Capítulo 2
Viajei na batida, e cantei várias vezes o mesmo verso, até que decidi concluir essa música. Muitas vezes, me faltava coragem, inspiração, não sei... Mas eu não conseguia passar do segundo verso. Então, transformava em um simples poema e ficava por isso mesmo.
A porta estava entreaberta, para o caso de minha mãe chegar, assim eu poderia ouvir, e evitar que ela me ouvisse cantar e tocar. Se já não me sinto a vontade tocando na frente dela, imagina cantando e tocando! Mesmo correndo esse risco, eu decidi continuar cantando esse verso para encontrar uma continuação.
Estava ficando realmente bom o ritmo que havia imprimido. Então parei de cantar e peguei o caderno para poder escrever a continuação que havia surgido em minha cabeça.
Pus o caderno sobre minhas pernas e abaixei a cabeça para poder escrever, de maneira que meu cabelo, que estava solto, cobriu toda minha visão do que estava ao meu redor, me possibilitando de ver apenas o que escrevia.
E assim eu anotei:
" Tudo na vida passa, nada é eterno.
Se hoje eu choro, amanhã eu posso sorrir, a vida não teria graça se não fosse assim.
Deixo o tempo me levar, deixo que ele faça o que quiser de mim, nada é por acaso, tudo tem um propósito sem fim.
Em um sonho eu me encontro, em um desejo eu me perco, em um pedido eu me entrego, em uma lembrança, sinto o teu beijo."
Não entendi o motivo do beijo ter entrado assim na música, mas meio que acabei curtindo, então deixei assim.
Levantei um pouco a cabeça e tirei o cabelo dos olhos, para poder dar uma respirada, até por que é meio difícil respirar com a cabeça baixa. Um barulho, um ruído na verdade, me tirou a atenção do caderno e me fez olhar para a porta.
Quando olhei assustada para a porta, tinha um garoto em uma cadeira de rodas me observando. Seu olhar fixo em mim me assustou e, eu nunca havia visto ele antes, tornando tudo mais assustador. Mesmo com medo, resolvi questioná-lo.
- Quem é você? Oque faz aqui? - perguntei de forma grosseira, mesmo estando com muito medo. Quando notei sua presença, eu já estava com o violão preso entre meus braços. O instrumento naquele momento era minha proteção. Sim, claro, ele estava numa cadeira de rodas, parecia inofencivo, mas como eu nunca havia visto aquele garoto não tinha a menor idéia das intenções dele e principalmente o que ele fazia ali.
- Você eu não sei, mas eu vim ver de perto de quem era a voz angelical, que eu ouvi enquanto batia em sua porta pela milésima vez. Ah, já inventaram um negócio chamado campanhia, funciona bem. - Ele sorria como se fosse normal assustar alguém assim. E era óbvio que ele não podia me ouvir cantar lá de fora. Era óbvio também que ele disse isso para não entregar o tempo que estava me observando.
- Quem é você, cara? Eu nunca te vi na minha vida. Aliás, quem te deu permissão para entrar assim na minha casa ? - Me levantei cuidadosamente, com o dedo indicador apontado para ele, estabelecendo limites de distância, pois ainda não conhecia o louco na minha frente.
- Calma! Eu sou seu novo vizinho...Meus tios compraram a casa ao lado e como de costume vim aqui me apresentar -ele apressou em se explicar. -Mas eu chamei, chamei e ninguém me atendeu e eu conseguia ouvir você tocar, então eu deduzi que você não estava ouvindo por isso decidi entrar.
"Ah, desculpa a falta de educação. Eu me chamo Arthur, Arthur Blanco. - esse nome me soua familiar. A-há. Eu sabia que ele não conseguia me ouvir cantar. Mas se ele conseguia me ouvir tocar do lado de fora e eu não ouvi ele entrar, quer dizer que me empolguei e que, se minha mãe chegasse, eu não iria conseguir ouvir-la. Ele parecia não oferecer perigo, mas mesmo assim continuei assustada com tudo isso.
