Capítulo 11
Estávamos a caminho do escritório da rainha quando Liat parou abruptamente se virando para mim com uma expressão pensativa antes de sorrir fraco esperando os guardas que estavam mais a frente se distanciar ainda mais.
— É melhor ficar de fora dessa, Dea. Afinal é nossa responsabilidade resolver... — Parecia que Liat estava a procura de uma palavra certa. — Confusões e brincadeiras sem graças iguais a essa, então só dessa vez, volte para seu quarto e tenha um momento para relaxar.
Não pude nem sequer recusar já que Liat se virou e entrou na sala rapidamente com os guardas montando vigília em frente a porta, dei meia volta e andei pelo castelo a procura dos outros para passar o tempo mais rápido e depois esperar que Liat me conta-se o resultado de tudo isso. Procurei por meia hora sem nenhuma pista de ninguém quando um guarda mencionou que a minha corte estava resolvendo problemas do reino que envolviam minha segurança. Bufei entediada me sentando no degrau da escadaria que dava para o segundo andar pensando no que fazer.
Avistei Nora que carregava uma bandeja com canecas fumegantes e bolinhos de cenoura com calda de chocolate e cerejas no topo com uma pitada de coco por cima de tudo, era o meu bolinho favorito de todo o reino, coincidentemente eram feitos por Nora que sabia a receita especial. Em vez dela subir as escadas, ela se sentou ao meu lado deixando a bandeja no colo.
— O que lhe aflige, minha menina? — Perguntou-me dando um bolinho especial dela.
— Obrigada, é que todos estão ocupados e tem tanta coisa acontecendo ultimamente que não sei mais de nada... — Conto dando uma mordida no bolinho.
— Isso daqui pode te animar. — Nora me entrega uma carta. — Talvez isso lhe faça bem e quem sabe não acaba ganhando um novo amigo.
Nora saiu com a bandeja em mãos e subiu as escadas com um sorriso tranquilo nos lábios, tentei não pensar muito no que ela disse concentrando em aproveitar cada pedaço do meu bolinho, só quando terminei dei alguma atenção a carta que estava intocável, abri com cuidado sem reconhecer de quem pertencia a caligrafia desenhada e perfeita. Era um convite para ir além do castelo a cavalo exatamente às oito horas da noite, estava cogitando aceitar quando percebi que o convite vinha do Príncipe meia boca. Então era por isso que Nora insinuou novos amigos. Bom, era uma boa oportunidade de sair pela primeira vez, vou aceitar apenas dessa vez.
Voltei para o meu quarto esperando a noite recair, vesti um vestido de tecido leve sem ornamentos chamativos e com as alças altas na cor amarelo pastel, calcei as sapatilhas mais surradas que eu tinha rezando para que tudo desse certo. Suspirei fundo esperando um pouco antes de sair do quarto com o castiçal de velas acesas em mãos por conta do castelo se encontrar em um breu total a essa hora, peguei o caminho mais rápido para o jardim tomando cuidado com os guardas.
Demorou um pouco mas consegui avistar o grande portão do castelo com uma silhueta encapuzada a frente segurando uma capa com capuz nos braços e conforme eu fui me aproximando, reconheci em meio a escuridão da noite que era Nora em frente ao portão, antes mesmo que tivesse a chance de cumprimenta-la notei Nora aproximar o dedo aos lábios para manter silêncio, confirmei com a cabeça e entreguei a ela o castiçal para pegar a capa e vestir, era preta e quente por dentro.
Abracei Nora em agradecimento antes dela abrir o portão com um molho de chaves que não me era importante saber como havia conseguido ele, os primeiros passos para fora do castelo era como estar andando para o desconhecido, não demorou para relinchos de cavalos ecoarem com a chegada de um cavalo preto como a noite e outro marrom sendo montado pelo Príncipe meia boca.
— Pensei que não viria, me surpreendeu de verdade. — Sua voz parecia ser levada pelo vento.
Aproximei do cavalo preto ignorando Inej e estendendo a mão para que o animal cheirasse, um relincho animado veio do animal que encostou o focinho na minha mão para que fizesse carinho, aqueles olhos amarelos intensos me encarando eram de alguma forma agradáveis.
— Vamos logo, temos pouco tempo. — Avisou Inej dando meia volta com o cavalo.
Revirei os olhos e montei com facilidade graças às aulas de montaria que tive ainda criança, não me esqueci já que era minha aula favorita que era dada pelo meu pai em pessoa, sinto saudades. Acompanhando Inej lado a lado enquanto observava de canto conforme nos afastamos do castelo e passamos pelas casas de nobres, pela casa dos Sarang que parecia uma casa dos horrores no escuro.
— Não vamos passar pela ponte para sua segurança. — Inej avisou começando a cavalgar mais rápido.
No fundo queria ir além da ponte mas era um bom começo ir além do castelo, avistei a ponte e o rio que cercava Kasandrilha, desci primeiro do cavalo que se deitou no chão esperando, tirei o capuz olhando o céu completamente estrelado e a lua cheia brilhando e trazendo uma sensação de tranquilidade ao olhá-la. Não percebi quando Inej desceu do cavalo e se aproximou, ficando ao meu lado olhando a ponte.
