53 - Estou precisando muito desabafar com você
AMORA
A madrugada foi longa, e eu não consegui dormir nem por duas horas. Minha cabeça foi tomada por teorias e mais teorias, e eu apenas queria afundar minha cabeça no travesseiro e nunca mais sair dali.
Sinto o corpo de Henrique colado ao meu e o aperto no coração apenas aumenta. Nossa história é tão linda, lutamos tanto um pelo outro... Não tem que acabar desse jeito. Não mesmo.
Estava exausta. Exausta de ter nosso relacionamento negligenciado por meu marido. EXAUSTA de não me sentir amada. Porra, eu sentia falta de carinho.
Minha mente era tomada por pensamentos autodestrutivos, e nem percebo a porta abrir. Ergo um pouco o corpo, e percebo que é Sabrina entrando no quarto. Sem pensar duas vezes, a pequena se enfia nas cobertas e fica no meio de nós dois.
Ela joga uma perna em cima de mim e outra no Henrique, que imediatamente acorda com um grande sorriso no rosto. Automaticamente sinto vontade de revirar os olhos, mas seguro. A noite poderia ter sido boa àquele filho da puta, mas para mim... foi torturante.
- Bom dia, meu amor! - agarra a bochecha da criança e dá um beijo estalado.
Dou um sorriso forçado, sento e dou um beijo no topo da cabeça de Sabrina.
- Bom dia, minha princesinha! - levanto, evitando contato visual com meu marido - Mamãe te ama mais que tudo nesse mundo, mas precisa trabalhar, está bem?
Como resposta, a criança se levanta, vem andando em minha direção e agarra minha cintura.
- Fica mais, mamãe, por favor!
Meu coração se aperta novamente, mas além de realmente ter que ir trabalhar, precisava respirar um ar longe de Henrique.
- Ah, meu amor - abaixo em sua direção e levanto seu queixo - mais tarde nós vamos ficar sozinhas, está bem? Sabe que mamãe não demora para voltar... - sorrio ironicamente - família é sempre prioridade - alfineto meu marido, dou outro beijo no topo da cabeça de Sabrina e dou de costas, indo em direção ao closet do quarto.
Há alguns anos, sem duvidas teria surtado com Henrique assim que visse aquela merda de mensagem, mas hoje em dia não. Atualmente tento pensar duas vezes antes de agir, para não tomar nenhuma atitude precipitada. Não por ele, até porque se dependesse da raiva que estava sentindo naquele momento, seria capaz de quebrar algum pote de vidro em sua cabeça, mas sim por Sabrina. Ela não merecia ver sua mãe fora de si.
Depois que escolho uma roupa básica, decido realizar minha higiene no banheiro do andar de baixo, para que não precisasse lidar com aqueles sentimentos que tanto me sufocavam. Precisava desabafar com alguém, e já sabia exatamente com quem.
O efeito da água quente escorrendo pelo corpo conseguia me acalmar de certa forma, e ainda bem. Por mais que tivesse amadurecido meu lado impulsivo, não era de ferro. Não tenho sangue de barata.
Assim que termino tudo que deveria fazer, peço um uber e aguardo o carro em frente ao portão. Meu marido insistia para que contratasse um motorista, já que tinha tanta repulsa em dirigir, mas achava extremamente desnecessário.
Enquanto aguardava o carro, desbloqueio o celular e mando mensagem para Mahmoud, que agora morava novamente em Cabo Frio, para minha felicidade. Sem duvidas não conseguiria lidar com esse tipo de coisa sem seu ombro amigo. Sim, agora tinha Lázaro e Dani no meu grupo de amigos mais próximos, mas, querendo ou não, os dois eram muito mais próximos de Henrique do que de mim.
Amora - Amigo, está aí?
Por mais que fosse seis e meia da manhã, torcia para que estivesse acordado. Precisava MUITO de sua ajuda naquele momento.
Mahmoud - Oi, gata! Estou aqui sim! Aconteceu alguma coisa?
Amora - Estou precisando muito desabafar com você. Teria como me encontrar na empresa no meu horário de almoço?
Ele demora um pouco para responder, o que é compreensível, afinal, nem eram sete horas da manhã.
Mahmoud - Que horas?
Amora - Amigo, eu saio para o almoço uma hora da tarde, e depois vou direto para casa.
Mahmoud - E Henrique?
Encarei o aparelho durante alguns segundos, tentando entender o porquê daquele questionamento. Sabrina geralmente almoçava na casa de meus pais, e ele chegava por volta de meio dia. Antigamente até almoçávamos juntos, mas com o tempo ele parou de fazer questão.
Amora - Chega da empresa meio dia. Por quê?
Vejo o carro que pedi se aproximando da calçada e dou um sorriso aliviado. Queria chegar no meu escritório o quanto antes, onde poderia me recostar na poltrona e analisar alguns documentos. Aquilo me distraia, e isso era o que mais estava precisando no momento.
Entro no banho de trás do veículo, cumprimento a motorista e encaro o celular novamente.
Mahmoud - Nada, gata. Te encontro no seu escritório nesse horário! Agora tchau, porque vou voltar a dormir!