- Entendi. Mas você não tinha o direito de ficar aí, escondido, me ouvindo cantar. Como vou saber que não é algum ladrão de músicas ? - ele gargalhou. Meu deus, de onde eu tirei isso?
- Não sou ladrão de músicas, relaxa. Pode ficar tranquila - ele sorriu de canto de modo fofo e rodou as rodas de sua cadeira um pouco mais pra frente. - Eu realmente só queria me apresentar, mas quando ouvi você cantar, confesso que fiquei hipinotizado. Sua voz é muito linda. Você quem escreveu essa canção que estava cantando?
- Tudo bem. Já entendi. Sim, foi eu quem escrevi, na verdade estou escrevendo ou estava... E... - Acho que demorei mais do que devia para concluir essa frase. -Minha voz não é isso o que você disse. Não gosto de falar da minha voz! - eu já devia estar muito vermelha de tanta vergonha.
- Tudo bem, desculpa, não está mais aqui quem falou - e ele novamente sorriu, me fazendo olhar para aquele sorriso de covinha. - Te atrapalhei, né? Desculpa novamente. - olhando bem, ele é bem fofo e bonito. Seus cabelos meio ruivos e seu topede bem penteado, realçava a cor de seus olhos que eram bem claros e lindos. Ele estava vestido com uma camiseta regata, deixando seus braços até que definidos a mostra. Devia ser por conta de tanto rodar aquelas rodas. Uma bermuda que me parecia ser feita de algodão um pouco abaixo dos joelhos, normal, e um tênis esportivo da Nike.
- Acho melhor você ir embora, jajá minha mãe chega e se ela te ver a coisa vai ficar seria! - resolvi alertá-lo. Se minha mãe chegasse e visse ele ali, meu Deus, me recuso até a imaginar.
- Tudo bem. Entendo. Foi um prazer conhecê-la. Poderia me acompanhar até a porta? -Sinceramente, acho que não tem como recusar.
- Tudo bem. Vamos! - mas antes esperei que ele desse meia volta com sua cadeira de rodas para que eu pudesse ir empurrando, e também, vai que ele resolve olhar pra minha bunda?
Fui empurrando a cadeira dele até o lado de fora. Quando já estava prestes a me despedir, ele pergunta meu nome. Eu estava ainda muito tímida e queria que aquilo acabasse logo.
- Okay. Eu me apresentei, disse meu nome e até disse onde moro. - achei engraçado o modo que ele falou. Ali foi a primeira vez em que esqueci toda minha timidez e me vi relaxada. - Será que não vai me dizer seu nome? - ele insistiu.
- Tá. Me chamo Melanie, mas pode me chamar de Mel. Ah, e eu moro aqui. Agora estamos quites. - eu sorri, tirando sarro por ter feito a mesma piada que ele.
- Mel. - disse ele pra si mesmo. - Lindo nome. Tão lindo quanto a dona...- okay. Acho que naquele momento já podiam me enterrar, pois eu estava morta de vergonha. Aonde estam os buracos para enfiarmos nossas cabeças quando precisamos? Naquele momento acho que corei muito! - Bom, preciso ir. Só vim aqui para me apresentar, provavelmente eu e meus tios passaremos aqui para conhecer sua família.
- Eu... - Nesse momento eu já estava longe de mim própria, viajei nas minhas lembranças. - Moro só com minha mãe. Meu pai... Meu pai morreu. - disse tentando segurar as lágrimas e dar um jeito naquele nó que se encontrava em minha garganta.
- Meu Deus. Me desculpa. Não tive a intenção. Eu... Eu... - ele gaguejou enquanto tentava se justificar, se explicar... Mas a verdade é que não tem explicação. Meu pai morreu e mesmo não querendo, eu tinha que me acostumar com aquele tipo de situação.
- Tudo bem. Você não sabia. É... Agora eu preciso ir. Foi um prazer conhecê-lo também. Tchau! - dei as costas para ele e saí andando em direção de volta à minha casa. Bati a porta sem me virar e, então, desabei em lágrimas!
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Me façam feliz!
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