Capítulo Catorze

Horas depois, acordei ao sentir algo no meu peito. Abrindo um olho de cada vez, pude ver que era Ava, deitada ao meu lado e virada para mim, que estava a desenhar distraidamente na minha pele. Ela estava tão focada no que estava a fazer que só notou que eu acordei quando soltei uma respiração mais funda e ritmada. Sorri-lhe assim que encontrei os seus olhos, gostando da forma como as suas íris cor-de-safira brilharam para mim, e levei a minha mão aos seus cabelos. Podia habituar-me àquilo, a acordar ao seu lado, naquela paz e serenidade.

Infelizmente, teria que estragar aquela calma eventualmente, ao contar-lhe a verdade. Perguntei-me que horas seriam, se seria melhor contar-lhe com Mia perto de nós ou individualmente. Não sabia exatamente o que fazer, só sabia que iria protegê-la e levá-la para minha casa, enquanto não contactasse Steve e pedisse ajuda. Sabia com toda a certeza que era ilegal divulgar assim a informação de um civil, principalmente de um civil que apresentou queixa contra a pessoa que pedia a morada. Só não queria que Ava fosse magoada mais uma vez.

- Como foi a tua semana? – perguntei primeiro, forçando a minha expressão a suavizar. Ela sorriu-me abertamente, encolhendo os ombros.

- Foi boa. Está a ser difícil ser levada a sério como chefe de equipa, porque aquele é o meu primeiro emprego e por ser rapariga mas...tenho conseguido. Tive sorte porque somos maioritariamente mulheres naquela equipa, de qualquer forma. – sorri-lhe, verdadeiramente orgulhoso dela. – Chegaste a que horas? Quem te deixou entrar?

- Ava... - suspirei o seu nome, mostrando desde logo o meu cansaço. Ela enrijeceu e impulsionou o seu corpo para me olhar mais diretamente. – Precisamos de falar.

- O que é que aconteceu? – grunhi, não gostando nada de estar naquela posição. – Dax? Estás a assustar-me.

- O Nate apareceu no Dove, ontem. – comecei, exatamente da mesma forma que tinha começado horas antes, quando contara a Mia e a Asher.

- O-o Nate. – repetiu, muito mais baixo do que eu, como se estivesse a processar ainda. – O que é que ele queria?

- Antes de tudo, quero que te lembres que eu vou proteger-te, custe o que custar, está bem? Eu cuido de ti. – embora as suas feições tivessem suavizado um pouco, consegui perceber que a estava a assustar. – Não consigo ter a certeza disto, mas tenho razões para acreditar que o Nate conseguiu ilibar o homem que te atacou, Ava. Ele apareceu ontem, a tentar irritar-me ao dizer que tu eras dele e...coisas que não vou referir. Quando percebeu que não estava a conseguir, deu a entender que tinha dado a tua morada ao Dan.

Ava entrou em pânico fisicamente antes de se aperceber mentalmente do que estava a acontecer. Vi o momento exato em que a sua respiração começou a ficar cada vez mais ofegante e ela sentiu a necessidade de levar a mão à zona entre o peito e a garganta. Fechou os olhos e apertou o seu próprio pescoço. Tinha visto reações daquele género demasiadas vezes, da parte da minha irmã, para não saber que ela estava a ter um ataque de pânico. Sentei-me na cama e tentei que o seu corpo se sentasse igualmente; virei-me de frente para ela e fiquei num meio termo entre um abraço e dando-lhe espaço suficiente para ela respirar.

Levei a minha mão ao seu queixo, forçando-a lentamente a olhar para mim. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas e a sua face estava mais pálida que nunca. Nem na noite em que a encontrara pela primeira vez a tinha visto daquela forma, tão desesperada. O seu cérebro tinha definitivamente arranjado maneira de piorar aquilo que se tinha passado entre ela e Dan, principalmente depois de ela descobrir que ele estava associado ao seu ex-namorado. Não queria vê-la daquela maneira, mas a única forma que eu tinha de lidar com pânico daquela gravidade era fazê-la acreditar que eu estaria sempre com ela. Só resultaria se ela me ouvisse.