Amora - Durma bem, Mah. Obrigada por isso!
Bloqueio o aparelho e encaro a janela do carro. Devido ao horário, o sol ainda estava fraco, e poucas pessoas andavam pelas ruas. O veículo andava vagarosamente devido ao trânsito que já se formava, mesmo sendo tão cedo.
Pensamentos de como teria sido minha vida caso tivesse ficado com Elioth entravam involuntariamente em minha mente, o que me deixa um tanto quanto culpada. Não tinha sentimentos por ele, e, para ser sincera, acho que o que tivemos um pelo o outro foi carência sentimental. Nos usávamos para preencher um buraco que não seria tampado, a não ser se fosse pelas pessoas certas.
De qualquer forma, os devaneios vinham por conta da estabilidade de nosso relacionamento. Tínhamos sintonia, principalmente na forma que agir. Era difícil admitir, mas vez ou outra minha diferença de idade com Henrique pesava. Eu gostava do fogo, contato... Aventura. E, principalmente, inovação. Já ele, curtia a calmaria, monotonia... rotina. Não que fossem coisas ruins, mas um relacionamento não se mantém dessa forma.
Para piorar, além de me sentir pouco a pouco abandonada pela pessoa que mais amava, aparentemente, estava ganhando um belo par de chifres. Eu não era o suficiente? Porra, sou gostosa para um caralho! Além disso, sou uma pessoa boa, inteligente... dedicada. Amorosa. Daí ele vai, e troca tudo isso por sexo ruim com aquela vagabunda da Ingrid.
A mulher o deixou na foça! Cuspiu e pisou nele com intensidade. E o que ele faz? Dá umazinha com a piranha na primeira oportunidade.
Sentia minha bochecha queimar e, antes que começasse a chorar de raiva, o carro para em frente à empresa, o que acaba me assustando. Estava tão imersa em pensamentos autodestrutivos que sequer percebi que havíamos chegado.
Cumprimentei a motorista, verifiquei se o pagamento havia sido feito e saí, ainda meio desnorteada com tudo que estava acontecendo. O desgaste psicológico já era enorme antes dessa mensagem, mas agora... puta que pariu, agora estava prestes a explodir merda para tudo quanto é lado.
Mal havia chegado e já estava ansiosa pelo horário do almoço. Para ser sincera, sabia que a única pessoa capaz de me acalmar, seria Mahmoud.
NARRADOR
O dia estava começando a clarear, os passarinhos já cantavam e nada de Mahmoud conseguir dormir. Não sabia se estava mais preocupado ou curioso com a surpresa que Henrique estava elaborando para sua melhor amiga, Amora.
Sabia que o relacionamento não ia bem, e sentia-se muito mal de ter compartilhado suas dúvidas com ela. Mas era inevitável não criar teorias de onde e o que Henrique estaria fazendo altas horas da madrugada em dias de semana. Sim, ele havia criado amizade com o homem, mas sua prioridade sempre foi e sempre será Amora.
Pode parecer superproteção, mas ele apenas queria o bem de Amora. De qualquer forma, sentia-se muito mal por ter duvidado do marido de sua amiga, sem ao menos questiona-lo sobre o que poderia ou não estar acontecendo.
Quando finalmente estava conseguindo tirar um cochilo, sente o celular vibrar, o que lhe assusta, afinal, eram seis e meia da manhã. A maioria de seus amigos estavam dormindo naquele horário... e, exatamente por saber disso, que Mahmoud sentiu um aperto no peito e calafrio na boca do estômago.
Desbloqueia o aparelho, que anteriormente estava abaixo de seu travesseiro, e percebe que sua intuição estava certa.
Após alguns minutos de conversa, logo percebeu que algo de muito errado estava acontecendo. Não por estar paranoico, e sim por conhecê-la demais.
Tinha combinado de encontrar Henrique em seu escritório, juntamente a Dani e Lázaro, às duas horas da tarde. Até aí tudo bem, afinal, agora também eram íntimos. As coisas apenas desandaram quando Amora o pediu para acompanhá-la durante o almoço, pois precisava desabafar pouco tempo antes do combinado anterior.
"Puta que pariu, por que esses dois têm que ser tão complicados?", se questionava em silêncio. Não queria, tampouco gostava, de se envolver tanto no relacionamento alheio, mas Henrique e Amora faziam questão de puxa-lo para o barco sempre que podiam. Pelo menos, dessa vez, o envolvimento lhe proporcionaria uma viagem gratuita à Grécia.
De qualquer forma, Mahmoud sabia do amor que um sentia pelo outro, então, sem dúvidas, faria de tudo para contribuir com o acerto de contas, principalmente por se sentir culpado de ter colocado uma pulguinha atrás da orelha de Amora.
Precisava manter a calma e reorganizar a mente. Seria capaz de fazer do céu inferno e do inferno céu para fazer sua amiga feliz, então estava extremamente disposto a ouvir o plano do marido de sua amiga. Mahmoud sabia que, por mais que Henrique não tivesse muita noção disso, afinal, nunca havia visto homem tão desligado quanto ele, o casamento estava por um fio.
