Capítulo 75

- Não se aproxime - eu avisei, apontando minha arma para ele.

Olhando para mim, Negan me deu um sorriso frio.

- Porque? Você vai atirar em mim, Ellie?

Seus olhos estavam sombrios e irados enquanto ele dava um passo na minha direção, Lucille deixando um caminho de sangue ao seu lado. Eu sabia que nunca apertaria o gatilho e ele também sabia.

Sem que eu estivesse preparada, ele se jogou contra mim e me desarmou. Meus punhos voaram em seu peito enquanto chovia golpes nele até que ele me pegou pelos pulsos, empurrando-me contra a parede e prendendo meus braços ao lado da minha cabeça.

Eu não estava raciocinando direito porque não estava esperando encontrá-lo. Ele xingou enquanto eu lutava para libertar minhas mãos.

Olhando em seus olhos eu podia ver que ele estava furioso e eu lentamente fiquei imóvel, embora minha respiração permanecesse pesada.

- Eu vou te soltar, e é melhor você não tentar nada.

Não seja uma idiota, Ellie. Aja!

Eu acenei obedientemente com a cabeça, esperando que ele me libertasse. Seus olhos suavizaram quando ele soltou meu braço direiro. Isso era tudo que eu precisava.

Torcendo o braço que ainda me segurava, eu varri as pernas debaixo dele, fazendo com que Negan caísse no chão, a arma caindo de sua mão e Lucille rolando pelo piso. Antes que ele pudesse se orientar eu estava montada em seu peito, com seus braços presos sob os meus joelhos e meu antebraço apoiado em seu pescoço.

- Você perdeu a porra da sua mente!? - ele gritou, raivoso. Eu podia sentir seus músculos começando a ficar tensos, e eu sabia que ele ia tentar me derrubar, então eu estiquei minha mão livre para trás, alcançando entre as pernas dele e agarrando-o com segurança.

- Shhh, baby - eu disse a ele em uma voz sedosa, sorrindo enquanto minha mão se apertava ao redor dele ligeiramente - Eu acho melhor você não tentar nada.

Seus olhos normalmente castanhos agora eram tão negros quanto carvão enquanto ele olhava para mim.

- Como diabos você fez isso?

Eu me inclinei um pouco mais perto, mas fora do alcance de sua testa, caso ele tentasse me dar uma cabeçada.

- Você nunca tentou me conhecer, Negan. A verdadeira eu. Se você tivesse tentado uma conversa decente comigo, eu teria dito a você sobre as aulas de defesa pessoal e tiro que Rick me deu.

As sobrancelhas de Negan subiram um pouco enquanto eu continuava.

- Mas você nunca quis me conhecer. Você só queria uma boneca inflável para ficar sentada o dia todo e suprir esse ego ridículo - eu murmurei enquanto lambia meus lábios secos - Você pode não ter aprendido alguma coisa sobre mim, mas cheguei a conhecê-lo um pouquinho - eu argumentei quando minha mão começou a acariciá-lo através de suas calças.

Suas narinas se alargaram enquanto minha mão se movia para frente e para trás, e eu podia senti-lo ficando duro.

- Você é doente - eu disse com desgosto, não entendendo como sua mente conseguia pensar em sexo numa situação dessas.

- É você quem está esfregando meu pau - ele retrucou, mas sua respiração estava acelerando, traindo-o.

- Tem razão - eu admiti, minha mão continuando a se mover - Mas agora, eu seguro sua arma favorita na minha mão.

Sua boca caiu em surpresa quando eu sorri para ele.

- Pense bem no que você vai fazer - ele disse, a ameaça velada em seu tom, e eu poderia dizer que ele estava com medo de eu esmagá-lo na minha mão.

- Ou o quê? Sou eu quem está com vantagem aqui - disse, apertando-o mais para dar ênfase, e Negan olhou de relance para seu bastão jogado no chão.

Para minha sorte, minha arma estava próxima a ela. Eu o apertei com força e ele se contorceu embaixo de mim, urrando de dor e praguejando. Eu pulei de cima dele e peguei a arma e o bastão, e ele continuou no chão, segurando entre as pernas.

- Que porra! - ele murmurou, mas pena estava longe do sentimento que eu estava sentindo. Os caminhantes arranhando as paredes do lado de fora eram minha preocupação.

Quanto tempo levaria para que eu conseguisse sair daqui? Eu conseguiria sair daqui?

Negan ainda estava encolhido no chão e eu sabia que ele só estava tentando pensar em algo para virar o jogo, mas eu não ia dar isso a ele.

