Capítulo 17
Acordei antes mesmo do sol nascer pelo êxtase que estava sendo a primeira vez que sairia do castelo de verdade, sem medo de ser seguida ou das consequências que me aguardavam assim que voltasse. Saio do banho de roupão secando meu cabelo quando vejo uma caixa em cima da cama, aproximo devagar encontrando um cartãozinho. "Achei que gostaria de usar isso. Ass: Awiri e Inej".
Franzi o cenho confusa, só então reparando que Inej não estava no quarto quando acordei mas minha atenção rapidamente se voltou a caixa a abrindo em seguida revelando um vestido marrom simples de mangas longas que fechava por delicados botões na frente, virei-o dando uma olhada melhor antes de aproximar do corpo. Claramente era menor mas talvez servisse. Tirando o fato de ser um pouco menor, realmente havia gostado mas não entendia o porquê do presente.
Deixo o vestido por um momento de lado em busca de algo a mais na caixa mas não havia nada, fecho decepcionada decidindo falar com Inej antes da pequena viagem.
Me apressei, assim que vesti uma meia calça, em colocar o vestido que coube, bem, mais ou menos já que as mangas longas chegavam até os cotovelos e a barra até a metade da minha panturrilha, pelo menos tudo estava perfeito. Calcei o par de botas pretas que raramente usava e finalmente me encontrava pronta junto do raiar do sol.
Andei até minha penteadeira abrindo uma caixa pequena que continha diversas fitas e todas tinham algum momento especial que fazia questão de lembrar e apreciar sempre que olhava, na busca de algo para prender meu cabelo achei uma fita delicada vermelha que havia ganhado mas nunca havia usado, seria perfeita!
Uso para prender meu cabelo em um rabo de cavalo fazendo um laço no final em seguida pegando uma bolsa lateral colocando um saco de moedas, o caderno que mais estava sendo utilizado de diário, uma caneta pena e o pote pequeno de tinta. Dou uma procurada por cima em busca de Inej e assim que não encontro nenhum rastro dele, simplesmente desisto e saio do quarto.
Passo na cozinha que já estava movimentada para o café da manhã que não estaria presente, sinto um nervosismo e sem conseguir dar um bom dia, apenas pego uma maçã rapidamente e saio sem olhar para trás. Estava cedo demais até mesmo para mim. Vou caminhando comendo a maçã em direção ao quarto das gêmeas, por sorte não era tão longe ou apenas ignoro a distância, ambos são possíveis possibilidades.
Não ousei bater na porta, abrindo com o maior cuidado possível, encontrando o quarto mal iluminado apenas pela luz do sol e na grande cama estava Laylah deitada de barriga para cima com os cabelos bagunçados e de pijama abraçando Adisura e Lyz que dormindo agarradas a ursinhos de pelúcia, um branco e um preto ambos de olhos cintilantes. Termino a maçã entrando no quarto devagar me aproximando da cama, acaricio o rosto de Laylah sorrindo dando um beijo na testa de minhas irmãs.
Antes de sair aproveito para cobrir as três e dar mais um beijo na testa de cada uma, assim que saí do quarto encontrei Theodoro que se aproximava, fecho a porta com cuidado e vou até ele, o abraçando com força, deixei uma risada escapar quando ele me gira no abraço antes de me colocar no chão novamente.
— Sabia que estaria aqui. — Theo faz cafuné em minha cabeça.
— Estou nervosa, tenho medo que ela mude de ideia e... — Mordo meu lábio nervosa quando vejo um sorriso nos lábios dele. — O que foi?
— Está tudo bem, eu estava quando ela cedeu. — Revela com uma mão carinhosa em meu ombro.
— De qualquer forma, os outros aceitarão? — Pergunto, começando a andar.
— Digamos que foi trabalhoso convencer Raely mas tirando isso, todos irão com você. — Theodoro sorri colocando as mãos no bolso. — Esse vestido é de Elinor. Ficou bom em você.
Arregalo os olhos segurando com força a alça da bolsa encarando o vestido, apenas segui andando calada em choque pelo fato de não ter reconhecido ele de imediato. Era o vestido favorito dela quando me levava aos passeios pelo jardim e brincava comigo próximo ao portão de saída do castelo. E agora eu estava o usando.
