Capítulo 8

Um mês se passou desde que tudo aconteceu na casa dos Saranga, Liat havia voltado uma semana depois com as coisas aparentemente de volta aos trilhos e nunca mais tive qualquer contato com Reluz ou até mesmo ver Amy. A rainha pelo visto não descobriu nada já que não me puniu ou me procurou para que eu suplicasse perdão.

Estava de madrugada sem sono algum, estava deitada na cama tentando pregar no sono quando escutei algumas batidas na porta, levantei e fui de camisola até a porta, demorando um pouco para abrir vendo Aemy com duas canecas de chocolate quente fumegante vestindo um roupão simples acompanhada de Liat que segurava sua própria caneca também vestindo um simples roupão, ambas com os cabelos soltos para trás.

— Servida? — Aemy perguntou estendendo uma caneca para mim.

— Entrem rápido! — Digo sorrindo, pegando a caneca com cuidado.

Aemy e Liat entraram rapidamente fechando a porta logo em seguida, Liat teve a brilhante ideia de pegar três almofadas que ficavam na cama e jogar no chão para que sentássemos descontraidamente, ficamos sentadas perto de uma única janela que estava aberta deixando que tivesse ventilação no quarto e a brisa da madrugada trazia o cheiro das flores do jardim, o que era bem agradável.

— Preciso contar algo a vocês duas antes de qualquer coisa. — Falo me ajeitando na almofada e bebendo um gole de chocolate.

Aemy confirmou devagar com a cabeça enquanto Liat buscou um cobertor e colocou sobre meus ombros já que estava apenas de camisola e depois ela se sentou ao lado de Aemy no chão, bebendo enquanto me observava.

— Acho que sou capaz de ver espíritos. — Informo sem jeito.

— Como assim? — Liat disse com uma curiosidade na voz.

— A um tempo atrás descobri que uma pessoa que eu conversava estava morta, seu nome é Reluz e temo que talvez ela seja um parente meu. — Contei sem olhar para elas em vez disso olhando para a minha caneca. — Também quando estava saindo da casa dos Sarang, eu vi Amy ao lado de Li...

— Ela estava bem?! — Questionou Liat rapidamente.

Aemy repousou uma mão no ombro de Liat, a olhando com um olhar como se pudesse dizer: A deixe falar. Bebi mais um pouco deixando que o líquido quente me aquecesse voltando a encarar meu reflexo no achocolatado.

— Ela estava sorrindo e acho que está bem melhor agora do que estava antes. — Murmuro.

— Obrigada por confiar em nós, isso é realmente importante. Posso explicar a situação a Raely que com certeza ajudará a descobrir algo sobre essa tal de Reluz, tudo bem por você? — Aemy sugeriu motivada.

Concordei com a cabeça e um sorrisinho discreto nos lábios, ficamos falando por bons minutos enquanto terminavam os chocolates quentes, terminados deixamos no chão em um círculo, Liat se espreguiçou e Aemy colocou a mão na boca para bocejar.

— Você nunca nos falou sobre sua família. — Falo para Aemy, a olhando.

— Meu pai é só um joalheiro e minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Minha vida não é interessante, vocês sabem bem disso. — Explicou balançando a mão para mudar de assunto.

— O que acham de dormirem aqui hoje? — Pergunto timidamente.

Liat e Aemy pareciam surpresas ao trocarem olhares como se pudessem se comunicar assim, houve um silêncio temporário antes que Liat se jogasse na minha cama e Aemy tirasse o roupão antes de se deitar com um sorriso discreto.

— Essa é a primeira vez que dormimos juntas! — Liat murmura manhosa.

Coloquei as canecas na escrivaninha e fui até a cama, deitando no meio, acabei rindo seguido de um bocejo de sono quando Liat deita a cabeça no meu ombro e com a mão, empurrou a minha cabeça para que eu apoiasse no ombro de Aemy.

— Vocês são duas crianças! — Aemy reclamou porém não me afastou.

Rimos em resposta e um tempo depois, Liat foi a primeira a adormecer com a feição tranquila e aparentando estar confortada o suficiente para dormir feito pedra. Ainda estava com dificuldade para dormir quando percebi que Aemy também estava, acabei ficando a observando observar o teto, me assustei ao notar seus olhos verdes me encarando de volta.

— Não consegue dormir? — Perguntou sussurrando e eu concordei com a cabeça. — Vou contar mais sobre mim até que durma, o que acha?

Aemy só fazia isso quando estava de bom humor ou algo muito bom estava para acontecer em breve. Isso acabou me animando, talvez um momento muito bom estivesse nos esperando no dia seguinte, concordei e fechei os olhos devagar.

— Meu pai faz a maioria das suas jóias e das suas irmãs. Minha mãe trabalhava como florista e era a mais procurada da região pelo seu trabalho impecável e repleto de am...

Acabei dormindo apoiada em Aemy e não consegui escutar tudo que ela iria falar, talvez apenas precisava de um pouco de afeto antes que pudesse de fato conseguir dormir.

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Acordei com a voz de Nora afobada, cocei meus olhos vendo que estava sozinha no quarto, sentei na cama devagar raciocinando o que aconteceu e notei pelo sol que devia ser pelo menos umas dez horas da manhã. Percebi que mais servas que o normal entraram no quarto tão afobadas quanto Nora que se apressou em me ajudar a levantar da cama e despir totalmente sem demora.

