Capítulo 16

O sol estava especificamente forte hoje, deixei a mão em frente ao rosto para ter alguma sombra ao andar até um banco de pedra em meio ao jardim assim que me sentei Laylah que estava me acompanhando nessa caminhada rapidamente colocou a sombrinha em mim e me entregou algumas frutinhas que havia pego no caminho sem que eu percebesse.

Estávamos no final do mês e nesse tempo as coisas estavam calmas por aqui, sem notícias de Reluz e menções a Aemy foram estritamente proibidas pela rainha.

Estendo a mão para pegar algumas frutinhas com a mão livre e dei batidinhas ao meu lado para que Laylah se sentasse também. Ela fechou a sombrinha, se sentou e começou a comer as frutinhas comigo.

— Dea!

Não tive tempo de reagir quando Liat chegou às pressas me levantando e abraçando com força, algumas servas estavam a acompanhando e pareciam querer a impedir mas não tinham coragem, retribui o abraço confuso e a afastei devagar para olhá-la.

— O que houve? Aconteceu alguma coisa? — Questiono com medo da resposta.

— Apenas me abrace! — Reclamou me abraçando novamente.

Assim como Liat, fazia um bom tempo que não via minha corte, eles estavam tão ocupados que nem sequer nos esbarramos nos corredores. Sentia muita falta da presença deles principalmente depois que ela foi embora mas ao mesmo tempo não queria atrapalhar eles.

Pelo menos nesse tempo fui capaz de me tornar bem íntima de Laylah e Inej. Esses passeios pelo jardim se tornaram normais com a presença dos dois que se deram muito bem apesar da diferença de idade e cultural.

— Estive tão ocupada que mal pude ficar com você, me perdoe. — Liat murmurou cabisbaixa.

— Está tudo bem. — Me afasto segurando nas mãos dela. — Estou bem.

Liat me observou por um tempo antes de suspirar ofegante, a guiei para que se sentasse no banco junto a mim e Laylah que se lambuzava nas frutinhas, manchando as mãos e boca sem se importar com a sujeira.

— Já sei de tudo, não precisa me contar. — Liat segurou com força minhas mãos, um gesto de consolo.

Apenas fiquei quieta, tudo era delicado e não sabia como deveria reagir, sempre que tentava o gosto amargo subia pela minha garganta e se espalhava como fogo que deixava apenas as cinzas e um ar de devastação e morte.

— Tem algo que posso fazer por você?... — Olhei de relance para Liat.

— No meu quarto em cima da escrivaninha há uma carta que quero que entregue a Kylo. — Olho para frente, engolindo em seco. — Podemos ir à árvore todos juntos antes... — Não conseguia falar, — Esqueça a última parte.

Liat apenas beijou minha testa e fez um rápido carinho no meu ombro antes de sair, solto meu cabelo do coque e o jogo para trás. Às vezes gostaria de saber o porque que tudo tem que ser tão ruim e ter o gosto amargo sendo que tento ser o que todos querem o tempo tempo.

— A senhorita Liat é muito legal! — Vejo Laylah limpar as mãos no vestido e logo dar um gritinho de arrependimento.

Seguro a risada entregando um pedaço de pano que usei como laço, ela começa desesperadamente após limpar as mãos tentar diminuir a mancha do vestido acinzentado que estava usando. Coloco uma mão no ombro dela sorrindo minimamente.

— Depois trocamos sua roupa, não precisa se desesperar. Ela não vai te machucar enquanto eu estiver aqui. — Prometo, mostrando o mindinho.

Laylah parece analisar a situação antes de sorrir e apertar meu mindinho com o dela. Mesmo que minha vida seja um inferno, prometi a mim mesma quando vi Nora partir que não seria uma pessoa amarga a ninguém e se possível, não importa as consequências, quero ajudar pessoas boas como Laylah a ter uma vida boa e principalmente livre.