- Ava, tens que te focar no que eu estou a dizer, está bem? – ela assentiu, mas continuava a tremer. – Eu vou falar com o teu irmão e com os nossos amigos na polícia e ver o que conseguimos fazer neste aspeto. O que o Nate fez é ilegal, Ava, e ele vai pagar por isso. Ele e o Dan. Não vão sair impunes disto, está bem? Eu vou-te proteger.

- Dax. – ela pareceu lutar para dizer o meu nome e eu olhei para ela, com uma expressão sofrida. Acariciei o seu queixo. – E a-a Mia?

- Já falei com ela e com o Asher. Ela vai para casa do Asher até tudo isto ficar resolvido e tu ficas comigo. Pode ser? – ela voltou a assentir. – O importante agora é tu focares-te em mim. Olha para mim, Ava. Eis o que vamos fazer: vais passar a ir comigo para o ginásio, para puderes apurar a tua autodefesa. A pior sensação do mundo é sentirmos que não nos conseguiríamos defender, mas tu já o fizeste uma vez, não te esqueças. És mais forte do que acreditas.

Continuei a falar, frases curtas e sucintas, ditas numa voz doce e calma, até que ela deixou de apertar a sua própria garganta para apertar os meus bíceps. Preferi assim, para que ela não se magoasse mais ainda, e continuei a tentar que ela se focasse em mim, nos meus olhos e na minha voz. Aos poucos, o seu peito acalmou, assim como a sua própria respiração. As suas bochechas estavam cheias de lágrimas, que brilhavam com o reflexo da luz do seu quarto, e eu aproveitei que ela estava mais calma e sequei as lágrimas com os meus polegares. Depois, encostei as nossas testas e respirei fundo, apreciando a forma como ela envolveu o meu tronco quase automaticamente, pedindo todo o conforto que eu tinha para lhe dar.

- Ele sabe a tua morada, mas não sabe onde trabalhas. Lá, também vais estar segura, por isso não quero que entres em paranoia. Em todos os outros lugares...eu vou-te proteger tanto quanto conseguir, está bem? Tu cuidas de mim e eu cuido de ti.

- Duvido que algum dia consiga cuidar tão bem de ti como tu cuidas de mim. – comentou, numa voz distraída e frustrada. Soltei um breve riso, abanando a cabeça.

- O melhor na forma como tu cuidas de mim é que nem tens noção de que o estás a fazer, Ava. – e, colocando-a em cima das minhas pernas, voltei a abraçá-la.

- Sinto-me tão indefesa, Dax. – murmurou, deitando a cabeça no meu ombro. – Eu sei que me consegui defender uma vez, mas...o Nate...

- O Nate não se vai atrever a atacar-te, porque o que ele quer no fundo é que tu voltes para ele. Está delirante.

- Foi por isto que apareceste a meio da noite, então? – assenti.

- A Mia acalmou-me, na verdade. Eu estava louco quando bati à vossa porta, acordei-os aos dois. Felizmente, tu continuaste a dormir. Nenhum de nós achou que devias perder mais horas de sono por isto.

Ela assentiu, escolhendo manter o silêncio. Deslizei a minha mão pelas suas costas, numa tentativa fútil de a acalmar e de a aquecer, já que as suas pernas tinham começado a arrepiar-se. Ela puxou os lençóis para cima de nós e escondeu-se nos meus braços, encostando a sua cabeça na curva do meu pescoço. Sorri, gostando do facto de ela sentir que eu a conseguia proteger, apesar de tudo o que o Nate tentara meter-me na cabeça na noite anterior, e apertei-a com força suficiente para que ela soubesse que eu também tinha medo. Não queria que Ava fosse magoada, e também não queria que ela vivesse com o pânico que ganhara ao saber a verdade. Queria que ela fosse uma pessoa normal, livre e sem preocupações, mas ambos teríamos que lutar mais um pouco para atingirmos isso.

