Capítulo 3
Quando a noite recaiu sobre o reino, havia me despedido de Theodoro e do passeio maravilhoso que tivemos para ir ao meu quarto, esperando que alguém já tivesse levado as meninas aos meus aposentos. Abri a porta já retirando os meus sapatos antes de dois pequenos furacões pularem em minha direção, me derrubando no chão.
— Meninas! Saiam de cima, vamos! — A voz de Nora soou repreensiva mas gentil.
Ela havia surgido do canto do quarto, talvez estivesse distraindo as meninas enquanto eu não chegava logo, talvez tivesse demorado demais em minha conversa e passeio com Theo.
— Não se preocupe, Nora, estou ótima! — Digo me levantando e entregando meus sapatos a ela, que os guardou. — Vejo que estão animadas para hoje.
— Sim! — Lyz e Adisura responderam juntas, pulando, cheias de energia.
Entro de vez no quarto, fechando a porta atrás de mim, em seguida sou puxada por ambas que me levavam para o piano que ficava em um dos cantos do quarto. Reparei que as duas já estavam de pijama, devia agradecer a Nora por tudo quando elas dormirem.
Sentei em frente ao piano de cauda branco com Lys e Adisura sentadas, uma de cada lado, beijei a testa de cada uma e pude ver pelo canto da minha visão que Nora estava saindo sem fazer barulho. Sussurrei uma pequena ideia para minhas irmãs que saíram do meu colo rapidamente ao ouvir e foram até Nora.
— Nora! Nora! Espere! — Lys a chama, fazendo com que parasse e se virasse para ambas.
— Fique com a gente, No! — Adisura pede com a voz tímida propositalmente.
— Meninas... Isso não é adequado. Sinto muito. — Fala com peso no coração por negar isso.
Vejo Adisura e Lys voltaram cabisbaixas ao se sentarem novamente, cada uma de cada lado meu, em frente ao piano de cauda branca. Talvez...
— É uma ordem de sua princesa. Não se pode negar um desejo de um membro da família real. Elinor. — Incentivei com um toque de ordem.
Vejo os olhos de Nora se estreitando com um brilho de dúvida misturado à felicidade ao se dirigir a cadeira que ficava ao lado, literalmente, do piano. Lys saiu do meu colo e foi para o de Nora, elas são realmente apegadas, é impossível que alguém odeie essa mulher tão doce.
Fiquei um bom tempo cantando e tocando antes de, com a ajuda de Nora, colocar as meninas na minha cama e começar a contar alguma história que havia inventado na hora e foi o bastante para que em alguns poucos minutos as duas estivessem dormindo tranquilamente. Nora me ajudou a despir, tomar um banho rápido e vestir a minha camisola para que fosse dormir também, vesti um roupão para levar ela até a porta.
— Obrigada por hoje, Elinor. Sou eternamente grata a você, por tudo. — Digo sincera, abrindo a porta.
— O reino tem sorte de tê-la como a futura rainha deles, Dea. — Disse, então fez uma reverência antes de se virar para sair, mas parou e me olhou de canto antes. — Durma bem, Vossa Graça. — Então ela sumiu no corredor.
Fecho a porta devagar seguindo para as janelas, fechando as cortinas mas quando cheguei na última janela do quarto, notei uma movimentação estranha no jardim como se fosse uma pessoa correndo que mais parecia um vulto. Rapidamente fechei a janela e fui para perto da cama, onde estava a minha pantufa, calcei antes de ir em direção a porta porém parei no meio do caminho quando escutei alguém que parecia estar sussurrando ao vento mas dentro do meu quarto. Me virei para encontrar apenas minhas irmãs quietas, dormindo tranquilamente na grande cama,
— Quem está aí? — Pergunto, mas sem resposta.
Caminho devagar até minha escrivaninha, pegando uma adaga que mantinha para caso de alguma emergência, e essa parecia uma delas. Comecei a ter essa adaga quando ainda era criança e comecei a ver e ouvir coisas que não pertenciam a esse mundo, ao mundo real. Me achava e ainda me acho estranha por isso, pelo menos ter algo para me proteger me faz me sentir um pouco segura.
Havia apenas um lugar em todo meu quarto que poderia estar com essa passagem de ar e os barulhos que imitavam um sussurro. A passagem secreta atrás do meu baú. Historicamente falando, esse castelo está inundado de passagens secretas e como uma criança exploradora, conheço todas, sem exceção. Apenas teria que tomar cuidado para não acordar minhas irmãs.
Coloquei a adaga no bolso do meu roupão indo para o meu baú que ficava no canto de uma parede, agachei ao lado do báu, começando a empurrar ele para longe, tive que fazer isso aos poucos já que ele fazia barulho ao ser empurrado. Olhei para a pequena porta que antes estava escondida pelo baú, prendi meu cabelo em um coque feito às pressas antes de empurrar a portinha sem muito esforço. Observando ao redor, de fato, aquele barulho vinha dali.
Estiquei minha mão em direção ao corredor escuro e silencioso que se seguia à frente mas não consegui me mexer, minha mão estava tremendo, não ia para frente, nem meu corpo, me afasto e sento no chão, abraçando meus joelhos. Aquele corredor era estreito e escuro demais, não conseguia suportar a ideia de passar por lá. Abaixo minha cabeça, encarando o chão. Tudo isso é culpa daquelas pessoas... Se não fosse por elas, eu conseguiria ver o que estava além desse corredor! Antigamente talvez eu conseguiria.