- Levanta, chega de drama - eu cutuquei ele com o taco - Nem foi pra tudo isso.

Ele não se mexeu, então eu atirei no chão, próximo à ele, levantado lascas do chão de madeira. Ele se esquivou, surpreso.

- Você está querendo nos matar? - ele gritou, olhando para as sombras dos caminhantes atrás das persianas da janela, irados com o barulho.

- Morrer hoje não está no meus planos, já você, está brincando com a sorte.

- Porra, eu gostava mais de você quando não tinha uma arma na mão... e quando brincava meu pau ao invés de esmagar minhas bolas - ele riu, se apoiando no sofá para ficar de pé.

- Senta ali, ou o próximo vai ser na sua perna - eu apontei com a arma para o sofá e ele se jogou com um gemido, totalmente confortável. Eu odiava o quão seguro ele parecia ser mesmo em situações assim.

- Você fica sexy pra caralho com meu bebê nas mãos, mas vou ter que pedir que me devolva ela - ele estendeu a mão enluvada, esperando que eu entregasse o bastão.

- Você não sabe mesmo calar a boca, não é?

- Da onde surgiu essa Ellie badass, hein? Ela sempre esteve dentro de você ou isso tudo é tesão acumulado?

Eu não respondi, isso era uma guerra que eu não precisava ganhar. Eu me encostei ao lado da janela, olhando a multidão de caminhantes por entre as persianas.

Meu Deus. Eu jamais conseguiria sair daqui.

- Não está falando, hein? Meio infantil, você não acha, Ellie? - ele zombou, seus dentes arreganhados e meu nome falado como uma palavra de maldição.

Ele abriu a jaqueta e tirou, jogando-a ao seu lado.

- Estou curioso em um ponto nessa história. O que você prometeu a Dwight pra ele me trair assim? Um beijo?

- Não é preciso fazer muito para seus homens te trair - eu lembrei de Simon, mas não disse a ele. Poderia esfregar na cara dele que o salvei, mas isso só mostraria o quão idiota eu era. Ele deu os ombros.

- Os fracos sempre abandonam a batalha antes, e sabe o lado bom? Somente os fortes permanecem, e é com eles que se ganha a guerra.

- Isso já acabou, você não percebeu ainda? - eu o encarei, cansada - Isso é tão claro de se ver como a sua arrogância sem cérebro. Você controla quase todas as partes deste jogo, quase nada acontece sem a sua palavra, mas no final do dia, o que você tem?

O sorriso de Negan começou a desaparecer e parecia que ele estava trabalhando para mantê-lo no lugar, mas era difícil dizer. Ele olhou para mim, sua atenção em alerta enquanto ouvia silenciosamente o que eu tinha a dizer.

- Você não tem nada - continuei - Nada e nem ninguém. Vive assim, louco por controle, rodeado de pessoas, mas totalmente solitário.

Ele não disse nada por um momento, seus dedos esfregando seus lábios, segurando o peso que eu esperava que minhas palavras tivesse sobre ele. Eu, por outro lado, me senti mais leve. A raiva se foi, tomada pela verdadeira pena.

- Eu tenho tudo.

Neste momento, foi fácil ver o quão totalmente desprovido de emoção e integridade humana Negan realmente era. Ele trabalhou tão duro para tomar e levar o que era dos outros e no final ele ficou com absolutamente nada. Com quanto mais ele ficava, menos ele tinha.

- Não, você mata e destrói tudo o que toca.

Ele ficou de pé num impulso só e eu apontei a arma para ele, mas Negan levantou as mãos em sinal de rendição.

- Relaxa, só vou pegar uma bebida.

Ele caminhou para a extremidade oposta de mim e começou a abrir os armários embutidos e tirou uma garrafa sem rótulo, com um líquido escuro. Ele se serviu e voltou a sentar no sofá, uma perna descansando sobre o joelho.

- Eu mato as pessoas antes que elas me matem.

A maneira como ele respondeu era tão blasé que era quase desconcertante. Negan estava relaxado, e eu assisti enquanto a tensão deixava seus ombros enquanto ele girava o líquido âmbar em seu copo. O assassinato era um assunto tão casual quanto o clima.

O apocalipse traçara uma linha entre os fracos e os fortes, os medrosos e os corajosos. Alguns conseguiram subir e sobreviver. Outros estavam rosnando como cadáveres famintos por carne humana. Eu estava pronta para lutar até o meu último suspiro, e Negan também, mas parecia que ele não conseguia entender que esse não era o caminho.