Continuámos silenciosos até eventualmente o seu estômago nos alertar de que era altura de tomar o pequeno-almoço. Retirando-a das minhas pernas, levantei-me para ir buscar o robe que sabia que ela gostava de usar depois de acordar. Ela aceitou a minha mão quando eu a ofereci para a ajudar a levantar, apesar de ela não precisar de ajuda para aquilo, e deixou que fosse eu a vestir-lhe o robe. Depois, vesti a roupa que tinha colocado no dia anterior e lembrei-me de como uma noite tão animada e feliz como aquela, devido ao tema e aos fatos que Max nos obrigara a usar, tinha sido estragada pela presença de Nate. Não deixaria que nenhuma outra noite de Ava fosse manchada por razões semelhantes e faria de tudo para ter o que queria.

- Hoje, faço eu o pequeno-almoço. – ela sorriu, aliviada, e assentiu. – E tenho fotos para te mostrar.

- Fotos? – uns segundos depois, ela arregalou os seus olhos e sorriu abertamente. – Ontem era a noite temática! Mostra, mostra, mostra.

- Depois de comermos. Combinado? – ela assentiu, muito mais feliz que há momentos, e eu senti-me realizado.

Saímos do seu quarto sem fazer muito barulho, por não sabermos se o casal do outro lado do apartamento já teria ou não acordado. Eram apenas oito da manhã – tanto eu como Ava tínhamos tendência a acordar demasiado cedo -, portanto duvidava. Caminhámos até à cozinha, sempre de mãos dadas; apesar de ela estar segura, eu entendia a necessidade constante de conforto. E, enquanto ela me aceitasse, eu dar-lhe-ia todo o conforto que tinha para oferecer. A cozinha era, por falta de outras palavras, apertada, mas nós conseguimos mexer-nos confortavelmente. Enquanto me indicava onde eram as coisas necessárias para eu fazer uns ovos mexidos e umas torradas, Ava distraía-se ao contar-me de todas as vezes que uma das irmãs - mas sobretudo Mia – tinha tropeçado ou caído naquela divisão.

Contou-me – e eu percebi que ela o fazia para se distrair do pânico iminente à sua volta – que, quando se tinham mudado para o apartamento, tinham arranjado um gato porque ambas adoravam animais. Depois, no entanto, Mia estava constantemente a tropeçar no pobre animal devido ao pouco espaço que tinham no apartamento e tiveram que o dar a um dos seus vizinhos. Infelizmente, o pobre animal já tinha falecido, mas falecera numa casa mais confortável e sem ninguém a tropeçar nele e a pisar-lhe a cauda sem querer. Sorri para Ava quando ela completara a sua história, com um sorriso divertido, e beijei os seus lábios.

Ela estava sentada na bancada, enquanto eu cozinhava mesmo ao lado dela, na frigideira. O seu robe tapava as pernas o suficiente para eu não ter medo que algo salpicasse, mas colocava-me constantemente entre ela e o utensílio para que nada acontecesse. Sempre que o fazia, ela enrolava os braços no meu pescoço e beijava-me a bochecha, mordendo o lóbulo da minha orelha ocasionalmente. Ignorando tudo o que nos rodeava, estávamos contentes e livres, leves, e isso era tudo o que eu desejava para a sua vida. Que ela voltasse a ser a rapariga que eu sabia que ela teria sido antes do desastre de namoro com Nate. Supunha que ela tivesse sido ainda mais parecida à Mia do que era.

- Dax? – chamou-me, numa voz pequenina. Olhei para ela, enquanto colocava os ovos mexidos num prato.