Estava completamente inerte que nem vi o tempo passar e já estávamos caminhando em direção a saída do castelo e passando por aquele portão havia uma carruagem e apenas um destino para onde ir. Suspiro fundo segurando no braço de Theodoro, o olhando de canto.
— Está com medo? — Perguntou-me olhando de forma preocupada.
— Não. — Balanço a cabeça sem parar de andar. — Como é casar por amor?
Theodoro parou se virando para mim, retirei a mão dele, olho para baixo evitando contato com ele já que não estava esperando essa reação de uma pergunta tão, tão fútil assim. O silêncio estava começando a me deixar nervosa quando ele começou a falar.
— Apenas diga não, Dea. Vai mesmo abrir mão da sua vida por outra pessoa? — Me encolho diante a pergunta.
— Vou, porque... — Suspiro me recompondo. — Porque não são qualquer pessoa. São minhas irmãs. Vou fazer de tudo para que elas tenham a vida que eu não tive! — Desvio de Theo seguindo para o portão. — Mesmo que o preço seja minha vida e liberdade...
Chegando mais perto do portão já era possível ver Raely irritado com Kylo o irritando e Liat de braços cruzados com um olhar de desgosto para os dois, mas assim que nos viu, abriu um sorriso doce ao se aproximar.
— Vamos. — Digo passando pelo portão.
A pergunta de Theo realmente me magoou muito, ele não fazia ideia que em troca de uma vida inteira, estaria guardando e protegendo três vidas preciosas demais para mim. Me causa calafrios pensar que os gritos que já ecoaram pela sala do trono podem um dia vir a se tornar os gritos delas ou coisa pior.
Passo reto por Kylo e Raely, o cocheiro se apressou em abrir a porta da carruagem para mim, agradeço com a cabeça entrando com a ajuda dele e me sentando no canto perto da janela pequena fechada e com as cortinas impedindo a luz do sol de entrar. Abri ambos para evitar me sentir sufocada.
Kylo foi ao lado do cocheiro enquanto Theodoro e Raely ficaram à nossa frente, com Liat sentada ao meu lado e carinhosamente segurando minha mão, me olhando com seu olhar de ternura e preocupação.
— Estou bem, não se preocupe. — A olho sorrindo com os lábios. — Inej e Awiri ficarão com as meninas e poderemos nos divertir.
— Certo, estamos nessa juntas. — Liat aperta minha mão sorrindo.
Devolvo o gesto e a abraço antes de voltar toda minha atenção à vista para não perder absolutamente nada. Tudo parecia que não passava de um sonho muito, muito e muito longe de ser verdade, o frio na barriga realmente me atingiu quando atravessamos a ponte do rio Folyó.
Ri baixo comigo mesma maravilhada com as sensações sem em momento algum soltar a mão de Liat que parecia fazer com que tivesse a total certeza de que não estava ficando louca ou até mesmo estivesse alucinando.
Ficamos duas horas até começar a avistar uma cidade deslumbrante, não havia muitas casas, todas eram mansões brancas com detalhes em dourado, as ruas pareciam feitas de ouro pelo piso ser dourado e brilhar pelo sol, havia crianças brincando nos vastos jardins, pessoas trabalhando em barracas de diversas coisas e dançarinas dançando acompanhadas de mímicos dos quais apenas via em livros.
Me sentia boba por quase estar em lágrimas de emoção, mal estava respirando isso que nem sequer havia saído da carruagem ainda, assim que paramos rapidamente coloquei a mão na maçaneta para sair mas alguém foi mais rápido que eu.
Kylo segurou a risada ao me ver afobada e estendeu a mão para mim, a segurei com força sem acreditar, arrepiando ao pisar no chão que se não me falassem, iria crer que era realmente feito de ouro puro. Raely, Theodoro e Liat saíram um após o outro. Era possível ver com facilidade as montanhas que cercavam Hayesfir, mesmo que fossem assustadoras, não eram capazes de ofuscar o brilho da cidade.
— Bem-vinda a Zagraven Grad, A Cidade de Ouro. — A voz de Kylo parecia ecoar pelo som tranquilo da cidade.
— Podemos ir embora? — Raely pergunta incomodado com o sol.
— Não! — Respondemos juntos, rindo ao vê-lo resmungar irritado.
Iria abraçar Kylo mas ele previu isso e se afasta um pouco de modo envergonhado, olho para os outros confusa e todos estavam da mesma forma que Kylo, envergonhados e sem saber o que fazer. Cruzei os braços encarando Kylo em busca de alguma resposta.
