22 - Meu aniversário

AMORA

Passaram-se duas semanas sem ver Henrique. Inicialmente foi mais complicado do que imaginei porque, por mais que fosse difícil de admitir, os sentimentos já haviam tomado conta de mim. Mas consegui sobreviver, de uma forma bem prazerosa, para falar a verdade.

Passei esse tempo procurando uma válvula de escape em outros corpos, o que foi até divertido. Devo ter experimentado de quatro a seis homens e uma mulher. Foram experiências interessantes, mas nenhuma delas chegavam perto do que sentia quando o corpo de Henrique tocava o meu. Não sabia mais como expulsar esses pensamentos de minha mente... em certo momento, aquilo tudo havia se tornado uma tortura.

Finalmente havia chegado meu aniversário e, por mais que tentasse, a vontade de não sair da cama era infinita. Helena havia me chamado para ir em uma boate da cidade vizinha, para que pudéssemos comemorar, mas a falta de vontade tomava conta do meu corpo.

Adorava viver sozinha, mas em momentos como esse, a única coisa que poderia me acalmar eram os chamegos de minha mãe.

Assim que peguei o celular, me deparei com simplesmente 28 mensagens de minha amiga, implorando para que fossemos nessa maldita festinha. Pelo que entendi, ela havia arrumado um boyzinho no tinder que era um dos donos da boate, portanto, entraríamos de graça, teríamos acesso aos camarins, open bar e se quiséssemos, na hora do show ao vivo, poderíamos subir ao palco. Em outros momentos, a programação seria convidativa, mas meu coração partido me impedia de ver graça em qualquer coisa.

Depois de tanta insistência, acabei cedendo aos pedidos. Teria que ir àquela bendita festa.

Me levantei antes das sete, tomei um banho e, antes de ir à casa de meus pais, fui ao salão. Precisava mudar o visual de alguma forma, nem que fosse mudando a cor do cabelo.

Cheguei no salão e logo fui abraçada por Mahmoud.

- Que saudade, garota! Você não manda uma mensagem, ignora as minhas... e quando responde, é só pra vir no salão. Vou te contar, viu?

- Ah, Mah... As coisas têm sido complicadas ultimamente. O Lucas me traiu, meu outro boy também... Não tenho falado com ninguém ultimamente.

- Amiga, e são esses momentos que você precisa dos amigos ao seu lado! Pelo amor de Deus!

Aquilo me deixou para baixo. Tenho estado tão focada em meus problemas que acabei deixando meus amigos de lado. Pelo visto, além de apenas atrair homens indecentes, era uma péssima pessoa.

Eu e Mahmoud nos conhecíamos desde o ensino fundamental e, antes dele entender sua sexualidade, fomos namoradinhos durante um tempo. Hoje, por mais que seja péssima, ele é meu melhor amigo.

Quando percebeu minha reação à sua afirmação, me deu um abraço e olhou nos meus olhos.

- Amora, hoje é seu aniversário, certo? Por favor, não fique desse jeito. Vamos aproveitar seu dia! Vou te deixar magnífica!

- Amigo, hoje eu e Helena vamos comemorar naquela boate em Búzios, está a fim de ir também? A entrada vai ser gratuita.

- Claro amiga, pelo amor de deus, - ri - nem parece que me conhece! Sabe que amo uma festinha.

Eu precisava renovar minha aparência para sair daquela foça, e Mahmoud me ajudou. Escolhemos um preto azulado que me mudou por completo.

Certa vez, li em uma revista que quando a mulher muda o cabelo, é porque ela renasceu. E eu tinha isso em mente.

Fui direto para casa, orgulhosa de minha nova aparência e quando cheguei, dei de cara com uma mesa preenchida por um farto café da manhã. Ali sentados estavam meu pai, minha mãe, Lázaro e Janna. Respirei fundo e senti meu coração acelerar. Cadê Henrique? Aqueles três viviam juntos! Por mais que não quisesse vê-lo, fiquei ansiosa em saber sobre sua suposta presença.

