69 - Promete que não vai fazer nenhuma merda?
HENRIQUE
Saio do quarto completamente desnorteado, sem fazer ideia do que fazer. Minha vontade era de voltar ao Brasil, mas não seria nada seguro ir ao aeroporto em uma hora dessas. Juro que se fosse possível, mergulhava meu corpo no chão, e pedia moradia temporária para Hades. Mas nada nessa vida é perfeito.
E quando digo nada, é nada mesmo.
Sempre tomo no cu quando se trata de casamentos, e, ao que tudo indica, quatro anos é o tempo limite para qualquer tipo de relacionamento para mim. Não queria, mas me acostumaria com a ideia. Sei que vacilei, mas era para tanto?! Estava disposto a perdoar a porra do beijo, mas encontrar Lara nua no nosso quarto foi demais. Pior ainda foi Amora tentando negar tudo aquilo, mesmo com provas de que ela quem fez.
Para piorar, a filha da puta arquitetou o encontro enquanto estava comigo, o que não faz lá muito sentido, mas nem me importo mais. A mentira tem perna curta, e, ao que tudo indica, minha queridíssima esposa aprendeu isso da pior forma possível: levando a porra de um flagra.
Sinto uma mão tocando meu ombro, o que me assusta, pois estou completamente imerso em meus pensamentos. Pedi ao universo que não fosse Amora, pois, para ser sincero, não estava a fim de demonstrar fraqueza em sua frente. E sei que se vê-la agora, não segurarei as lágrimas.
A cara de "bad boy" sempre foi um bom disfarce, pena que não consigo segurá-la por muito tempo.
Viro o corpo lentamente e encontro uma Daniele completamente esbaforida.
- Você não precisa andar tão rápido, Henri! - fala, esbaforida.
Encaro minha amiga, sem conseguir esconder as lágrimas nos olhos. Ela não fala nada, apenas me dá um abraço. Depois de alguns minutos de silêncio, ela se afasta, segura meus ombros e olha diretamente no meu rosto.
- Já pensou que, da mesma forma que inicialmente sua relação com Ingrid aparentava ser algo que não era, pode estar acontecendo o mesmo com Amora?
Dou uma risada debochada e reviro os olhos.
- A mulher estava nua na cama, esperando por Amora. Tem como ter duvidas do que estava prestes a acontecer? - desvencilho meu corpo de seus toques.
- E ela flagrou uma mensagem de Ingrid te chamando de gostoso no seu celular. Nem tudo é o que parece ser - dá de ombros e faz um coque no topo da cabeça. A correria, unida ao calor do lugar, tinham feito minha amiga virar uma poça de suor.
- O que você está querendo dizer com isso? Que devo perdoa-la? Caralho, Daniele! Tinha a porra de uma loira pelada na minha cama! Eu acredito no que meus olhos veem!
- Não estou falando isso... é que está muito estranho, não acha? - arqueia a sobrancelha - Se ela estava com você, e passaria o resto do dia de fornicação, não tinha porquê convidar a Lara.
Até que aquilo fazia sentido. Tinha algo naquilo que não estava se encaixando, mas, com o estresse que estava, não queria pensar minimamente que fosse naquilo. Como já disse, a única coisa que me enchia os olhos no momento era simplesmente sumir. Morrer. Inclusive, estava cogitando muito a possibilidade de me jogar pela janela.
- E o que você quer que eu faça, Daniele? - sento-me no chão, sem conseguir segurar as lágrimas - Ela já tinha me traído com essa Lara antes, não seria surpreendente acontecer de novo.
- Você precisa conversar com Amora, Henrique. Antes ela achava que estava sendo chumbo trocado, mas agora ela sabia a verdade, portanto, não fazia sentido algum te trair. O relacionamento de vocês estava indo bem - senta ao meu lado -, ela não jogaria tudo fora dessa forma.
Respiro fundo e jogo a cabeça para trás.
- Não estou com cabeça para isso agora e - encaro minha amiga - sinceramente, preferia ficar sozinho.
Ela dá um beijo em minha bochecha e sorri de canto.
- Compreendo sua vontade... apenas quero te fazer um pedido.
- Peça - arqueio a sobrancelha, e enxugo minha bochecha molhada.
- Não aja impulsivamente. Quer dizer, não faça nada do que possa se arrepender depois. Toda história tem dois lados, e, da mesma forma que Amora te ouviu, você precisa ouvi-la.
- É, mas olha o que ela me fez antes de ouvir... - falo, mas sou interrompido.
- E é exatamente por isso que você precisa ouvi-la antes de tomar qualquer tipo de decisão precipitada.
Encaro seus olhos castanhos em silêncio, sem saber ao certo como lhe responder sobre aquilo.
- Me promete que não vai fazer nenhuma merda? - pede, quase ordenando.
Fico em silêncio novamente.
- Promete? -pergunta, em tom áspero.
Encaro seus olhos por mais alguns segundos e assinto. Agiria com racionalidade, não por Amora, mas sim por Daniele.
- Prometo.
- Obrigada! - dá um beijo estalado em minha bochecha e levanta - Quero que conversem ainda hoje, ok?
- Não força a barra! - reviro os olhos.
- Está bem... E você trate de deixar essas malas no meu quarto. Nem fodendo que você vai sair desse país sem as coisas estarem acertadas.
Concordo e dou de ombros. A baixinha dá de costas e vai andando rapidamente em direção aos quartos novamente. Ainda bem, pois tudo que precisava era ficar sozinho.
Infelizmente, depois de alguns minutos a sós e chorando, minha paz é interrompido por ninguém mais, ninguém menos, que Ingrid. A filha da puta parecia a porra de uma assombração. Depois de Amora, ela era a última pessoa que queria ver. A situação estava fodidamente péssima, e nosso passado servia de gatilho, piorando tudo.
