Capítulo Dezoito
- Não temos que nos apressar, Dax. Ninguém nos julga se chegarmos atrasados, obviamente. – Ava garantiu, agarrando nas minhas mãos. Olhei para ela, suspirando. – Não te importas que eu vá contigo?
- Estás a brincar? Eu só vou para te levar lá. – a isso, ela sorriu abertamente, assentindo uma única vez, devagar. Sorri-lhe de volta, enchendo o meu peito de ar.
Naquele dia, tínhamos dormido os quatro no apartamento das gémeas. Eu e Ava, e Mia e Asher. As gémeas tinham tido saudades de partilharem casa, algo que eu considerava natural, e eu não me importei de partilhar o pequeno apartamento com o outro casal. Dan ainda não tinha feito nada, mas um amigo de Steve tinha-lhe dito que Nate tinha pedido o requerimento para mudar de esquadra. A minha aposta era que ele estava a planear fazer algo e não queria que o Steve encontrasse facilmente. Só esperava que ele não conseguisse fazer o que quer que fosse que estava a planear; esperava estar ao lado de Ava, para a ajudar a defender-se, caso fosse preciso.
Mia já tinha ido trabalhar e Asher tinha-a levado a caminho da universidade, onde dava aulas como professor-assistente. Ava estava de folga, pela primeira vez, num dia útil porque nos últimos dias tinha feito uma quantidade ridícula de horas extraordinárias. No entanto, eu não me queixei; por não ser o meu lugar e porque, apesar do cansaço, eu via que Ava adorava realmente o seu trabalho. A sua relação com aquele laboratório era muito parecida com a minha com Dove; eu era a última pessoa que algum dia a poderia julgar. Quando acordáramos e eu olhei para a data, vendo que estávamos demasiado perto do aniversário da minha irmã – nós fazíamos anos com menos de uma semana de diferença – fiz uma grande decisão.
Aquele seria o dia em que eu levaria Ava ao cemitério onde a minha irmã e o meu pai estavam enterrados. Não era um dia suficiente sério para eu estar melancólico, nem um dia em que eu gostaria de ir apenas com a minha mãe; era o dia perfeito para dar Ava a conhecer a Sophie, de certa forma. Mais o inverso, na realidade.
No entanto, tínhamos combinado ir ver um jogo de Declan ao final da tarde. O rapaz de vinte e um anos tinha arranjado o meu número e tinha-me mandado incessantes mensagens – com demasiados pontos de exclamação, tal como Mia – a pedir que eu fosse àquele jogo. Por ter recusado os primeiros convites para o fazer, tinha aceitado de bom grado; também estava, de qualquer forma, entusiasmado para o ver jogar. Do que Ava me contara, ele era o melhor jogador da equipa...mas ela era parcial, de qualquer forma.
Já tínhamos almoçado e estávamos prontos para sair, mas eu tinha acordado com a sensação de que algo iria acontecer naquele dia. Sentia-me demasiado calmo, demasiado em paz. A minha mãe diria que eu achava que ia acontecer algo porque estava demasiado habituado a estar preocupado mas, não descartando a hipótese de ela ter razão, continuava preocupado. De qualquer forma, sabia que Ava estava segura enquanto estivesse comigo, e entretanto iríamos sair do apartamento. Seria Nate tão idiota ao ponto de nos seguir? Não sabia se o deveria subestimar ou não.
- Deveríamos comprar flores? – assenti, feliz por ela ter falado nisso.
- Rosas brancas da minha parte. Tu não tens que comprar nada, claro. – ela tapou a minha boca com uma mão, fazendo-me rir.
- Compro flores de outra cor qualquer, então. Uma cor que diga à tua mãe que fui eu e não outra pessoa qualquer. Flores azuis! Que tal?
- Ótimo.
- Existem flores azuis, sequer? – distraiu-se a pensar naquilo e eu não a chamei à atenção, empurrando-a apenas para sairmos do apartamento.
Como sempre, o meu carro estava estacionado bem perto do prédio, apenas do outro lado da estrada. Ela continuou a tentar pensar em nomes de flores que pudessem existir em azul, abanando a cabeça e fazendo-me rir sempre que olhava para mim com olhos confusos. Quando entrámos no carro, ela tinha desistido da ideia, mas garantira-me que iria pensar em algo igualmente bom para dar à minha irmã e ao meu pai. A isso, limitei-me a responder com um beijo suave nos seus lábios e uma mão pousada na sua perna esquerda, depois de ligar o carro e retirar o travão de mão.
A caminho do cemitério – caminho esse passado com Ava a mudar a estação de rádio sempre que não gostava da música, queixando-se sempre que o fazia – parámos na florista preferida da minha mãe. Depois de muito tempo a observar todas as flores disponíveis para compra, Ava resignou-se a comprar umas orquídeas bastante bonitas. Comprei as minhas rosas brancas e, no caminho de volta para o carro, ri alto com a verdadeira frustração de Ava. Eu sabia que ela queria realmente agradar-me – ou talvez à minha mãe – mas precisava de lhe mostrar que não era preciso tudo aquilo. A sua companhia, naquela viagem, era mais que suficiente. Nunca tinha levado lá ninguém, à exceção de Max.
