Soaring and Falling

Soaring and Falling 

"Dois são melhores do que um, pois eles têm uma boa recompensa por seu trabalho. Pois se eles caírem, um levantará o seu companheiro. Mas ai daquele que estiver só quando cair, pois não tem outro para ajudá-lo."
— Eclesiastes 4: 9-11


— Eu não posso estudar com você amanhã — disse Harry se desculpando, enquanto guardava suas penas e tinta em sua bolsa.

— Oh! Encontro quente? — Draco brincou.

— Não é muito provável — Harry bufou.

— Oh! Isso mesmo, eu esqueci. As meninas não gostam do tipo heróico, moreno, magro e inteligente.

— Cale-se.

— Ponto para a teoria de que "as loiras se divertem mais".

— Você quer que eu bata em você?

— Hmmm...vou adicionar pervertido à lista de traços sobre você — Draco meditou, um sorriso se espalhando por suas feições. — Quem diria que você era tão masoquista?

— Malfoy... — Harry avisou. — Olha, eu não estou interessado em nenhuma garota agora. Então chega de teorias de "encontros quentes". Eu não posso te encontrar amanhã porque o jogo contra a Corvinal está chegando e nós temos um treino extra de Quadribol agendado.

Houve uma pausa. 

— Oh! Certo. Quadribol… — Draco finalmente respondeu, bastante tenso.

Harry mordeu o lábio. Ele de repente se lembrou que essa era a única coisa que Draco não podia mais fazer. O sonserino havia jogado com tanta ferocidade e orgulho por seu time quanto Harry ainda fazia pelo seu… mas agora ele nunca falava sobre isso. 

— Sinto muito… — Harry murmurou. — Eu deveria ter...

— Sem problemas, Potter — Draco interrompeu com um sorriso exagerado. 

— Vejo você na sexta-feira?

— Sim! Claro, mas…

Harry olhou para o amigo com preocupação. O rosto de Draco parecia bastante tenso sob o sorriso. 

— Você está bem?

O sorriso sumiu ligeiramente de seu rosto. 

— Estou bem — o loiro respondeu seco.

— E não podemos deixar você perder para os nerds depois de todo esse tempo, podemos? Vá praticar. Vejo você na sexta-feira. 

Ele se virou e começou a guardar meticulosamente seus livros e materiais em sua bolsa.

— Certo — disse Harry com um suspiro, sabendo que não iria mais longe do que aquilo. Ele se levantou e se dirigiu para a porta. 

— Vejo você na sexta-feira.

Enquanto caminhava de volta para sua sala comunal, ele se perguntou por que nunca havia notado isso antes, o fato de Draco evitar até mesmo mencionar Quadribol — era como se fosse uma praga —, ou nada relacionado a isso. Era como se o jogo não existisse mais para ele. Harry se lembrou de como o sonserino imediatamente desistiu da ideia de duelar no campo, mas não deu nenhuma desculpa, ele apenas declarou que queria evitar a área perto da cabana de Hagrid. 

Ele tinha estado lá na recente partida da Sonserina com a Lufa-Lufa? Não foi fácil escolher um único rosto no mar de alunos, mas, dado seu comportamento hoje, Harry suspeitou que não. Tinha sido estranho o suficiente para Harry ver Laynee Gruen de cabelos escuros jogando como o apanhador — em vez da conhecida cabeleira loira —, para Draco vir e ouvir o comentarista falando sobre sua substituição, provavelmente teria sido muito doloroso. Ainda assim, ele não poderia evitar para sempre, não é? O Quadribol era uma parte muito importante do mundo mágico.

Harry resistiu ao impulso de bater a cabeça no corrimão enquanto subia as escadas para a Torre da Grifinória. Ele se sentia um idiota insensível por não pensar nos sentimentos de Draco antes, mas também se sentia igualmente zangado com Draco por evitar o problema por tanto tempo.

Então novamente ele tentou se colocar no lugar do loiro, como ele se sentiria se algo o impedisse de jogar Quadribol novamente? As entranhas de Harry esfriaram só de pensar nisso. Ele seria capaz de assistir aos jogos de qualquer maneira e se divertir puramente como um espectador? Ele adorava assistir aos jogos nos quais não estava envolvido, mas ainda tinha a certeza de que teria muitas voltas no céu. E se não fosse esse o caso?