Ergui minha cabeça ao escutar um som de sino ser rolado pelo corredor, me aproximo ainda permanecendo no quarto para tentar ver o que era até que uma bolinha de metal com um pequeno sino bate na minha mão. Ajeito-me, sentando com as pernas de lado, percebo que havia um papel amassado ao redor da bolinha de metal. O desembrulho para ver o que estava escrito. Sou sua amiga.
Comprimi os lábios confusa porém tive uma ideia. Me levanto rapidamente e guardo a adaga na gaveta da escrivaninha para começar a procurar um lápis, demorei porém achei. Arranco um pequeno pedaço de papel para escrever. Quem é você? Então embrulhei o papel na bolinha, voltei a ficar em frente ao corredor e jogo a bolinha de metal naquele breu total, por sorte não tive que esperar muito e a bolinha estava de volta para mim. Desembrulho e leio. Reluz.
Estava para me levantar para responder quando uma pedrinha foi jogada embrulhada com um papel, a peguei antes que um vento forte fechasse a porta. Ergui meu olhar para minhas irmãs, agradeci aos deuses por elas continuarem dormindo. Me sento em frente a escrivaninha para desembrulhar o papel e ficar completamente confusa com o que li. Meu tempo acabou, até em breve, Dea. Isso não fazia sentido nenhum, como ela sabia meu nome? Ou o que ela fazia naquele pequeno e apavorante corredor? Não entendo. Quem é Reluz?
Tinha uma pequena ideia de onde ganhar ou começar a procurar pelas respostas.
Retirei uma folha da gaveta e escrevi tudo que sabia dela. Era uma mulher, se chamava Reluz, sabe meu nome e diz ser minha amiga, pouca coisa mas deve servir. Sai do quarto e pedi que dois guardas mantivessem a vigia para a segurança de Lys e Adisura. Coloquei o papel no bolso e fui até a sala do conselheiro real, por sorte, meu amigo. Seu nome é Isack, um senhor já na casa dos 70 anos de pele parda, lábios finos, secos e caídos, olhos cinzas e finos com o pouco cabelo que lhe resta preto e calvo, sem contar que é realmente alto, largo e com bafo de alho, já que sempre está comendo seu pão de alho com café sem açúcar.
— Com licença, senhor Isack. Sou eu, Dea. — Aviso a minha chegada.
Fico distraída enquanto olho os corredores sendo pega no susto ao escutar o rangido da porta sendo aberta e a presença forte dele surgindo em seguida.
— Vossa Graça, entre por favor. — Sua voz era arrastada e grossa seguida de uma reverência.
— Você é o único que poderia me ajudar agora. — Murmuro tirando a folha do bolso.
Sigo Isack para um canto onde havia lareira e duas poltronas com uma pequena mesinha transparente, era o único espaço arrumado para mim mesmo que ele diga que a sua bagunça aos meus olhos seja a sua organização. Nos sentamos e deixei que ele me servisse uma xícara de chá de hortelã.
— O que fez com que Vossa Graça vinhesse ao me encontro em plena madrugada? — Pergunta-me entregando a xícara.
— Você possui o registro de todas as pessoas que nasceram e morreram em Hayesfir, preciso que encontre alguém que se chama Reluz. — Digo diretamente e sem rodeios, segurando a xícara e bebendo um gole. Delicioso.
— Preciso do sobrenome dela, sabe que existem várias pessoas com o mesmo nome. — Explica servindo um pouco de chá para si mesmo. — Sem o sobrenome, não podemos fazer mais nada. Sinto muito.
Abaixo o olhar terminando de tomar o meu chá. Não sabia como iria conseguir descobrir o sobrenome dela sem a menor ideia de quando teria a chance de ver ela novamente, bom, conversar com ela já que nem sequer sei como ela é pessoalmente.
— Se você puder me passar o nome de todas as pessoas que se chamam assim e que estão vivas, eu agradeceria muito! — Sugiro colocando a xícara na mesa.
— É claro. Vivas. — Concordou levantando e colocando a xícara pela metade na mesa.
Segui Isack com o olhar vendo se aproximar de um monte de papéis e livros em um completo caos para mim. O vi tirar um livro fino, o folhear para soltar e esboçar um sorriso vitorioso, realmente, ele se localizava melhor do que qualquer um nesta sala.
— Este é o livro com os nomes de todas as pessoas que se chamam Reluz e estão vivas neste exato momento. — Explica ao me entregar o livro.
— Não é pequeno demais? — Pergunto folheando o livro fino.
— Acontece que você pediu às pessoas que estão vivas e são poucas as que possuem esse nome vivas atualmente. — Diz se sentando na poltrona novamente.
— Tem razão... — Murmuro — Obrigada, estou indo agora.
Me levantei com o livro em mãos e Isack fez questão de me acompanhar até a saída de sua preciosa sala, abrindo a porta para mim. Virei para o ver fazer uma reverência de despedida antes de entrar e fechar a porta.
Tinha que dormir cedo, porém estava ansiosa para descobrir quem era Reluz. Segui pelos corredores até escutar vozes familiares demais para mim, virei o próximo corredor e quase deixei o livro que Isack me emprestou cair. Não acreditava no que estava vendo com meus próprios olhos. Elas voltaram!
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