Fiz questão de passar pela rua onde crescera para mostrar a Ava onde Max e eu tínhamos crescido. Ele era meu vizinho da frente e, mesmo depois de todos aqueles anos, as marcas que ambos tínhamos feito nos muros de ambas as casas ainda persistiam. Ava observou atentamente, com olhos espantados, e riu alto quando eu contei a história de como Max tinha achado boa ideia pintar parte do seu muro ao atirar balões de tinta. Maior parte tinha caído na relva e estragado o jardim da sua família – uma ótima lição que o levou a fazer exercícios para melhorar a sua pontaria – mas os seus pais nunca tinham repintado o muro. Embora a tinta já estivesse partida e a cair, as manchas continuavam lá.
- Tiveram uma infância feliz, não tiveram? – assenti, sorrindo honestamente. – Fico feliz. Detestaria pensar que toda a tua vida tinha sido como nos últimos anos.
- Eu, o Max e a Soph éramos bastante próximos em crianças. Eventualmente o facto de ela ser uma rapariga levou a que nos afastássemos mas sempre fomos, de certa forma, os guarda-costas dela. – suspirei - Só não a conseguimos proteger quando importou.
- E eu tenho a certeza, por tudo o que já me contaram dela, que ela nunca, nem uma vez, te culpou. Ela tinha quinze anos, Dax, achas mesmo que ela sabia que ia precisar do irmão musculado atrás daquela naquela festa? Ninguém tem culpa, a não ser a pessoa que o fez, e as pessoas que o viram a fazer. – assenti, achando facilmente a lógica nas suas palavras. – Não precisas de te martirizar o resto da vida. Aposto que ela não iria querer que o fizesses.
- Toda a gente me diz isso.
- E isso não é sugestão suficiente para nos dares razão? – não respondi, mas virei a minha mão para entrelaçar os nossos dedos quando ela colocou a sua mão na minha perna.
Minutos depois, estávamos no cemitério. Estacionei no início do parque de estacionamento e enchi um garrafão com água, escolhendo ao acaso do monte que era disponibilizado ao lado do grande portão. Ava segurou as flores e deixou que eu guiasse o caminho até ao ponto mais alto do cemitério; quando finalmente parei, percebi que ela começou logo a olhar em redor. Provavelmente à procura das campas que tínhamos ido visitar. Antes de as indicar, no entanto, rodeei a sua cintura com os meus braços e pousei a minha cabeça no seu ombro. Suspirei.
- Vês ali? Aquele ponto cheio de cores? – ela assentiu, seguindo o meu indicador. – É a minha casa. A minha mãe plantou aquele jardim para a Sophie.
- Oh. Que coisa tão bonita, Dax. – assenti, expirando. Ela olhou para mim e beijou a minha bochecha delicadamente. – Tu e a tua mãe fazem tanto pela tua irmã, pelo teu pai, para manterem a sua memória viva. É tão bonito de ver.
- Acho que o fazemos por sabermos que ela, sobretudo ela, viveu tão pouco. Uma rapariga de dezassete anos não deveria ter pensamentos suicidas...pior que isso, não deveria ter justificações para os ter, sabes? Parece que...parece que estava destinado, ou algo do género, porque não é justo. Quais eram as hipóteses de ela ser violada duas vezes?
- Eu percebo, Dax. – assentiu, ao falar. Ela não compreendia completamente a situação mas, ao olhar para ela, sabia que ela não me estava a mentir. Ela percebia.
Não me permitindo ficar emocionado, limitei-me a ajoelhar-me em frente à campa do meu pai, limpando-a primeiro. Inconscientemente, estava a seguir a rotina da minha mãe quando eu a acompanhava. Ava, aparentemente, estava a tomar o meu lugar. Quieta, observou-me a limpar a cama e a compor as flores. Apesar de colocar flores mais frequentemente na campa da minha irmã, sobretudo devido ao facto de ter todo um jardim dedicado a ela, a minha mãe fazia questão de trocar as flores da campa do meu pai todas as semanas. Quando terminei e olhei para Ava, nunca me levantando, fiquei com a impressão de que ela estava a falar sozinha. Não sozinha, claro, mas para Sophie. Sorri, discretamente.
- Obrigada por meteres trazido aqui. – disse, depois de mais alguns minutos em silêncio. Apertei com força a sua mão na minha.
- Não tens que agradecer.
- Cala-te. – e calei, mas não antes de rir. Uma mistura entre rir e fungar, de qualquer forma.
- Vamos andado?
- Se estiveres pronto. – assenti, gostando da consideração que ela estava a mostrar naquele momento.
