Capítulo 26

Completou-se três dias nesta mesma rotina, meus dedos se encontravam, todos sem exceção, enfaixados por conta de cortes acidentais que foram causados por distrações. Apesar disso, realmente estava começando a pegar o jeito na cozinha com uma grande ajuda de Margo e seu jeito agressivo de ser.

Havia terminado de guardar a louça do almoço quando sinto o navio balançar mais forte do que o de costume, olhei para fora da janela para encontrar um mar pacifico e sem qualquer sinal de ondas bruscas. Coço a nuca confusa saindo da cozinha vendo os tripulantes trabalhando enquanto outros estavam descansando na troca de turnos da manhã. Acabei me acostumando com a gritaria e os solavancos que eles causavam.

Comecei a procurar pelo navio por linha, agulha e tesoura para que pudesse começar a aprender os dotes de costura que serão críticos para que eu possa ter qualquer dignidade em minhas vestes que são de todo modo emprestadas. Ergui o olhar e no final do corredor havia uma porta ornamentada com um dragão de água rugindo como em sinal para manter a distância, olhei para trás me vendo só naquele corredor e sem que perceba meus pés começam a me guiar em direção a porta de madeira e maçaneta dourada.

Me assusto ao ver a porta se abrir sem que alguém a abrisse, meus olhos vagaram pela sala com a forte presença de cores como azul, dourado e preto até mesmo no piso de madeira escura, todo o lugar emanava um ar de riqueza e poder.

— O que você quer? — Só então notei a presença de olhos de safira no canto da sala.

Me arrepio quando a porta fecha atrás de mim silenciosamente apenas sendo perceptível pelo vento sutil nas minhas costas.

— Uma caixa de costura. — Respirei fundo mantendo a cabeça erguida.

Sinto um nó se formar em meu estômago conforme ela percorre seus olhos, agora estreitados, por todo o meu corpo até mesmo por minha alma, se é que tal ato pode ser considerável humanamente possível.

O que mais acabava me assustando nela era sua aura, como se não fosse possível encontrar fraquezas ou receios, era como se ela tivesse certeza absoluta de cada passo, palavra e entonação a ser tomada em cada situação.

— Se eu lhe desse isto... — Sua voz soou calma enquanto pegava em uma das gavetas da mesa uma caixa de costura. — Como isso seria útil a minha tripulação a longo prazo?

Comprimi os lábios ao notar o símbolo gravado na caixa delicada de metal, era uma ninfa da água segurando em sua mão esquerda uma taça e na direita, erguendo uma espada. Poderia ser dispersa em boa parte dos assuntos que se tratavam de fora do meu reino, mas tenho certeza que essa caixa pertence a L'Hiver.

— Não teria que me emprestar roupas e poderia costurar as que rasgassem ou desfia-se dos seus tripulantes. — Dessa vez não fui capaz de olhar em seus olhos, encarando a parede atrás dela.

O silêncio que se instaurou revirou meu estômago de forma bruta antes que passos firmes soassem na minha direção me fazendo olhá-la agora parada a minha frente com a caixa em suas mãos ainda, o que me fez endireitar a postura.

— Fique ciente de que cobrarei isso daqui a um exatamente dois meses.

Pego a caixa com cuidado fazendo um breve assentir com a cabeça antes de finalmente conseguir escapar daquela sala de uma vez por todas e novamente a porta se fecha sozinha atrás de mim porém percebo a maçaneta úmida.

Suspiro com um sorriso olhando a caixa em minhas mãos e não perco mais tempo, corro para a cozinha que havia se tornado além de meu espaço de trabalho, meu quarto improvisado. Deixo a caixa em cima da pia retirando de dentro de um dos armários, um saco de dormir com alguns fiapos e rasgos visíveis.

Pego a caixa na outra mão escorregando até sentar no chão com as costas apoiadas no balcão, deixando o saco de dormir de lado passo a mão com cuidado pela caixa principalmente pelo emblema. Abro após alguns minutos de pura admiração encontrando um punhado de linhas de cores e grossuras diferentes assim como um punhado de agulhas e uma tesoura própria para costura.

Era fácil imaginar eles saqueando todos os lugares alheios de seus ataques, mas não conseguia pensar em como teriam se infiltrado e saqueado algo que claramente pertencia a uma das criadas do castelo. Me pergunto se eles tiveram de matar alguém para conseguir tal proeza inimaginável para mim.

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Me lembro que comecei a costurar e remendar meu saco de dormir após o jantar mas não me lembro exatamente o momento em que me vi com os dedos doloridos e alfinetados tantas vezes pela agulha ao remendar.

Mas sei que era de madrugada quando notei sob a fresta da porta um punhado de água balançando com o balançar do próprio navio, me levantei abrindo a porta e seguindo a água com o olhar podia ver que descia o último andar, onde dias atrás era minha cela abafada e agoniante. Voltei para a cozinha vestindo um fino cobertor sob os ombros quando avistei uma vela apagada, a coloco em um castiçal enferrujado antes de a acender e sair.