- Ainda dá tempo de fazer tudo diferente. Eu posso te ajudar. Você pode se salvar.

Negan olhou para longe, um sorriso nervoso mostrando suas covinhas, fazendo-o parecer mais humano do que nunca. Era como se eu pudesse ver o homem que Negan costumava ser antes que os mortos se levantassem e ele se tornasse o líder todo poderoso dos Salvadores, governador de todas as terras.

- Não há mais salvação, Ellie.

Comecei a entender a situação um pouco melhor. Ele era um prisioneiro assim como eu, eu vi isso agora, e uma pequena parte dele, talvez alguém que ele deveria ter sido antes, foi enterrado no fundo, empurrado para baixo sob as profundezas sombrias de sua cruel insanidade para mascarar suas inseguranças.

Não fique mole, eu avisei a mim mesma. Eu não podia deixar essas emoções confusas e injustificadas obscurecerem meu julgamento.

- Você tinha a mim - eu disse baixinho, me odiando por estar deixando meus sentimentos me balançar - Eu teria feito qualquer coisa para as coisas não terem chegado a esse ponto. Ele ficou de pé e se encostou próximo a mim.

Com o passar dos minutos, nós lutamos um com o outro em uma batalha silenciosa de vontades. Quem iria desviar o olhar primeiro? Quem seria o único a recuar? Eu quase fiz, me cansando da situação, quando ele deixou o copo e deu um passo para mim. Ele colocou uma mão na parede ao lado da minha cabeça, inclinando-se para ficar perto de mim e senti o cheiro do álcool.

- Você também tinha a mim - ele finalmente disse. Sua voz era profunda e suave - Mas decidiu me trair.

Ele se afastou e eu me apoiei contra a parede - tentando parecer calma e despreocupada, como se ser emboscada por ele não passasse de um pequeno inconveniente - mas percebi que isso me fez parecer mais baixo do que ele é.

Seus olhos estavam entediados em mim e eu me vejo impotente começar a caminhar em direção a ele, como se atraída por um fio invisível; o puxão velho e irresistível, como se fosse meu centro de gravidade. 

- Sabe quando eu soube que amava Daryl? - eu perguntei, calma e composta, mesmo que por dentro estivesse sentindo qualquer coisa, exceto calma - Foi quando eu o vi fazer as piores coisas do mundo, mas nunca tive medo dele me machucar.

Ele pareceu atordoado, mas também preocupado e talvez um pouco desgostoso. Eu não podia culpá-lo.

- Por que você está me contando isso?

- Porque eu já tive medo de você, e não foi só uma vez... eu estou com medo agora.

- Você está com o caipira agora, então? Você para de amar as pessoas rápido, hein? - ele provocou, tentando mudar o foco.

Eu lembrei da última briga que tive com Daryl e o quão distante ele parecia estar, mas não podia culpá-lo. Tudo estava uma bagunça.

- Você tentou, não é? - Negan indagou, me observando sem sequer piscar uma vez - Tentou voltar com ele, tentou fazer ser como antes, tentou pertencer, mas não conseguiu.

Eu abri a boca, mas nada saiu. Eu odiava como ele me lia e como ele estava certo. Nada era como antes. Daryl não era mais o mesmo, nem Rick... nem eu.

- Você não pertence à aquele lugar ou aquelas pessoas. Sua casa é aqui, seu lugar é aqui, comigo.

Eu quase ri com isso; ele ainda usava a mesma tática para tentar me manipular. Mas uma parte de mim queria que fosse verdade.

- Você é tão falso - eu murmurei com desgosto, empurrando Lucille em seu peito, entregando-a a ele agora que tinha certeza que ele não estava com raiva.

- Estou sendo sincero. Nós saímos daqui e você pode voltar a ficar aqui...

- Obrigado pelo convite, mas não - eu o cortei - Eu tenho um homem de verdade me esperando em casa.

Ele riu, mas vi sua mandíbula se apertar de raiva. Ele correu os olhos ao redor, finalmente olhando para encontrar meu olhar.

- Por que você acha que eu escolhi você, de todos os outros, para ter de volta? - ele perguntou, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado.

- Para me torturar - eu disse com naturalidade - Essa foi a sua intenção e nada mais.

Ele riu um pouco, sua respiração um cobertor macio no meu rosto, e eu estava atenta ao fato de quão perto ele estava de mim ainda; quão grande ele de repente parecia.

- Não foi por isso, mas de qualquer jeito é sempre divertido quebrar os determinados. Torna a derrota deles muito mais prazerosa. A espera pode valer a pena se você escolher a pessoa certa.

