Capítulo 12
"Nunca sonhe pensando em acordar..."
POV'S MELANIE
Dei um jeito de sair antes que a Isa me visse e começasse a cobrar explicações. Aleguei a enfermeira que trabalha no colégio estar passando mal e que queria ir pra casa. Mesmo desconfiada, após minha interpretação mal sucedida do que seria uma cólica, ela me deu o passe e fui liberada das aulas por aquele dia.
Peguei minhas coisas e logo estava dentro do primeiro ônibus que me levaria para casa.
Minha mãe se surpreendeu quando me viu chegar duas horas mais cedo do horário normal. Meu Deus. Se já foi difícil convencer a enfermeira, que eu nunca havia visto na vida, convencer a minha mãe de que eu estava com cólica o suficiente para ser liberada das aulas, era como sair correndo rápido e se jogar contra um muro achando que iria atravessá-lo. Era impossível. Ela me conhece melhor que ninguém.
- Melanie? O que está fazendo em casa essa hora? - ela perguntou da cozinha em um tom que me arrepiava só de imaginar o que ela falaria comigo se soubesse o que fiz.
Pensa Melanie. Pensa...
- Não estava em condições de assistir as aulas, mãe. Não estava me sentido bem, então a enfermeira me liberou - contei torcendo para que ela tivesse piedade quando descobrisse a minha mentira.
- E eu posso saber o que a senhorita está sentindo? - ela saiu da cozinha vinda em minha direção secando as mãos num pano de prato.
Merda.
Claro que se eu contasse a verdade, ela iria me bater até eu ficar doente de verdade. Mas se ela descobrisse que eu estava mentindo, aí teria mais um velório em casa. Ou seja, eu estava realmente encrencada só por que não quis falar do Arthur pra Isa.
- Muita cólica - murmurei fazendo careta fingindo estar com dor. De novo.
Perdoa meus pecados, meu Deus.
- Melanie, se você ficar para recuperação, garota. Eu juro que... - falou entre dentes pondo a mão no rosto, parecendo estar quase estourando de tensão. - Se você pensa que uma cólica é motivo pra matar aulas, e se acha que irei deixar isso acontecer de novo, você está redondamente enganada. Daquele colégio você só sai pra um hospital. Caso contrário, irá estudar!
- Ta bom. Calma - respondi com as mãos levantadas num sinal de rendição. - Agora posso ir pro meu quarto? Não estou aguentando de dor.
Para de mentir, Melanie. Fala logo a verdade.
- Ta! - assentiu desconfiada.
Tranquei-me em meu quarto, logo estava debruçada sobre minha cama, pensando nos acontecimentos do que eu poderia considerar a semana mais agitada de minha vida.
Primeira: um garoto cadeirante entra em minha casa na maior cara de pau e me faz sentir coisas jamais sentidas antes.
Segunda: os tios do mesmo garoto compram a casa ao lado e resolvem convidar minha mãe e eu para uma festa de boas vindas, organizada por eles.
Terceira: outro garoto cara de pau resolve vir falar comigo durante a tal festa e tenta jogar seu charme pra cima de mim.
Quarta: o mesmo garoto cadeirante que entrou em minha casa, escorrega no banheiro enquanto toma banho, e quem salvou ele mesmo morrendo de vergonha por ele estar pelado? Isso mesmo. Eu!
Quinta: o mesmo garoto que deu em cima de mim, simplesmente era sobrinho da diretora do colégio em que estudo, e não estando satisfeito, resolve se matricular faltando só alguns meses pras aulas acabarem. Ah, e ele ficou justamente na mesma classe que eu.
Agora: estou mentindo pra minha mãe por algo totalmente irrelevante, que se for descoberto, eu que vou parar no hospital.
Já estava zonza de tanto tentar assimilar tanta coisa. É coisa demais para uma Melanie só.
Acabei pegando no sono, só fui perceber que dormi, assim que minha mãe começou a bater na porta do meu quarto feito uma louca me chamando pro jantar. Mas eu sabia que ela não estava tão desesperada por que éramos pontuais para jantar. Longe disso. O desespero dela só podia ser uma coisa: visitas! Pois é. Tínhamos visitas. E adivinha quem eram as visitas? Os tios do Arthur! E pela cara deles, não pareciam trazer boas notícias.
