Capítulo 3
Capítulo 3
Alessandro
Já fazia um tempo que eu guardava esse segredo e estava cada vez mais difícil. Especialmente um segredo que anda e fala. Cada respiração de Miguel era uma traição às regras, à minha família, a mim mesmo, mas isso não importava, porque cada segundo que eu passava com ele parecia um presente. Um santuário particular onde apenas nós dois poderíamos existir, por mais improvável e insondável que fosse.
Nós achamos um lugar. O telhado de uma fábrica abandonada na extremidade da zona cerealista, no centro da cidade. Meu irmão tinha olhos e ouvidos em todos os lugares, mas o bando tinha poucos negócios no centro, já que era território de Caio Marchetti, o Scarafaggio. Consegui convencer meu irmão a me dar o território para fazer uma ronda discreta e manter os olhos da matilha ali, sem que ofendesse os Signori.
Eu percorria as ruas sujas e esquecidas do centro todas as noites e quase todas as noites, Miguel me encontrava. Fizemos castelos com tijolos e sonhos esquecidos de outras pessoas. Ele andou pelas vigas expostas de um prédio abandonado como uma corda bamba e eu fiquei atento, pronto para pegá-lo se ele caísse.
Ele nunca caiu.
Quando nos cansávamos de explorar as ruínas do centro velho, íamos a algum lugar com água; uma fonte, um laguinho e ficávamos jogando pedras e vendo qual quicava mais antes de afundar. Eu ganhava sempre, mas às vezes eu deixava ele vencer. Eu gostava do jeito que seu nariz sardento enrugava quando ele estava feliz.
Miguel estava um ano à minha frente na escola. Às vezes ele trazia seus livros para o nosso esconderijo e fazia o dever de casa enquanto eu assistia. Eu também tinha lições de casa, na maioria das noites, mas nunca gostei de perder tempo com isso e comecei a observá-lo.
Ele era meu segredo, e se ele contasse a alguém sobre mim, ele iria destruir não só de mim, mas de tudo que eu amava. Minha família, minha matilha, meu mundo. Era o tipo de traição mais doentia deixá-lo vivo e continuar fazendo isso repetidas vezes. No começo, eu disse a mim mesmo que estava apenas esperando meu tempo. Brincando com minha presa antes de terminar o jogo. Perdoável, desde que eu fizesse a coisa certa no final.
Em algum ponto entre explorar a cidade e a matemática do Ensino Médio, a linha entre a coisa certa e a coisa errada tornou-se muito confusa. Aqueles olhos dele, entretanto ... eles eram sempre tão claros, tão afiados que eu senti como se pudesse me cortar neles.
Estações vieram e foram. O mesmo aconteceu com Miguel. Às vezes ele ficava sumido por alguns dias, e cada mês, parecia que as ausências se tornavam mais frequentes.
Todas as noites eu percorria meu território. Às vezes eu era o vigilante que mantinha as ruas seguras, e outros, eu era o monstro que as salpicava de sangue. Nas noites em que Miguel estava lá, eu ficava em paz. Eu nunca parei de desejar o sangue dele, a vida dele, mas a resistência passou de um jogo de controle para um estilo de vida.
Meus pais ficaram maravilhados com o quanto eu estava melhor, sem perceber que simplesmente aprendi a esconder melhor os corpos. Aprendi a tornar meu problema, não deles. Aprendi a encontrar uma fonte de sustento para saciar a fome que nenhuma quantidade de sangue ou carne poderia satisfazer.
Quando o monstro rugia mais alto, tudo o que eu tinha que fazer para silenciar era lembrar que Miguel era um pedaço de uma coisa e ele satisfaria nossa sede se eu pudesse me controlar por mais algumas horas, na melhor das hipóteses.
Se ele fosse embora, quem iria preencher o buraco dentro do nosso peito que às vezes se sentia tão grande que corria o risco de engolir tudo e todos que importavam?
De alguma forma, Miguel nunca foi puxado para o buraco. Ele podia andar na corda bamba ao longo da borda, inclinar-se e olhar para dentro, mas ele nunca caiu. Se ele o fizesse, eu estaria lá para pegá-lo.
O último ano foi um borrão. Eu odiava minhas aulas e os outros alunos, e meus professores me odiavam mais.
— Se ele não fosse filho de Estebán ...
— E pensar que um dia ele pode ser o Alpha.
— Deusa Luna me livre.
Eu estava acostumado com isso. Eu tinha ouvido pior. O que ouvi foi apenas uma fração do que foi dito, e o que foi dito foi apenas uma fração do que foi sentido, o que, por sua vez, foi apenas uma fração do que eu merecia. Se eles soubessem a verdade, meu pequeno segredo sujo que estivera colocando em risco o bando inteiro nos últimos anos, eles teriam todos os motivos para me odiar, então parecia justo que eles já tivessem feito isso. Talvez eles tivessem um bom senso. Talvez tenha me feito sentir melhor que eles tinham uma desculpa agora, mesmo que eles não soubessem.
Houve um dia naquele ano que se destacou do resto, porque seguiu sete dias inteiros sem Miguel. Não havia um traço de seu cabelo branco como a neve, ele o havia descorado e ainda cheirava a amônia, o que me fazia espirrar, e ele achava que era hilário ou seus tênis sujos.