- Vítima - eu corrigi, a ira aumentando novamente.

- Suas palavras - ele revirou os olhos - Eu quis você por que gostava do que tínhamos.

- Eu deveria me sentir lisonjeada? - eu perguntei, levantando uma sobrancelha em desprezo - Ou Rachel não aguentou seus surtos e desistiu?

Por um momento ele só me encarou com os olhos mais cansados que eu já vi. Me peguei sentindo falta desse olhar e das coisas boas e momentos que tivemos, mas como sempre, no segundo seguinte ele me presenteou com sua falta de caráter.

- Não, ela ainda está lá, usando aqueles vestidos apertados e me dando tudo o que eu quero - ele zombou, a fachada de porco sexista caindo de volta no lugar, um sorriso malicioso enfeitando seu rosto.

- Você leu a carta que eu deixei? - eu perguntei e cruzei os braços, apertando-os contra meu corpo.

- Aquela que você deixou antes de fugir daqui? - ele fez uma careta e colocou a mão enluvada sobre o peito - Ela realmente tocou meu coração. Você tem uma veia dramática fodida, Ellie.

- Eu estava certa? - eu continuei e seus ombros se contraíram minimamente com a menção de Lucille. É claro que eu estava certa.

Ele se sentou à mesa e apontou para mim fazer o mesmo. Eu estava cansada demais e aceitei, já sabendo que ele tinha algo a falar.

Um sorriso presunçoso cruzou o rosto de Negan e eu imediatamente me senti desconfortável: não podia significar nada de bom. Ele estendeu a mão por cima da mesa, derramando mais bebida para si mesmo antes de deslizar o copo para mim e ficar com a garrafa.

- Vamos jogar "Eu Nunca" - Negan sugeriu, girando o líquido ao redor da garrafa antes de finalmente colocá-la na mesa.

- O que você é? - eu arquei as sobrancelhas, pegando o copo e segurando-o com firmeza nas mãos - Uma menina de doze anos em sua primeira festa do pijama?

- Nós vamos ficar um bom tempo aqui, porque não se divertir? - ele piscou para mim - Você não quer respostas? Brinque comigo.

- Ok, eu começo - eu avisei - Eu nunca fui imatura o suficiente para iniciar um jogo de eu nunca.

Eu acenei com a cabeça na direção da garrafa de Negan e ele a pegou, bebendo.

- Eu nunca fui abandonado por um cara chamado Daryl.

Eu poderia falar que não foi isso que aconteceu já que agora sabia da verdade, mas não devia satisfações, então só bebi. Meus olhos se estreitaram, encarando Negan, mas logo olhei na direção do bastão ainda situado ao lado dele.

- Eu nunca dei o nome da minha mulher morta para um taco de beisebol.

Ele não disse nem uma palavra quando pegou a garrafa e engoliu o líquido num gole só, confirmando o que eu já sabia.

- Uau, Negan, que romântico! - eu provoquei, sabendo que estava atingindo um nervo - Alguns homens compram para suas mulheres um carro ou flores mesmo. Mas não, você vai e nomeia sua arma do crime com o nome dela? Ela deve estar lisonjeada.

Ele se levantou de súbito e eu inconscientemente me encolhi, sabendo que talvez tivesse ido longe demais em zombar de alguém morto só para atingi-lo.

Um zumbido de um rádio de comunicação encheu o lugar e tirou o foco de Negan, que praticamente voou para onde sua jaqueta estava.

- Aqui é Lucca, de dentro do... chefe, está... escuta? - a voz estava fraca, arranhada e cortada. Negan apertou o botão e para responder, mas o rádio se silenciou e morreu.

- Puta que pariu! Filho da puta... - ele apertou diversas vezes, passando códigos e tentando se comunicar, até eu interferir.

- Acabou a bateria, você não percebeu?

Ele jogou o rádio em cima da mesa e ele bateu contra a parede, caindo no chão. O barulho dos caminhantes ainda era infernal e eu não tinha ideia de como ia sair daqui sem morrer.

- Senta aqui, não adianta ficar louco e fazer barulho - eu disse, apontando com o queixo para a cadeira.

Em vez de se sentar à minha frente como antes, ele sentou na cadeira ao meu lado. Eu prendi a respiração, como se respirar o cheiro dele me causasse dano.

- Agora, a última pergunta - ele disse quando colocou o braço atrás da minha cadeira - Agora, essa é a sua história e você tem que ser a única a escrever isso. Daqui a um ano, dois, talvez dez ou na porra do seu leito de morte quando você estiver lembrando de todas as merdas que levaram a isso, o que você quer que sua história diga?