Fiquei mais alguns minutos no jardim. Estávamos nos preparando para entrar quando o vejo caminhar pelo jardim, os fios de cabelo balançando pelo vento fresco carregando consigo um ursinho de pelúcia.

Seguro na mão de Laylah andando em sua direção, paramos exatamente no centro do jardim quando Inej esboçou um sorrisinho de canto, apenas assenti com a cabeça já que estava sem forças para esboçar o menor sorriso que existia.

— Atrasado como sempre, Príncipe. — Brinco sem soltar a mão de Laylah.

— Sinto muito, Princesa. — Lamentou exageradamente.

Revirei os olhos soltando a mão dela que rapidamente pegou o ursinho animada e agradeceu Inej com um forte abraço que foi retribuído pelo maior. Sorri com isso.

Comecei a me afastar quando senti a mão forte de Inej segurar meu pulso, o olhei de canto sem saber o porquê de ele haver me parado. Não tínhamos nada para conversar agora.

— Posso te encontrar hoje a noite no jardim? — Perguntou em um sussurro.

Confirmei com a cabeça me desvencilhando de sua mão e seguindo meu caminho em direção ao castelo. Inej é bom mas nessa situação me faz manter uma distância que não consigo evitar ter. Faz uma semana que a rainha nos forçou a dividir o mesmo quarto com a desculpa de que era ótimo para aproximar o casal.

Passando pela grande porta dupla de entrada do castelo, andei em direção a sala de Isack. Penso que nem sequer posso reclamar já que fiz um trato com a rainha em pró de uma vida melhor para minhas irmãs mas um trato que me prende nesse castelo com aquele homem e nas mãos da minha queridíssima mãe.

Virando no próximo corredor acabei me encontrando com uma cena um tanto curiosa. Isack fechando a porta com uma cesta e Raely com as mãos no bolso e uma expressão pensativa até me ver e vir em minha direção.

Abri meus braços timidamente sabendo que existia a possibilidade dele simplesmente recusar mas para minha surpresa ele retribuiu com força fazendo um cafuné em minha cabeça de um modo meio bruto já que não costuma fazer isso.

— O que estava fazendo na sala de Isack? — Me afasto o bastante para o encarar nos olhos,

— Estava pesquisando os livros que ela lia mas pelo que procurei e Isack disse, todos sumiram. Supus que ela os levou já que deve ter imaginado que uma hora ou outra iriamos atrás de rastros que deixou. — Revela sem rodeios.

— Então não preciso procurar mais. — Dou meia volta em direção ao escritório da rainha.

— Já falou com os outros? — Raely começou a me acompanhar calmamente.

— Ainda não tive a oportunidade de ver Kylo e Theodoro mas já encontrei Liat e agora você. — Digo dando um empurrão de leve nele seguindo reto.

— Enquanto... — O olhei confusa quando não o vejo prosseguir.

Suspiro fundo deixando as mãos juntas em frente ao corpo ao chegarmos em frente ao escritório da rainha. Antes de entrar digo baixo para Raely com um sorriso fraco.

— Aguento fazer isso. — Entro na sala em seguida.

Vejo Sommar vestindo um vestido de princesa de mangas longas e em vez de um coque, seu cabelo estava trançado e jogado de lado a dando um ar mais juvenil ainda. Ando devagar em direção a cadeira me sentando com um certo receio mas curiosidade.

Assim que fizemos aquele trato pedi algo a mais quando ela sugeriu que em pouco tempo eu estaria dividindo o mesmo quarto que Inej, apenas pedi que me falasse sem rodeios sobre a vida dela, para que pudesse talvez quem sabe perdoar ela. Afinal, querendo ou não, ela é minha mãe.

— Que garota curiosa. — Disse manhosa, pegando a taça com vinho da mesa.

Quieta a observei beber pequenos e demorados goles do vinho tinto antes de colocar a taça na mesa com delicadeza, se inclinando na minha direção com as mãos juntas na beirada da mesa. Me encarando na esperança de que desistisse e não tocasse mais no assunto para que ela saísse vencedora.