O olhei de canto percebendo que estava com roupas bem casuais e facilmente poderia ser confundido com um camponês qualquer mas talvez fosse essa a intenção. O vento gélido não estava me incomodando tanto graças a capa com penugem por dentro que aquecia o suficiente para afugentar o frio da noite.
— Por que aceitou? — A pergunta repentina me pegou de surpresa.
— Apenas era vantajoso para mim, só isso. — Respondo me aproximando da beirada com cuidado para não cair no rio.
— Você é bem receosa com pessoas novas, não esperava tanta rispidez sendo que sempre fui bem vindo nos lugares. — Fala mais consigo mesmo.
Encarei meu reflexo na água e meus olhos verdes como esmeraldas brilhando por conta do brilho emanado da lua resplandecente no céu, o reflexo de Inej na água surgiu minutos depois ao meu lado me encarando pelo reflexo.
— Não está na hora de crescer? — Ele agora me olhava fixamente, desviei meu olhar dá água para ele. — Pelo pouco que eu vi, você é bem negligente e bem ignorante em relação a si mesma até mesmo em relação a sua corte. Imagino que nunca agradeceu pelos esforços deles de manterem uma vida monótona para você.
— Você não sabe de absolutamente nada! — Retruco indignada.
— Se quer sobreviver nesse castelo, sugiro abrir seus olhos e começar a crescer. — Seu rosto era inexpressivo. — Fazer as coisas por si mesma e enfrentar as coisas por si mesma e não mandando os outros no seu lugar.
Só me dei conta do que fiz quando um som estalado me recobrou a consciência percebi a bochecha de Inej vermelha pelo tapa que havia dado sem pensar duas vezes, fechei as mãos em punho notando a expressão de surpresa em seus olhos cinzas coloquei a mão no rosto esfregando minhas têmporas com os polegares cansada.
— Eu sei do quanto eles se esforçam por mim mas você não sabe nada sobre mim ou sobre eles então é melhor dobrar sua língua para falar de mim outra vez! — Digo ríspida apontando o dedo no peito do Príncipe meia boca.
— Bem melhor do que a menina indefesa de segundos atrás. — Inej comenta com um sorriso e a mão sobre a bochecha que lhe depositei um tapa com força.
O encarei sem entender quando me senti mais confusa ainda ao ver estender a mão para mim em um convite para dançar, franzi o cenho encarando a mão dele com os lábios comprimidos só depois de um bom tempo aceitei a mão dele para dançar. Inej retirou minha capa e começou a me guiar por uma dança sem música, apenas o som da água corrente, o vento gélido e nossos passos na grama fazendo som.
— Você é estranho, Príncipe meia boca. — Murmuro balançando a cabeça estranhando tudo isso.
Inej me rodopiou em seus braços, fazendo com que eu ficasse de costas para ele em uma dança lenta e devagar com o rosto dele apoiado no meu ombro e aos poucos percebi que era a dança que teria dançado com ele no primeiro dia que chegou aqui.
— Você é a mais estranha de nós dois... — Fui girada pela última vez e paramos de frente um para o outro com os rostos próximos. — Quero que tenhamos uma boa convivência.
— Primeira vez que danço ao luar... — Olho para o céu ainda com os braços ao redor do pescoço de Inej.
O encarei de volta sem entender o que ele queria com tudo isso mudando da água para o vinho tão facilmente quanto respirar, afastei quando percebi a proximidade exagerada e vesti novamente minha capa começando a caminhar em direção ao cavalo preto que estava caminhando, era hora de ir embora. Fui relutante mas deixei que Inej me ajudasse a montar no cavalo pegando caminho de volta ao castelo, sentia como se a tranquilidade fosse aos poucos me abandonando conforme nos aproximávamos do castelo.
Estranhei que ao chegar no portão Nora não estava à nossa espera, desci do cavalo e nem esperei Inej para me acompanhar, fui as pressas para dentro do castelo achando um castiçal com velas acesas pela metade na entrada peguei para iluminar o caminho em busca de Nora, era estranho como o castelo parecia estar tão vazio e silencioso mesmo que estivesse quase de madrugada, escutei Inej ao meu encalço mas o ignorei. Precisava ver a Nora.
Procurei em cada cômodo até sobrar apenas a sala do trono, abri a porta dupla com pressa encontrando Nora com as mãos amarradas no chão, coloquei o castiçal no chão correndo para ajudá-la, comecei a desamarrar suas mãos e rapidamente a abracei. Percebi que seus olhos estavam inchados e ofegante, beijei as mãos dela com um sorriso aliviado.
— Estava com tanto medo que tivessem feito algo a você. — Digo ofegante.
— Minha menina, eu te amo tanto... Obrigada por se preocupar... — Nora me envolve em um abraço caloroso e sinto meus olhos inundados de lágrimas. Era a primeira vez que alguém dizia que me amava.
Estava tão focada no carrinho de Nora que fiquei confusa ao ver Inej escondido fora da sala do trono com os olhos arregalados, quando voltei minha atenção a Nora a escutei engasgar e soluçar com lágrimas nos olhos, arregalei meus olhos erguendo-os sem entender o que aconteceu, escutei algo pingando no chão e sendo retirado de Nora e logo atrás dela estava Sommar com uma expressão de desgosto e dor.
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