Preguiça

Faz algum tempo que não escrevo. Não sei se por falta de inspiração ou algum outro fator que por hora desconheço, apenas sei que faz tempo que as palavras andam me evitando. Ou talvez eu mesma seja quem está evitando alguma coisa aqui.

A esta altura, já terminei dois livros. Um livro de contos e um que sinceramente não sei se ele se encaixa na categoria de fantasia, mas continuo o colocando ali. Talvez daqui há alguns anos exista um gênero que melhor o descreva, quem sabe? Fato é que estou evitando editar estas obras.

Para o livro de fantasia, eu fiz uma lista de pendências de revisão enquanto escrevia para me ajudar a não empacar e chegar até o final da história sem muitas preocupações. No entanto, são pendências que acabaram virando grandes gigantes na minha cabeça. Não que eles assustem, mas eu tenho preguiça de pegar a pedra do chão e tacar na cabeça deles. Esta é a verdade.

Já com o livro de contos o drama é outro. Acontece que minha escrita estava uma grande porcaria naquela época, pois é minha primeira obra, e o trabalho de edição naquilo ali seria quase como operar um verdadeiro milagre. Não sei se estou pronta para reescrever tantas coisas. Vai me dar um senhor trabalho.

Como pode perceber, sou uma pessoa muito prática (me recuso a usar a palavra preguiçosa. Não, muito obrigada)! A escrita é um trabalho árduo que suga suas energias mesmo que você permaneça o dia sentado (não foi minha intenção rimar. Acho bom avisar que vivo fazendo isto sem perceber então é bom se acostumar). A falta de praticidade da escrita algumas vezes me paralisa. Eu gosto de coisas rápidas e de projetos fáceis de concluir. Bom, todo mundo talvez seja assim. Mas eu, particularmente, encontro muitas dificuldades em manter o foco em alguma coisa por um período muito longo de tempo. Quando digo longo me refiro a meses.

Um livro é um projeto de longo prazo e isso quer dizer que é uma daquelas situações onde não devemos deixar a peteca cair por um longo tempo. Escrever todos os dias, fazer anotações, pesquisas, revisar uma, duas e quantas vezes for preciso... Todas estas coisas demandam não apenas tempo, como energia e dedicação.

E precisa ser constante. O jogo de não deixar a peteca cair depois de um tempo cansa, principalmente quando você não tem pessoas que te apoiem ao seu redor. É exaustivo! Ter dois livros prontos aos 23 anos e não ter investido neles diz muito sobre a minha falta de motivação. Mas há uma coisa que sempre digo para mim mesma.

Não que eu esteja querendo bancar a conselheira. Este é um diário com relatos, não um manual. Mas sinto a necessidade de escrever para quem quer que vá ler isto aqui que o mais difícil você faz sozinho. O mais difícil é sentar, esquematizar e escrever uma história do início até o fim. Ou escrever sem esquemas, só sentar a bunda e deixar fluir.

O mais difícil é vencer esta incômoda inconstância que por vezes vai causar um profunda frustração e angústia de si mesmo por não fazer o que você sabe que deve fazer mas não faz. Sentar e escrever é sentar e escrever. Nós mistificamos muitas coisas, talvez para nos distanciar delas ou quem sabe para fazer parecer que estamos realizando um grande feito. Não importa o motivo, estamos sempre fazendo um simples cachorro amigável ter uma aparência terrível e assustadora porque não sabemos nos controlar.

O difícil é nos obrigar a fazer o mais fácil. É saber obedecer e enxergar valor naquilo que ainda não existe. Não foi publicado, muito menos escrito, se trata de uma ideia abstrata que percorre a nossa cabeça e nos cobra que a retiremos dali para que outros possam vê-la.

Apoio externo é muito importante e por vezes crucial para não nos deixar desistir. Contudo, o maior desafio está em apoiar a nós mesmos. Levar a sério o que estamos produzindo e levar até as últimas consequências. Não deixar um texto de molho por anos ou uma ideia morrer na nossa cabeça sem que nunca tenha visto a luz do dia (ou a cor do papel).

São pequenas picuinhas que eu arrumo dentro de mim. Escrevi muito no plural, mas não tenho ideia se existem pessoas que possuem as mesmas indagações que as minhas e os mesmo conflitos que os meus.

Existem muitas ideias na minha cabeça exageradamente criativa que não dá trégua em momento algum. E eu as vejo como filhos que ainda não dei a luz. Não entendo muito de medicina mas creio que segurar e acumular crianças dentro do ventre não seja boa coisa.

Sempre sugiro a mim mesma que eu escreva, mas nem sempre eu o faço. Reprimo quando tenho muitos afazeres, reprimo quando ainda não fiz pesquisas o suficiente, reprimo quando quero amadurecer a minha escrita e esperar o momento certo para aquilo. Por motivos mil, eu estou sempre reprimindo a minha própria maneira de me expressar.

Na escrita e nos personagens eu encontro um refúgio seguro para falar sobre coisas que nunca consegui por em palavras, nem mesmo em uma terapia ou algo do tipo. É a escrita que me ajuda a esclarecer muitas questões pessoais. Mas ainda que não fosse, ainda que escrever para mim se bastasse no amor que tenho por produzir histórias diferentes. Ainda assim, isto seria importante, isto seria algo.

É perigoso, portanto, reprimir estas narrativas. Mesmo que sejam fictícias, eu nunca sei o que pode sair daquilo ali. Tecidos Acrobáticos surgiu de uma ideia de clipe que eu pensei para uma música de um rapper e virou aquele livro com um enredo cada vez mais estranho. Não sei qual vai ser a recepção das pessoas quanto a ele, mas estou feliz pelo que consegui fazer e das coisas que consegui abordar.

Hoje eu estava com vontade de escrever, então sentei e comecei. Mas quando eu irei voltar? E quanto às minhas ideias engavetadas pegando poeira? Será que vou permanecer escrevendo o diário apenas? Mas um diário de escrita sem escrita não faz sentido, então o que será?

Bom, não sei. Só queria dizer que eu terminei dois livros e é possível que pessoas preguiçosas também o façam.

29 de março de 2021.

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