— Tem certeza que não prefere ficar aqui em vez de ir até Auksinis Miestas? — Kylo estava visivelmente nervoso.
— Quero ver tudo, é minha única chance. — Digo seria me virando para o cocheiro. — Espere aqui, por favor. E pegue isto, poderá se divertir enquanto não voltamos. — Entrego algumas moedas para o cocheiro que sorri com um dente a menos. — Afinal, Auksinis Miestas é logo após Zagraven Grad!
Kylo suspira rendido e começa a andar na frente como o nosso guia pela cidade, às vezes sentia que iria ficar cega pelo brilho mas realmente a cidade fazia jus ao nome que lhe deram. Queria poder ver mais, mas infelizmente tenho outro destino e não posso chegar depois do horário combinado, tenho que estar em casa antes do raiar do sol do dia seguinte.
No caminho, algumas crianças nos chamavam para brincar e Raely foi desafiado por um menininho de provavelmente seis anos a uma disputa de pula corda, pelo visto Raely levou para o pessoal, tirando a blusa e ficando de regata. Nos sentamos embaixo de uma árvore próxima vendo eles pulando de corda, quem parar primeiro perderia e Raely parecia focado em ganhar do menino.
— Que idiota. — Kylo resmungou segurando a camisa e olhando a cena.
— Vocês poderiam se dar bem, não? — Liat sugere o cutucando.
— Não quero morrer... — Kylo responde em um sussurro apoiando o rosto na mão parecendo mais que estava perdido em pensamentos.
O olhei confusa, era um medo um tanto estranho vendo que eles só teriam um convívio melhor se deixassem, mas não dá para insistir muito nisso com eles que sempre acham uma forma, sempre estranha, de escapar das perguntas.
O menino acabou tropeçando na corda e graças a agilidade de Raely que parou jogando a corda de pular longe, segurando o menino pela blusa evitando que caísse e ralasse o rosto deixando um machucado realmente feio.
— Cuidado, baixinho. — Raely ajuda o menino a ficar em pé.
— Quem são vocês? Nunca vi vocês aqui. — O menino corre para pegar a corda que Raely jogou.
— Pode chamar do que quiser. — Liat responde levantando.
Uma voz grossa chama por um Arthur, o menino apenas acenou com a mão e correu em direção a casa atrás de nós de onde provavelmente a voz veio. Agora sabemos o nome do competidor confiável e formidável de Raely e talvez seja melhor que Arthur não saiba nossos nomes.
Kylo se espreguiça entregando a camisa para Raely e sem deixar ele descansar, voltamos a andar pelas ruas da cidade com o sol deixando a vista mais formidável do que poderia imaginar, facilmente estaria morando em um lugar tranquilo como esse.
Uma hora de caminhada com algumas pausas para descanso principalmente por Liat ter vindo de salto alto em vez de botas, Theodoro fez questão de comprar comida como Kylo havia me pedido e lembranças que Raely comprou para minhas irmãs, eram duas bolas douradas para brincar.
O clima lentamente mudava conforme nos aproximávamos de um grande muro acinzentado com pelo menos cinco guardas armados na frente de uma pequena porta de madeira, havíamos passado pelo grande portão duplo que levava para fora de Hayesfir, abrindo possibilidades para um mundo completamente novo e a segurança era assustadora, pelo menos dez guardas e alguns cachorros fazendo ronda.
— Quem são vocês? — Um dos guardas que segurava uma espada a mira em nossa direção.
— Abaixem as armas! — Liat ordena ao me ver em choque pelo modo que os guardas reagiram.
— Somos a corte da Princesa Dea. — Informa Kylo sem muita paciência.
Alguns cochichos começaram e todos chegavam ao assunto de "quem seria idiota de vir para um lugar desses". Aquele clima de suspense estava me deixando ansiosa e buscando coragem que imaginei Elinor ter, tomei a frente ficando perto de um guarda alto, grande e musculoso.
— Exijo que deixem minha corte e eu passar. — Ordeno de cabeça erguida mas por dentro com vontade de sair correndo.
Os guardas trocaram olhares e um deles fez uma reverência profunda para mim, julguei ser o chefe do grupo pelas roupas bem passadas e uma medalha no peito.
