Capítulo 2

Terminamos o piquenique em silêncio e deixei Theo sozinho no jardim, indo em direção ao meu quarto, estava precisando esvair os pensamentos porém acabei mudando a trajetória quando escutei gritos vindo do quarto das minhas irmãs. Ao me aproximar, os gritos de repreensão aumentavam relativamente e no fundo eu já sabia o que esperar.

Abrindo a porta devagar, pude ver Lys encolhida próxima a cama e Adisura de pé, segurando seu ursinho de pelúcia para conter o choro enquanto deixava as pernas afastadas, ela tinha feito xixi na camisola. Quem estava as repreendendo era ninguém mais, ninguém menos do que a própria Rainha em pessoa. Entrei no quarto suspirando fundo, Adisura correu em minha direção e abraçou minhas pernas, tremendo de medo e confusão, chamei Lys com a mão e ela veio timidamente e me abraçou pela perna também.

— Estou de saída. Venha ao meu escritório assim que acabar. — Sua voz soou ríspida e irritada. Saindo de cabeça erguida do quarto, fechando a porta com um estrondo. Estava furiosa.

Peguei Lys no colo e segurei Adisura pela mão, guiando ambas ao banheiro para que pudesse dar um bom banho em ambas e as tranquilizar de alguma forma possível e talvez, quem sabe, descobrir o porquê disso tudo.

Assim que chegamos ao banheiro, despi cada uma e passei a mão pelo cabelo curto castanho claro de ambas antes de colocá-las na banheira e esperar que estivesse cheia o bastante para começar a dar banho nelas, depois teria de levar a lavadeira para que pudesse lavar a camisola de Adisura. Puxei um banquinho e me sentei próxima a banheira, ergui as mangas do meu vestido e deixei as toalhas no meu colo para que pudesse secá-las depois. Não demorou para que a banheira estivesse cheia o bastante para que Adisura e Lys começassem a brincar, jogando água uma na outra, já mais tranquilas do que antes.

— Aqui, venham para que eu possa lavar o cabelo de vocês. — Peço gentilmente.

Lys veio primeiro, ficando de pé na banheira de frente para mim, segurando com suas pequenas mãos a borda da banheira, deixando que eu começasse a lavar o cabelo dela mas ainda mantinha a atenção em Adisura que brincava com a espuma da banheira.

— Podem me contar o que aconteceu? — Pergunto calmamente e vejo Adisura se encolher um pouco.

Aquela mulher realmente me dá nos nervos...

— Adi teve um pesadelo com um monstro terrível! Assim de assustador, oh! — Lys conta abrindo os braços.

— Acabei me molhando... E-E a mamãe brigou muito comigo, disse que eu era uma menina má! — A voz de Adisura saiu baixa, olhando para a água e evitando olhar para mim ou mesmo para Lys.

Contive a raiva ao ouvir aquilo, Elas eram apenas crianças com apenas cinco anos de idade! É mais que normal que tenham pesadelos e acabam por fazer xixi na cama e isso não devia ser motivo de repreensão!

Foquei em terminar de lavar o cabelo de Lys e chamei com a mão por Adisura, que fez o mesmo de Lys. Ficou de pé, segurando na borda da banheira de frente para mim, quieta e timída. Demorei um pouco mais nela, focando em tentar acalmá-la do jeito que eu pudesse.

— Hoje vamos todas dormir juntas, o que acham? — Sugiro. Finalmente Adisura me olha com um sorriso puro.

— Com música da Dea? — Pergunta Lys já eufórica.

— E as histórias também? — Perguntou Adisura, juntando as mãos envergonhada.

— Com tudo que vocês quiserem! Vamos nos divertir muito! — Respondo sorrindo para ambas.

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Dar banho em crianças sempre é um trabalho, acabei saindo com a parte superior do meu vestido levemente úmida por conta do abraço que elas me deram antes de estarem totalmente secas. Não que eu me importe, porém aquela pessoa com certeza usará isso contra mim.

Estava andando pelo corredor em direção ao escritório da Rainha quando vejo Theo encostado na parede comendo despreocupadamente uma maça, ele rapidamente notou a minha presença, se afastando da parede com um sorriso brincalhão.

— Estou sem tempo, Theodoro. Qualquer coisa me espere longe daqui, por favor. — Peço ficando de frente para a porta.

Não fiquei para ver a reação de Theodoro, apenas acenei com a cabeça para os dois guardas que ficavam em frente a porta do escritório dela para que me dessem passagem e abrissem a porta. Entrei na sala e a porta logo se fechou atrás de mim, antigamente eu me assustaria, agora já se tornou repetitivo porém ainda dolorido.

— Estou aqui como pedido, Sua Alteza. — Anúncio fazendo uma reverência profunda e me levanto em seguida.

Nenhuma resposta, então segui para a cadeira em frente a mesa, me sentando em silêncio com as mãos juntas ao corpo, involuntariamente o nervosismo chegou a mim e comecei a tirar a pelinha das laterais das minhas unhas.

