Capítulo 20

Termino de ajudar Laylah quando Inej volta do quarto das gêmeas onde as deixou após se acalmar e adormecer o que demorou para acontecer, evito olhar quando passa por mim. As coisas ainda estavam estranhas demais. Laylah intercala o olhar entre mim e Inej antes de se levantar em direção à porta.

— Obrigada pela ajuda, mas devo ir agora. — Se retirando em seguida.

Suspiro me levantando da cama com o pano manchado de sangue em mãos, caminho em direção a uma pequena tigela de água usada para limpar as mãos mas a uso para começar a limpar o pano que antes de ser manchado era branco com babados feitos em dourado.

— Vai me ignorar agora? — A voz séria de Inej me assustou.

Fixo firmemente meu olhar e concentração em tirar o sangue do pano.

— Dea...

— Não me chame assim! — Minha voz se elevou sem que eu percebesse.

Prendo a respiração ao escutar os passos se aproximando e Inej parando atrás de mim, não ousei me mover mantendo meus olhos fixos na tentativa desesperada de tirar o sangue do pano apenas para me distrair do gosto amargo e desespero pela confusão de sentimentos crescentes. Não podia negar o sentimento mais forte... ódio.

Vejo o sangue sugar a água e o pano ao ser retirado estar de volta a sua tonalidade antiga, suspiro aliviada mas logo prendo a respiração sem saber o que fazer ao sentir as mãos de Inej em minha cintura, me virando devagar para si.

— Me deixe salvá-la... — Sussurrou, acariciando minha bochecha.

Eu te odeio e odeio o fato de que eu me coloquei nesta situação para o bem de quem amo e não posso descontar a raiva em você! Penso mas não consigo pronunciar uma palavra sequer apenas encarar os olhos acinzentados dele transbordando sinceridade e isso estava me sufocando.

Não consegui reagir a tempo quando me dei conta que meus lábios já estavam juntos dos de Inej que mantinha suas mãos em minha cintura, aproximando meu corpo do dele. O gosto amargo parecia inundar desde a garganta ao céu da boca me dando tempo apenas de pegar uma curta distância cortando o beijo de uma forma um tanto brusca.

— Vamos parar por aqui... — Murmuro nervosa. — Não quero estragar o pouco de amizade que resta.

Inej retirou suas mãos da minha cintura com uma expressão de surpresa e decepção mas permaneceu a minha frente sem desviar o olhar de mim em nenhum momento isso estava me deixando mais nervosa ainda.

— Falhei em perceber como estava se sentindo, desculpa. — Partiu meu coração sua voz melancólica. — Não consigo te salvar...

Aperto minhas mãos em punho para que elas não o puxasse novamente para perto em um abraço, essa conversa que um dia teria que ser pontuada estava machucando muito mais do que imaginei que fosse. Parecia que estávamos construindo uma relação em areia movediça.

— Você vai encontrar alguém que te ame mais... mas esse alguém não pode ser eu. — Explico.

Inej ri de forma dolorosa ao se direcionar e sentar-se na beirada da cama de cabeça abaixada e os braços apoiados nas pernas, virado de frente para mim.

— Você acha que eu queria sentir essa droga?! Que eu queria acordar e deitar pensando em você? Eu odeio isso tanto quanto você... — Afirma e podia jurar ter visto uma lágrima escorrer. — Pensei que pela primeira vez seria prioridade de alguém.... Mas só sou importante para uma serva. Que irônico.

Mordo meu lábio inferior sentindo uma grande culpa mas realmente não consegui atravessar a linha extremamente extensa que fiz, sinceramente, talvez nem queira atravessar depois de tudo que vem acontecendo. Desvio por um breve instante minha atenção de Inej encarando a janela, a noite já surgia no horizonte e era melhor que fossemos dormir separados essa noite.

Ando em direção a cama, agachando e puxando debaixo dela uma caixa de madeira bem cuidada com entalhes de pássaros cravados nela, retiro o diário de Elinor e entrego a Inej uma carta que havia escrito há pouco tempo, palavras que não conseguia dizer mas que fluíam facilmente da alma para o papel, exatamente como queria.

— Acho melhor ficar com ela e dormir sozinho. — Sugiro, me levantando com o diário em mãos.

