Capítulo 3 - Ian
Acordei com o alarme de sinos tocando para que todos os venandi se levantassem. Saltei da cama e comecei a vestir meu traje de batalha, eu odiava quando os sinos tocavam durante a madrugada, nunca era um feiticeiro ou um elfo que teríamos de enfrentar, era sempre o orc, ou um grupo deles.
Saí do quarto e encontrei os demais venandi, todos prontos para batalha, nós nos apressamos em entender para onde deveríamos ir e quais armas levar, eram realmente orcs, eles estavam tentando novamente invadir um vilarejo, saquear nossas terras e matar inocentes.
Apanhei as espadas e o arco, nós corremos escada a baixo, tentando chegar ao lugar o mais rápido possível. Montei meu cavalo e esperei as instruções do comandante.
— Ian, Larissa, sigam para o vilarejo e cuidem dos orcs, o resto de nós vamos para o deserto, vamos tentar encontrar o lugar onde eles se escondem!
Larissa e eu cavalgamos para longe, tentando alcançar o vilarejo que estava sendo atacado, não era a primeira vez que o lugar era invadido, nós dois sempre lutávamos lado a lado, ela era uma mulher fácil de lidar.
Assim que nos aproximamos do vilarejo percebi que o caos estava instaurado por lá, corri em direção a entrada do vilarejo descendo do cavalo, preparei uma flecha, o primeiro monstro orc correu em minha direção, acertei uma flecha em seu olho.
Ele caiu, Larissa desceu do cavalo e puxou suas espadas, ela era uma excelente duelista, ela correu para o meio do caos lutando contra os orcs, meu corpo adorava a batalha, desviei rápido de uma flecha que um orc lançou contra mim.
Puxei minha espada e golpeei o primeiro monstro que se aproximava, os demais se dividiram entre nos matar e fugir, esperava que os lideres os encurralassem no caminho do deserto.
Nós continuamos matando os monstros e seguindo adiante com a batalha, até termos certeza de que não havia mais orcs na cidade, Larissa bateu a vila a cavalo procurando sobreviventes.
Enquanto eu caminhei pela cidade reunindo os cadáveres dos orcs e vendo o quanto os monstros destruíram o lugar, ajudei os moradores a retirar os corpos dos seus entes queridos.
Eu já fiz muitas coisas em minha vida, questionava tudo a minha volta, as pessoas não me davam respostas concretas. A vida de um venandi era matar o diferente, fosse elfo, feiticeiras, orcs ou mesmo as pequenas criaturas que habitavam as florestas.
Em nossos treinos, sempre fora repetido diariamente, nosso código de honra era “Jamais deixe um novis vivo, seja feiticeiro, orc, elfo ou criaturas pequenas das florestas. Eles destruíram Ordal anos antes, mas não teriam a chance de fazê-lo novamente.”
Eu não estava vivo quando Ordal fora incendiado, a história nos diz que Ordal era um continente em que todos os reinos eram habitados por todas as raças, porém quando os novis destruíram nossas terras com sua magia estranha. Nossa fortaleza foi construída, um lugar para onde crianças problemáticas, órfãos e mesmo aqueles que se oferecem, vão para ser treinados, a vida inteira.
Criados para matar, os ceifeiros dos novis, nenhum deles escapava de nós, não os catalogávamos por poder, todos eram tratados da mesma forma, os que encontrávamos que considerávamos raros, eram levados a fortaleza em Hunter City, onde eram estudados.
Voltei a realidade e vi os estragos que os orcs causaram, pessoas esquartejadas, inúmeros feridos... Eles eram bárbaros, precisávamos descobrir o seu esconderijo, não havia como manter o reino a salvo se não pudéssemos manter destruir os orcs de uma vez.
Nem conseguia contar as vezes que pedi ao conselho para priorizar a aniquilação dos orcs, feiticeiros e elfos raramente nos atacavam, muitas das nossas caçadas a eles era simplesmente por estarem no lugar errado, na hora errada.
Larissa cumpria as ordens como ninguém, matava limpava as armas e se livrava dos corpos, eu costumava matar e enterrar os corpos, ninguém na fortaleza poderia saber disso, afinal meu trabalho era livrar o mundo dos novis, mas nunca obtive respostas, fosse com outros venandis ou com os mestres da fortaleza, eles sempre mudavam o rumo da conversa e isso me irritava.