Harry suspirou. Havia tanta coisa que ele considerava garantida, tantas coisas que haviam mudado para Draco, apesar de sua insistência na normalidade.

Foi um dia parcialmente nublado que saudou as equipes vestidas de vermelho e azul quando elas entraram em campo no sábado. A apanhadora que competia com Harry era Bethany, uma garota loira do 5° ano, completamente diferente de Cho. Com um olhar surpreendentemente imparcial, Harry decidiu que ela era bastante bonita. Seu cabelo era lindo, com longas mechas prateadas penduradas em uma longa trança nas costas, mas também descobriu que ele não estava nem um pouco interessado nela como um todo. 

Ron provavelmente estaria, entretanto, dependendo de quanto tempo durasse seu relacionamento com Mandy. Harry pensou que não ficaria surpreso se seu melhor amigo tentasse ficar com essa garota em algum momento.

O jogo começou e Harry girou em torno dele em um looping, procurando a dica reveladora de onde estaria o pomo de ouro. Mas ele também se viu olhando para os espectadores de vez em quando, para ver se Draco tinha vindo assistir. Várias vezes ele percebeu um lampejo brilhante de prata e dourado não muito longe dele, e sua cabeça ergueu-se automaticamente, apenas para lembrar que era a apanhadora da Corvinal. As arquibancadas estavam lotadas e era difícil focar em indivíduos, mas, pelo que ele sabia, Draco não estava entre a horda de fãs gritando.

Ele tentou tirar o outro garoto da cabeça, todo o objetivo por trás da sessão de treinos extras desta semana tinha sido vencer o bem treinado time da Corvinal, e sua apanhadora estava entre seus jogadores mais habilidosos. Dean Thomas havia assumido como comentarista, e colocou sua concentração em manobrar a vassoura. Os resultados foram mais próximos do que ele gostaria, mas no final, sua vassoura e seu alcance um pouco mais longo o ajudaram. Suado, mas triunfante, ele fechou a mão em torno da pequena bola esvoaçante e a ergueu para que todos pudessem ver. Vitória!

Seus companheiros de equipe se amontoaram em torno dele em comemoração, com essa vitória, eles ainda estavam na disputa pela Copa de Quadribol, apesar da derrota para a Sonserina antes. Eles só precisavam ter certeza de que sua margem de vitória sobre a Lufa-Lufa era grande o suficiente. Em uma onda de risos, planos de festa e voltas exuberantes, eles se acomodaram no chão, aceitaram os parabéns de sua casa e voltaram para o castelo para começar as festividades. Exceto por Harry.

Quando Dean e Simas o colocaram nos ombros em júbilo, Harry viu Draco. Sozinho, não nas arquibancadas que se esvaziavam rapidamente, mas do outro lado do campo em território neutro.

Harry saiu do alcance de seus amigos. 

— Vão sem mim, vou subir em um minuto — disse ele.

Eles levantaram uma sobrancelha escura e uma loiro-areia em resposta, então encolheram os ombros, sorrindo, suas mentes já voltadas para a celebração. 

— Só não demore muito — Simas disse a ele. 

— A mãe de Colin e Dennis mandou para eles uma grande caixa de doces da Dedosdemel recentemente, e eles estavam guardando para hoje. Além do mais, o que é uma festa sem o Apanhador?

Harry sorriu de volta. 

— Guardem um pouco para mim, sim? E tenho certeza de que a festa vai correr muito bem, nossos artilheiros geralmente comemoram alto o suficiente para toda a casa!

Todos eles riram. Então, depois de acenar para eles, ele se virou e abriu caminho através da multidão que se dispersava rapidamente, aceitando os parabéns ou evitando os olhares daqueles por quem passava, até que finalmente alcançou o Sonserino solitário. Draco ficou em silêncio na borda do campo com o rosto voltado para o céu como se um jogo invisível ainda estivesse acontecendo.

— Eu não tinha certeza se você ainda ia aos jogos — Harry disse hesitantemente, enquanto se aproximava.

O loiro deu de ombros, girando a cabeça ainda que não completamente, como se procurasse um meio-termo entre ter seus olhos ou orelhas voltados para Harry. 

