Anoitecer

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Anoitecer

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Nunca pensei muito em como morreria, mas mesmo que tivesse pensado, não teria imaginado que seria assim de forma tão patética, engasgando com o próprio sangue enquanto o motorista fugia do acidente que o próprio causou.

Minha pele foi recebida pelo vento frio do anoitecer, pela primeira vez em muito tempo estava vendo o céu limpo coberto de estrelas, forçada pela posição indesejada que meu corpo se encontrava á encarar a lua cheia, zombando das batidas do meu coração cada vez mais lentas.

Como desejava ter apreciado mais ela, seu brilho afasta a penumbra se banhando nas poças da chuva recente, tão escorregadias e perigosas que a buzina nada fez se não me fazer mergulhar minhas botas nelas.

Tento mover meus dedos, um rastejar doloroso. Aperto a alça da bolsa puxando para mim, viro o pescoço deixando o sangue escorregar entre meus lábios, descendo quente pela garganta me afogando mais ainda em seu sabor amargo.

Aperto os cadernos arrancando os com lentidão, arranho meu celular escondido em um dos bolsos, minha visão embaça roubando a pouca concentração que mantinha; rezo para que permita-me despedir, um segundo ou dois não iria estragar os planos do destino. Por favor, tento falar engolindo, queimando minha garganta na dor.

Deslizo os dedos tentando alcançar o bolso, mordo o lábio contendo os soluços que desejam me afogar em uma morte rápida. Algo roça na minha pele formigando, paginas afiadas do livro que carrego de um lado a outro. Minha paixão de adolescente e sonhos inalcançáveis. Descanso a palma em sua capa, lembranças de uma época onde vampiros e lobisomens se provaram reais em meus pensamentos.

Um livro que me roubou todas as sensações, deixando cada cara que conhece-se perturbado com minha obsessão e posteres escondidos em meu quarto. Devo admitir que aquela foi uma fase vergonhaça, mas com a faculdade me peguei querendo viver dentro do universo fantasio de crepúsculo, ninguém conseguia entender porque talvez eu mesma não entendia, meu ex-namorado costumava dizer que devo separa ficção da realidade, claro que a razão era dele.

Puxo o livro pra fora o mergulhando na poça de sangue, que pinta o asfalto; lagrimas quentes derrubam a falsa mascara, dois anos tentando ser a aluna nota dez, aquela que todos se orgulharão. Soluço em um grito silencioso, encaro as estrelas que deslizam borradas em minha visão.

Penso em todos os livros que não li, em meus pais que se sacrificaram tanto para eu conseguir entrar na faculdade dos sonhos, não quero partir. Não quando estava começando a me encaixar, a ser como as outras garotas.

Encaro as estrelas, tento pensar pelo lado positivo como minha professora sempre aconselhou a fazer. Fecho os olhos, as dividas serão canceladas, não tem que ser julgados pelo meu fracasso. Ninguém mais vai precisar fingir se importar, aquela cadeira será ocupada por um aluno que realmente sonha com a profissão, de alguma forma tudo parece se tornar tão pacífico ou talvez seja porque parei de sentir minhas pernas.

Abro os olhos sorrindo para as estrelas, uma delas desliza pelo céu fugindo. Estrelas cadentes são lendas tão infantis quando vampiros que brilham no sol.

—  D-desejo — Grito, mas nada além de um sussurro sai entre meus lábios trêmulos.

— U-uma segunda chance. — Gaguejo sem esperança, sendo mergulhada na escuridão.

— A esperança é o começo

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