garota.
 
  Mas infelizmente fui disperso de meu devaneio de lembranças quando notei que ela havia notado a minha presença ali bem escondinho atrás da porta!

- Quem é você? Oque faz aqui? - disse a garota de voz extraordinária, totalmente assustada com minha presença, por nunca ter me visto na vida.

Ela estava sentada na ponta da cama, ao lado de um criado mudo, com os braços envolvidos ao violão, como se fosse algum tipo de escudo que fosse a proteger de mim, que por acaso só estava lá para me apresentar e até agora não havia conseguido. Quanta confusão! Ela estava vestida com um shorts jeans de cor lilás com pequenas bolinhas amarelas e com uma camiseta totalmente branca, adequada para aquele dia quente. Sua pele totalmente branca, curiosamente ficou muito mais branca quando me viu ali. Seus olhos pareciam ser uma mistura de avelã com mel, não dava para de ver direito, devido a distância entre nóis de uns cinco metros para ser exato. A casa era pequena, mas o quarto dela até que era grande em comparação ao tamanho da casa. Seus lábios eram rosados e levemente carnudos, dando uma harmonia perfeita a seu rosto. Os cabelos eram lisos com pequenas ondulações na pontas, tinha um tom natural, meio castanho, com alguns fios louros. Resumindo: Não bastava ter aquela voz que parecia de um anjo, tinha que ser linda ao extremo!

- Você eu não sei, mas eu vim ver de perto de quem era a voz angelical, que eu ouvi enquanto batia em sua porta pela milésima vez. Ah, já inventaram um negócio chamado campainha, funciona bem. - acabei rindo de minha própria piada. Acho que eu não estava ajudando, ela parecia mais assustada.

- Quem é você, cara? Eu nunca te vi na minha vida. Aliás, quem te deu permissão de entrar assim na minha casa? - ela se levantou cuidadosamente, apontando seu dedo indicador pra mim. Tsc. Até parcia uma arma.

- Calma. Eu sou seu novo vizinho. Meus tios compraram a casa ao lado, e como de costume vim aqui me apresentar. Mas eu chamei, chamei e ninguém me atendeu e eu conseguia ouvir você tocar, então eu deduzi que você não estava ouvindo, então decidi entrar.
Ah, desculpa a falta de educação. Eu me chamo Arthur, Arthur Blanco. - ela finalmente pareceu acreditar que eu não estava ali para fazer mal a ela e sim para me apresentar. Até parece, eu fazendo mal a alguém. Minha última briga foi na terceira série, com o valentão do Fred cara de suvaco e posso dizer que não bati nele por que é meio difícil quando alguém está enfiando sua cara na caixa de areia do parquinho.

- Entendi. Mas você não tinha o direito de ficar aí, escondido, me ouvindo cantar. Como vou saber que não é algum ladrão de músicas ? - eu sorri mais alto que devia. Mas era fofo o modo que ela disfarçava tudo aquilo, que me parecia constrangimento.

- Não sou ladrão de músicas, relaxa. Pode ficar tranquila. - dei um leve sorriso de canto desta vez e rodei um pouco as rodas de minha cadeira, numa tentativa de me aproximar. - eu realmente só queria me apresentar, mas quando ouvi você cantar, confesso que fiquei hipinotizado. Sua voz é muito linda. Você quem escreveu essa canção que estava cantando?

- Tudo bem. Já entendi. Sim, foi eu quem escreveu, na verdade estou escrevendo ou estava...
E... - disse ela prolongando. -Minha voz não é isso o que você disse. Não gosto de falar da minha voz! - desta vez pude realmente ver que ela estava constrangida, mas não consegui decifrar se era culpa de sua timidez ou pelo susto.

- Tudo bem, desculpa, não está mais aqui quem falou. - eu acho que eu já estava parecendo um psicopata com aquele sorriso no rosto desde que ela me viu. - Te atrapalhei, né? Desculpa novamente. Não tive a intenção. - e de repente o silêncio tomou conta daquele lugar. Ela ficou me observando, ali parado. Pode parecer que estou sendo convencido, mas acho que ela gostou do que tanto olhava em mim!

- Acho melhor você ir embora, jajá minha mãe chega e se ela te ver, a coisa vai ficar seria! - fui alertado por ela.

- Tudo bem. Entendo. Foi um prazer conhecê-la. Poderia me acompanhar até a porta? Sinceramente, acho que não tem como recusar.

- Tudo bem. Vamos. - disse ela finalmente largando o violão e ficou esperando que eu desse meia volta com a cadeira, para que ela simplesmente saísse de seu quarto e eu estivesse costas. Não entendi a desconfiança. Será que ela achou que eu iria olhar para a bunda dela?
 
   Logo estávamos do lado de fora e lembrei que ainda não sabia seu nome.

