Capítulo 18
O pai de Kylo nos guiou para dentro da pequena casa que apesar de estar mal cuidada do lado de fora por dentro era realmente aconchegante. A sala e a cozinha ficavam juntas de forma bem apertada, não havia mesa ou cadeira, apenas almofadas que provavelmente são usadas como cadeiras para as visitas. No canto daquele cômodo apertado, havia uma senhora sentada em uma cadeira fazendo tricô enquanto encarava a única janela da casa e logo depois havia uma porta estreita que deveria dar em outro cômodo.
— Perdoem a bagunça, não esperava visitas. — O pai de Kylo encostou na porta do lado de dentro. — Quem são eles, filho?
— Já te contei deles. Este é Raely Rael, Theodoro Ubale, Liat Sarang e a Princesa Dea Solis. — Kylo nos apresentou se aproximando da senhora. — Senhora Anvi?
Olhei para Kylo confusa vendo a senhora apenas ignorar ele e continuar a tricotar.
— Um dia ela irá responder, sabe disso... — O pai dele diz em um suspiro. — É um prazer conhecer Vossa Graça. Me chamo Noor Asiel.
— O prazer é meu de conhecer a família de Kylo. — Faço uma reverência com a mão no coração.
— Pretendem ficar muito tempo? — Noor se direciona ao fogão a lenha, começando a esquentar água.
— Estamos de passagem, senhor Noor. — Liat que estava quieta finalmente se pronuncia.
Noor apenas assente com a cabeça, de longe não notei muita semelhança além dos olhos escuros, provavelmente puxou mais do lado da mãe. Escutei passos e ranger da porta, quando me virei não encontrei mais Raely ou Kylo no cômodo.
— Gostariam de me dar uma mãozinha nas lenhas lá fora? — Noor pergunta voltando com uma caneca de água quente.
— Seria um prazer, adoraria saber mais de Kylo! — Liat caminha até a porta com Theodoro.
— O senhor nunca saiu daqui? — Theodoro pergunta antes de sair da casa.
A conversa que se seguiu parecia abafada, estava sozinha agora contando apenas com a presença da senhora Anvi e o som movimentado do aglomerado de pessoas do lado de fora da casa, estava olhando para o fogão a lenha quando um som de cadeira arrastando me chamou atenção.
Imediatamente olhei para a senhora que havia ido ainda mais para o canto e dado uma passagem melhor para a porta, aproximei da senhora Anvi e fiquei inclina com uma mão apoiada no ombro dela na tentativa de que ela pudesse dizer alguma coisa, em vez disso apenas resmungos inaudíveis saiam de sua boca ressecada.
Suspiro voltando a ficar de pé indo em direção a porta que agora era visivel estar entreaberta, desviei o olhar para a porta de entrada mas permanecia fechada e sem sinal de uma volta tão rápida assim, segurei na maçaneta empurrando a porta para dentro. O cômodo na verdade era um pequeno quarto aconchegante sem janela com apenas um lampião acima de um tronco pequeno de árvore iluminando o quarto.
— Quem está aí? — Uma voz fraca soou atrás de uma cortina.
Aproximei afastando devagar o tecido encontrando uma mulher que não devia ter mais de quarenta anos sentada em uma cama simples com um cobertor fino cobrindo-a da cintura abaixo vestia apenas uma camisola branca de mangas longas. Seus olhos castanhos claros me olhavam de forma intrigante possuindo a pele clara e esquelética com os ossos visíveis, o cabelo curto castanho claro estava claramente quebrado e com pontas duplas mas não parecia incomodá-la.
Me aproximei aos poucos da cama com as mãos rente ao corpo sem me permitir respirar muito, próxima o bastante vi que havia uma cadeira ao lado da cama e a mulher que até agora permanecia quieta estava apontando com sua mão fina para que eu sentasse, apenas fiz como ela quis e me sentei na cadeira.
— Princesa, é um prazer vê-la. — A mulher diz pausadamente com tosses abafadas pela mão.
— Quem é você? — Pergunto curiosa.
— Pode me chamar apenas de Aashi. — Aashi diz gentilmente. — Já sabia que viria aqui e acabávamos nos encontrando.
— Como? Isso é impossível! — Murmuro apertando a saia do vestido nervosa.
— Sou abençoada pelos deuses com o dom da visão, Vossa Graça. — Aashi permanecia com um sorriso de ternura nos lábios finos e esbranquiçados.
— Pode ver o futuro? — Pergunto-me inclinando um pouco em sua direção.
Aashi se conteve em apenas dar uma risadinha seguido de algumas tosses que ela abafava com a palma da mão mas sempre que retirava estava com aquele sorriso. Ela devia possuir muitos problemas de saúde para estar neste quarto que parece mais que ela nem sequer tenta sair da cama a muito tempo.