— Não precisa...

— Precisa. — Insisto, ao interromper. — Boa noite, Inej.

— Boa noite, minha querida. — Se despede com um sorriso fraco.

Fecho os olhos por um breve momento apertando o diário contra o peito antes de sair do quarto e só então percebendo que não fazia a menor ideia de onde dormir, mesmo que já estivesse praticamente pronta para dormir graças ao vestido leve e solto que escolhi para usar mas precisaria de um banho.

Ando pelos corredores começando a cogitar dormir com Liat mas mudo de ideia rapidamente, provavelmente ela está sobrecarregada de coisas já que em três dias estarei casada e amanhã começam a chegar os convidados. Isso faz eu excluir qualquer chance de ter abrigo com Theodoro, Raley ou mesmo Kylo.

Resmungo sem saber o que fazer quando sinto algo bater com força na minha cabeça, uma dor irradiante começa na minha testa quando faço menção de tocar o local encaro o chão onde uma pedra e cacos de vidro estavam aos meus pés, ergo rapidamente o olhar para a janela que se encontrava quebrada. Seguro com mais força o diário em uma mão sentindo que alguma coisa estava muito errada ali.

Comecei a me aproximar da janela quebrada e uma silhueta familiar mas distorcida surgiu no ar a caminho do castelo. Aemy estava completamente diferente sendo reconhecida apenas por seu rosto que permanecia o mesmo enquanto todo o resto parecia de uma harpia como se tivesse sido retirado de um livro de fantasia. Nas suas garras, que anteriormente eram seus pés, carregava pedras grandes e logo atrás dela havia diversas outras coisas da mesma forma com rostos diferentes e carregando pedras menores.

Estava paralisada custando a crer no que estava diante de mim sendo retirada de meus pensamentos por uma voz ecoando no corredor familiar que parecia afobada e irritada chamando minha atenção tendo tempo de olhar de canto e no final do corredor posso jurar ter avistado Awiri que desapareceu em seguida.

— Cuidado!

Kylo surgiu no corredor correndo em minha direção rapidamente se jogando em cima de mim, fazendo com que nós dois fossemos parar no chão, ele recebeu o maior impacto se cortando com os cacos de vidro e eu apenas ralei um pouco dos braços sem soltar o diário. Encaro Kylo de canto e quando faço qualquer movimento com a boca ele rapidamente me cala com a mão, seu semblante era sério de um jeito firme.

Encolho contra Kylo quando as janelas começam a se quebrar, uma atrás da outra, percebo quando ele começa a fazer uma espécie de barreira com o corpo recebendo todas as pedras que estavam quebrando as janelas. Aperto o diário contra o corpo assustada, ficando assim por pelo menos uns cinco minutos até Kylo se afastar, levantar e estender a mão para me ajudar a levantar.

Arregalo os olhos ao ver que várias partes descobertas de seu corpo estavam roxas por culpa das pedradas que recebeu ao me defender, comprimo os lábios aceitando a ajuda e levantando mal tendo tempo de reagir ele me puxa pelo braço, começando a correr. Muitas vezes quase tropecei se não fosse por Kylo me segurando, não sei quando mas em algum momento acabei perdendo meus saltos altos na corrida.

— O que está acontecendo? Kylo! Estou com medo. — Grito por cima do caos que se instaurou no castelo.

Kylo me ignorou continuando a correr sem olhar para trás, passamos por diversos guardas que seguiam o caminho oposto, cinco deles indo em direção ao quarto das minhas irmãs enquanto outros sete seguiam para o quarto da rainha e de Inej. Kylo virou no terceiro corredor, a única coisa que consegui fazer com esforço foi acompanhá-lo quando finalmente paramos, me apoiei na parede para recuperar o fôlego.

Surgindo no final do corredor reconheci depois de um tempo que era Raely com as mangas da blusa erguidas até os cotovelos, ele foi direto em Kylo, provavelmente nem reparou que eu estava logo atrás encostada na parede. Abri a boca para chamar a atenção de ambos, mas o choque e surpresa me impediram de falar qualquer coisa, cocei os olhos para ter certeza e realmente estava vendo aquilo.