— Eu não sei. Mas estava tão barulhento hoje que eu podia ouvir a gritaria dentro do castelo — disse ele. — Imaginei que, desde que eu não pudesse estudar, eu poderia muito bem sair e ouvir a partida corretamente.

Harry não pôde deixar de sorrir. Ele suspeitava que Draco não estava contando toda a verdade por trás de suas razões para estar ali, não era como se o jogo de hoje tivesse sido mais barulhento do que qualquer outro. Mas ele não tinha certeza se importava. A questão era que Draco estava lá. Ele colocou os pés no campo. E ele tinha visto, bem, ouvido Harry jogar.

— Então o que você achou? 

Draco fez uma pausa para considerar. 

— É muito menos interessante apenas ouvir sobre isso em vez de ver. Na maioria das vezes, eu não tinha ideia do que você ou aquela apanhadora da Corvinal estavam fazendo até o final, quando você estava lutando pelo pomo. A descrição de Thomas, principalmente, focava nos outros jogadores.  — Ele encolheu os ombros novamente. — Foi tudo bem. Parabéns, a propósito.

Ele deu um pequeno sorriso.

— Obrigado — Harry respondeu, tentando pensar em uma maneira de fazer Draco sentir as partes que faziam falta. 

— Você não perdeu muito, realmente. Você sabe como é, você fica sentado girando os polegares durante a maior parte do jogo e depois tem cinco minutos de esquiva insana, corrida e bombardeio de mergulho para derrotar o outro apanhador.

A expressão de Draco caiu ligeiramente. 

— Sim — ele respondeu lentamente. — Eu lembro.

Harry mordeu o lábio. Ele sentia como se estivesse fazendo tudo errado, ele estava tentando dar vida à experiência, não deixar o sonserino mais melancólico. Ele examinou o campo agora vazio, tentando pensar em algo que pudesse dizer ou fazer para trazer a emoção de volta. Então seus olhos pousaram na Firebolt ainda presa em suas mãos. 

— Ei — ele finalmente disse ao outro garoto —, por que você não vem voando comigo?

Draco fez uma careta. 

— Isso não é engraçado, Potter.

— Não, eu estou falando sério. Olha, você pode sentar atrás de mim, minha vassoura é forte o suficiente. Então você pode voar de novo. Aposto que você não tem subido desde você sabe… o acidente.

— De jeito nenhum. — Draco o interrompeu com um aceno de cabeça. — Potter, eu não posso.

Mas Harry estava determinado. Podia haver coisas que Draco não podia mais fazer, como ser um apanhador, mas voar certamente é possível.

— Sim, você pode — ele disse a Draco, colocando sua vassoura entre eles. — Aqui.

Ele subiu na vassoura, então se virou e agarrou a mão de Draco, direcionando-a para a alça atrás dele. 

— Aí está a vassoura. Estou na frente, então você pode apenas se segurar em mim. Você não precisa se preocupar em dirigir nem nada.

Ele observou Draco, por reflexo, fechar seus dedos ao redor do cabo da vassoura e instintivamente jogar sua perna por cima.

— Certo, então — disse Harry, sorrindo enquanto se virava para encarar a frente novamente. 

— Ok, vamos lá!

Com isso, ele chutou contra o chão, e eles foram embora.

Enquanto a vassoura balançava, Draco agarrou com segurança o corpo à sua frente, mantendo uma mão em volta do cabo da vassoura e a outra firmemente presa a Harry. Como diabos ele deixou Harry convencê-lo disso? Assim que sentiu a vassoura em sua mão, ele montou automaticamente, sem pensar, mas era o último lugar que ele queria estar.

Era verdade que ele sentia falta de voar. Ele era capaz de pilotar uma vassoura desde que se lembrava, e ficou especialmente irritado por Harry ter ganhado uma posição no time de sua casa no primeiro ano, já que ele sabia que suas próprias habilidades eram igualmente excelentes. Sempre que ele precisava de um momento para si mesmo, ou queria se livrar de alguma frustração, geralmente por causa de Harry, ele saía voando. Mas desde o acidente, ele não apenas ficou de castigo, como tentou tirar o voo da cabeça por completo. 

Era inútil ter esperanças por algo que ele tinha perdido, e qualquer memória de voo que vinha em sua mente sempre terminava com uma crise de ansiedade e a escuridão. Ele evitou ir ao campo ou assistir aos jogos de quadribol, e saía da sala se ouvisse alguém discutindo qualquer coisa remotamente relacionada à uma vassoura.

