Capítulo 13

Quando voltei para o quarto, Inej fez questão de cuidar das minhas costas antes de me deixar sozinha, conforme os dias corriam, fazia menos questão de vê-lo. Um dia de cada vez até que havia se passado uma semana desde que tudo aconteceu e estive passando todo esse tempo trancada em meu quarto sem vontade de sair dele. No começo só conseguia chorar ao adormecer e acordar com o travesseiro molhado em lágrimas agora é como se a dor nunca se extinguisse do peito.

Estava sentada em frente ao piano ainda de camisola enquanto passava a mão pelas notas sem fazer som, lembrando da última vez que Nora me viu tocar, escutei a porta se abrir e nem me esforcei para ver quem era, apenas continuei a encarar o piano.

— Espero não estar incomodando, Vossa Graça. — Uma voz baixa soou atrás de mim.

Quando me virei em direção a voz encontrei a serva pessoal de Inej vestindo um vestido longo, justo e com o caimento perfeito sobre seus ombros no tom alaranjado como o pôr do sol segurando uma bandeja recheada de comida. Suspirei fundo extremamente cansada.

— O Príncipe me aconselhou de que era bom que viesse vê-la. — Explicou se sentando ao meu lado, fechando o piano e colocando a bandeja em cima sem vergonha alguma da intromissão.

— Awiri, saia. — Peço calmamente me levantando e colocando a bandeja na escrivaninha. — Você está me incomodando. Agora, por favor.

Esfreguei as têmporas com os dedos quando Awiri se levantou e caminhou até mim, parando e segurando minhas mãos para que pudesse me olhar no fundo dos olhos em silêncio por um longo e desconfortante tempo. Seus olhos escuros pareciam um caminho infinito, como se pudesse engolir a sanidade e fazer alguém cair na perdição.

— Porque não conversamos em outro lugar? — Perguntou tranquilamente.

Percebi que não havia muito o que fizesse que faria ela me deixar sozinha, de repente ela se afastou e pude jurar que iria embora, mas em vez disso, Awiri se aproximou com um vestido preto e me virou para vestir uma roupa apropriada. Fiquei de costas e deixei ela me despir e vestir, não me importei muito com as feridas horríveis.

Deixei que Awiri nos guiasse para os jardins, demorou mas rapidamente entendi aonde estávamos indo, algumas lágrimas escaparam sem que me desse conta e as lágrimas aumentaram quando vi Aemy sentada ao lado do túmulo. Minha primeira amiga. Soltei de Awiri e corri até Aemy que se levantou e abriu os braços, a abracei com força soluçando em lágrimas.

— Eu sinto muito... — Murmurou acariciando minhas costas.

— É minha culpa... Toda minha... — Digo entre soluços.

Escutei Awiri se afastando aos poucos, Aemy secou minhas lágrimas e me ajudou a sentar ao lado do túmulo de Nora, passei a mão na terra remexida com um sorrisinho trêmulo nos lábios, encostei na árvore sem saber o que pensar. Notei que Aemy estava segurando minha mão com um sorriso fraco, devolvi o aperto olhando com o mesmo sorriso fraco.

— Sabe, acho que demos trabalho para ela. O dia que não tive ninguém no meu aniversário e ela fez uma festinha para mim... — Não consegui terminar, eram sentimentos demais de uma vez.

— Ela te ama e irá te proteger só que no outro mundo. — Aemy disse baixo me abraçando.

Enquanto a abraçava, lembrei da conversa que escutei a um tempo dela com Liat, me afastei devagar com as mãos apoiadas nos ombros de Aemy que me olhou confusa.

— Posso confiar em você, certo? Você nunca me machucaria né? — Pergunto com medo.

— Claro, que pergunta estranha. Sou sua melhor amiga para toda a eternidade. — Disse com uma risadinha e estendeu a mão para mim que segurei com alívio. — Nada é mais importante que minha família. Nada e ninguém.

Sorri com isso, saber que era parte da família de Aemy me fazia sentir menos vazia e sozinha, ainda tenho ela e todos os outros. Não estou sozinha Elinor. Beijei o dorso da mão de Aemy rindo baixinho contra a pele dela, ouvir a risada dela me deixou feliz. Olhei para o céu do entardecer e posso estar louca mas por um breve momento, senti a presença acolhedora de Nora sentada ao meu lado, quando olhei, só havia seu túmulo.