HENRIQUE

Duas semanas desde o fatídico dia em que surtei e joguei tudo que poderia ter com Amora no esgoto. Não que fosse algo ruim, muito pelo contrário, aquilo seria menos um problema na minha vida. A questão é que aquele seria um problema que eu gostaria de resolver.

Era uma prática diária não ir atrás dela. Imaginei que agora que havia mudado de setor, as coisas se tornariam mais fáceis, mas estava enganado. Quando estava ali, eu poderia observar de perto suas mudanças de humor, mas distante, não faço ideia de como anda sua vida.

De qualquer forma, desde o nosso distanciamento, percebi que Amora começou a curtir de uma forma não tão saudável, o que me atormentava diariamente. Dia sim, dia não, ela levava um novo homem para casa e aquilo me proporcionava uma sensação inimaginavelmente ruim. Ouvir seus gemidos provocados por outras pessoas era o cúmulo. Porra, jamais imaginei que fosse capaz de sentir esse tipo de coisa por alguém novamente, ainda mais uma mulher tão nova.

Pior foi o dia em que ouvi o gemido de duas mulheres. Aquilo parecia uma piada de mau gosto, porque tudo indicava que a aventura era a três. Sou tão horrível em ficar chateado de não ser a terceira pessoa? Talvez, mas nesse momento nada mais fazia sentido. Aos poucos precisava abandonar a ideia de voltar atrás... era necessário seguir em frente. Vivi mais de trinta anos sem ela, não seria agora que não conseguiria.

Estou deitado na cama e observo o teto, em silêncio. Ultimamente não tenho sentido vontade de ir à empresa, então meio que tirei umas férias na última semana. Era mais fácil.

Pego o celular, abro o instagram e vou diretamente ao perfil de Amora. Hoje era seu aniversário e, para minha surpresa, ela conseguiu ficar mais bonita ainda: havia pintado o cabelo de preto, deixando seus olhos azuis piscina ainda mais evidentes.

Igor até me convidou para um café da manhã em comemoração aos dezenove anos da filha, mas preferi manter distância. Respeitava o fato dela não querer me ver, por mais que doesse, era compreensível. Porra, no dia em que me declarei, fui lá e transei com outra. Para piorar, ainda disse que não me arrependia do ato. Vacilei feio e não tinha como voltar atrás.

Foi gostoso. Eu e Letícia combinamos na cama, mas me arrependo sim da forma que foi. Não de ter feito, mas sim de ter agido tão impulsivamente. Se tem uma coisa que percebi depois daquele dia, era que realmente precisava de uma terapia para me ajudar a controlar esse tipo de atitude. Infelizmente entendi isso tarde demais.

Depois de um longo tempo, joguei o celular para o lado e me espreguicei. Chega de ficar se torturando... se fosse para ficar em casa, que fosse de banho tomado.

Quando estava prestes a colocar uma música na tv, ouço o celular apitar e vejo que uma mensagem chegou no grupo dos rapazes.

Igor — Boate em Búzios hoje a noite em casais, quem topa?

Lázaro — Eu!

Henrique — Que casal!?

Lázaro — Você arruma um casal lá kkkkkkk, aproveita que está de férias cara, vem com a gente!

Igor — Vamos Henrique, eu pago sua entrada!

Henrique — Estou vendo que não tenho muita escolha, né?

Lázaro — Não mesmo!

AMORA

Ele não estava lá e, por mais que fosse difícil de admitir para mim mesma, aquilo me decepcionou. De qualquer forma, não poderia ficar irritada, afinal, fui eu quem o expulsou de minha vida. Teria que aceitar o rumo que as coisas estavam tomando sem dar um pio.

Depois do farto café da manhã, comentei sobre minha ida à boate com Helena e Mahmoud. Como era de se esperar, meu pai teve a reação mais animada possível. Ah, senhor Igor, sempre inconveniente. Ali, viu uma oportunidade de dar um perdido na esposa, mesmo se ela estivesse lá.

De qualquer forma, evitei pensar muito naquilo. Não me importava, desde que não interferissem em minhas atitudes. Inicialmente, não queria ir, mas agora que tinha aceitado, meu objetivo era perder a linha, como tenho feito nos últimos dias.