Eu abri minha boca, sem saber como responder. Eu não estava pronta para uma pergunta tão carregada quanto esta.

- Eu quero dizer que eu fiz tudo o que podia para lutar e sobreviver. Não apenas agora com você, com essa guerra, mas sobre a coisa toda. Tudo isso - eu respondi com sinceridade - Eu não vou ser uma daquelas pessoas que desistiram. Eu não posso ser essa pessoa. Eu já passei por tantas coisas, perdi tanto antes... - eu parei, tendo dito o suficiente a esse respeito - O ponto é que não tenho mais nada a fazer senão lutar. Sei que tudo é temporário, não importa o quanto eu queira que seja de outra forma. Eu lutarei e sobreviverei seja com você ou contra o que quer que esteja por aí. Isso é tudo que posso fazer.

Linhas profundas se formaram em seu rosto enquanto ele me estudava e processava minhas palavras. Havia pequena carranca empurrando sua boca, mas seus olhos pareciam pensativos. Ele trouxe seu rosto ainda mais perto, seu cheiro familiar me fazendo relaxar involuntariamente.

- Eu fui tão ruim assim pra você abandonar tudo e se virar contra mim? - ele parecia tão sincero e disposto a realmente entender tudo. Eu ri pelo nariz, como ele ainda tinha dúvidas?

- Você sabe que foi.

Ele desviou o olhar de mim quando sorriu, mas era tão pouco, apenas o entendimento de que ele não era bom.

- Então é aqui que acaba? - ele perguntou, sem desviar. O lugar começou a se encolher e ficou difícil respirar. Meu peito pesou e eu me senti esmagada.

Era aqui que tudo acabava, independente se saíssemos vivos ou não.

- Sim.

- Alguma coisa sempre vai me manter perto de você, mesmo que não estejamos juntos - agora sua voz era levemente contemplativa; era impossível dizer se ele estava sendo sincero ou não - Você ainda me ama?

Me senti tonta, entorpecida, pesando
como chumbo. O único som era o grunhido dos caminhantes e meu coração batendo feito louco.

- Você me amou algum dia? - eu devolvi a pergunta.

- Não.

Foi curto e direto, como se ele tivesse ensaiado isso mil vezes, e doeu. Doeu como mil adagas, mas a essa altura dos acontecimentos, eu já estava acostumada com a dor.

Ele nunca diria que gostava de mim. Eu não sei por que eu insistia nisso, porque ainda tentava, mas aqui estava eu, a Ellie idiota. Eu tinha pena dele, porque Negan nunca seria capaz de gostar ou amar alguém de novo por que tinha medo.

- Você é tão covarde. Você se acha corajoso, mas é um covarde - eu soltei todo o ar dos meus pulmões. Eu deslizei a cadeira para trás e me levantei, saindo de perto dele.

Do que valia eu estar tentando tanto para que ele não fosse morto uma vez que ele não tinha coragem de assumir um sentimento, por menor que fosse?

- Você pode me matar ou me prender quando sairmos daqui, mas Rick não vai parar, porque ele não está fazendo isso só para o povo de Alexandria. Ele está fazendo para as próximas pessoas, por quem ainda nem nasceu. Ele vai derrotar você e dar a chance todos viverem em um mundo sem sua loucura.

Ele ergueu as sobrancelhas escuras, como se eu estivesse surtando por nada.

- Merda, foram o quê? Menos de duas semanas e você já está falando como seu irmão. A outra Ellie era mais divertida.

- Ela era. Mas ela nunca mais vai voltar. Essa é a verdadeira Ellie.

Eu me encostei contra a parede, o mais longe que pude dele, meus nervos vibrando debaixo da minha pele. Negan conseguia sugar toda minha energia e me deixar vazia.

- Daryl deve estar feliz, tem o brinquedo dele de volta - ele cantarolou quando se levantou com Lucille, caminhando pelo espaço - Será que você troca o nome dele pelo meu enquanto vocês fodem?

- Você chamava Lucille enquanto transava com Sherry? - eu devolvi, com mais raiva do que nunca, e ele deu os ombros.

- Nunca esquecemos quem amamos.

Eu preferia que ele não tivesse dito nada do que ouvir isso.

- Daryl é o homem que você nunca vai ser. Você é só uma casca vazia vagando nesse mundo de merda, igual a esses mortos vivos.

Eu tentei olhar para qualquer lugar, exceto para ele. O desespero começou a me trair quando pensei em Rick e Daryl, e se os outros estavam bem. Eu esperava que eles não tivessem voltado para me procurar por que poderiam ter morrido no meio disso.