É claro...

Você nunca vai voltar para mim.

Nem pude lhe dizer que te amo, mãe. Obrigada por tudo, por amar isso.

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Havia terminado de jantar depois que descobri como minha corte está ocupada apesar de não me contarem o porque nem nada do tipo. Prestes a me levantar, passos de salto alto ecoaram do corredor, ergui meus olhos encontrando a rainha a minha frente, completamente acabada com olheiras e o cabelo solto de qualquer jeito vestindo um vestido preto.

Ela se sentou ao meu lado com uma caixa em mãos, estranhei porém voltei a ficar sentada em silêncio esperando que me desse permissão de falar, um nervosismo chegou rapidamente fazendo com que balança-se meu pé silenciosamente enquanto respirava devagar.

— Não devia ter ido ao limite com você. Foi um erro ter lhe ferido ao ponto de deixar marcas permanentes em sua pele. — Sommar suspirou colocando a caixa na mesa e um servo trouxe uma taça de vinho rapidamente. — Minha mãe me castigava para que eu fosse melhor do que qualquer um, e isso me ajudou. Quando for mãe, entenderá. E entenderá o quanto dói ouvir sua filha chamar outra pessoa de mãe.

— Sinto muito, Majestade. — Murmurei, abaixando a cabeça.

— Mãe. Pode me chamar de mãe quando eu lhe der permissão. — Encarei Sommar surpresa quando disse isso levantando meu rosto para a olhar.

— M-mãe... — Travei um pouco ao falar. Mas o gosto da palavra direcionada a ela tinha um gosto amargo e estranho.

— Perfeito. — Sorriu dando tapinhas na minha cabeça. — Isso é para você, a serva teria dado para você no seu casamento com o Príncipe de Châdifir. — Disse enquanto empurrava a caixa antes de sair sem dizer mais nada.

Segurei a caixa ansiosa em mãos, abrindo com cuidado encontrando um livro de capa vermelha escura com uma caneta de pena ao lado, sorrio pegando o livro e abrindo, logo na primeira página havia um pequeno texto com a caligrafia de Nora. Passei o dedo pelas palavras sentindo como se ela estivesse ali comigo, ao meu lado, deixei a caneta de lado e comecei a ler.

A minha querida, Dea.

Meu amor, este é um presente simples mas com amor. Quando era mais nova, escrevia sobre minha vida e dia a dia em um caderno igual a este, havia momentos tristes e felizes. Queria que meus filhos pudessem ler a minha vida, mas infelizmente não tive nenhum e acabei jogando todos fora. Uma escolha tola. Conheci o amor que uma mãe tem por um filho quando você nasceu, menina. Não existem palavras para o quanto desejo que seja feliz, ame e viva intensamente. Nunca se esqueça. Você é suficiente. Parabéns pelo casamento.

Com amor, Elinor.

Sequei rapidamente as lágrimas antes que caíssem sobre a página, folheei o livro e estava completamente vazio, peguei a pena que estava molhada com tinta e comecei a escrever uma página após o texto de Nora. Não sei quanto tempo fiquei escrevendo, mas foi um bom tempo sentada e apenas escrevendo sem parar. Escrevi como se fosse uma história de tudo que vivi com Nora, depois com Aemy, com Liat, Theodoro, Raely e Kylo. Um por um, separadamente, momentos bons e ruins juntos. Escrevi sobre Lyz e Adisura, até mesmo de Inej.

Desviei a atenção do livro pela primeira vez encarando a janela, estava um completo breu do lado de fora estava tarde demais nem me dei conta antes. Fechei o livro e levei comigo junto com a caneta pena, andei com mais calma para o meu quarto. Dessa vez, não me sentia amarga ou estranha, escrever realmente ajudou.

Antes de pegar no sono, fiz um detalhe a mais na capa do livro. Desenhei um olho fechado na capa de trás e na frente, o mesmo mas aberto. Sorri com o resultado e guardei a pena e o livro no criado mudo ao lado da cama, na gaveta que tinha uma tranca. Deixei a chave da gaveta dentro do travesseiro e finalmente, consegui dormir. 

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