Castelo de Sangue

Capítulo 1

Não havia conseguido pregar os olhos naquela noite, incomodada e inquieta com tudo sem saber um motivo em específico, apenas me restou passar a madrugada no meu quarto com um lápis de pena e uma folha em branco que foi preenchida por lindos olhos escarlates. Quando levantei o olhar da folha agora sem espaço para desenhar um pequeno pássaro, notei que já havia amanhecido.

Guardei a folha na gaveta da minha escrivaninha e o lápis de pena ao escutar passos se aproximando do corredor, me levantei e aproveitei para me espreguiçar. Fui de janela em janela, abrindo as cortinas e deixando que a luz entrasse no grande quarto. No meu quarto. Me virei em direção a porta quando a escutei ser aberta e revelar, como de costume, uma nova serva mas dessa vez parecia ter aproximadamente a minha idade, tinha quase certeza de que ela não fazia ideia do que estava fazendo.

— Com sua licença, Sua Alteza Real — A voz dela estava trêmula, talvez estivesse nervosa.

— Por favor, entre. Me diga seu nome... — Quando estendi a mão em sua direção, me senti hesitante por um breve momento. Fazia exatamente nove anos que parei de tentar decorar seus nomes, rostos ou até mesmo como eram suas vozes.

— Meu nome é...

Antes que aquela garota tivesse a chance de me responder, outra serva entrou no quarto, dessa vez eu a conhecia e não pude esconder a tamanha felicidade ao vê-la. Seu nome era Elinor mas ninguém a chamava assim já que ela tinha o nome do Rei, então eles a chamam de Nora. Ela quase podia ser menor que eu, porém fazia tudo que lhe pediam com perfeição, sem contar sua aparência que apesar de já ser considerada alguém velha e com a pele já enrugada, lábios rachados e pálida, ainda era bela ao meu ver com seus lindos cabelos acinzentados e olhos castanhos escuros.

— Com sua licença, Sua Alteza Real! — Avisou e entrou apenas quando lhe dei permissão. — Me perdoe por ela, é apenas uma novata que não deveria estar designada a Sua Alteza Real. Não a castigue por um erro bobo. — Exclamou em súplica enquanto segurou a serva com uma mão discreta.

A olhei surpresa e coloquei a mão na boca para esconder um sorriso por achar tudo aquilo um pouco engraçado para mim já que ela estava fazendo isso para assustar a pobre novata, era sempre assim.

Elinor está na família desde que a Rainha subiu ao trono ao lado do Rei e é a única serva que conseguiu se tornar íntima o bastante para que todos a respeitem e temam sua amizade com a Rainha deles.

— Estamos perdendo tempo. Vá preparar a banheira de Sua Alteza Real do jeito que lhe foi ensinado. Faça isso imediatamente!

A serva foi rapidamente fazer o que lhe mandou sem perguntar nada, talvez a brincadeira realmente fez efeito com ela.

Nora se aproximou de mim e com gentileza, me virou de costas para que pudesse tirar minha camisola de renda, assim que retirou, começou a soltar meu longo cabelo loiro da trança que ela mesma tinha feito para eu dormir. Estava apenas com as roupas de baixo quando ela me virou para si.

— Faz tempo que eu não sou designada a você, minha menininha. Continua tão bela quanto da última vez que eu cuidei de você. — Sorriu ao acariciar meu rosto, me permito aproveitar esse momento de afeto.

— Senti sua falta, Nora... — Sussurrei de olhos fechados.

Nosso tempo a sós havia terminado assim que a serva voltou do banheiro com a toalha em mãos. Me afastei de imediato e deixei que a serva retirasse minha roupa debaixo e me envolvesse na toalha, guiando-me ao banheiro, deixando Nora sozinha. Ela retirou a toalha de mim antes que entrasse na banheira cheia de água morna com pétalas de rosa, deixei que a água batesse um pouco acima de meus seios quando a serva pegou a esponja para me lavar.

— Não ligue para Nora, ela é assim mesmo. — Falei na intenção de a tranquilizar.

Não me importei de obtiver respostas, já estava acostumada com isso de qualquer forma e aprendi a suportar coisas assim. Assim que fui banhada, outra serva diferente veio e me secou para que outra diferente das anteriores me vestisse em um vestido azul claro, salto alto branco e deixasse meu cabelo solto. Tudo isso durou uma hora e só após isso, Nora voltou.