Eu estava tão perdida em meus pensamentos, mas ganhei consciência, pisquei algumas vezes e olhei para frente só para encontrar os olhos de Negan já fixados em mim. Ele estava encostado na parede, seu bastão obedientemente ao seu lado.

- No que estava pensando?

- Eu estava pensando quando você seria arrastado para o inferno, onde você pertence.

- Não, você está se perguntando se eles vêm te resgatar - ele afirmou, seus olhos espalhando fogo dentro da minha mente.

Eu não respondi. Por que eu deveria? Mil coisas fervilhavam em minha cabeça, me deixando mais nervosa do que estar aqui, trancada e rodeada de caminhantes.

- Nós vamos sair daqui e vamos entrar no Santuário de novo - ele disse de repente, num estalo e pegou a jaqueta de cima do sofá.

- O quê? - eu perguntei quando ele desembainhou a faca do cinto - Não tem como sair.

- Sempre há uma forma. Vai dizer que nunca fez o lance de tripas e sangue para se camuflar?

Eu já tinha feito, mas era muito arriscado. Mas mais arriscado era ficar aqui por Deus sabe lá o tempo.

- Vamos lá. Como você quer fazer isso?

.

Dez minutos depois eu e Negan conseguimos enfiar uma faca na cabeça de um caminhante e puxá-lo pela fresta da porta.

Toda a movimentação e adrenalina fez minha visão turvar e eu deslizei contra a parede, me sentando com tontura.

- Agora é só abrir essa coisinha linda e se lambuzar - ele cantarolou, empurrando a cabeça caminhante com o pé e me olhou - Você tá bem? Não vai me dizer que tem nojo a essa altura do campeonato?

Eu engoli, esperando o enjoo e a tontura acalmarem. Uma mão apareceu em meu rosto, Negan estendendo-a para me ajudar a levantar. Eu respirei fundo antes de pegar e ele me puxou para cima. Eu não consegui desviar quando assim como eu subi, o vômito também, e eu vomitei contra seu peito, manchando sua jaqueta e escorrendo pelo couro.

- Merda - ele xingou e sua mão envolveu meu braço - Você tá bem?

- Não - eu não queria, mas estava choramingando, minhas pernas tremendo com um mal estar que eu jamais senti.

Eu olhei para seu rosto e sua boca se mexendo foi a última coisa que eu vi antes de apagar.




Um cheiro forte de álcool invadiu minhas narinas e eu empurrei a garrafa de bebida do meu rosto quando abri os olhos, vendo o rosto de Negan sobre o meu.

- Devagar, você desmaiou - ele avisou quando eu me sentei no sofá. Me preparei para sentir tontura de novo, mas ela não veio - Como se sente? - ele tocou meu rosto e eu empurrei sua mão.

- Não toca em mim.

- Quando foi a última vez que você comeu? - ele ainda estava agachado na minha frente, sem a jaqueta cheia de vômito e eu olhei para o caminhante ainda no mesmo lugar.

Eu não tinha a mínima vontade de falar, me sentindo ainda aérea demais. Negan esticou o braço e pegou a pequena pochete que eu carregava comigo e não estava mais atada a minha cintura.

- É isso que estão te dando pra comer? Frutas secas?

Ele estava com a embalagem nas mãos, olhando indignado.

- Cala a boca - eu resmunguei e me esgueirei para me levantar. Minha arma estava ao lado de sua jaqueta cheia de vômito e eu passei por elas, indo em direção a onde só podia ser o banheiro.

Eu abri os armários e mexi até encontrar um enxaguante bucal vencido há dois anos. Quando terminei e cuspi tudo na pia e levantei a cabeça, vi pelo espelho Negan atrás de mim, bloqueando a porta.

Sua expressão irritada fez o ar pesar instantaneamente. Seu olhar demorou alguns momentos em mim, até que ele finalmente falou

- Como você está?

Eu fiquei parada por um momento com as mãos apoiadas na pia antes de balançar a cabeça.

- Não importa - eu virei de frente para passar por ele, mas Negan não saiu.

- Você quer agir como uma criança, aja, mas não agora - ele parou quando estava praticamente pressionando seu corpo contra o meu. Eu dei um passo para trás, colocando espaço entre nós, até bater contra a pia.

- Porque se importa? Vamos estar mortos em alguns minutos ou vamos morrer nessa maldita guerra. Então, me diga, o que te importa se eu estou bem ou não?

