Capítulo 19

Laylah se afastou de mim ao terminar a trança, me olhei no espelho sentindo o gosto amargo na boca com a mente presa a Auksinis Miestas. A porta se abre e pelo reflexo do espelho sou capaz de ver Inej entrando no quarto em seguida fechando a porta atrás de si.

— Pode ir, obrigada pela ajuda. — Digo para Laylah fazendo carinho em seu ombro antes dela se retirar do quarto.

Caminho para a penteadeira buscando algum bracelete mas estava distraída demais, poderia ter se passado uma semana que tudo aconteceu, uma semana que não saio nem sequer para o jardim e isso impossibilita que vejo Kylo, uma semana com aquele gosto amargo na boca. Pego qualquer bracelete com um suspiro cansada me virando ficando de frente para o Inej.

— Estou de saida. — Tento desviar dele mas sou impedida de tal ato.

— Está me ignorando por uma semana, não será capaz de fazer isso por toda sua vida! — Exclamou irritado.

— Posso e vou. — Retruco desviando de Inej.

— Porque? Porque não quer tentar fazer isso dar certo? — Inej pergunta de costas para mim.

Comprimo os lábios olhando por cima do ombro em sua direção o vendo de cabeça baixa ainda de costas com as mãos no bolso.

Porque sempre que olho para você, vejo que estou presa e sufocada. Quero gritar e fugir mas foi escolha minha estar nessa situação e que se fosse em outra circunstância, provavelmente estaria completamente entregue a você, penso mas não sou capaz de dizer, em vez disso falo:

— As coisas não são tão simples assim... — Murmuro seguindo para fora do quarto.

Solto o ar que estava preso ao fechar a porta, me encontrando sozinha no corredor. Esfrego minhas têmporas exausta disso e me sentindo culpada por não ser capaz de ser o que Inej esperava que eu fosse, sinto que estou lentamente o decepcionando assim como fiz com Sommar. Sendo uma falha.

Afastei da porta indo devagar em direção ao escritório da rainha que finalmente após tantas convocações aceitou fazer uma reunião comigo, treinei muito em frente ao espelho sobre como falar, agir e suportá-la na tentativa de diminuir o nervosismo, mesmo que no fundo eu sei que isso será completamente inútil e em vão.

Os guardas, que sempre ficam em frente a porta do escritório dela, ao me ver se afastam após abrirem a porta, passo direto sem fazer contato visual entrando na sala e logo em seguida sentindo o vento causado pela porta que foi fechada atrás de mim. Sommar estava como sempre sentada em frente a mesa, lendo uma carta. Mantenho-me em silêncio ao direcionar e sentar na cadeira à sua frente.

— Que não seja uma perda de tempo. — Sommar resmunga me encarando finalmente. — Comece.

— Por que nunca me contou sobre a situação em Auksinis Miestas? — Pergunto sem rodeios.

Sommar arqueia as sobrancelhas abaixando devagar a carta até largá-la na mesa cruzando os braços se apoiando no encosto da cadeira sem tirar os olhos de mim. Engulo em seco desviando o olhar para a mesa e apesar da carta estar de cabeça baixa, consegui ler com certo esforço algo que me chamou muita atenção. Ajudando o povo de L'Hiver com o transtorno que Eris está causando, ficamos em dívida com vocês. Assinado: Princesa Leszy.

— Eu sabia que seria perda de tempo. — Sommar guarda a carta na gaveta. — Aquele lugar e as pessoas que moram lá são inúteis, irão manchar o nome do meu reinado se pessoas de fora começarem a descobrir sua existência insignificante. E não serão eles que vão me humilhar diante ao espírito dos meus pais. — A vejo pegar papéis de cartas, tinta e a caneta pena dourada. — Se está tão comovida com um bando de degenerados, se junte a eles. Porque dependendo de mim, Dea, você será rainha de nada.

Aperto minhas mãos me sentindo humilhada, irritada e ofendida pela forma que ela trata com indiferença o próprio povo, e sinceramente pouco me importo em ser rainha, mas que pelo menos a rainha atual faça algo em relação a isso! Estou sentindo que falar com ela é perda de tempo.

— Manchar seu reinado? Seu reino não trouxe nada para eles! — Cuspo as palavras sem pensar.

Coloco as mãos na boca com medo ao me dar conta do que disse ao vê-la inclinar levemente a cabeça apoiando na mão e começar a bater impacientemente os dedos na mesa.

— Estou sendo humilhada por uma criança que tem medo do escuro, lugares pequenos, não consegue falar em público e que nem sequer tem ambição por qualquer futilidade além de desenhar olhos estranhos que sinceramente, não te levarão a lugar nenhum! — Ela não poupa palavras de modo debochado e irritado. — Vá embora antes que decida puni-la aqui mesmo. — Avisa em tom de ameaça.

Estava lutando contra as lágrimas mesmo que minha visão estivesse começando a ficar embaçada por conta dos meus olhos marejados, apenas saio sem olhar para trás ou pensar duas vezes, seguindo reto pelo corredor. Não tinha mais um lugar seguro já que me foi tirado a permissão de ir ao jardim e consequentemente, ir ao encontro de Elinor.

Conforme andava adentrando mais fundo no corredor, às vezes virando a esquerda e outras a direita, sem noção de onde estava indo, me dando conta que estava em um corredor de retratos, ambas as paredes do corredor guardavam retratos diversificados chegando a pessoas que eram completos estranhos para mim. Paro em frente a um grande quadro pintado, o de meu pai. Naquele momento já não aguentava mais segurar e deixei que as lágrimas escorrerem por minhas bochechas enquanto observava sua pintura.