— Meu filho é bem cético em relação a meu dom, mas não posso o culpar por não acreditar em mim. — Aashi esboça um sorriso fraco olhando para o cobertor.
— A senhora é mãe de Kylo... — Sussurro mais para mim enquanto abaixava o olhar para o chão.
— Ei, pequena princesa... — Ergui meu olhar para Aashi que estava inclinada na minha direção com esforço. — Quero vê-la ressurgindo como uma rainha. — Sussurrou ao beijar minha testa.
Apertei com mais força a saia do vestido com uma sensação estranha no peito e sem saber em quais palavras dela acreditar ou não mesmo que só de olhá-la era claro como a luz do sol que não havia mentiras escondidas em suas palavras cheias de ternura e afeto.
— Você é delicada e gentil, doce e amável, mas o mundo odeia isso... — Aashi tira fios de cabelo que estavam no meu rosto ao falar. — Diga ao meu filho que eu o amo seja ele como for pois ele é tudo que eu tenho.
Quando me toquei, Aashi estava me abraçando enquanto fazia carinho em minhas costas exatamente onde possuía as cicatrizes me fazendo estremecer diante ao toque pela repulsa de mim mesma e das marcas que agora estava fadada a carregar sem opção de apagá-las.
A porta do quarto se abriu e o Theodoro estava com uma caneca de água quente e ervas, a mãe de Kylo sorriu para Theo estendendo as mãos para pegar a caneca e começando a beber devagar de olhos fechados encostada na parede. Theodoro apontou com a cabeça discretamente para que saíssemos do quarto, me levantei e sai deixando Aashi no silêncio daquele quarto novamente.
— O que estava fazendo ali? — Theodoro rapidamente me encurrala no canto oposto da senhora Anvi.
— Parecia que ela me queria lá! — Digo me desvencilhando dele.
Minha atenção ainda estava presa nas palavras ditas aleatoriamente por Aashi, deixo minha mão encostada na testa onde ela havia depositado um beijo gentil que agora parecia deixar as coisas mais leves de se viver, mesmo que isso fosse uma sensação temporária, mas ainda era bom de sentir.
— Descobri muitas coisas sobre esta parte do reino. — Me aproximo de Theodoro que estava olhando a janela.
Ele olhava para Noor, Liat, Raely e Kylo que pareciam rir de alguma coisa enquanto Noor cortava madeira e Raely e Kylo o ajudavam segurando o que já havia sido cortado.
— Parece que Auksinis Miestas fazia parte de Zagraven Grad até o dia em que usurparam de todas as riquezas dessa parte e escolheram um grupo seletivo de pessoas para morar na parte que hoje é Zagraven Grad. — Theodoro me olha no final.
— Zagraven Grad tem espaço o bastante para abrigar com facilidade as pessoas daqui e com esforço podemos melhorar este lado do reino e voltar ao que era um dia... — Conto minha ideia repentina deixando minha mão encostada na janela.
— Isso demoraria e requisitaria recursos que são... — Theodoro encara a janela. — São gastos de modo exagerado com os nobres.
Confirmo com a cabeça, passei tempo o bastante no castelo perambulando para ter uma mínima noção da divisão desproporcional e injusta dada aos nobres mas sempre pensei que deveria haver uma porção ainda maior dada aos mais necessitados. Estava errada sobre tudo. Sobre a situação do meu povo. Sobre o meu próprio reino.
— Estou me sentindo enjoada. — Murmuro com a mão na barriga.
— Melhor voltarmos. — Seguro a mão de Theodoro antes de se afastar.
— Preciso fazer algo por eles, Theo... — Esclareço o que havia dito apesar de que se fosse eu, também não haveria entendido.
Theodoro me olha por um tempo antes de me puxar para um abraço, devolvo com força comprimindo os lábios me sentindo realmente mal. Nunca havia pensado que ser rainha iria além de me tornar igual a minha mãe. Fui tão ignorante este tempo todo. Encarei a janela ainda nos braços de Theodoro vendo que estava começando a garoar, as gotas batendo bruscamente na janela e escorrendo como lágrimas.
O gosto amargo ressurge na profundeza do meu amargo e isso me assustava...
Um lado que não conhecia querendo ser exposto.
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Acordei batendo a cabeça no ombro de alguém por culpa de um balançar repentino da carruagem, passei a mão na cabeça olhando para a janela para tentar ver onde estávamos mas a chuva estava dificultando muito minha visão, os outros estavam dormindo e dessa vez Kylo estava conosco dentro da carruagem. Passo a mão no vidro tentando ver o que havia além do vento forte e da chuva, estreito meus olhos vendo uma criança correndo desesperadamente com três homens armados atrás dela que parecia estar chegando no seu último fôlego.
