0.3

─── “MONSTROS” ─── 
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𝘓𝘌𝘕𝘈 𝘚𝘔𝘐𝘛𝘏

Meu desejo de chegar em casa era tão grande que, assim que as gravações terminaram, corri para o camarim, troquei de roupa rapidamente e me despedi de Bibi com um beijo na bochecha. Sentia-me um caco depois de passar a noite em claro. Nem mesmo tive tempo para cochilar desde que saí da mansão do Ben ── este que, aliás, encontrei boiando na piscina, bêbado, enquanto duas garotas beijavam seu pescoço. Certamente aquilo evoluiria para algo a mais, e eu não queria estar ali para presenciar a cena.

Respirei aliviada ao finalmente colocar os pés na minha casa. Queria me jogar na cama e dormir por vinte dias seguidos para repor o sono, mas parei no meio do caminho assim que passei pela porta de entrada. Lá estava minha mãe, com suas ilustres visitas ── aquelas que eu julgava como: interesseiras ou pessoas sem absolutamente nada melhor para fazer da vida, rindo alto com risadas falsas, devorando a minha comida e bebendo do meu vinho caro.

Puta que pariu! O meu vinho?!

Com certeza, Sora as havia chamado para compartilhar detalhes sobre a minha "nova conquista". Perguntava-me se conseguiria alguma privacidade um dia. Não queria alimentar essa paranoia, mas quando se tem aquela mulher como mãe, é fácil começar a questionar tudo, até mesmo se o seu sangue é realmente vermelho. Possivelmente, essa reunião começou assim que saí de casa para o set de gravação. Os pratos vazios na mesa denunciavam que minha mãe já havia dado início à sua tour ── como sempre ── pela casa, mostrando as novas aquisições que trouxe de suas viagens ao exterior.

"Esse vaso demorou meses para chegar da China."

Uma verdadeira colecionadora de inutilidades, enchendo os cantos da casa com coisas irrelevantes, assim como faz com a minha vida.

── Veja só quem chegou!

O som da sua voz fez meu coração acelerar contra a minha vontade. Senti-me paralisada, incapaz de mover o corpo depois de um dia tão exaustivo. Respirei fundo, forçando meus músculos a obedecerem, e entrei na sala, encarando os rostos plastificados das amigas da minha mãe.

── Boa tarde ── murmurei sem entusiasmo.

── Passou do horário hoje, Lena! ── reclamou, olhando para o relógio no pulso. ── E ainda saiu cedo sem sequer me dar um bom dia! ── praguejou, visivelmente irritada.

Os cochichos das outras mulheres me cercavam como uma nuvem sufocante, tornando tudo ainda mais insuportável.

── Desculpa, mãe. Tive que sair às pressas para a gravação ── respondi, encarando seus olhos escuros, tão parecidos com os meus.

Era sempre assim: tudo precisava ter um horário. E se eu ultrapassasse qualquer limite estipulado por ela, uma boa justificativa teria que ser dada. Caso contrário, o castigo seria inevitável, como se eu ainda fosse uma adolescente de treze anos que beijou o garoto de quem gostava e foi flagrada pela mãe. Não queria estressá-la, não depois daquele dia... Tão doloroso. Só de pensar no ocorrido, senti meu corpo fraquejar.

── Mas isso não é uma boa explicação para justificar nem ao menos um café com sua mãe! ── ela se levanta do sofá e se aproxima, segurando meu braço com firmeza, completamente alheia às mulheres sentadas, que assistiam à cena como um espetáculo.

── Mãe, por favor ── murmuro, tentando manter a voz baixa para que só ela ouça. ── Não faça isso aqui...

Os olhares fixos em mim tornavam tudo ainda mais opressor. Senti a angústia se acumular no estômago enquanto tentava engolir a vergonha e a raiva. As unhas pressionavam as palmas das minhas mãos em uma tentativa desesperada de controlar o medo que me paralisava.

── Não venha me pedir isso depois do que você fez! ── Sora apertou ainda mais meu braço, suas unhas quase marcando minha pele, como se aquele gesto pudesse aliviar sua raiva.