Havia prendido minha respiração, mexia meus pés de nervosismo só conseguindo voltar a respirar quando ela se afastou encostando na cadeira com um suspiro de irritação.

— Cumpra sua parte, mãe. — Insisto.

— Minha mãe me ensinou que poder é tudo e o reconhecimento de seus pais é tão superior quanto. Fui uma boa filha nesse requisito, aguentando todas as punições e castigos, humilhações e calúnias que devia ouvir calada. — Sua voz era serena olhando o vinho.

Fiquei a olhando quando apenas parou de falar deixando um silêncio constrangedor na sala somente alguns minutos passarem que ela voltou a falar com a taça de vinho em mãos.

— Isso já basta. — Diz com desdém mas me recuso a ouvir apenas isso!

— Por que me odeia? — Sussurro encarando a mesa.

Um silêncio novamente antes de uma risada abafada soar de seus lábios, ergui meu olhar a vendo rir enquanto bebia o restante do vinho que havia em sua taça.

— Só tive você por causa da lei ou iriam me negar a coroa por não ter herdeiros. Nunca quis você. E sem contar que seu jeitinho delicado me dá nojo. — Ela franziu o cenho de desgosto. — Você é fraca e sem contar que é estranha dizendo que fala com fadas e vê fantasmas. Sinceramente... — Sommar balança a cabeça um pouco alterada. — Você é um erro. Igualzinho ao seu pai. Aquele fraco que não soube me reconhecer!

Engoli em seco com os olhos arregalados e uma dor forte no peito, talvez mágoa. Ouvir essas palavras de modo frio e com indiferença de seus lábios doíam mais do que podia imaginar. Seus olhos escureceram com um sorriso maléfico nos lábios.

— Eu devo pedir desculpas? — Perguntou com o rosto apoiado na mão.

Demorei para ter uma reação, me contive em negar com a cabeça ainda em choque me levantando indo em direção da porta, segurei na maçaneta quando ouvi ela resmungar.

— Não me perturbe mais, filha. — Dizendo "filha" com repúdio.

Apenas saí da sala fechando a porta encostando nela com meus lábios tremendo porém não havia lágrimas para derramar. No fundo só precisava ouvir isso mesmo que doesse para saber o que sentir em relação a ela.

Afastei da porta andando pelos corredores, olhando para a janelas que passava percebi que já era de tarde. Fiquei um bom tempo apenas rodando o castelo sem nenhum lugar em específico na mente, apenas precisava evitar os pensamentos e andar era o melhor que fazia já que no meu novo quarto não havia nada de mim lá.

Meus pés já estavam doendo por conta do salto, os tiro levando na mão sentindo um grande alívio quando a sola dos meus pés recebem o frio gélido do chão. Passo no quarto para deixar os sapatos e um sentimento estranho me atinge ao encarar a cama grande, desvio o olhar guardando os sapatos rapidamente e saindo do quarto.

Apoio a mão no peito nervosa até ouvir risadas no corredor, me aproximo curiosa do corredor seguinte vendo Sommar sentada em uma cadeira do corredor com Adisura em seu colo fazendo penteados inusitados enquanto Lys brincava de pular segurando nas mãos de Sommar. Comprimi os lábios com um sorriso.

Esse é o motivo de aceitar me casar. O único motivo é poder ver elas com uma vida melhor que a minha.

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Me enrolei no roupão ao sair do banho com meu cabelo molhado jogado de lado sentado na cama pegando um caderno de desenho e um lápis qualquer começando a desenhar olhos diferentes, alguns de meus amigos e outros que já vi alguma vez na vida.

Só parei quando percebi ter enchido a folha de diversos olhos que pareciam estar me observando, fecho o caderno e guardo com o lápis no criado mudo sem demora e me levanto em seguida para sair do quarto calçando apenas uma sapatilha simples qualquer.