Seus olhos escuros como a noite foram feitos com perfeição apesar de terem tirado as olheiras de cansaço que papai possuía, o cabelo castanho ondulado mediano com camadas era idêntico ao que me lembrava e sua pele clara estava impecável. Encosto com cuidado a mão no retrato lembrando do fato de que sempre estava atolado de coisas a fazer e mesmo que estivesse exausto, sempre dizia que sua maior satisfação era a felicidade de seu povo. Ele amava esse reino.

— Queria ser metade do que vocês foram... — Murmuro entre soluços.

Sorriu entre lágrimas para o quadro de Elinor me afastando aos poucos e saindo daquele corredor, podia ser coisa da minha cabeça, mas enquanto estava em lágrimas a solidão que estava sentindo por um breve momento, naquele vasto corredor de retratos, foi preenchido de forma calorosa como se alguém estivesse pegando a minha dor para si. Foi uma sensação estranha mas reconfortante mesmo assim.

Alguns minutos se passaram quando finalmente cheguei à entrada do jardim, não podia sair mas poderia pelo menos observar, sentei no chão de joelhos aproveitando a vista e sem querer acabei avistando a longe Liat e Theodoro que pareciam estar em uma discussão, mesmo a longe nunca vi Theo tão agitado quanto estava agora, Liat parecia que estava prestes a chorar e parecia estar realmente nervosa, isso perdurou por alguns segundos antes de Theo a abraçar. Devem ter se resolvido.

Sobressaltei-me assustada quando um barulho de algo caindo ecoou virando o corredor em vez de seguir reto, onde estava sentada. Levantei indo em direção ao barulho, preocupada pensando que poderia ter sido minhas irmãs que caíram, mas o que encontrei foi igualmente perturbador. Laylah estava no chão com o nariz sangrando como se tivesse acabado de levar um soco, escondidas atrás de dois vasos grandes de plantas estavam Lyz e Adisura olhando tudo e a frente de Laylah estava o chefe da guarda real.

— Saturne.

Ele se vira para mim e era como olhar alguém sem sentimento algum no olhar, não havia qualquer sinal de arrependimento ou sequer o mínimo de vergonha, era de se ficar enjoado com uma cena dessas e ele estava agindo com naturalidade.

Laylah se levanta apressadamente cambaleando um pouco antes de correr na minha direção, ficando atrás de mim assustada, às vezes me esquecia que apesar de parecer madura demais para sua idade real ela ainda assim era apenas uma criança. Adisura e Lyz tomaram coragem e correram na minha direção, ficando atrás de Laylah, abraçadas a ela.

— Estou esperando alguma explicação plausível para o que acabei de presenciar. — Questiono usando a pouca coragem que tenho para permanecer de cabeça erguida.

— Essa serva precisava de uma correção, só fiz...

— Acho que é o senhor que está precisando de uma correção, e pelo visto preza muito por isso. Talvez a retirada do seu cargo baste para corrigir sua intromissão, agressividade e falta de caráter neste castelo. — Sugiro, mantendo a voz firme.

— Você não tem tal poder, princesinha. — Saturne ri debochadamente.

Estreito os olhos, ele estava conseguindo me deixar irritada de verdade ao ponto que estava começando a me sentir mal pelo calor que estava fazendo nessa parte do castelo, depois precisava agradecer Laylah por sugerir prender meu cabelo em vez de deixá-lo solto.

Não era só eu que estava com calor, percebi isso ao notar uma gota de suor escorrendo pela testa de Saturne, um sorriso de satisfação se abriu sem que eu pudesse contê-lo.

— Talvez eu não tenha agora, mas um dia eu terei. E lhe escutarei me chamar de Rainha. — Retruco com um sorriso. — Agora, suma daqui!

Saturne resmunga irritado ao dar meia volta e se retirar, apenas me permito relaxar quando ele some da minha visão, coloco uma mão sobre o coração que estava batendo freneticamente. Nunca havia retrucado nem mesmo um servo, só podia estar louca de ter feito tal coisa com o chefe da guarda real!

— Isso foi incrível! — Sou trazia a realidade ao escutar Adisura que pula nas minhas costas.

Seguro uma risada de alívio misturada a nervosismo ao segurá-la em cavalinho nas minhas costas.

— Rainha! Rainha! — Lyz repete com entusiasmo saindo de trás de Laylah. — Minha irmã é uma rainha incrível!

Definitivamente, não! Se Sommar escutar isso é capaz de me punir severamente, jamais aceitaria outra pessoa sendo chamada de rainha sobre seu teto mas não conseguia dizer isso, iria estragar a felicidade que transbordava das gêmeas.

Apenas começo a andar rendida em direção ao meu quarto com Inej para cuidar de Laylah lá. Laylah me acompanha após pegar Lyz no colo para que fossemos mais rápido.

— Desculpa, mas não aguentei ficar quieta enquanto ele falava tão mal de você como se não passasse de um ser inferior. — Laylah confessa envergonhada.

Se conseguisse, faria um carinho nela, mas minhas mãos estavam ocupadas com uma menina agitada no momento então me contenho em apenas sorrir gentilmente para ela, que devolve o sorriso sem jeito.

— Pegue leve da próxima vez, não quero que se machuque por minha culpa. — Aconselho.

Seguimos com Adisura e Lyz agitadas até o meu quarto encontrando Inej que corre para ajudar Lay.

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