Deixou o celular de lado e olhou para o teto, pensando em seu retorno a Cabo Frio e em como aquela tinha sido uma ótima escolha. Viver no Rio de Janeiro era bom, mas estar em sua cidade natal, vivenciando a loucura que seus amigos lhe proporcionavam, era muito melhor. A realidade é que Mahmoud amava na mesma intensidade que odiava estar metido naquilo.
Não demorou nem cinco minutos para finalmente cair no sono. Estava exausto e ansioso.
***
Acordou em um pulo devido ao som estridente do despertador. Por mais que tivesse sido breve, seu cochilo durou tempo suficiente descansar sua mente. Para sua infelicidade, ao olhar o relógio, acabou percebendo que procrastinou demais sair da cama, e já eram meio dia e meio, ou seja, precisava se arrumar correndo e encontrar Amora em trinta minutos naquela bendita empresa. Era desgastante ser um bom amigo, mas Mahmoud se esforçava.
AMORA
Estava sentada à mesa do refeitório durante quase dez minutos e nada de Mahmoud. Será que aconteceu alguma coisa? Ele costumava ser tão pontual. Acabei me perdendo em meio aos meus pensamentos, que, para minha sorte, estavam longe de meu marido. Pelo menos de sua cara. O problema, é que já estava há um bom tempo sem sexo, e isso estava começando a interferir no meu dia-a-dia. Não que fosse uma ninfomaníaca, ou algo do tipo, mas a sensação de ter alguém te fazendo gozar é extasiante. Bom, meus próprios toques também eram bons, mas o contato de outra pessoa fazia falta. Resumindo: estava ficando louca. Será que contratar um garoto de programa pode ser considerado traição? Porque, sinceramente, estava pensando muito nessa possibilidade.
Tenho meus devaneios eróticos interrompidos por um Mahmoud totalmente esbaforido. Suas bochechas eram preenchidas por um rubor e sua testa por gotículas de suor, que também escorriam pela lateral de seu cabelo curto. Cheguei à conclusão que meu amigo veio o mais rápido possível ao meu encontro.
- Está tudo bem? Por que está todo suado? - tentei segurar a risadinha de deboche que subia pela minha garganta, mas acabei falhando miseravelmente.
Ele revira os olhos, mas não consegue prender o sorriso parecido com o meu. Provavelmente algo desastroso tinha acontecido, pois Mahmoud tinha a bela mania de rir de sua própria desgraça. Isso era muito bom, pois me dava espaço para fazer o mesmo sem parecer uma cuzona.
- É uma longa história, que me inclui procrastinando e o cachorro tarado da minha vizinha, que por ventura, justamente no momento que estava com pressa, simplesmente decidiu pular a porra do muro e cismar com minhas pernas... - dá uma gargalhada - porra, esse tipo de coisa só acontece comigo.
- Meu Deus, - dou uma risada estridente - realmente, você é um ímã ambulante para situações do gênero. E cara, eu realmente te amo, porque porra... Só você para me arrancar um sorriso depois da merda que descobri.
- Do que você está falando, Amora Bragança? - recostou na cadeira e cruzou os braços, observando cuidadosamente minha feição triste.
- Primeiro, gostaria que você prometesse não me julgar. Tenho ciência de que minha atitude não foi legal, mas o universo simplesmente me mandou um sinal! - levanto as mãos, indicando que não tinha o que fazer.
- Chega de embromações, garota. Tenho um compromisso daqui a pouco, portanto, CONTA LOGO ESSA MERDA!
Suspiro, me vendo em um verdadeiro beco sem saída.
- Beleza. Eu meio que fuxiquei o celular de Henrique enquanto ele estava tomando banho, e acabei vendo a mensagem de uma tal de Ingrid Leroy... Nome e sobrenome de sua ex esposa.
- Meu Deus, estou passado! - fica boquiaberto.
- O pior não é esse... A mensagem estava agradecendo pela noite, e pior, dizia que aguardava por uma porra de viagem. Caralho, Mah! Henrique está me traindo com essa filha da puta. Sério, não sei quem é mais cuzão nessa merda - falo como se estivesse liberando uma tonelada das costas.
- Amiga, é o seguinte, - levanta e coloca as mãos na cintura, quase tão transtornado quanto eu - mantenha a calma, vá para casa e fique com Sabrina. Hoje estou de folga no salão, então tenho o dia inteirinho para ficar com você. Vou para o meu compromisso - franze o cenho - e logo depois para sua casa, beleza?
- Eu estou precisando do seu ombro, Mah! - faço bico, na esperança dele mudar de ideia.
- Tenha certeza que te darei mais tarde, mas agora preciso colocar pingos nos i's nesse compromisso fodido. Mas pode ter certeza que estou com tanta raiva, que seria capaz de tacar fogo no seu marido.
- Acho que ele está me traindo, mas estou tentando não agir com impulso, sabe?
- E você está certa! - sorri - É bom ver como amadureceu, gata! Mas agora tenho que ir - abaixa, dá um beijo em minha bochecha e anda rapidamente até o elevador.
Não sei porquê, mas tinha um pressentimento muito estranho sobre esse suposto compromisso.
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