Helena estava ciente de minhas aventuras sexuais, e me apoiava completamente nas próximas. Inclusive, deixou bem explicito sua vontade de se juntar a mim em alguma delas. Pois bem, a cada dia que se passa, vejo como sou ruim em perceber as coisas ao meu redor.

Encarei durante alguns segundos a porta do apartamento de Henrique antes de entrar no meu. Sentia sua falta. Não só dos toques, mas de nossas conversas, que haviam se tornado cada vez mais frequentes. Suspirei. Sabia que uma hora aquilo iria passar. Precisava passar.

Entrei, me joguei no sofá e resolvi assistir algumas comédias românticas. Como não estava a fim de sofrer sozinha e também queria continuar me reaproximando de Mahmoud, o liguei, convidando para ficar comigo até a hora de irmos à festa.

— Amiga, só posso sair daqui 15h, você se importa?

— Claro que não! É bom que bebemos umas cervejas para aproveitar o restante da tarde.

— Garota – solta uma risada sincera — você não vale nada! Quer ficar chapada antes de ir à festa?

— Hoje é meu aniversário, Mah. Posso tudo — dou um sorriso.

— Então é sobre isso. Hoje é dia de encher a cara desde cedo!

— Ansiosa para esse evento.

— Somos dois. Vou desligar aqui, miga. Beijo!

Encaro a televisão emburrada. Tinha acabado de dar meio-dia, ou seja, precisaria esperar meu amigo durante um bom tempo. Respirei fundo. Precisava deixar esse marasmo de lado e renovar as energias, afinal, não é todo dia que fazemos aniversário.

Como não estava a fim de me martirizar sozinha, desliguei a TV, coloquei Anitta na caixa de som no último volume e pratiquei alguns alongamentos. Pelo que Helena disse, poderíamos ter acesso ao palco e, como me conheço bêbada, sei que vou querer fazer um mega show.

Depois de aproximadamente uma hora dançando, ouço algumas batidas à porta e meu coração se aperta. Será que era Henrique?

Abaixei o volume e fui correndo ver quem era. Quando cheguei, a porta estava vazia. Um sentimento de decepção preencheu meu peito no mesmo instante. Provavelmente havia desistido. Sei que pedi para manter a distância, mas porra, era meu aniversário! Custava ao menos me parabenizar?

*

**

Mahmoud chegou um pouco antes do previsto, o que foi ótimo, porque estava com muito tédio. Matamos um bom tempo colocando a fofoca em dia. Que saudade sentia disso. Para nosso grupo ficar completo, apenas faltava Helena. Mesmo que me agradasse a ideia de reuni-los, sei como minha amiga demora para se arrumar, portanto, resolvi deixá-la por conta própria.

Depois que colocamos o papo em dia, fomos até a sala, ligamos a TV, colocamos uma comédia romântica e enchemos a cara até ficarmos podres de bêbados. Não demoramos muito para começar a achar graça de tudo.

— Amigo, você acredita que eu simplesmente estou apaixonada pelo amigo do meu pai? — dei uma gargalhada, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.

— Amora, que babado! — dá uma risada — E eu que dei pro meu chefe casado!? Garota, eu estou de cara até agora!

— MAHMOUD — gargalhei a ponto de sentir uma leve cólica na barriga — você não vale nada!

— Nós dois, né? Mas me diz, como é esse amigo do seu pai?

— Ele é um gostoso! Todo tatuado, cheiroso... Quer ver uma foto dele?

— Claro menina!

— Não, melhor, vou mostra-lo para você pessoalmente

— Como assim, sua louca? — solta uma gargalhada.

— Mah, esqueci de dizer! — dou um sorriso cheio de malícia — Além de tudo, o gostoso é meu vizinho. O diabo gosta de atentar menino, estou falando

— MENTIRA!

— Sério! Vem comigo! — Levanto e o puxo em direção à porta.

Saio do apartamento de mãos dadas com meu amigo e bato várias vezes na porta de Henrique, na expectativa dele estar em casa. Estava bêbada demais para pensar se aquilo era certo ou errado, apenas queria mostrar aquele homem gostoso a Mahmoud. 