Puxei-a, pela mão que ainda agarrava, para mais perto e beijei a sua testa, a ponta do seu nariz, os seus lábios. Ela sorriu e beijou-me de volta, apenas quebrando contacto quando ambos sentimos uma brisa um pouco mais forte. Juntos, caminhámos de volta pelo caminho até ao grande portão do cemitério. Pousei o garrafão no sítio onde pertencia e coloquei as flores murchas no caixote do lixo. Quando me virei para trás, com Ava ainda ao meu lado, parei de repente. Ela bateu contra as minhas costas e, antes que ela pudesse tentar ver por cima do meu ombro o que é que estava a acontecer, eu agarrei-a com força.
- Liga ao teu irmão, desliga o som. – sussurrei. Ela paralisou com o tom da minha voz, mas vi pelos seus gestos que ela me obedeceu.
Ainda estávamos atrás do caixote do lixo, e portanto seguros, mas dali eu conseguia ver uma silhueta encostada ao meu carro. Entretanto tínhamos que sair e fingir que estávamos ignorantes que Nate estava ali, à nossa espera. Quando ela me apertou o braço, eu tomei isso como um sinal de que ela já tinha ligado. Não tinha como saber se Steve atenderia, mas esperava que o facto de ser raro Ava lhe ligar ser suficiente para o alarmar. Por enquanto, ele teria que ser a nossa ajuda policial. Até eu arranjar maneira de perceber o que Nate queria e como é que ele pretendia fazê-lo, precisava de saber se ele tinha alguma arma com ele.
- Respira fundo, Ava. Eu estou aqui. – ela assentiu, expirando. Apertou a minha mão e finalmente fechei o caixote do lixo, preparando-nos para continuarmos a caminhar.
Outrora, Ava não teria tanto medo do seu ex-namorado. Sim, ele era um homem em posição de poder e sim, tinha-a traído, mas ela nunca pensara que ele lhe fosse fazer mal. Apesar de ele ter deixado uma grande marca nela e na forma como ela se relacionava com as pessoas – eu suspeitava que a sua relação tinha sido abusiva até certo ponto, mas não tinha como saber com certeza -, nunca a tinha magoado fisicamente. Naquele momento, no entanto, eu quase conseguia imaginar o que lhe passava pela cabeça – Nate deixara de ser apenas o ex-namorado que a traíra. Tornara-se, pior ainda, no ex-namorado raivoso que, anos depois, aparentemente queria uma vingança desnecessária. E, mais que isso, tornara-se num polícia corrupto que tinha ficado cego pela vendeta que tinha contra Ava.
- Ora bem, o que é que temos aqui? – Nate falou, numa voz perturbadora, assim que nos viu a caminhar na direção do meu carro. – Olá, Ava! Já não te via há tantos anos.
- E não foram anos suficientes. – Ava soltou, numa voz que pingava ódio. Nate sorriu, parecendo ficar feliz com aquela reação da parte dela; como instinto, apertei a sua mão.
- Porque é que dizes isso, linda? Divertimo-nos tanto enquanto durou! – exclamou, dando um pequeno passo em frente. – Vieram visitar a pobre e inofensiva Sophie Tyler, foi?
- O que é que tens a ver com isso, Nate? – questionei, numa voz demasiado constrita. Ele notou, porque voltou a sorrir abertamente. Outrora, Nate James teria sido considerado atraente; naquele momento, ele parecia-me sujo.
- Como assim? Tenho tudo a ver com isso! - semicerrei os meus olhos, tentando perceber o que é que ele me estava a dizer. O meu cérebro voou para os piores cenários, mas disse a mim mesmo que isso seriam coincidências a mais. O mundo não era assim tão pequeno.
- O que é que queres dizer com isso, Nate? – foi Ava que o interrogou, não eu. Eu estava a lutar comigo próprio para não ceder à tentação de soltar Ava e o matar.
- O mundo é pequeno, não é, velho amigo? Num dia, éramos colegas...amigos, até, na academia. Nós, o Steve, e todos os outros. No outro, o Steve diz-nos que saíste da esquadra porque a tua irmã se matou. Foi uma pena, na verdade. Terias sido um ótimo polícia. – rangi os dentes, num esforço ridiculamente grande para não soltar a mão de Ava. Ela certamente teria dores, mas ainda não se tinha queixado. – Só quando fomos ao funeral e eu vi a foto da miúda é que eu percebi que eu já a tinha conhecido...de uma outra maneira, claro.
- Estás a mentir. – mais uma vez, foi Ava que falou. Eu não consegui falar, de tão irritado que estava.
Ele está a mentir. Está a tentar irritar-te, para largares Ava e ele fazer o que quer. Não cedas à tentação, és melhor que isso. És melhor que ele.
- Infelizmente não estou, boneca. – Ava estremeceu para o apelido. Seria um apelido que ele, outrora, usava carinhosamente? Não precisava de saber, de qualquer forma.
- És desprezível. – lancei, finalmente, com todo o ódio do mundo dentro de mim.
- Ah, talvez seja, Daxon. Talvez seja.
:( peço desculpa
(só faltam 2 capítulos)
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