Ele nunca ficou longe tanto tempo antes. Sempre havia dias entre as ausências, vislumbres que os tornavam toleráveis. Apenas o suficiente para evitar que o buraco negro me consumisse.
Eu o encontrei em nosso lugar, apenas descansando na mobília que saqueamos de um gramado abandonado e uma loja de jardinagem. Pendurado de cabeça para baixo, as pernas de palito se estendiam sobre as costas do sofá de vime e a cabeça pendia da almofada enquanto mastigava alguma coisa mentolada. Tabaco. Eu conheceria o odor pungente em qualquer lugar mesmo com a menta do chiclete, embora meus pais tivessem proibido fumar no condomínio anos atrás.
— Onde diabos você esteva? — Eu deveria ter sido mais paciente. Eu deveria ter exigido respostas ou mesmo matado Miguel, mas eu nunca fiz. Como de costume, minhas emoções levaram a melhor sobre mim quando ele apareceu.
— Por aí — disse ele, roendo a goma disfarçando o cigarro.
— Você fede.
Ele franziu o nariz e me virou de cabeça para baixo. — Vai se foder você também.
Essa era sua frase favorita. 'Vai se foder.'
— Você sumiu por uma semana — eu o lembrei. — Isso é tudo que você tem a dizer? 'Ei'?
Ele se sentou e me encarou por um longo tempo. Quando ele finalmente falou com um rosto perfeitamente reto e um tom plano, ele disse: — Ei, é para cavalos.
Eu olhei para ele, tentando encontrar uma resposta para isso, mas em vez disso, eu ri. E ele riu. E parecia tão puro que esqueci o quanto planejara odiá-lo.
Quando me sentei ao lado dele e cheirei a colônia de outro cara, o ódio voltou, um pouco. E percebi porque ele estava mastigando essa merda. — Tentando esconder o cheiro do seu namorado?
O olhar em seu rosto me disse que ele não esperava que eu o confrontasse sobre isso, mas eu não era nada sutil. Puxei isso do meu pai.
— Eu não preciso esconder nada — ele murmurou, cuspindo sobre o telhado.
— Fofo.
Ele me virou novamente e se acomodou com o livro de química no colo. Ele abriu as páginas e começou a me ignorar, que era o seu passatempo favorito, além de marcar os sinais de trânsito e ficar com outros caras, aparentemente.
Pela primeira vez, o monstro rugindo mais alto não foi o da parte de trás da minha cabeça. Foi o que havia construído um lar dentro do meu peito.
— Então — eu disse depois de um tempo extremamente longo. Três segundos inteiros. — Qual o nome dele?
Miguel me deu uma olhada na capa dura de seu livro. — Sério?
— O que, você tem medo que eu vou caçá-lo e matá-lo?
Ele pensou sobre isso por alguns segundos. — Você iria?
Porra, claro que eu iria.
Eu bufei. — Como se eu desse a mínima.
— Javier.
— Esse é um nome feio.
— É espanhol.
— Meu pai também. Mas, não deixa de ser um nome feio.
Ele revirou os olhos e voltou a ler sobre a ligação covalente. Meu monstro estava furioso e feroz, mas pela primeira vez, eu estava determinado a ser suave.
— Você deveria ter me dito — eu murmurei, quebrando essa promessa em tempo recorde.
— Ter dito o que?
— Que você estava vendo alguém.
— Eu vejo muitas pessoas todos os dias. Eu devo te contar toda vez que olho para alguém?
— Você sabe o que eu quis dizer.
Ele revirou os olhos novamente. — Eu não estou vendo ninguém. Nós fizemos... uma vez.
— Logo antes de você vir aqui.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Não finja que você não sabia que eu seria capaz de sentir o cheiro dele em você — eu retruquei. Nós raramente conversamos sobre o que eu era, e nunca sobre o que ele tinha visto naquela primeira noite quando éramos crianças, mas ele sabia do mesmo jeito.
— Ok, eu não fingi nada.
Bem, não estava esperando isso. — Então por que você fez isso? — Eu estava com medo de perguntar, mas com mais medo de não perguntar. — Só para me irritar?
Ele pensou sobre isso também, um pouco mais do que deveria. — Talvez.
Eu fiquei de boca aberta para ele. Eu deveria ser o sociopata devorador de pessoas nessa amizade, mas às vezes, parecia que o sapato estava no outro pé. — Que porra é essa?
Em vez de me dar uma resposta real, ele se inclinou e me beijou. Acabou assim que começou, mais um selinho do que um beijo de verdade, mas ainda assim. Foi o meu primeiro e toda a minha raiva evaporou.
Miguel sorriu. — Pelo menos agora eu sei como calar sua boca.
— Vai pro inferno — eu murmurei, olhando para o livro que eu nem estava lendo. Saber qualquer coisa sobre ligação covalente teria requerido realmente prestar atenção na aula, mas naquele momento, senti algo mudar dentro de mim. Aquele beijo, inocente, que significava nada para ele e tudo para mim, havia desencadeado algo que eu vinha tentando ignorar por anos, e logo, esconder isso seria totalmente impossível.
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Olá lobinhes,
Espero que tenham gostado do capítulo. lembrando que o Caio Marchetti aparece no livro 2: Liberte-me.
se estiverem gostando deixe um comentário. clica na estrelinha. a tia vivi gosta.
bjokas e até a próxima att.
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