Ele inclinou a cabeça para o lado, claramente não apreciando minha resposta. Ele se aproximou de mim, deixando apenas alguns centímetros entre nós dois. Ele se erguia sobre mim, mas eu não ia ser intimidada por ele. Negan era muito bom em entrar no espaço pessoal das pessoas e as fazer se sentir desconfortáveis e ele já fez isso demais comigo. Não mais.

Houve um silêncio entre nós dois enquanto ele assentia com a cabeça e lambia seu lábio inferior antes de mordê-lo com os dentes.

- Você tem razão - ele me deu um último olhar antes de me dar as costas. Eu fui atrás, mas parei quando ele pegou minha arma. Eu travei, achando que ele iria me ameaçar, mas ele me entregou - Vá em frente, me mate. Não é isso que você quer?

Ele empurrou a arma no meu peito e eu a peguei, ainda atordoada, não sabendo onde ele queria chegar com isso, e ele a posicionou para que estivesse contra seu peito.

- Faça. Você tem a chance de por um fim em tudo isso.

- Eu não posso - eu disse, mais para mim mesmo do que para ele. As palavras o atingiram.

- Porque? - ele estava suando, os olhos acesos como duas fogueiras - O que te impede?

- Porque eu sei que você pode mudar - não desviei os olhos dele quando disse isso. Queria que ele visse que eu acreditava nisso, e só dependia dele.

- Eu não quero mudar.

Assim que ele disse isso, senti uma dor atacar meu coração. Eu tentei manter minhas emoções sob controle.

- Porque?

- Porque? - ele riu e eu podia ver a raiva em seus olhos - Se eu fazer um acordo com Rick, você volta? Deixa o caipira e volta para o Santuário e para mim?

Eu não respondi, não consegui pensar em nada, e Negan foi em frente.

- Não, você não volta. Então se você não me ama e eu não te amo, não há porque ter peso entre nós - ele ia virar, mas eu segurei seu braço.

- Se você não me ama, por que me quer de volta?

- Porque você me ama, e acho que podemos construir algo com isso - sua voz era suave. Seus olhos pareciam tristes e assombrados, parecia tão diferente que eu quase podia acreditar que era outra pessoa ali.

Minha mente me dizia para correr, mas meu coração se agarrava às palavras. De repente, eu estava voltando para onde eu havia começado. Eu olho para ele. Na verdade, sinto como se olhasse através dele. Ele parecia um pouco apavorado. Ele correu uma mão de couro através de seus cabelos escuros.

Eu soltei uma respiração profunda. Eu me sentia encurralada. Presa. Como se estivesse cercada. Quando o silêncio foi demais, limpei minha garganta.

- E o que isso significa?

Sua garganta se moveu enquanto ele engolia.

- Eu não sei. Achei que pudéssemos descobrir juntos.

Uma pergunta que não posso ignorar se choca em mim - como uma onda - um respingo de água fria me trazendo para a superfície novamente.

- Isso é um acordo? - eu perguntei e ele maneou a cabeça.

- Sim, eu vou tentar um acordo, se você ficar.

Aquela voz reprimida e assustada dentro de mim é tão alta que eu só consigo ouvi-la.

Ele está mentindo.

Ele sempre mentiu, porque estaria falando a verdade agora? Justo agora?

- Eu queria muito acreditar em você - eu disse por fim.

Ele piscou, olhou para mim e o mundo inteiro pareceu prender a respiração. Ele estava tão perto de mim que eu podia sentir o calor do seu corpo e sua respiração quente na minha pele.

- Então porque não acredita?

Eu estremeci. Eu não sei por que, eu me sentia torcida por dentro, como se todas as minhas emoções tivessem sido agrupadas e esmagadas em meu coração. Essas... essas emoções, a batida do meu coração, ficavam cada vez mais altas à medida que eu olhava mais e mais para seu rosto em busca que alguma trapaça. Mas não havia nada.

- Porque você já me enganou antes... e eu não consigo confiar em você.

- Eu sei - disse ele, e senti um peso afundar dentro de mim - Mas eu estou falando a verdade agora. Não tenho como provar, mas estou.

E se a chance de pôr um fim nisso, sem mais mortes, estivesse nas minhas mãos e eu estivesse deixando passar por medo?

- Eu vou com você.

Sua expressão suavizou, aquelas linhas profundas que pareciam esculpidas em sua testa se desvaneceram. As rugas ao redor dos olhos desapareceram, mas ainda havia círculos escuros sob os olhos, talvez círculos duplos; sua exaustão era evidente. Ele também queria por um fim nisso.