Tinha que me encontrar com Inej no jardim e procurar por Kylo para saber se meu pedido foi atendido, na pior das hipóteses foi negado e serei punida apesar de duvidar que ela me machucaria na véspera do casamento e com as chances de tornar horrenda minhas cicatrizes.

Abro as portas de vidro que davam para o jardim sem a necessidade de sair pela porta da frente, encontrando facilmente Inej encostado em uma árvore de olhos fechados, me aproximei tentando não fazer barulho, ficando na frente dele assim que abriu os olhos devagar abrindo um sorriso lateral imediatamente.

— Estava quase dormindo. — Confesso sincera.

Percebo a inquietação nele, olhei ao redor vendo se algo o estava incomodando, volto a olhá-lo e me aproximo para checar sua temperatura em busca de algum sinal de mal estar.

— Antes de você ir queria... — Sinto suas mãos segurarem na minha cintura. — Desculpa.

Arregalo meus olhos quando sinto seus lábios contra os meus, senti uma relutância mas desisti quando me toquei que teria de fazer isso na frente de reis de outro reino completamente desconhecidos para mim. Deixei minhas mãos apoiadas em seu peito e logo que ele encerrou o beijo, afastei dele rapidamente comprimindo os lábios.

— Eu só te vejo como amigo! — Me apresso a falar o que pensei estar claro.

— Pensei que era recíproco. Todo o tempo que passamos juntos... — Inej coça a nuca confuso.

— Pensou errado. — Murmuro.

O vejo encostar na árvore encarando o chão ao suspirar antes de me olhar de forma compreensiva e gentil. Me sinto mal mas as circunstâncias não me deixam ver mais que apenas um grande amigo.

— Vou esperar pelo dia que irá retribuir. — Diz se afastando da árvore e estendendo os braços para um abraço.

Retribuo de forma carinhosa, esperando e rezando para os deuses que ele não me espere pois será o maior erro dele perder a chance de ser amado e amar por minha causa. Beijo a bochecha de Inej antes de me afastar a tempo de ouvi-lo falar.

— Kylo está na árvore.

Sorrio em sua direção antes de seguir rumo a árvore que estava evitando o máximo que podia ir lá. A barra do roupão estava se sujando mas era o de menos, conforme me aproximava, a grande árvore se revelava como uma sombra que um dia já viu o sol.

Prendo meu cabelo em um coque de qualquer jeito ao ver Kylo encostado de cabeça abaixada desenhando na terra ao lado do túmulo de Nora. Cruzo os braços subindo o morrinho até a árvore me agachando em frente a Kylo que devia estar dormindo.

Toquei em seu ombro o sentindo estremecer ao toque e assim que ergue o rosto, percebo que estava chorando a pouco tempo com as bochechas rosadas e os olhos cansados. Faço um carinho em seu ombro para o consolar, ele segura na minha mão com um fraco sorriso.

— O que houve? — Pergunto gentilmente.

— Por que lá? — A voz dele falha algumas vezes. — Não quero que veja o que tem lá..

Fico surpresa e contente ao mesmo tempo, isso significava que ela havia aceitado meu último pedido. Sento na frente de Kylo passando a mão onde Nora está enterrada em forma de afeto, sua morte ainda doía mas sei que ela está em um lugar melhor.

— Não é apenas por você. — Tranquilizo. — No mínimo quero conhecer meu povo cara a cara. Saber o que posso fazer por eles e...

— Leve comida, bastante comida! — Kylo implora secando as lágrimas. O olho confusa. — Por favor...

Sorrio sem jeito e abraço em resposta. Seja lá o que me espere, não posso continuar sendo ignorante em relação ao meu povo, não importa meus medos e mesmo que ainda não tenha intenção de governar e pelo visto não irei. Apenas espero que de onde esteja, Nora, que eu esteja fazendo o certo e o que lhe orgulhe.

No começo do próximo mês irei a Auksinis Miestas. 

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