Não me deram tempo de perguntar absolutamente nada, levaram até o banheiro e me deram um banho exageradamente demorado e depois assim que estava seca, me levaram ao quarto de volta e vestiram-me em um vestido princesa vermelho com detalhes em preto com as mangas caídas nos ombros e sapatos de salto alto pretos, deixaram meu cabelo solto, percebi que haviam trazido uma caixa de acrílico que não via normalmente, retirando de dentro a minha coroa e colocaram com cuidado sobre minha cabeça.

— Podem se retirar e avisar que estamos a caminho! — Nora avisou e as servas saíram.

— O que está acontecendo? — Pergunto segurando o pulso de Nora que me olhou com uma expressão de dor.

— Sinto muito, minha menina... — Foi a única coisa que ela disse antes de sair.

Suspirei fundo apenas a acompanhei pelos corredores, notei no caminho que estava com a guarda redobrada, conforme fomos nos aproximando da sala do trono e mais a frente a silhueta de Aemy, Liat, Raely, Theodoro e até mesmo Kylo surgiram a minha espera.

Raely e Theodoro vestiam seus melhores trajes em tons pretos com detalhes em cinza, até mesmo Kylo estava bem vestido com a mesma vestimenta dos dois que caía perfeitamente como se fosse feita sob medida. Liat vestia um vestido branco com detalhes em preto longo e rodado enquanto Aemy vestia um vestido longo porém com menos detalhes que o meu ou de Liat em um tom verde menta, ambas com os cabelos presos em tranças com tiaras de ouro. Tinha um péssimo pressentimento e não estava gostando nada disso.

— Podem anunciar eles. — Nora avisou para os guardas que estavam na porta.

A porta dupla foi aberta por um guarda que ao fazer uma reverência, consegui ver um aglomerado de pessoas das quais estudei e todas são peças importantes do reino, a rainha estava no trono com o vestido idêntico ao meu se não fosse a coroa real sobre sua cabeça e o manto real sobre os ombros.

Havia um trono vazio ao seu lado que era ocupado pelo meu pai, agora eu o ocupava em raras ocasiões, alguns degraus abaixo estava Lizy e Adisura em cada lado, com vestidos floridos e coroas moldadas para darem a impressão de tiaras de flores delicadas.

— Anúncio a Princesa Dea Solis e sua corte pessoal. — A voz do guarda ecoou na sala, chamando a atenção de absolutamente todos da sala.

Prendi a respiração quando ele sai da frente dando passagem, deixei minha expressão neutra o máximo possível assim que comecei a caminhar em direção a rainha que me observava como uma cobra esperando para dar o bote. Seguido de mim, vinha minha corte, no caso, meus amigos e me impressiona a rainha ter reconhecido Kylo como parte da minha corte. Liat e Aemy andavam atrás de mim, enquanto Theodoro ia atrás de Liat, Kylo no meio e Raely na outra ponta.

Senti minhas mãos suarem e meu coração acelerado, mas sem escolha apenas continuei andando até chegar perto do trono, fiz uma profunda reverência quase ajoelhando e os outros fizeram o mesmo em seguida, tínhamos que ficar assim até que ela mandasse se levantar.

— Levantem-se. — Ela ordenou e levantamos. — Venha, minha filha. — Contive a surpresa quando ela diz isso estendendo a mão para mim.

Olhei de canto e os outros haviam se dispersado na multidão, voltei a olhar para a mão de Sommar como se fosse um sonho, meu peito se enchia de alegria mas em minha mente, se repassava tudo que ela já fez e disse sem um pingo de arrependimento. Segurei na mão dela e a vejo com um sorriso de víbora ao se levantar.

— Aqui está ela... — Me virei com a frase de Sommar, vendo um garoto à minha frente e a pessoas eufóricas. — Sua noiva, Príncipe de Châdifir, Inej II Matther.

Arregalei meus olhos o vendo detalhadamente agora, de pele clara, os olhos cinza e estreitos, o cabelo razoavelmente grande em um loiro queimado e estava acompanhado de uma garota usando um vestido leve e esvoaçante, um cabelo castanho escuro quase preto e mediano, olhos grandes e brilhantes em um castanho escuro e uma pele parda delicada.

— E Dea, está é Awiri, a serva pessoal do Príncipe. — A voz de Sommar estava me irritando agora.

Estava apavorada por dentro e não sabia mais quanto tempo iria conseguir ficar nesse lugar com tantas pessoas e a possibilidade de estar e ser julgada ou pior, a rainha fazer algo comigo e agora isso, esse cara desconhecido a minha frente dizendo ser meu noivo!

Coloco uma mão trêmula no meu rosto tentando respirar normalmente, senti alguém a abaixar e beijar minha mão trêmula, uma vontade de dar um tapa na pessoa surgiu e continuei com essa vontade mesmo vendo que era o Príncipe meia boca. Seus olhos cinzas me encaravam ainda com os lábios encostados no dorso da minha mão.

— Solte-me. — Ordeno em um sussurro para que apenas ele escute.

Limpei minha mão na saia assim que o Príncipe meia boca se afastou, estava apavorada mas estava mais irritada com ele e com a rainha. Não aguentei muito tempo antes de sair sem fazer a reverência, indo o mais longe possível enquanto as lágrimas de medo e pavor escapavam pelo meu rosto. 

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