— Sabe porque está aqui, não sabe? — Perguntou devagar, abaixando as folhas que estava lendo.

A Rainha Sommar Solis. Sua pele pálida e perfeitamente bem cuidada sem qualquer sinal da sua real idade, seu longo cabelo loiro escuro preso em um coque sem um fio de cabelo solto, com um corpo esguio e seus olhos verdes me encarando fixamente na intenção de me fazer sentir medo.

— Sim, Sua Alteza. — Respondo, mantendo meu olhar fixo no chão.

— Deveria lhe punir hoje, porém sua pele deve estar avermelhada pela semana passada e não queremos que fiquem cicatrizes, certo? — Diz com a voz calma, apoiando as mãos na mesa.

Me contive em concordar com a cabeça enquanto tirava a pele do canto da minha unha, puxei uma que estava difícil de tirar e isso foi um erro. Segurei a expressão de dor e abaixei o olhar para meu dedo, estava sangrando e ardendo mas não estava mais com medo, isso que importava agora.

— A senhorita Sarang e a senhorita Ragary estão voltando essa noite da missão que lhes foi designada, espero que não me faça fazer elas saírem de novo daqui. São garotas úteis no final das contas. — Informa com seu nítido desinteresse.

— É melhor estudar mais sobre como as coisas são em Dagride. Teremos uma visita inusitada em breve. — Tirei com mais afinco a pele da lateral das unhas ao ver um sorriso debochado no rosto dela. — Aproveite que estou de bom humor e sai sem reverência.

Realmente era assustador porém milagroso ela estar de bom humor, como aconselhado. saio sem demorar mais um instante naquele lugar sufocante, estava tão apressada em ficar o mais longe que acabei esbarrando em Theodoro novamente. Agora, há três corredores de distância da sala dela.

— Dea?...

Não disse nada, apenas o abracei com força, escondendo meu rosto em seu peitoral, desejando que pudesse estar em um lugar melhor com música e pessoas sorrindo genuinamente, sem medo ou problemas me assombrando.

Ele pegou minha mão e afastou-me dele, viu rapidamente que meu dedo anelar da mão esquerda estava sangrando.

— Não acredito, de novo? — Uma pergunta retórica que não me incomodei de responder.

Theodoro segurou no meu braço e me levou para a enfermaria que estava vazia. Era um lugar bonito, já que tinha uma boa vista para os jardins e o céu ao entardecer. Ele me fez ficar sentada em um banquinho enquanto procurava algo para limpar o pequeno ferimento, talvez de tanto que isso já ocorreu, Theo acabou sabendo o básico do básico para primeiros socorros.

— Parece que foi mais calmo hoje. Isso é bom! — Diz ao se sentar na minha frente, ajoelhado.

Agradeço aos deuses por estar acostumada com a dor e não sentir mais do que um pequeno incômodo enquanto Theo se concentra em limpar o local com água e outras coisas que não sei o que são.

— Não digo que foi calmo, afinal, Sua Alteza irá me punir quando minhas costas estiverem completamente bem. — Murmuro sem o encarar. — Mas no final teve algo bom, Liat e Aemy voltaram de viagem ainda essa noite!

— É sério?!

Ri baixo assim que vi os olhos dele brilharem e um sorriso animador surgir em seus lábios, não era a única com saudade delas pelo visto mas era de se esperar. Theodoro e Liat estão prometidos um para o outro desde que Theo veio para o castelo e por sorte, ambos se gostam e o casamento será com amor em vez de uma união à força.

— Obrigada! Vai ficar melhor no dia seguinte. — O tranquilizo ao levantar.

Sou pega de surpresa quando vejo Theodoro se levantar e beijar minha testa carinhosamente e segurar meu rosto com cuidado, olhando no fundo dos meus olhos.

— Não a irrite, tente andar na linha. É melhor para a sua segurança! — Era visível a preocupação em sua voz.

Seguro as mãos de Theo e às beijo, sorriu e me afastei dele, passando a mão no meu cabelo e indo em direção a saída da enfermaria. Estendo a mão para ele, o mesmo veio até mim e segurou minha mão para irmos embora.

— Sou grata a sua preocupação, mas eu jamais vou permitir que ela faça da vida das minhas irmãs, o mesmo que fez com a minha. — Digo convicta e sem ezitar.

— Esse é o meu medo. Você não possui limites quando se trata de se arriscar pelos outros. — Confessa.

Comprimi os lábios, não gostava de ouvir isso porque era verdade, mas não tenho vergonha disso, pelo contrário, vejo isso como uma qualidade minha. A única talvez.

Entrelacei meu braço no de Theo e fomos caminhando pelo castelo sem pressa, Sabia que ele se preocupa literalmente como um irmão mais velho e eu entendo, depois de tudo que ele viu e me ajudou nesses anos mas já posso lidar com ela do meu jeito, mesmo que acabe me machucando fisicamente para isso. 

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