— Desculpe nosso tratamento, Vossa Graça. Temos que ser rígidos em um lugar como este. — Explicou enquanto outros dois abriam a porta pequena.
Troco olhares com meus amigos quando os guardas abrem passagem, mordo meu lábio andando em direção a porta única de madeira agora aberta, mal dava para ver o que estava do outro lado por conta da sombra que as montanhas faziam especificamente nessa parte e traziam uma sensação estranha junto.
Olho para o chão vendo que havia pisado em uma poça de lama logo na entrada, ergui os olhos para ver melhor a cidade e era o completo oposto de Zagraven Grad. Tudo parecia tão deplorável, triste e fúnebre nessa parte. Não podia ser.
Virei bruscamente em busca do pessoal que já havia entrado, indo até Kylo na esperança de que diga que não passa de uma brincadeira de mal gosto apesar de saber que seria uma mentira horrível. Percebi apenas nos olhos de Kylo cabisbaixos que não era engano.
— Chegamos. Está é Auksinis Miestas e minha casa.
━━━━━━━ ⟡ ━━━━━━━
As ruas eram estreitas, diversas casas mal feitas se erguiam a frente e havia incontáveis becos, as ruas de terra com poças de lama, por onde olhava havia gente vestindo trapos e sempre tinha um lugar lotado dificultando muito a passagem. As pessoas nos olhavam curiosas, algumas se afastaram e outras faziam questão de deixar visível o desconforto e desgosto com nossa presença. Isso me fazia sentir um embrulho no estômago.
Ao passar em frente a um dos diversos becos, pude ver uma criança com os ossos marcados comendo restos do que parecia ser um pássaro, coloquei a mão na boca com os olhos arregalados engolindo em seco. Estava paralisada diante a cena.
Kylo se aproximou de mim com uma bolsa recheada de comida e bebida que Theodoro havia comprado, o vejo se aproximando da criança e apoiando com extremo cuidado a mão no ombro ossudo da criança que apenas ao se virar consegui ver que era um menino da mesma idade de Arthur. Kylo tirou da bolsa uma garrafa de água e um pedaço generoso de pão, os olhos do menino brilharam ao ver a comida e agilmente pegou, começando a devorar o pão e a água.
Kylo se levanta, sorri e se vira voltando ao caminho que até agora não sabia para onde exatamente estamos indo. O gesto dele foi realmente bondoso e necessário, agora entendia a euforia e necessidade quando me pediu para comprar muita comida e bebida, e no fundo parte disso era minha culpa o fato de ser negligente em relação aqui e nunca ter buscado mais sobre meu próprio povo.
Paramos muitas vezes para dar porções generosas de pão mas rapidamente a água se esgotou. Eram mulheres, homens, crianças, idosos e animais que não era possível contar mais, em determinado momento já havíamos acabado com o pão, água e doces que compramos. Mas onde quer que devíamos ter chegado, não estava longe já que estávamos quase colados na montanha afiada.
Uma casa pequena exatamente colada a montanha surgiu a frente, havia um homem alto e grande trabalhando na frente cortando lenha, concentrado apenas naquilo. Havia algumas poucas casas ao redor e todas no mesmo estilo da primeira que vi e havia algo peculiar nelas, todas possuíam mesmo apenas um vaso, tinham um pequeno jardim que era realmente bem cuidado.
Vendo isso, realmente não havia reparado, mas por todo caminho, vi plantas e árvores cuidadas de forma perfeita e mesmo que algumas mortas, tentavam afugentar a sensação que ainda me causava embrulho no estômago.
— Você sempre quis conhecer onde eu nasci. — Kylo fala atraindo minha atenção. — É pequena e entendo se não quiser entrar...
— Eu quero! — Me apresso em falar com um sorriso encorajador e seguro na mão dele.
Raely estava ao lado de Kylo enquanto Theodoro e Liat se mantinham mais afastados conversando baixo e mesmo que tentasse prestar atenção neles, não era capaz de entender uma palavra sequer, então desisti e perguntaria mais tarde se lembra-se.
O homem ao se tocar que estávamos nos aproximando, parecendo uma montanha de tanto músculo ao se virar, esboçou um sorriso tão puro de felicidade ao caminhar até Kylo e o abraçar rindo sem parar, uma risada rouca e alegre.
— Estou de volta, pai. — A voz de Kylo saiu abafada pelas lágrimas.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top