No entanto, algo o atraiu para o campo esta manhã, ele disse a si mesmo que era apenas o barulho no castelo, mas, na realidade, ele queria saber como Harry estava. Apesar de toda a sua curiosidade e outros hábitos irritantes, o grifinório havia se tornado um amigo, alguém cada vez mais importante na vida de Draco, apesar de seu bom senso abominar a ideia.

E por falar em ir contra o seu melhor julgamento, aqui estava ele, na parte de trás da vassoura de Harry, pendurado para salvar sua vida. Ele estava descobrindo que estar no ar e incapaz de ver era incrivelmente desorientador. No solo, ele pelo menos sabia para que lado ficava, aqui ele não tinha nenhuma pista sensorial, exceto o que sua memória interna, confusa e sobrecarregada poderia transmitir. 

Não foi o suficiente. Na primeira curva que Harry fez, os olhos de Draco se fecharam automaticamente, se ele não podia ver, pelo menos ele poderia fingir que foi deliberado. De alguma forma, era um pouco melhor do que ter os olhos arregalados lacrimejando com o vento, tentando inutilmente entregar informações ao seu cérebro desorientado.

— Você está bem aí atrás?

Ele ouviu Harry chamar acima do vento.

— Já estive melhor. Não vire tanto.

Ele gemeu ao sentir a vassoura girar novamente. 

— Eu posso estar doente e vomitar em cima de você.

Ele sentiu a vassoura nivelar.

— Desculpe por isso.

Veio a voz do grifinório. Draco estava pressionando o lado de seu rosto contra as costas do outro garoto, as vibrações, conforme o moreno falava, retumbaram contra sua bochecha. 

— Isto é melhor?

— Um pouco. Diga-me se você pretende fazer mais alguma coisa engraçada.

Seu braço direito apertou o peito de Harry. Ele podia sentir as batidas do coração do outro garoto contra seus dedos, o seu próprio batia descontroladamente de terror. Os movimentos mais elaborados não só o deixaram tonto, mas também o lembraram de sua última perseguição selvagem, aquele episódio terminou com ele quebrando a cabeça. Ele não tinha ideia de onde estavam os obstáculos, nenhuma ideia de quão alto eles estavam voando ou qualquer coisa sobre sua posição. Mas quando o voo se estabilizou e nada aconteceu, ele começou a relaxar, um pouco.

— Malfoy, tenho que me virar, estou chegando muito perto da Floresta Proibida.

Harry chamou novamente. 

— Vou virar à direita. Você está pronto?

— Sim, acho que sim.

Draco respondeu, preparando-se para mais desorientação. Mas isso nunca aconteceu. Com o aviso de Harry, ele se viu inclinando-se apropriadamente para a curva, mantendo o controle mental sobre qual era o caminho. Ele ainda não sabia dizer o quão grande era a curva, mas quando a vassoura se endireitou, ele experimentou apenas um breve momento de confusão enquanto seu equilíbrio se recuperava novamente. Ele abriu os olhos.

Nada.

De repente, Draco percebeu o quanto ele estava perdendo. Não apenas era muito mais difícil manter o equilíbrio com todas as direções abertas ao movimento, mas havia toda uma perspectiva que ele havia bloqueado de sua memória. E agora ele estava se lembrando. Sem vistas das copas das árvores ou pequenas paisagens coloridas abaixo dele. Nenhuma corrida contra os pássaros ao redor das torres do castelo ou maravilhamento com o mar branco após uma nevasca.

Ele fechou os olhos novamente. Não fazia diferença para seu cérebro, mas, como antes, de alguma forma era mais fácil superar a ausência se ele fingisse que era apenas temporária, sob seu próprio controle, pálpebras abaixadas, sem células nervosas destruídas.

Olhos fechados e com Harry chamando qualquer outra mudança de direção que ele estava fazendo, Draco começou a prestar mais atenção à sensação de voar. A lufada de ar passando era libertadora, a sensação da vassoura embaixo dele era reconfortante, embora a experiência não pudesse ser completa. Ele sempre gostou de estar no ar. E desta vez com Harry, por mais que Draco zombasse dele por isso, exalava uma sensação de segurança, aquela maldita personalidade de "herói" que ele sempre usava. 