Se tem uma coisa que minha mãe gosta é que tenham uma boa impressão da nossa casa. Por ser muito humilde, ela sempre dava um jeito de usar as melhores louças (que não eram nada de demais. Apenas louças compradas na viagem dos meus pais ao Brasil), dava uma limpeza geral na casa geral na casa. Tudo isso só para terem uma ótima impressão. Ela tinha essa mania de querer impressionar. Mas pelo o que entendi enquanto ela batia desesperada na porta do meu quarto, era que os tios do Arthur ligaram de repente dizendo que viriam pra cá em quinze minutos. E então ela me acordou. Até parecia que o mundo estava acabando. E, além disso, os tios do Arthur chegaram só vinte e cinco minutos depois. Atrasados. Eu estava no sofá quando a bateram na porta e eu me levantei para abrir.
- Entrem. Sejam bem vindos - disse dando passagem a sala de jantar, tentando ser o mais cordial possível. Fui atrás deles ainda bocejando de sono.
- Com licença - disse César todo educado. Já Lúcio piscou pra mim com aquele seu jeito bad boy, tentando esboçar um sorriso daqueles que só os galãs de cinema fazem. Mas não se saiu muito bem.
Minha mãe pediu para que eles se sentissem em casa e se acomodassem em suas cadeiras em torno da mesa, que eu logo iria servi-los. Eu olhei com uma cara de: oi?
Fui à cozinha e quando voltei com a janta, eles já estavam super envolvidos numa conversa séria. Acho que mais triste do quê séria, pra ser sincera.
Resolvi não me meter na conversa. Até por que eu tinha certeza que se eu me intrometesse, minha mãe diria pra não me envolver em conversa de gente grande. Por isso, só observei.
- Então é definitivo? Seu sobrinho não lembra mais de vocês nem ninguém? - partiu da minha mãe essa pergunta um tanto indelicada.
Senti uma pontada no coração quando o ouvi responder...
- Sim! - César respondeu. Ele estava chorando sobre a mesa e seu prato com comida.
Mas então era isso mesmo? O Arthur não lembrava mais de ninguém? Nem dos tios? Nem de mim? Pode parecer egoísta, mas ele não lembrava mais de mim? Logo agora que eu estava...
Se bem que, seria um a menos para me preocupar. O Davi eu só precisaria aguentar até as aulas acabar. Quem sabe eu não me mude para o Brasil? Mas era uma notícia tão triste. Não só a notícia. Ver os seus tios chorar era de partir o coração. Ninguém merece acordar num dia e de repente não lembrar mais de nada nem ninguém.
- Força. Vai ficar tudo bem. No final tudo sempre fica bem. Sempre fica! - até que enfim minha mãe resolveu dizer algo reconfortante e sensato.
Ela fazia carinho na mão do César com as mãos, se não estivéssemos naquele clima triste, eu suspeitaria de um romance entre os dois. Aliás, por que não? Minha mãe é viúva, ele é divorciado. Minha mãe é linda, ele também é um gato. Sem contar que ele só era um ano mais velho que minha mãe. Formam até um casal bonito. Mas aquele não era o momento.
- O médico disse que ele teria alta amanhã, na terça. E então viemos aqui convidar vocês para dar as boas vindas a ele - dessa vez, Lúcio quem anunciou o motivo deles estarem nos visitando.
- Amanhã que horas? - perguntei curiosa, até porque eu tinha aula de novo. Era terça-feira. E se eu perdesse aula de novo...
- De manhã. Em torno das nove da manhã.
Entortei a boca procurando um modo delicado pra falar...
- Nesse horário vou estar na...
- Em lugar nenhum. Você vai estar aqui para receber o pobre rapaz. Ele precisa da nossa presença - dona Neide me cortou sem nem me dar chances de concluir o que falei. Mas espera. Como assim? Eu ia perder aula? Perder aula para receber o Arthur? É isso mesmo? Onde está minha mãe? O que fizeram com ela? Minha mãe nunca faria isso em sã consciência. - Quem sabe ele não se lembra de você, Melanie? - ela brincou com um sorriso malicioso nos lábios. E os tios do Arthur pela primeira vez naquele jantar gargalharam.
- Então ta né...
Então ta né... Partiu fugir pro Brasil!
[...]
É impressionante como toda vez que eu estou num sono perfeito, vem alguém e me acorda ou o despertador me desperta, avisando que um novo e longo dia de aulas virá pela frente. Mas eu não iria pro colégio hoje. Eu iria receber o Arthur. Não precisava me acordar cedo, certo?