Segui a trilha estranha de água silenciosamente para evitar de acordar alguém como olhos de safira e ter de explicar o que fazia atrás de uma linha da água que não deveria ter se formado ao acaso como estava acontecendo. Evito pisar em cima já que uma inquietação estranha me atingia sempre que quase acabava pisando.

Desci até o armazém por onde passei pela porta, refazer aquele caminho me causava calafrios ao lembrar da fome, frio e enjoos que fui obrigada a passar, e agora que me recordo, por três dias antes de ceder a exaustão que me consumia de dentro para fora.

Ergui a vela para ver que a trilha de água terminava um pouco mais a frente do cubículo que me colocaram, caminhei até me ver parada em frente a cela do homem que ainda me era desconhecido seu nome. Ele estava dormindo tranquilamente encolhido contra a parede apesar de às vezes reparar que o frio que fazia aqui embaixo lhe causava espasmos quase imperceptíveis.

Abaixo meu olhar me deparando com uma péssima tentativa de desenhos sem qualquer nexo ou sentido entre si, percebo que após cinco desenhos ele fez uma distância para que pudesse começar a desenhar outros cinco desenhos que me esforcei para entender.

Taça, roupa, olho, casa e anel.

Janela, uva, saia, tapete e alçapão.

Franzi a testa me sentindo confusa até erguer o olhar me assustando ao ver que ele estava acordado agora encostado na parede ainda sentado mas com os braços cruzados e um sorriso presunçoso em seus lábios atrativos.

— Você é idiota ou o que?! — Vocifero irritada.

Acabei sentando no chão com a respiração desregulada por conta do susto, olhei para minha mão completamente seca e para minha surpresa, o caminho de água que havia me trazido até aqui não estava mais, nem sequer úmido onde deveria estar. Isso não pode ser real.

Apoio a mão na minha cabeça sentindo minha visão se tornar turva e o mundo pesado demais até mesmo para conseguir respirar. Sinto meu corpo lentamente tombar para trás até sentir uma mão firme segurar meu pulso me ajudando a manter a consciência e com o corpo reto sem o risco de cair e bater a cabeça.

Ergui meus olhos encontrando com os seus olhos azuis claros em uma expressão de confusão e surpresa que não era perceptiva se olhasse para sua feição emburrada como um conjunto, somente seus olhos expressão algo além de desgosto.

— Você é realmente idiota. — Murmura me soltando.

Sinto meu coração bater freneticamente em uma sintonia de desespero ao conseguir me manter firme e notar que por pouco não deixei o castiçal cair e começar um incêndio no navio.

Me levanto respirando fundo percebendo minha mão tremer enquanto a chama da vela dançava entre o vermelho e o laranja, consumindo a cera que acabou escorrendo pelo castiçal quando me viro para sair me dou conta de que pela primeira vez havia escutado sua voz. Ao me virar abruptamente para o encarar, para meu espanto, ele estava na mesma posição de antes, dormindo tranquilamente.

Sinto medo e andei apressadamente sem olhar para trás para a superfície do navio onde as ondas estavam agressivas ao se chocarem contra o casco do navio que estranhamente não estava balançando tanto quanto estava esperando.

Assopro apagando a vela e deixando o castiçal no chão quando escuto uma melodia que me faz andar devagar até a borda do navio, inclinando para ver as ondas mais raivosas se chocarem contra o casco quase como o tentando quebrar.

Inclinei-me mais ao perceber uma figura entre as ondas cada vez maiores e intensa, consegui distinguir a figura embaçada de uma criança que parecia estar constantemente chorando o que me causava uma sensibilidade maior ao sangue que percorria meu corpo trazendo consigo uma sensação de angústia que tomava meu peito. Era a sensação que dominava meus sonhos sem sentidos que me acordava com suor, medo e solidão avassaladora.

Quando faço menção de pular sinto braços firmes me abraçar pela cintura e me arrastar para longe da borda, sinto o corpo se chocar contra uma parede com a respiração afobada. Desviei minha atenção para ver olhos de safira me abraçando.

— Era só o que me faltava, uma pirralha mimada enfurecer as águas!

Não entendo quando a mesma me solta e segurando com força no meu pulso, me arrastou para a sala com o emblema de dragão mesmo que todo o curto caminho minha visão estivesse fixa, como se ainda pudesse ver, a água e seu movimento.

Sou forçada a me sentar em uma cadeira aveludada enquanto vejo olhos de safira sair e rapidamente voltar com Alison e a outra mulher que ainda tinha seu nome desconhecido por mim, adentrarem a sala com certa afobação. Sinto meus braços serem presos na cadeira por... por água?! Vejo a mulher ao lado de olhos de safira se aproximando e colocando suas mãos nas laterais da minha cabeça enquanto fechava os olhos, senti minha mente ser invadida a força antes de me encontrar apagada.

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