Ele relaxou, mas manteve o braço ao redor de Harry para aumentar o equilíbrio, sentindo seu próprio coração bater sob sua mão, era por conta da emoção e não por conta do terror. Harry ainda estava vestindo seu uniforme de Quadribol, Draco reconheceu a textura das vestes do time, ele ainda estava um pouco suado depois de sua corrida pelo pomo. Inclinando-se contra o calor do grifinório, e respirando o cheiro familiar de um jogo duro, Draco começou a se sentir mais como ele mesmo. Depois de mais algumas voltas e alguns movimentos um pouco mais elaborados, ele decidiu que queria algo mais.

— Dê um mergulho — disse ele.

Ele sentiu Harry se contorcer ligeiramente como se tentasse olhar para ele. 

— Tem certeza?

— Sim, apenas me diga quando você for fazer isso.

— Certo.

Ainda havia alguma dúvida na voz dele, mas Draco sabia que Harry amava os movimentos mais arriscados, não havia como ele recusar a oportunidade. Com certeza.

— Espere, deixe-me voltar ao campo, não gosto de mergulhar no lago — disse o grifinório a ele. Alguns minutos se passaram, durante os quais Harry fez mais algumas mudanças de direção. Draco quase não precisava de avisos, agora, ele estava totalmente focado na sensação da vassoura sob ele.

— Tudo bem. — Veio o aviso. — Eu estou indo agora!

O fundo do estômago de Draco caiu quando ele sentiu a vassoura se inclinar para frente e cair no chão. Era um pouco assustador não saber o quão longe ele estava do impacto, mas ele quase não se importou, no fundo de sua mente estava o terror implícito de que ele iria se chocar contra algo, mas sua confiança nas habilidades de voo de Harry superou isso. Ele simplesmente se segurou, deixando a gravidade pressioná-lo completamente contra o corpo à sua frente, desfrutando de uma emoção na qual ele se recusou a pensar por quatro longos meses.

No que pareceu pouco tempo, ele sentiu a vassoura nivelar e de repente desacelerar. 

— Eu vou parar agora — disse Harry, não precisando mais gritar agora que eles estavam protegidos do vento. — Pode descer, já estamos aqui embaixo.

Draco simplesmente assentiu, esquecendo por um momento que Harry estava de costas para ele e também não podia vê-lo, seus ouvidos ainda estavam cheios da rajada de vento, e de repente ele não confiava em sua voz para falar. Ele abriu os olhos e afrouxou o aperto em torno do outro garoto, enquanto Harry desmontava, sentindo frio de repente pela falta de contato corporal. Então o grifinório estava ao lado dele, pegando a mão de Draco e colocando-a em seu ombro para lhe dar uma ideia de quão longe do solo a vassoura estava, e ele estava desmontando, tremendo e sem saber se estava prestes a rir ou chorar.

— Obrigado, Potter — disse ele, afastando o cabelo dos olhos com a mão trêmula.

— Sem problemas. — Foi a resposta. — Eu sei que eu meio que te arrastei para isso, mas parece que você lidou muito bem. Gostaria de fazer de novo algum dia?

— Tenho certeza de que você tem coisas melhores para fazer do que me levar para voar — Draco respondeu com um encolher de ombros, quando a realidade sufocou abruptamente a alegria que ele acabara de sentir. — E, além disso, você faz o suficiente por mim.

— Eu estou oferecendo. E você faz muito por mim também. Minhas notas melhoraram e eu tenho uma chance melhor de passar nos NIEMs desde que estou estudando com você.

Ele descartou a comparação de Harry. 

— Não é a mesma coisa. Você faz algumas coisas por mim que eu não posso fazer por mim mesmo, e eu odeio isso — ele parou e abaixou a voz. — Sem ofensa, Potter. Mas eu simplesmente não posso te pedir para fazer mais nada.

— Eu repito, estou oferecendo. Foi divertido para mim, eu nunca voei em dupla assim antes, exceto para levar Hermione uma vez, e foi muito mais divertido ir com você, alguém que entende de voar.

— Alguém que tenta quebrar suas costelas, você quer dizer — ele respondeu, lembrando, um tanto envergonhado, do jeito que ele agarrou Harry como uma criança apavorada.