Raely deixou as mãos na cintura de Kylo e o beijou com intensidade, Kylo deixou os braços entrelaçados ao redor do pescoço dele enquanto retribuía o beijo intenso, desajeitado e afobado que só foi separado pela falta de ar. Kylo encostou a testa na de Raely ofegante. Sabia que era errado bisbilhotar mas não consegui conter a curiosidade de me aproximar para ouvir o que estavam conversando.

— Não morra, idiota! — Raely diz pausadamente por conta da falta de ar.

— Não morra, preciso de você vivo! — Kylo diz quase em uma súplica.

Não consegui escutar mas sei que trocaram mais algumas palavras antes de Raely seguir pelo caminho que viemos e sumir de vista sem olhar para trás. Kylo percebeu que eu ainda estava ali e vi absolutamente tudo, ele simplesmente coçou as têmporas, me segurou pelo braço e voltou a correr.

Soltei bruscamente meu braço parando no final do corredor, Kylo se virou para mim perplexo e confuso com minha ação.

— O que está acontecendo?! — Questiono irritada.

Eles não podiam ficar me jogando de um lado para o outro simplesmente porque querem sem sequer me deram um único motivo, só precisava de um motivo mesmo que fosse o mais trivial possível para continuar fazendo isso. E nessa circunstância, precisava de um motivo realmente importante para deixar minhas irmãs para trás.

— Olha, Dea, não estamos com tempo para isso. Vou te explicar tudo assim que eu garantir a sua segurança! — Ele diz entregando uma bolsa e estendendo a mão para mim dessa vez.

Seguro a bolsa guardando meu diário nela e a mão dele um pouco insegura sem saber de nada, deixando que Kylo voltasse a correr e me puxar consigo seja lá para onde estivermos indo. Olhei para trás uma última vez na esperança de ver um rosto familiar se aproximando, arregalei os olhos ao encontrar Reluz me olhando e eu era capaz de vê-la por completo.

Sua pele pálida era um pouco transparente, os olhos esverdeados transbordando afeto e gentileza. o longo cabelo loiro escuro solto e ela vestia um vestido branco delicado justo ao tórax e solto, leve e delicado para baixo. Meu coração parou quando somente eu fui capaz de escutá-la dizer.

— Eu, você, nós.

Quis responder mas ela já havia desaparecido balançando a mão como se estivesse dizendo "até logo" e isso me preocupou mas vê-la me trouxe uma sensação boa de uma forma que parecia preencher uma espaço que até então não sabia que estava vazio e necessitava de atenção.

Corremos para fora do castelo desviando das pedras que agora estavam sendo atiradas em nós, estremeço ao escutar um grito estridente de dor mas Kylo não me permitiu olhar para trás apenas continuando focado em correr o mais rápido possível. Comprimo os lábios ao pararmos em frente ao grande portão e sem demorar muito, Kylo mexe na bolsa que estava comigo retirando o molho de chaves abrindo o portão com agilidade e em meio a confusão, ele começou a falar enquanto empurrava o portão para conseguir passagem.

— Pode ter nojo, julgar, apedrejar ou dizer que não irei para o céu no deleite dos deuses, sinceramente não me importo. — Franzi as sobrancelhas confusa só entendo onde ele queria chegar quando prosseguiu. — O odiei tanto que agora não posso deixar de amá-lo e esse é o pecado que mais me orgulho de cometer porque posso dizer que já estive no paraíso sem mesmo ter estado.

— Que lindo... — Limpo uma lágrima que escorreu. — E não me importa esse tipo de coisa, não muda o que sinto por vocês.

Kylo me olhou por cima do ombro e sorriu genuinamente feliz, retribuí o sorriso feliz por ele ter me contato mesmo que em um momento completamente caótico, ainda me deixava feliz ser parte da história deles.

— Corra o mais rápido possível sem olhar para trás! Te alcanço em breve.

Engoli em seco receosa olhando para Kylo com medo antes de começar a correr o mais rápido possível em direção a ponte enquanto Kylo correu de volta para o castelo para fazer seja lá o que fosse só esperava que ele cumprisse com sua palavra!

