Dama (parte 1)

- Chegamos.

Escuto a voz suave de Hyunjin o que me faz acordar, eu não lembro em que momento do trajeto eu havia dormido, apenas me lembro de que um turbilhão de coisas passavam pela minha cabeça. Nós mal havíamos conversado durante a viagem, a única coisa que havíamos trocado era alguns olhares sérios.

Desço do carro e quando avanço ao porta-malas para pegar minha mala, Hyunjin já estava com ela em sua mão, faço menção de pegá-la.

- Eu levo - ele fala.

Reviro os olhos e determinado a não começar a discutir imediatamente, apenas me viro e atravesso lentamente o gramado. Estávamos na grande casa de campo dos meus pais, era uma casa moderna, com paredes grandes de madeira maciça escura, muitas janelas de vidro e várias colunas de sustentação. Meus pais haviam comprado um pouco antes de minha mãe falecer há 4 anos atrás, não era meu lugar favorito nem de longe, mas naquele momento me parecia longe o suficiente da cidade e de qualquer problema que ela poderia guardar.

Retiro as chaves do meu bolso e abro a porta principal, as luzes incomodam um pouco minha visão quando acendo-as, a sala ampla se materializa com os móveis em cores pastéis.

- Uau - Hyunjin exclama quando entra na sala.

Me viro na direção dele e o encaro.

- Posso pegar minha mala agora? - havia um tom de deboche na minha voz.

- Felix, eu não entendo por que você está bravo, principalmente comigo que não fiz nada - ele soava um pouco incrédulo.

- Eu queria vir pra cá pra conseguir pensar e me distanciar de todas as merdas que foram jogadas na minha cara, mas não só isso, queria ficar longe de você por um tempo e infelizmente você está aqui - falo com um tom amargurado.

Tento pegar minha mala novamente, mas ele me detém. Respiro fundo e fecho os olhos tentando manter o foco e não me estressar.

- Acho que eu dei muita liberdade pra você, claro que eu quero que você seja mais que meu funcionário, mas não acha que está abusando dessa distância entre nós? - o olho sério.

- Não - ele respira fundo - Olha, vou ser sincero com você, eu só entrei nesse trabalho porque eu queria me aproximar de você, eu não quero ser apenas seu amigo, muito menos só seu funcionário. Você precisa de mim, sempre precisou e eu estou aqui, quero continuar aqui e quero que você me queira aqui. Eu não sei exatamente pelo que você está passando, mas eu quero que você confie em mim, você parece estar em um constante sofrimento, Felix, e não quero ver você dessa forma. Me deixa te ajudar, por favor... - ele deixa as malas que carregava no chão e se aproxima de mim - Você é tudo que eu tenho, eu fiz várias merdas nesses 15 anos que passamos separados, mas sei que quando estou com você consigo ser uma pessoa melhor.

Sua mão desliza pelo meu braço e segura minha mão gentilmente, nossos olhos se mantêm em contato um com outro fixamente.

- Eu não sei se eu consigo fazer isso, Hyunjin - sussurro, me sentia um pouco eufórico com ele ali tão perto.

- Eu sei que você quer também, Felix, eu...

- Eu não disse que não quero, eu disse que não consigo - o interrompo de maneira ríspida.

Quebrando o clima, vou até a minha mala e a pego. Sem olhar para ele, subo as escadas de madeira rumo ao primeiro andar da casa. Entro no meu quarto que não parecia nada meu, não fazia meu estilo com aquele papel de parede sofisticado e não havia uma coisa sequer que pertencia a mim, jogo a mala na cama e depois me jogo também.

Com todo o trauma vindo à tona com força, estar com Hyunjin era péssimo porque olhar para ele me fazia lembrar de seu pai, o homem que havia me abusado quando eu tinha apenas 11 anos. O toque de Hyunjin me lembrava o toque daquelas mãos me agarrando brutalmente tentando me conter para tornar seu trabalho mais fácil. A voz de Hyunjin me lembrava aquela voz maliciosa me dizendo para ficar em silêncio para que tudo ficasse bem.

Estar nessa situação doía muito em mim porque eu queria que Hyunjin ficasse perto de mim, sabia que ele não era nada como o pai e que suas palavras eram verdadeiras. Quando reconheci Hyunjin naquele café, milhões de memórias boas e felizes da nossa infância juntos foram recuperadas, mas subitamente as piores lembranças foram intensificadas dentro da minha mente, lembranças que me causavam medo, ódio, repulsa, desespero, agonia, dor e raiva. E como se não fosse suficiente todas as lembranças que tinha sem ou com Hyunjin, havia surgido o maldito vídeo com a gravação de tudo o que havia acontecido aquela tarde, os fantasmas do meu passado não queriam mais me assombrar, eles queriam me destruir.

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Agradeço muito por lerem, por favor, não se esqueçam de favoritar e compartilhar com os stays. Sintam-se à vontade para comentarem, amo interagir com vocês e me incentiva muito a continuar.

Esse capítulo foi dividido em duas partes. A segunda parte será postada em breve.

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