— Isso foi só por alguns minutos. De qualquer forma, a culpa foi minha por não ter contado a você o que eu estava fazendo. Você mesmo me disse, daquela vez que te acompanhei de volta, que você precisava saber o que estava acontecendo, e eu esqueci.

— Mas eu não deveria ouvir! — As mãos de Draco de repente se fecharam em punhos. — Eu era um bom piloto, como você, e agora olhe para mim! Preciso de ajuda em tudo! 

— Isso não é verdade, você...

— É sim — ele insistiu teimosamente. Uma parte de sua mente se perguntou por que ele estava dizendo a Harry tudo isso, mas de repente estava saindo em um impulso. — Mesmo quando estou fazendo algo sozinho, tem algum encanto, dispositivo ou técnica compensatória — ele zombou do termo —, tornando isso possível. Todas essas coisas que você faz sem pensar, eu tenho que pensar! Sem ajuda eu não posso fazer mais nada. Nem escrever, nem andar, nem voar. 

Ele balançou a cabeça quando a memória de voar alto voltou à sua mente, fresca e brilhante da aventura daquela tarde. 

— Especialmente voar — ele sussurrou. — Eu nem tentei andar em uma vassoura desde o acidente, mas eu costumava voar o tempo todo e…

De repente sua garganta fechou e ele teve que forçar as palavras a saírem. 

— Agora eu não posso...

Era muita coisa. Estar de volta ao ar e fazer algo que ele amava tão ferozmente havia desbloqueado algo dentro dele, a sensação de perda que ele tentou sufocar por tanto tempo. Ele caiu no chão enquanto sua compostura duramente conquistada se desfazia inteiramente. 

— Por quê? — ele gritou, o som se dissolvendo em um soluço. — Eu odeio isso! Eu quero ver… tudo é tão difícil, você não tem ideia de como é…

Suas mãos começaram a arrancar a grama do chão úmido em sua dor, e ele mal conseguia respirar pelos soluços que rasgaram seu peito. 

— Nunca mais voarei… e odeio ter que depender das pessoas, e você estava certo, estou sozinho...

Ele nunca se sentiu mais infeliz em toda a sua vida, nem mesmo quando os médicos lhe deram o seu diagnóstico. Ele não tinha se permitido. Ele simplesmente engoliu a notícia e trabalhou para voltar ao normal. Só que não era e nunca mais seria normal, pelo resto de sua vida, ele seria dependente da magia, das coisas e das pessoas, em vez da pessoa orgulhosa e poderosa que foi criado para ser.

Harry tentou dizer algo uma vez, mas Draco o interrompeu, incapaz de parar de chorar e sem vontade de ouvir qualquer palavra que o outro garoto pudesse dizer. Longos momentos se passaram, durante os quais ele delirou com a injustiça de tudo, finalmente despejando tudo o que havia reprimido, sua sensação de fracasso, sua exaustão e sua raiva.

Finalmente, porém, conforme as lágrimas diminuíam, ele sentiu Harry se ajoelhar ao seu lado e uma mão quente tocar seu ombro. 

— Shhh… vamos, Draco — murmurou o grifinório. — Vai ficar tudo bem.

Draco cambaleou para longe do conforto oferecido. 

— Não! Não vai! Vou ser assim para sempre, lutando para sempre!

Ele tentou empurrar Harry e fugir, para escapar de sua miséria e mortificação, mas o outro garoto o segurou rápido.

— Draco, por favor! — Harry implorou. — Por favor, apenas… fique aqui e fale comigo. Não há ninguém aqui além de nós, e eu prometo que não contarei a ninguém.

Houve uma pausa. 

— Olha, você está certo, eu não sei como é. Mas você não tem que guardar tudo para dentro. Fale mais sobre como é. Talvez… isso o ajude?

Ele balançou a cabeça, remexendo no bolso em busca de um lenço. 

— Não vai consertar nada.

Ele limpou o nariz e respirou fundo, tentando se recompor. 

— Olha, isso não mudaria nada.

Houve outra pausa. Draco desejou poder ver o que o outro garoto estava fazendo, ele teve a impressão de que Harry estava pensando. Sua mão ainda estava descansando confortavelmente no ombro de Draco, e ele percebeu distraidamente que Harry devia ter removido suas luvas em algum momento. Outra coisa que ele não foi capaz de ver.