Queria ter o poder de voltar no tempo, de apagar aquele momento e fugir do olhar atento e julgador das pessoas na sala. Sabia muito bem o que viria a seguir: os sussurros, os boatos, e, inevitavelmente, a manchete indesejada estampada na Now This:

"A filha da maior estrela de Hollywood, Lena Smith, desrespeita a própria mãe de forma agressiva!"

Os jornalistas adoravam manchar imagens. Sabia que o simples envolvimento do nome da minha mãe já garantia cliques e manchetes. As mulheres presentes, que agora cochichavam, com certeza seriam as primeiras a oferecer suas versões exageradas para alimentar a narrativa.

── Por favor, para! ── implorei, sentindo o nó na garganta apertar ainda mais. Meus olhos ameaçavam transbordar.

── Não estou nem aí! ── ela disparou, sua voz estridente ecoando pela sala. ── Pelo menos elas vão aprender como se educa um filho de verdade!

Sentia-me exposta daquela forma, como se minha mãe sentisse algum tipo de gratificação em fazer aquilo. Nunca conseguiria entender como tudo mudou depois que papai foi embora. Ela se transformou em alguém amarga, como se despejasse todas as suas frustrações em mim, ao invés de lidar com elas sozinha. Eu não merecia ser tratada assim, como uma criança imatura. Sou adulta o suficiente para entender as consequências das minhas ações, mas ela não parecia sequer considerar isso.

À medida que era puxada para cima das escadas, com passos rápidos e fortes, sentia o peso de todos os olhares sobre mim. O castigo já estava dado, e eu sabia que não tinha voz para contestá-la. Quando ela abriu a porta do meu quarto, me soltou bruscamente, fazendo-me dar um passo para trás, tentando me manter firme, sem cair. A angústia tomava conta de mim, e um nó se formava na garganta, com meus olhos queimando pelas lágrimas que se acumulavam, prestes a cair.

── A sua sorte é que o Willian me contou que você foi ótima nas gravações! ── ela vociferou com raiva. ── Mas sair dessa casa sem falar comigo? Isso é o cúmulo! Vai ficar aqui dentro até a hora do jantar, e sem gritar dessa vez!

Ela saiu do meu quarto, trancando a porta do lado de fora, deixando-me sozinha, estagnada no silêncio que se seguiu. Fiquei olhando o espaço vazio, onde ela estivera momentos antes, enquanto tentava organizar meus pensamentos em meio ao turbilhão de sentimentos que me consumiam. Em que momento eu errei? O que foi que eu fiz para merecer isso? Perguntas sem respostas, que me acompanhavam durante toda a minha vida, mas que agora, com onze anos de sofrimento, pareciam mais intensas, mais amargas.

Recordei o dia em que ela trouxe um estranho para dentro de casa, trancando-se com ele no quarto. Tentei lhe explicar o desconforto que isso me causava, mas só recebi mais raiva em troca. No fim, por sorte, consegui escapar de uma marca na bochecha, quando a panela que ela atirou no chão quase me acertou.

Me sentei na cama, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto. Minhas mãos estavam marcadas pelos cortes profundos das minhas unhas, e me questionava até quando conseguiria suportar aquilo tudo. Onde foi que eu errei? O que faltava em mim para que as coisas se encaixassem? Perguntas que nunca encontrei resposta, que só me traziam mais dor.

Levantei-me da cama e tirei as roupas, deixando-as caírem no chão do quarto, sem me importar. Entrei no banheiro e liguei o chuveiro, colocando-me embaixo da água quente, tentando afogar a dor em um choro que parecia não ter fim. Era um choro alto, desesperado, como se fosse a única maneira de aliviar o peso dos monstros que me perseguiam, esperando que, naquela noite, eles finalmente morressem, e eu pudesse encontrar um pouco de paz, ainda que fosse só para dormir.

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O que estão achando do rumo da história?
Lena sofrendo demais.

Não se esqueçam de votar e comentar, de alguma forma isso me incentiva a públicar os capítulos.

Capítulo betado pela diva :nxah_1997

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