Tropecei algumas vezes ofegante mas por sorte consegui me manter em pé correndo sem olhar para trás uma única vez sequer. Arrisco olhar para o céu vendo aquelas pessoas estranhas indo em direção ao castelo e não pude deixar de pensar em como estariam minhas irmãs e Laylah em meio a essa confusão.

Finalmente começo a avistar a ponte erguida xingó baixo me aproximando da alavanca começando a puxá-la para descer a ponte e eu pudesse continuar a correr o mais rápido possível mas ela estava emperrada. Respiro fundo evitando me desesperar e começar a chutar, empurrar e fazer qualquer coisa para que ela funciona-se novamente, os gritos que ecoavam me faziam estremecer de medo e preocupação, empurro com mais força arranhando minhas mãos na tentativa quando escuto o click da alavanca e vejo a ponte começar a abaixar.

Mal espero abaixar por completo simplesmente correndo e pulando para o outro lado do rio, escorreguei no final segurando com força em uma pedra que arranhava mais minha mão enquanto me empurro com dificuldade para cima, finalmente estando no outro lado. Me sento no chão ofegante checando se tudo estava no lugar, vendo se meu diário ainda estava na bolsa quando um relhincar e trotes ecoam se aproximando rapidamente.

Ergui meu olhar vendo Kylo montado em um cavalo branco de manchas marrons, crina loira e olhos negros como a noite mais profunda quase igual a esta sobre nos, me levanto aos tropeços e assim que o cavalo para, Kylo estende a mão e me ajuda a subir ficando atrás dele, o abraço com força quando o cavalo volta a correr em disparada.

— Promessa é dívida. — Kylo se gaba sem me olhar.

Apenas seguro firme na cintura dele vendo o tempo passar e o som de caos lentamente se afastando conforme nos aproximávamos de Zagraven Grad com um sinal estridente e alto de recuar fazendo todas as pessoas entrarem nas casas e se trancarem lá.

Havia apenas uma loja simples que permanecia aberta mesmo após o alarme de retirada ter tocado, Kylo para e desce do cavalo o prendendo em uma árvore próxima, desço do cavalo assim que ele termina e o sigo em direção a entrada da loja que na vitrine exibe lindas joias como pulseiras, anéis, colares e brincos de alto padrão.

Quando entramos nos deparamos com uma loja simples para Zagraven Grad com um balcão exibindo algumas joias e diversas prateleiras espalhadas pela loja, algumas caixas e uma porta que dela surge um homem de provavelmente quase quarenta anos mas estava com uma aparência realmente lamentável.

O homem de estatura alta que se aproximava possuía sardas pelo rosto, olheiras grandes e visíveis, a pele clara com muitas marcas de expressões, os olhos castanho claro emanava cansaço, o cabelo ruivo no estilo top knot e vestindo uma camiseta de manga curta cinza, uma calça larga preta gasta e sapatos monk marrom desgastados.

— Boa noite, bem-vindos a minha loja de joalheria. O que gostariam? — O homem perguntou simpaticamente limpando as mãos em um pano esfarrapado.

Seguro discretamente o braço de Kylo com um pensamento que se fosse verdade, poderia nos dar respostas que jamais teríamos de outra forma e afinal, não podíamos seguir caminho sem Kylo me explicar tudo.

— Boa noite, poderíamos saber seu nome? — Pergunto com cautela.

— Claro, claro. Estou acostumado a responder tal pergunta. — O homem ri se apoiando no balcão limpando um colar. — Me chamo Filipe Ragary, é um prazer tê-los na minha loja.

Arregalo os olhos trocando olhares de canto com Kylo que entendeu a importância do homem que estava bem à nossa frente.

— Seria muito incômodo se passássemos a noite aqui? — Pergunto gentilmente.

Filipe fica quieto enquanto termina de limpar o colar e colocar no balcão com todo o cuidado novamente para em seguida retirar um molho de chaves do bolso.

— Deverão pagar pela hospedagem e cada um deve comprar pelo menos uma coisa da loja. — Filipe explica calmamente indo em direção a porta que entrou. — Me sigam.

Kylo segura na minha mão para seguirmos Filipe. Estava rezando para que tivéssemos dinheiro suficiente e que Filipe fosse alguém fácil de se abrir para contar o que precisamos saber.

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