Saio da carruagem em movimento sem pensar duas vezes, escutei os cavalos relinchando e o cocheiro apavorado quando sai caindo e rolando no chão molhado, me levantei às pressas sentindo uma dor incomodante no joelho mas só conseguia correr o mais rápido possível em direção a criança na tentativa de chegar antes dos homens. Não podia deixar que machucassem uma criança! Arregalei os olhos ao ver o mais baixo dos três mirando a arma em direção à criança, minha visão estava ficando comprometida pela chuva quando me lancei na frente da criança.
A agarrei com força, abraçando o seu frágil corpo contra mim que fiquei ajoelhada na frente dela, tampando sua visão e ouvidos para que evitasse o pior, fechei meus olhos com medo sem soltar a criança quando a escutei sussurrar.
— Cuidado!
Soltei a criança para longe ao sentir meu cabelo ser puxado com brutalidade, me levantaram do chão, comecei a desesperadamente tentar me soltar sentindo minha cabeça doer, olhei ao redor apavorada vendo apenas a carruagem ao longe e talvez uma figura saindo de dentro.
Mordi meu lábio inferior tentando me acalmar quando uma mão apertou minha boca para me calar, apenas fechei rapidamente os olhos e mordi com a maior força que conseguia a mão de quem fosse que gritou me jogando para longe. Bati contra uma árvore sentindo o gosto metálico do sangue, isso me dava um sinal de que havia feito algum estrago em quem estava me segurando.
Procurei desesperadamente a criança que já havia sumido, o mais baixo dos homens apareceu na minha frente me segurando com força pelo pescoço, rapidamente estava ficando sem fôlego quando um silêncio tomou conta apenas restando minha respiração pesada e o som da chuva.
Abri meus olhos encontrando os três homens caídos no chão com as costas cortadas e de pé, uma pessoa encapuzada com os olhos vendados segurando uma única espada longa pingando sangue da ponta, percebi que a pessoa à minha frente estava segurando a fita que prendia meu cabelo. Devia ter soltado quando agarraram meu cabelo e nem me dei conta.
A noite e a chuva me impedia de ver melhor qualquer traço da pessoa que estava se aproximando de mim quando parou de repente olhando em direção a carruagem.
— Fique longe dela! — Liat gritou correndo até mim vestindo uma capa com o capuz erguido.
A pessoa desapareceu antes mesmo que tivesse a oportunidade de pegar minha fita de volta, Liat chegou rapidamente e agilmente colocou a capa em mim, colocando o capuz e me guiando de volta para a carruagem afobada e irritada. Olhei para trás enquanto andávamos em direção a carruagem na esperança de ver a criança novamente, mas não havia mais nada além dos corpos daqueles homens.
— Nunca mais faça isso novamente! Está louca? Poderia ter morrido! — Liat começa a me repreender sem piedade.
Sabia que era perigoso mas não consegui ficar parada, fiquei em silêncio até a carruagem aceitando os sermões de Liat e claro, de Raely, Kylo e Theodoro que viram meu estado deplorável ao voltar a carruagem. Foi uma volta ao castelo intensa e cheia de sermões até mesmo um ou dois vindos de Raely. Também havia notado que ralei meu joelho quando pulei da carruagem em movimento, mas pelo que Theodoro disse, ficaria bem contando que não cometesse o mesmo erro duas vezes.
Quando chegamos no castelo, o cocheiro veio abrir a porta e pude ver que estava suando frio e apavorado com o medo visível em seus olhos, sorri timidamente saindo da carruagem, encarei o portão que levava para o terreno do castelo me aproximando aos poucos.
Inej estava se aproximando do portão e ao me ver começou a correr, retirei a capa e corri até, o abraçando com força e lágrimas nos olhos mas ainda sim, rindo de felicidade. Os outros estavam a caminho mas não me importava com isso. Não agora.
— Obrigada, obrigada, obrigada... — Repito sem parar o abraçando mais forte. — Isso é muito especial para mim... — Seguro no vestido com carinho.
— Que bom que gostou. — Inej coloca uma mão nas minhas costas e começamos a andar para dentro do castelo.
Senti que tirei um fardo dos ombros ao agradecer Inej apropriadamente já que o que ele me deu me fez sentir melhor e mais perto dela do que ele sequer poderia imaginar. Me encosto em Inej enquanto andamos molhados para dentro.
Estou cansada mas ainda preciso falar com a rainha o mais rápido possível. Preciso estar pronta já que não nos falamos a muito tempo de forma sincera, apesar de que não sei se alguma vez ela já foi realmente sincera além daquela última vez. Olho para Inej que passa a mão pelo meu cabelo solto e bagunçado.
— Perdi minha fita. — Explico afastando a mão dele do meu cabelo.
Encarei as portas duplas com tristeza ao entrar e voltar para o castelo. Mas agora estava presa a eles.
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