Eu não me esquivei quando ele pegou minha mão e tirou a arma. Então ele segurou as duas, acariciando com os polegares.

- Eu preciso te falar uma coisa - eu limpei minha garganta para continuar - Simon tentou te matar.

Seus movimentos pararam e ele ficou rígido.

- Do que você tá falando?

- Você estava tentando escapar e se esconder, e ele estava logo atrás de você, mirando em você. Eu atirei no braço dele.

Ele inalou bruscamente, e eu soltei nossas mãos. Ele deu um passo para trás, desviando o olhar.

- Você não pode confiar nele.

Ele assentiu antes de me olhar e fechar o espaço entre nós. Ele deslizou um braço ao redor da minha cintura, me segurando perto dele, então usou a outra mão para segurar meu rosto.
Seu dedo calejado esfregou na minha bochecha, para frente e para trás, lento e macio.

- Posso beijar você?

- O q-que... - eu gaguejei, depois ri - Que tipo de pergunta é essa? Depois do que eu acabei de falar...

Ele se inclinou para mais perto de mim, seus lábios à uma respiração da minha, seu braço me mantendo presa contra o peito. Ele me sufocou com seus lábios instantaneamente, em um beijo quente e desesperado. O mundo ruindo ao nosso redor nem parecia existir enquanto seus lábios se moviam nos meus. Eu gemi em sua boca enquanto ele me beijava mais forte, mais profundo, sua língua entre meus lábios.

Sua mão na minha bochecha deslizou para a base do meu pescoço, e ele me guiava. Os pequenos ruídos que ele soltava me faziam esquecer tudo... o mundo inteiro, e tudo isso estava me assombrando.

- Se eu morrer, a última coisa que eu quero sentir é você - ele disse contra meus lábios e pressionou sua boca na minha de novo, então quebrou o beijo abruptamente, depois se afastou de mim.

Eu engoli, ainda parada como ele me deixou. Vi Negan caminhar até o cadáver no chão e abrir sua barriga com a faca. Eu agachei ao lado dele, engolindo o enjoo e o nojo de ver as tripas e órgãos em decomposição.

Ele limpou a garganta, olhou para mim, esfregou a nuca e soltou um suspiro. Ele parecia ansioso agora, nervoso, e definitivamente não era o  que eu queria.

- Se isso não funcionar... se algo der errado, eu quero que você fuja - ele disse enquanto limpava a faca na roupa do caminhante.

Ele olhou por cima do ombro para mim, mas eu não respondi. Eu apenas balancei minha cabeça, depois empurrei meu cabelo suado atrás da minha orelha. Eu jamais poderia fazer isso.

- Ellie - ele me chamou, exigindo resposta.

- Você me deixaria para trás? - eu olhei bem dentro de seus olhos e não houve trepidações quando ele respondeu.

- Não.

- Se você acha que eu vou deixar você para trás para salvar minha pele caso algo der errado, você não me conhece - eu disse antes de começar a passar o sangue em minhas roupas.

Eu não queria ser sentimental agora, queria focar em nós dois saindo daqui, mas era impossível. Enquanto eu o olhava fazer o mesmo, me perguntava se ele estava mentindo tão bem que eu não estava vendo ou se finalmente algo o iluminou e fez ver o lado certo disso.

Mas eu também pensei em Daryl. Era ele quem eu amava. Sempre ouvi que era impossível amar duas pessoas, mas aqui estava eu, dividida.




Negan apertou minha mão na dele quando os caminhantes nos cercaram, nosso cheiro encoberto pelo sangue. Eles esbarravam em nós enquanto caminhávamos sem alarde, tentando chegar a porta de entrada.

Fuja! Minha mente gritou, tão alto que eu tremi. Negan apertou mais minha mão.

- Fique calma - ele sussurrou tão baixo que eu mal ouvi.

Eu não podia fazer isso. Não podia arriscar tudo pelas palavras de um homem que não fazia nada além de mentir e manipular. E se ele realmente tivesse mudado, ele faria um acordo com ou sem eu aqui.

- Eu não posso - eu disse enquanto tirava minha mão de seu aperto - Sinto muito... me desculpe.

Eu jamais esqueceria aquele olhar. A tristeza esmagadora de perceber que tinha sido traído. Era como se eu tivesse o apunhalado nas costas, e de certa forma foi o que eu fiz.

Seus olhos se arregalaram, e ele tentou me puxar, mas eu ja tinha dado um passo para trás, mergulhando no mar de caminhantes.

.

O que acharam da decisão da Ellie?

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