- Okay. Eu me apresentei, disse meu nome e até disse onde moro. - essa piada não foi muito boa, mas até que ela deu um sorriso, que parecia ser sincero. - Será que não vai me dizer seu nome?

- Tá. Me chamo Melanie, mas pode me chamar de Mel. Ah, e eu moro aqui. Agora estamos quites. - ela sorriu, tirando sarro da minha cara. Meu Deus. Que sorriso era aquele? Que perfeição! Ainda não conseguia acreditar que eu ia ser vizinho dessa garota. Com certeza, preciso saber mais sobre ela.

- Mel. Lindo nome. Tão lindo quanto a dona. - logo vi seu rosto corar de tal forma que achei que ela ia sair correndo ou cavar um buraco e enfiar sua cabeça dentro. - bom preciso ir. Só vim aqui para me apresentar, provavelmente mais tarde eu e meus tios passaremos aqui para conhecer sua família. - ela abaixou a cabeça, dando a impressão que falei algo que com certeza não devia ter falado.

- Eu... - ela novamente prolongou a palavra. - Moro só com minha mãe. Meu pai... Meu pai morreu! - Percebi que ela ficou meio triste, e eu, eu engoli em seco as palavras dela, já havia passado por aquela mesma sensação. Confesso que fiquei muito sem graça, jamais imaginei dar uma " Bola fora " dessas.

- Meu Deus. Me desculpa. Não tive a intenção. Eu... Eu... - gaguejei muito!

- Tudo bem. Você não sabia. É... Agora eu preciso ir. Foi um prazer conhecê-lo também. Tchau! - fiquei tão sem reação, que só consegui levantar a mão, acenando tchau para ela, enquanto via ela se distanciando cada vez mais! Até que ela entrou e o barulho da porta batendo me fez perceber o quão idiota fui ao falar aquilo.

(...)

   Já na caminhonete, no caminho de volta para minha quase antiga casa, meu tio resolveu quebrar todo aquele silêncio, que ele devia achar ser por causa daquela camisa antiga do meu pai que caiu da caixa que ele me pediu pra pôr atrás da caminhonete, mas a única coisa que me vinha a cabeça naquele momento era a voz daquela garota. Uma voz doce, delicada, porém poderosa!
Eu acho que eu viajei mesmo nos meus pensamentos, lembrando de cada segundo próximo dela.

- Arthur? Ainda está triste por ter visto a blusa do teu pai?

- Não. Tá tudo bem já.

- É que você ficou tão calado durante quase todo o trajeto, achei que estivesse lembrando do teu pai ou sua mãe... - claro que todas as noites eu pensava nos dois, de como fizeram e fazem falta na minha vida. Mas, eu também não tava muito afim de falar para ele que havia visto e que seria vizinho da garota mais linda e talentosa que eu já vi na vida.

- Só não sei o que falar, e também, ter que se mudar assim, deixar tudo o que vivi até aqui para trás é meio doloroso. Acho que só me perdi um pouco nas minhas lembranças... - mal sabia ele o quão recente eram essas lembranças.

- Tudo bem. Entendo. Sei o quanto dói ter que deixar tudo pra trás assim. - acho que ele se referia a sua antiga vida, antes do acidente. Eu tinha dez anos e era uma noite muito bonita. Meus pais estavam nos bancos da frente do carro, meio pai quem dirigia. Voltávamos da festinha de aniversário do meu melhor amigo até hoje, o Jonas, que infelizmente foi morar com uns amigos na europa, mas ainda temos um contato muito íntimo via internet. Faltavam poucos quilômetros para que a agente chegasse em casa, mas de repente um pneu estourou e meu pai perdeu o controle total do carro, fazendo ele capotar muitas vezes. Meus pais morreram e justamente eu que tinha mais chances de morrer, já que meu meu cinto de segurança rompeu, fiquei vivo, mas como consequência perdi toda minha sensibilidade da cintura pra baixo, me deixando paraplégico. Meu tio, sem pensar duas vezes, largou tudo para cuidar de mim e isso gerou o divórcio de seu casamento, que já não ia muito bem. Sou muito grato a ele por isso. E em sequência, meu outro tio foi convidado para morar conosco, já que vivia tão sozinho pelos cantos da cidade. - Mas não se preocupa, logo estará com novos amigos, junto novas e melhores lembranças. - ele disse enquanto estacionava a caminhonete atrás de um caminhão, o caminhão que levaria nossas coisas para a casa na qual acabamos de voltar.

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Mais um capítulo \o/

Esse ficou bem grande, nossa. Acho que me empolguei, mas fiz de coração e espero gostem de verdade!

Me motivem, me façam acreditar que estão gostando deixando um voto e um comentário bem sincero, não precisa ser elogio.

É isso, do fundo do meu coração pra vocês <3

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