— Isso não vai te trazer sua visão de volta, é verdade — o grifinório finalmente disse. — Mas eu também sei, por experiência própria, que é um milhão de vezes mais difícil fazer algo sozinho do que com amigos. Quando Ron estava com raiva de mim durante o Torneio Tribruxo… bem, direi apenas que foi muito mais difícil enfrentar a Primeira Tarefa do que as outras, e quando fizemos as pazes, as coisas facilitaram. É bom sentir que as pessoas te entendem, ou que você pode reclamar com alguém quando achar que a vida não pode ficar pior… olha, como eu disse antes, você tem pessoas ao seu redor. Se você não quer falar comigo, talvez você possa falar com um de seus colegas de casa. 

Draco deu uma risada curta e melancólica. 

— Você está brincando? Como eu disse antes, nós somos sonserinos, não acho que alguém realmente confidenciou algo pessoal a ninguém em todo o tempo que estive lá, exceto talvez fofocas sobre quem está dormindo com quem.

— E quanto aos seus pais?

— Meu pai quase me abandonou agora que não estou mais apto para ser um Comensal da Morte. Acho que ele está preparando outro garoto para tomar meu lugar, algum do quarto ano cujos pais foram para Azkaban.

— Eu deveria saber que você ia ser um Comensal da Morte — Harry murmurou. Então, com curiosidade perguntou:

— E a sua mãe?

— Minha mãe se tornou uma completa preocupada.

Draco fez uma careta. 

— Por que você acha que sou do jeito que sou? É por causa deles. Eu me esforço para provar a meu pai que não preciso dele para ter sucesso e para impedir que minha mãe tenha surtos, ou sei lá o quê.

Harry riu. 

— Me desculpe, mas surtos?

Draco respondeu com um encolher de ombros. Ele estava de repente muito cansado.

Eles ficaram sentados em silêncio por alguns minutos, então Harry deixou escapar abruptamente.

— Sinto muito.

Ele se virou para a voz do outro garoto.

— Pelo quê? — ele perguntou, desejando pela milionésima vez que pudesse realmente vê-lo, e não apenas ter que adivinhar sua expressão e linguagem corporal com base em sua voz.

— Por levar você para voar. Você disse não, e eu obriguei você a fazer isso mesmo assim. Achei que seria divertido, como te devolver algo, sabe?

Havia derrota em sua voz. 

— Eu não queria fazer você pensar sobre todas as coisas ruins.

— Você não fez nada — Draco respondeu cansado —, então pode parar de se sentir culpado. Eu só estou confuso, não é sua culpa. Eu simplesmente fico cansado das limitações… quer dizer, eu não consigo nem ver você, e você está sentado bem aí. 

Ele se pôs de pé. 

— E agora que fiz papel de bobo, acho que vou voltar para o meu quarto e tentar não pensar muito.

— Espere.

Ele ouviu Harry se levantar. 

— Você pode.

Ele virou. 

— Eu posso o quê?

— Você pode me ver. Lembra?

Ele sentiu o outro garoto agarrar sua mão direita e levá-la ao rosto. 

— Com isso.

Draco congelou sua mão contra a bochecha de Harry. Lá estava ele de novo, aquele rosto sólido, real e dolorosamente familiar. Quantas vezes desde aquela primeira vez ele quis “ver” Harry novamente, ao invés de apenas confiar na memória? Em uma grande quantidade. Mas isso foi algo para fazer apenas uma vez, não foi? Só para provar que sabia qual era a expressão de Harry naquele momento. Você não poderia simplesmente dizer "Então, o que você achou da última tarefa de DCAT e, a propósito, posso tocar em você novamente para ver como você está agora?"

Mas aqui estava Harry, oferecendo-lhe a chance de vê-lo novamente. Os dedos de Draco roçaram a linha da mandíbula de Harry até o queixo um tanto estreito. Ele sentiu e ouviu Harry estender a mão e remover os óculos. Então, com essa permissão adicional, Draco de repente se sentiu livre para abraçar a oportunidade que lhe foi dada, suas mãos percorreram o rosto inteiro do grifinório, suas sobrancelhas e um pouco de sua franja rebelde, deslizando pela cicatriz e depois pelo nariz. Escovando as pontas dos cílios, que ele lembrava que eram negros, e também os lábios. A boca estava calma e séria agora, mas ele se lembrava de tê-la visto rir, abrir-se de surpresa e apertar em determinação. Tudo isso, o cabelo, a mandíbula, o nariz, a boca, a cicatriz se encaixavam na memória de Harry que ele carregava consigo.