- Se me fores agradecer, sabes que não precisas de o fazer. – ela riu um pouco e abanou a cabeça, agarrando nos meus pulsos e fazendo-me largar as coisas.

- Eu ia dizer que te adorava. Tens sido a melhor coisa da minha vida nos últimos tempos e queria que soubesses disso. – paralisei por uns segundos, mas depois relaxei rapidamente.

- Também te adoro, Ava. – admiti, escolhendo aquela altura para a puxar para mais perto e me colocar entre as suas pernas. – Eu cuido de ti e tu cuidas de mim.

Ela sorriu e, ao ver o tom vermelho a subir nas suas bochechas, sorri de volta. Beijei a ponta do seu nariz e coloquei, lentamente, as mãos debaixo do seu robe, nas suas pernas. Ela arrepiou-se com a diferença de temperatura mas a sua resposta foi levar as mãos até aos meus cabelos e puxar os fios.

- Eu cuido de ti e tu cuidas de mim. – repetiu a frase que estava lentamente a tornar-se o nosso lema.

De seguida, sem me dar tempo ou espaço para respirar, puxou-me pela nuca e retirou todo o meu oxigénio ao beijar-me desesperadamente. Sorri contra os seus lábios e partilhei do desespero, da necessidade de contacto e de conforto que ela mostrava. No entanto, a pequena cozinha que ela partilhava com a sua irmã gémea – e, naquela manhã, também com Asher – não era o local ideal para eu lhe fazer aquilo que gostava de fazer. Afastei-me devagar, dando-lhe tempo suficiente para ela se habituar à falta do calor corporal que eu oferecia, e ajudei-a a sair da bancada.

Ela retirou as torradas da torradeira e barrou-as com margarina, colocando-as na pequena mesa encostada ao outro lado da divisão. Sentámo-nos frente a frente e dividimos os ovos mexidos e as torradas num silêncio confortável. Pouco tempo depois, a água que estávamos a aquecer ferveu e ela terminou de fazer o chá de camomila que tínhamos começado a fazer. Ao descobrir que era o seu preferido, lembrei-me da minha mãe. As pequenas dúvidas que poderia ter em relação à mais velha vir ou não a gostar de Ava estavam, aos poucos, a desvanecer-se. Era cada vez mais óbvio que elas se iriam adorar, e estava ansioso por as apresentar.

- Nem acredito que não fizeste comida para nós, Ava! Tu e a tua irmã realmente são iguais, só pensam em vocês próprios... - Asher entrou na cozinha, olhou Ava com um olhar severo, que me fez rir, e abanou a cabeça.

A resposta de Ava foi apontar para o prato que tínhamos colocado de parte, para ele e para Mia, porque Ava calculara que eles teriam demasiado preguiça de cozinhar antes de saírem de casa.

- Adoro-te. – Asher exclamou, numa voz profundamente aliviada, e beijou a cabeça dela. Abanei a cabeça, rindo para mim próprio, e observei com gosto a relação deles os dois.

Estava a pensar se algum dia teria aquele tipo de relação com Mia, ao ponto de não me sentir desconfortável no trio próximo que eles tinham criado entre eles, quando senti dois braços apertarem o meu pescoço.

- Bom dia, meus amores! – ouvi a voz feliz de Mia a exclamar, bem junto ao meu ouvido. 


eu acho que eles os dois são o meu único casal que têm uma frase mesmo deles e honestamente esta é a mais adorável de sempre. acho que a certo ponto até comecei a repeti-la mais vezes só para ficar com o coração quentinho ahaha

a nossa ava ficou em pânico, sim, mas como o dax disse: ela é mais forte do que acha. gostei de como o instinto do dax foi protegê-la MAS também ensiná-la a proteger-se a si própria. ele está a controlar o instinto de a abafar e fechar numa caixa e eu achei isto muito bonito da parte dele, não sei se concordam.

anyway!! espero que estejam a gostar <3 só faltam 6 capítulos :(

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top