Acompanhada de Nora, fui para a sala de jantar, onde o café da manhã estaria servido e como de costume, estaria fazendo minha refeição sozinha. Me sentei na mesa e meu prato foi servido, Nora se retirou com uma reverência para que eu ficasse sozinha. Enquanto comia, pensava em várias coisas como os deveres que eu deveria fazer ou quantos convites teria que negar, já que é inútil que eu compareça a um para simplesmente ficar sem fazer nada, estava tão distraída que me assustei ao sentir um calafrio na espinha. Estavam me observando.

Virei o rosto tentando ver quem estaria mas a sala de jantar estava vazia, não havia uma alma viva, além de mim naquele lugar mas a porta de um dos corredores que dava acesso a sala de jantar estava estranhamente aberta. Bebi um pouco do suco da taça antes de me levantar e seguir pelo único corredor que estava com a porta aberta, ainda sentindo que havia olhares intensos sobre mim. Segurei na saia quando comecei a correr ao escutar passos de outra pessoa correndo pelo corredor sendo que só devia ter eu a essa hora.

Estava particularmente acostumada com sensações de observação ou sons estranhos que não pertenciam ao local, mas de alguma forma inexplicável, essa era diferente, talvez de alguma forma, familiar. Fechei os olhos por impulso quando um brilho forte veio em minha direção quando cheguei ao final, contive um grito ao sentir uma mão segurar meu braço.

Suspirei fundo colocando a mão no peito, não estava acostumada a correr tanto assim, afinal, não preciso correr aqui, apenas preciso sorrir, acenar e estar presente em corpo enquanto minha alma viaja por qualquer história que eu tenha criado antes de pegar no sono. Quando virei, não pude conter um suspiro aliviada quando encarei aqueles olhos castanhos.

— Não me assuste! — Exclamo ainda com o coração disparado. — Oi, Theodoro.

— Por que estava correndo? Você não é disso. — Disse estendendo o braço para mim.

— Não era você que estava correndo no corredor? — Aceito o braço dele, o entrelaçando no meu.

— Não havia mais ninguém no corredor além de você. — Ressaltou que eu estava sozinha.

Seguimos em direção ao jardim do castelo quietos, apenas aproveitando a presença um do outro, havia jardineiros cuidando das plantas, servas e servos limpando o castelo ou simplesmente esperando ordens de um superior, haviam guardas ao longe na entrada do castelo. Fiquei com o rosto neutro quando passamos por um grupo de garotas que cochichavam sobre quem era o rapaz mais belo do castelo, sinceramente viu. Continuamos nos distanciando das pessoas em silêncio enquanto eu apenas observava o céu.

— Chegamos! — Anuncia Theodoro.

Estamos fora da vista de qualquer serviçal do castelo onde havia uma grande árvore e logo abaixo, no chão, uma toalha de piquenique estendida com uma cesta cheia de comidas. Sorri sem jeito para Theo que me ajudou a sentar na toalha e se sentar logo em seguida. Theodoro se apressou em distribuir as pequenas tortas de morango na toalha, um prato com biscoitos de coco e uma jarra de suco de amora, além dos copos, óbvio.

Theodoro é meu amigo desde quando tínhamos treze anos, ele tem a pele negra, seu cabelo é curto em um castanho assim como os olhos e bem alto, talvez uns 1,70 de altura. Também é o herdeiro do atual conselheiro da Rainha de L'Hiver, Eduard Ubale. Theo é como um irmão para mim.

— Preciso que veja algo. — Pede depois de comer uma pequena torta de morango.

Concordo sutilmente com a cabeça e o vejo tirar um papel do bolso de seu paletó e o entregar para mim. Abri sem demora quando vi que estava dobrado, não havia nada demais a não ser por um aviso escrito de forma desleixada, como se a pessoa tivesse acabado de aprender a escrever, Estava escrito Cuidado.

— É só uma brincadeira de mal gosto, não dê tanta importância a isso. — Aconselho devolvendo o papel dobrado.

É impossível que seja algo sério, estamos em Kasandrilha, separados de tudo pelo lago Folyó que dizem ser tão fundo que apenas um gigante poderia ir nele com a água batendo em sua cintura, além do alto número de segurança em cada canto desse lugar. Se preocupar é uma tolice. 

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