— Não restou nenhum. — Larissa avisou-me
— Ótimo, podemos nos organizar para voltar a fortaleza. — Ela assentiu e foi buscar os cavalos.
Vi uma mulher chorando abraçada ao cadáver de um homem, certamente um tolo que tentara enfrentar os orcs sem qualquer treinamento. Era por aqueles que eu lutava, por salvar as pessoas, mas não havia lugar no mundo para mim.
Órfão, entregue a fortaleza por roubar comida, treinado para ser um assassino. Eu montei meu propósito, matar para livrar outros que vivem nas ruas como eu vivi, de uma morte dolorosa. Montei em meu cavalo e nós cavalgamos lentamente em direção a fortaleza.
Larissa falava os números de orcs que matou, sempre narrando empolgadamente como movera suas espadas, expôs os ferimentos que teve durante a batalha e perguntou-me se tive algum, neguei e ela falou o quanto me invejava por nunca me machucar em batalhas.
Descemos dos cavalos, o dia já amanhecera há muito, por sorte, nossa fortaleza ficava perto da fronteira com o deserto, então fazíamos viagens curtas até o vilarejo que sempre era atacado por orcs. Nós prosseguimos para o interior da fortaleza.
Um dos mestres estudiosos nos cumprimentou e questionou o sucesso da missão, afirmei que esta fora um sucesso e que já poderíamos fazer os relatórios.
Nós subimos até a sala de arquivos, o mestre apontara para uma mesa, onde pergaminho e tinta nos esperavam, sentei-me em meu lugar e comecei a escrever os detalhes do atentado, o número de orcs que matei e os números de vítimas de seu ataque.
Larissa parecia se esforçar para fazer os relatórios, interroguei-a sobre seus ferimentos e ela me disse que estava bem, que nunca se machucava demais. Nós terminamos os relatórios e fomos ao salão para comer antes do treino, nos sentamos em silêncio e comemos o que fora servido no dia.
A mulher se despedira de mim, dizendo que precisava ver um mestre curandeiro antes dos treinos. Eu segui para o salão, não havia muito o que fazer por ali, os mais jovens eram treinados, os mais velhos as vezes duelavam apostando a próxima missão e qual criatura queriam.
Apesar de ser uma aposta estúpida, os mestres levavam em consideração os pedidos. Talvez fosse uma forma de manter todos sãos ali dentro, só saíamos da fortaleza para caçar ou treinar, então a cada dia que passava, ficávamos um pouco menos humanos e um pouco mais venandi.
Após passar um longo tempo observando os treinos, fui chamado para mais uma missão, Larissa não iria comigo daquela vez, logo me ordenaram levar um grupo pequeno, certamente era feiticeiras, que eu enfrentaria.
Meu grupo de subordinados estavam se equipando quando o mestre veio me explicar que realmente se tratava de uma feiticeira que caçaríamos.
Eu me sentia cansado, mas ainda podia lidar com uma feiticeira, apesar de astutas e incrivelmente poderosas, elas eram facilmente assassinadas, ainda mais com as flechas embebidas no sangue de outras de sua espécie que foram mortas antes.
De algum modo o sangue de uma feiticeira morta, pode reter a magia de qualquer criatura. Por isso evitávamos cortá-las ao matar, geralmente éramos instruídos a quebrar seus pescoços, assim quando trouxéssemos o cadáver o sangue ainda poderia ser aproveitado.
Quando todos os jovens estavam equipados, nós saímos da fortaleza, seria mais que um dia de viagem, a feiticeira estava em Bercone, a capital de Sandel, a cidade não gostava muito de receber venandis, éramos o sinal de que as coisas não estavam tão boas quanto pensavam que estava. Eu odiava os olhares dos moradores de lá, especialmente os nobres, eles não tinham qualquer respeito pelo que fazíamos.
Hipócritas malditos, não conseguiam limpar a própria bagunça, porém sequer nos agradeciam o trabalho, em pensar que uma feiticeira conseguiria destruír o lugar deles em poucos minutos, apenas me fazia questionar mais sobre os novis e sua natureza maligna.
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