Errado!
Super errado!
Você não pode dormir até depois das sete da manhã quando se tem uma mãe que quer por que quer impressionar a merda dos vizinhos novos, demonstrando solidariedade. Claro que era os tios do Arthur, o garoto que vi pelado e salvei sua vida. Mas precisava me acordar quinze pras sete da manhã, sendo que ele só voltaria do hospital em torno das dez?
Argh! Odeio acordar de manhã!
Logo já estava quase na hora dele chegar do hospital... Minha mãe se mostrou tão solidária e prestativa, que até fez um bolo de boas vindas pro garoto! Ela só podia estar me zoando. Ainda me deu um tapa na mão quando tentei melar o dedo na cobertura deliciosa de chocolate.
Escondemos-nos rápido ao ouvir vozes e barulhos de chaves do lado de fora. Esse era o sinal. Esperamos a porta abrir e então....
Todos praticamente saíram correndo, pra cima dele sorridentes, inclusive minha mãe. Já estava ficava assustada com essas atitudes estranhas da minha progenitora nesses últimos dias.
Dizem que quando se está amando, somos capazes de fazer coisas inimagináveis.
Seria esse o caso da dona Neide?
Eu permaneci inerte em meu lugar, somente observando aquele mini carnaval. Eu estava muito feliz por ele estar bem, mesmo tendo perdido a memória. Eu até esboçaria alguma reação próxima a deles se não fosse a minha vergonha naquele momento. Eu o vi pelado! Era inevitável não imaginar aquela cena ao olhar pra ele. Bom... Pelo menos ele não se lembra de mim e do que aconteceu.
Pelo menos era o que eu achava...
Ele começou a olhar fixamente para mim, ali parada, até que resolveu rodar as rodas de sua cadeira e vir até minha direção com uma expressão apaixonada, feliz. Como se tivesse encontrado ouro.
- Mel? - ele perguntou olhando para mim com um olhar esperançoso. De como se fôssemos amigos de longo data, que estava há anos sem se ver. Eu e todo o resto do pessoal ficamos incrédulos ao vê-lo falar meu nome como se nada tivesse acontecido.
- Você... Você lembra-se de mim? - perguntei limpando a garganta com medo da cara que César fez ao ver o sobrinho lembrar-se de mim e não dele.
Antes que ele respondesse a minha pergunta, o tio dele veio correndo e ficou ajoelhado em frente ao Arthur, no meio de nós.
- Arthur? Vocêse lembra de mim também, né? Você lembra que eu sou seu tio, não lembra? Por favor. Diz lembra! - sua voz de choro ecoava pela enorme sala de estar e ao ver a expressão do Arthur de estar incomodado por não conseguir se lembrar dele, seu outro tio, o Lúcio, o pegou pelos ombros e o tirou da sala aos prantos e o levou para outro cômodo.
- Melanie... Leva o Arthur pra dar uma volta. Aqui com certeza não é o melhor para ele no momento - Lúcio pediu em suplica. Olhei para minha mãe e ela confirmou, assentindo com a cabeça num sinal de sim.
Baixei a cabeça, respirei fundo e me questionei em pensamento "Será que tudo isso é culpa minha?", e então empurrei o Arthur e sua cadeira para fora para darmos uma volta de algumas horinhas, pelo menos até que tudo estivesse mais calmo.
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Heeey ^^ como vão?
E aí? Como está sendo 2016 pra vocês? Fizeram muitas promessas? Eu prometi que não faria mais promessas de fim ano. Nunca cumpro nada. Enfim...
Será que tá rolando um clima entre o tio do Arthur e a mãe da Mel, ou apenas impressão?
E o que acharam do Arthur lembrar só da Mel?
Quero shipps :3
Eu sei. Eu sei. Eu sempre demoro a postar. Já deviam ter se acostumado. Kkk
Será que poderiam ler a história da minha colega 5soslukehot A história dela se chama Sexto sentido.
Obrigado ^^
Gostaria também de mandar um beijo para JuliaBT a autora de "Eu, cupido". Mesmo que ela não leia essa minha história (por ser muito ocupada, claro) gostaria de mandar um beijão por ela ser tão fofa, atenciosa e uma baita escritora.
É isso.
Espero não estar esquecendo de nada(eu sempre esqueço)
Espero que gostem do capítulo!
Amo vocês ❤
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