Ela me encara ali sentado, escorrega até o chão e dá um sorriso compassivo.
- Podemos conversar?
Beleza. Até topei conversar com Ingrid, mas, sinceramente, não conseguia ouvir sua voz. Na verdade, não estava a fim de conversar com ninguém.
Ela senta ao meu lado, e encara meu rosto. Reparo seu olhar, mas evito o contato visual, até porque estou com fogo nos olhos. Não queria mesmo descontar em quem não tinha nada a ver com essa situação.
Olho para cima, respiro fundo e coço a nuca. Já tinha topado a conversa, ou seja, teria que aguentar até o final.
- O que está acontecendo? - pergunta, docilmente.
Sua voz me estremece, não de uma forma positiva. Quem me dera.
- Meu casamento chegou ao fim, Ingrid - finalmente dirijo meu olhar ao seu, que me encara fixamente.
Ela fica boquiaberta, e finge surpresa. Sim, finge, porque conheço Ingrid o suficiente para saber suas verdadeiras reações. Algo de muito errado estava acontecendo, e tinha dedo de minha ex-esposa envolvido nisso.
Respiro fundo. Tem a porra de um caroço no angu.
- O que está rolando, Ingrid? - pergunto, ríspido.
- Como assim? Quem deveria estar perguntando isso sou eu, não acha?
- Eu te conheço, Ingrid... Conheço muito bem. O suficiente para saber que tem algo de muito errado acontecendo.
- E você chegou a essa conclusão apenas me encarando? - ela cruza os braços, irritada.
Ingrid usava um vestido colado vermelho, que expunha muito bem suas curvas e tatuagens.
- O que está rolando, Ingrid? - pego impulso, levanto e a encaro, com as mãos na cintura.
- Meu querido, não é só porque sua mulher foi filha da puta, e te traiu, que eu também sou! Apenas vim aqui te consolar, sei que flagrar traição é pesado.
- E como você sabe que flagrei a traição? Você não estava lá!
Ela fica em silêncio, e sai correndo em direção aos quartos, desesperada.
Sinceridade, não compreendi muito bem sua reação, mas a segui, com toda velocidade que conseguia. Alguma coisa estava acontecendo, e eu precisava compreender.
AMORA
Tinham armado para mim. Sim, armado. Essa era a única explicação.
Que porra! Eu fiquei grande parte do dia sem o celular, porra! Como mandei mensagem para aquela filha da puta?
Meus amigos perguntaram no mínimo sete vezes se eu realmente estava falando a verdade, o que me irritou para um caralho.
QUAL A PORRA DO SENTIDO!?
As coisas estavam fluindo bem, e eu sabia da verdade! Sabia que ele não havia me traído com Ingrid, então, por que diabos faria isso? Não tinha motivo algum para elaborar uma vingança desse tipo.
E mesmo se tivesse, não sou tão filha da puta assim.
Sento chorando à cama, e Mahmoud me acompanha, tentando me acalmar. Sua energia me confortava, mas não era o suficiente. Eu precisava do meu marido. Ele tinha que acreditar em mim.
Lázaro rodeava o quarto como uma barata tonta, e Janna estava agachada em minha frente, tentando desenhar o itinerário do dia, para que possamos entender o que pode ter acontecido.
Eis que tenho a porra de um estalo.
Mais cedo, quando fui à sauna com Ingrid e o alarme de incêndio tocou, e foi exatamente ali que perdi o celular, que, por sabe-se lá o por quê, não tem senha.
Desvencilho meu corpo de Mahmoud, e afasto-me de Janna, possessa de raiva. Até tento me controlar, mas é impossível. Antes de conseguir falar alguma coisa, pego um jarro de plantas que tem ali e jogo contra parede.
Meus amigos se espantam e me encaram, confusos com o que está acontecendo.
- Beleza, o que eu perdi? - pergunta Janna, com a mão no peito.
Os outros dois no quarto me encaravam, com os olhos arregalados.
- Foi aquela vagabunda da Ingrid! Quando o alarme de incêndio tocou, fiquei tão nervosa, deixei meu celular para trás... E já sabe! - bufo, cuspindo vespas. Tinha vontade de explodir o mundo, e quebrar a cara daquela filha da puta.
- Você tem certeza disso? - pergunta Lázaro, incrédulo.
- Sim! E a porra do meu celular não tem senha! - esbravejo.
- Você e essa mania do caralho! - diz Mahmoud, andando de um lado para o outro.
- Aquela filha da puta cutucou a porra da onça com vara curta! - diz Janna, andando para fora do quarto.
Andamos atrás, e, por incrível que pareça, o destino estava a nosso favor. Naquele mesmo momento, Ingrid vinha correndo pelo corredor, e Henrique a seguia.
A mulher leva um puta susto com a aglomeração, e para.
- Nós sabemos a verdade, sua filha da puta! - grito, tremendo de raiva.
Juro que queria tomar alguma atitude além, mas era impossível, pois meu corpo formigava de ódio. Eu queria estrangula-la, mas também queria alcançar Henrique e explica-lo a verdade. Ele precisava me ouvir.
A mulher até dá uns passos para trás, tentando arrumar uma forma de sair dali, mas para seu azar, estava cercada. Não tinha escapatória
Janna respira fundo, e se aproxima.
- Estou querendo fazer isso aqui há um bom tempo! - aproxima-se de Ingrid e dá um belo e forte soco em seu rosto.
Como não estava preparada para receber o golpe, a mulher cai para trás. Mas Janna não estava satisfeita com apenas um soco, então se abaixa e continua proferindo golpes em seu rosto.
Tenho a melhor amiga desse mundo.
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