Depois de alguns minutos, Henrique atende a porta com uma calça de moletom e barba por fazer. Seus olhos estavam um pouco inchados, ou seja, provavelmente tínhamos o acordado.

— Amora? — ele arregala os olhos e nos encara — Quem é esse? O que estão fazendo aqui?

— Podemos entrar? — dou uma gargalhada e um soluço, o empurrando para o lado e puxando meu amigo para dentro.

— Esse aqui é o Mahmoud! — Aponto, já me sentando no sofá, após alguns tropeços.

— Prazer, gatão! — joga-se ao meu lado.

— O que vocês estão fazendo aqui? — Pergunta, incrédulo com a situação. — Estão bêbados a ponto de errar o apartamento? É isso?

— Não, seu bobinho! —  Gesticulo com a mão e dou uma risadinha. —  Vim mostrar ao Mah o gostoso que você é! — Passo a língua nos dentes, encarando seu corpo de cima a baixo.

— Amiga, põe gostoso nisso! — Solta uma gargalhada alta. — Você tem bom gosto mesmo, garota. Até eu me apaixonaria por um desses.

Henrique nos encara em silêncio, tentando entender o que estava acontecendo. Ele já havia entendido nossa embriaguez, isso é fato. Sua evidente confusão era outra. 

— Você contou o que aconteceu para ele? — pergunta, nervoso.

Encaro Mahmoud, prendendo a risada, mas não me aguento. Meu amigo encara Henrique e dá um sorriso sincero.

— A única coisa que ela me contou é que está apaixonada por você... Por que? Já rolou algo entre os dois!? — Ele arregala os olhos e leva as mãos à boca. — Mentira! Que babado, gente! Amora, você não é disso, garota!

Continuo rindo, enquanto a bochecha de Henrique fica totalmente ruborizada. Por essa ele não esperava. 

— O quanto vocês beberam? — Questiona com as mãos na cintura.

— Está preocupado, queridinho? — Pergunto, levantando e puxando Mahmoud. — Pois se despreocupe porque estamos indo embora, nossa missão foi cumprida.

— Ai, amiga, que brutalidade!

— Vamos Mah, já mostrei o gostoso, agora podemos voltar ao filme! — O puxo até a porta, mas antes, parei em frente a Henrique, dei um beijo demorado em sua bochecha.

— Tchau, fofo! Foi um prazer te conhecer! — Diz Mahmoud, fechando a porta em seguida.

HENRIQUE

Assim que aqueles dois saíram, me joguei no sofá e passei lentamente a mão no rosto. Estava há duas semanas sem vê-la e, do nada, Amora aparece bêbada ao lado de um amigo em minha casa. Pior, admitindo estar apaixonada por mim.

Demorei para assimilar tudo que havia acontecido. Da última vez que tentei lidar com meus sentimentos, acabei transando com Letícia, mas agora seria diferente. Não queria magoá-la novamente, muito pelo contrário.

Desde o momento em que admiti meus sentimentos por aquela mulher, da mesma forma que se tornaram mais fáceis, as coisas sem dúvidas viraram de cabeça para baixo. Apesar de não conseguir tirá-la dos pensamentos por um mísero dia, tinha aceitado que não aconteceria mais nada depois daquele vacilo que dei. Aí pronto, ela vem e fode tudo.

Mas a vida gosta de me sacanear. Por mais que doesse, saber que não teríamos mais nada era reconfortante, afinal, as circunstâncias não favoreciam nada aquele envolvimento. Mas aí ela aparece com aqueles cabelos negros, sorriso indescritível e olhos azuis na porta do meu apartamento.

Olhei para o teto e respirei fundo. Precisava colocar a cabeça no lugar, porque mesmo não querendo, teria que ir à bendita festa de Búzios com os rapazes mais tarde. Fiquei ali jogado por um tempo, tentando arrumar um pretexto para conversar com Amora no dia seguinte sobre tudo que aconteceu naquela tarde. Meus pensamentos foram longe e, em pouco tempo, acabei pegando no sono novamente.

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