— Posso tentar? — Harry sussurrou.

Assustado, Draco puxou as mãos para trás. 

— Tentar o que?

— Eu poderia… tocar você? Ver você com minhas mãos, do jeito que você me vê?

— Mas você já pode me ver.

— Não é a mesma coisa. Você disse que eu não poderia saber como era para você. Bem… eu quero tentar. Tudo bem?

Draco hesitou, e então cedeu. 

— Tudo bem — ele sussurrou. — Feche seus olhos.

Ele presumiu que Harry tinha feito isso, porque a próxima coisa que sentiu foi um par de dedos roçando timidamente a lateral de seu pescoço, como se não tivesse certeza para onde estavam indo. Draco se manteve perfeitamente imóvel enquanto o outro garoto se orientava, sentindo as mãos de Harry deslizarem sobre suas próprias feições e seguindo um caminho semelhante às suas próprias explorações. Acima da testa de Draco e através de suas sobrancelhas, traçando o contorno de seu nariz. Um caminho mais frio apareceu onde os dedos de Harry passaram por algumas lágrimas restantes em seu rosto. Ele tinha um toque leve, mas penetrou fundo nas entranhas de Draco, como se Harry estivesse acariciando sua alma assim como suas pálpebras. Era assim que era para Harry também?

— Seus lábios estão rachados — murmurou o grifinório eventualmente, um dedo roçando sobre sua boca.

— Os seus também.

Draco sorriu, tentando não prender o dedo de Harry enquanto falava. 

— Todo aquele voo e vento ressecou.

— Sim, provavelmente…

A mão se moveu de volta para sua bochecha e então parou lá, a palma em forma de concha ao lado de seu rosto. Então ela se retirou.

O silêncio se estendeu ao redor deles e Draco não tinha certeza se queria quebrá-lo ou não. Foi um momento onde nada mais existia, sem fardos, sem pessoas. Apenas eles.

— Eu… acho que devemos ir — Harry murmurou depois de um tempo. — Está ficando frio.

Draco de repente percebeu o frio, ele se perguntou se havia ficado nublado, pois estava mais quente antes. 

—Sim… acho que sim.

Ele ouviu o leve clique dos óculos de Harry sendo desdobrados e, presumivelmente, colocados de volta em seu rosto. Ele tentou não ficar com inveja do fato de que o outro garoto estava usando seus olhos novamente. 

— Então, você aprendeu alguma coisa? — ele perguntou quando eles começaram a caminhar de volta para o castelo.

— Hum… seu nariz vai um pouco para a direita.

A resposta inesperada trouxe uma risada igualmente inesperada. 

— Tudo bem, tudo bem, aponte minhas falhas que eu apontarei as suas.

— Não é uma falha — insistiu Harry. — Eu nunca tinha percebido isso antes.

Eles caminharam de volta amigavelmente, separando-se no saguão de entrada vazio.

— Vejo você na segunda, eu suponho.

Eles estudavam separadamente aos domingos.

— Claro — Draco respondeu. De repente ele sentiu que poderia dormir até segunda-feira, ele estava tão cansado depois dos eventos da tarde. 

— Olha, Potter, sobre hoje… podemos simplesmente esquecer que aconteceu?

— Se você quiser — Harry respondeu lentamente. 

— Mas… bem, não me leve a mal, mas estou feliz que tenha feito. Você obviamente tem muito em que pensar.

Draco balançou a cabeça tristemente. Ele ainda desejava fervorosamente não ter desmoronado daquele jeito. 

— Eu suponho que sim — ele murmurou, e se dirigiu para as masmorras da Sonserina, mas então se virou na direção dos passos de Harry. 

— Ei, Potter?

— Sim?

— Obrigado.

“Pelo voo, por me ouvir, por me deixar ver você”.

— A qualquer momento.

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A próxima fic de hoje é da malfoychavoso gente vão lá que tá maravilhosa!!!

E todos os meus agradecimentos a beta missugarpurple por betar os caps dessa História !

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