Parte 5 - 5
Após o adolescente arrombar a porta de madeira da maior casa, a ação de fuga dos prisioneiros foi imediata. Amontoados, os adultos correram, quase que pisoteando um ao outro pela pequena abertura que a porta deixou em seu lugar.
Zero e o adolescente tentavam orientar os fugitivos em meio a berros. A cerca aberta era o destino. Atrás da cerca, as três crianças viam impressionadas a fuga em massa. Os adultos saíam e corriam todos juntos, como que instintivamente, para longe do local em que ficaram nove meses presos.
O adolescente saiu, ficando ainda dentro do local Zero e um casal de adultos com os pijamas listrados e sujos. O garoto, antes de atravessar a cerca, viu as luzes dos postes de dentro acenderem. Ele parou e afastou-se da cerca rapidamente. O casal fez o mesmo, atentando-se ao cuidado que o garoto teve.
''Corram!'', disse Zero para o adolescente e para as crianças que esperavam por ele do lado de fora.
O garoto mais velho via a cena repetir-se em sua frente. Mas daquela vez ele não insistiu. Correu com as crianças, seguindo os adultos, distanciando-se de forma rápida da cerca eletrificada, consolidando a sua liberdade, deixando outro parceiro da fuga para trás. Deixando de fazer o que foi pedido pelo adolescente que sacrificou-se. Deixando a saudade que queria esquecer guiar seus passos.
Segundos depois, dois homens apareceram, apontando armas para Zero e o casal de adultos. Um dos homens segurava com o braço Ludka pelo pescoço. O outro, com gestos, ordenava que os três entrassem em um casebre vazio. A moça foi atrás, empurrada pelo que a estava segurando.
Os três ficaram em um lugar sem iluminação interna e sem camas ou colchões.
Todos sentaram-se no chão de concreto. Enquanto o marido consolava a mulher deprimida, Ludka iniciou a conversa olhando para Zero: ''Como vocês conseguiram fugir?''.
''Pulamos o muro, e o mais velho precisou ficar para trás.'' Desviava o olhar dela o garoto.
''Espero que ele não pague por todos, mas... acho difícil. Sacrifícios têm que ser feitos às vezes'', ela falou, olhando para o nada. E depois voltou o olhar para Zero, perguntando: ''E o seu pé, como tá?''
''O plano falhou. Três ficaram pra trás'', ele ignorou a pergunta. ''O primeiro deu certo. Eu não planejei direito o segundo''.
''Não se culpe'', falou, olhando sorridente para ele. ''Se pensar pelo lado bom, a maioria conseguiu fugir. Você se sacrificou por eles''.
''Eu não me sinto culpado e nem orgulhoso. Só queria que o plano desse certo.''
Ludka sentiu compaixão por quem não manifestava um sentimento de pesar: ''Quando fui chamada por aquele velho na primeira vez que nos vimos, imaginei que tivessem trazido meu irmão. Não o vejo há muito tempo, desde quando fui estudar em outra cidade e... depois fui trazida pra cá. Ele deve ter a mesma idade que você''. Ela olhou para o casal e forçou um sorriso.
''Esse casal é seu pai e sua mãe. São parecidos com você'', Zero concluiu, olhando para eles.
Os quatro ficaram impressionados com a percepção do garoto, que percebeu, também, a grande conveniência que o destino teve em uni-los.
"O garoto que espiava suas aulas de polonês era o seu irmão, não é!? Foi muita sorte termos nos encontrado. Logo nós quatro''.
''O quê? Você... você falou com nosso filho?'', perguntou a mãe, surpresa e aflita.
''Sim. Ele estava vindo comigo na caminhonete que capotou. Eu tive um corte no pé e perdi um pouco de sangue. Ele foi esmagado pelo carro e perdeu a vida. Esta jaqueta..." Zero sente uma pontada no peito "... era dele.''
''Não... não pode ser!... Qual... qual era o nome dele? Pode ser um engano'', questionou a mãe ainda aflita.
Os três olhavam ansiosos para ele, enquanto o segundos passavam.
''Ele gaguejava'', Zero lembrou ''O nome dele era Heiko'', e finalizou.
Os três caíram aos prantos. A mãe soluçava de tanto chorar. A filha chorava baixinho, abaixando a cabeça tentando não acreditar naquilo. O pai ficou no meio, abraçando as duas, com o olhar baixo, fechando os olhos e tentando engolir as lágrimas.
Muitos minutos passaram. O choro foi se esvaindo. O menino esperou pacientemente por isso, encarando os três e negando a amargura que a cena lhe causava. Lembrou: ''O filho do velho que estava com a gente. Ele chorou quando viu o corpo de Heiko. Não vi lógica naquilo''.
''Provavelmente ele chorou porque perdeu um filho de sua idade. Ele.. ele foi morto pelos nazistas antes mesmo de ir para um campo de concentração'', disse Ludka, mais calma. ''Sempre se mostrou amargurado pelos alemães. Ele e seu pai ficaram por mais de um ano num campo, e... sentiam mais raiva do que fraqueza ou medo lá dentro...'' Ela limpou o rosto.''Ele sempre mostrava tristeza pelo filho e raiva dos alemães nas noites que... que passávamos juntos...''
''Então ele não viu Heiko só como um escravo. Por isso sentiu empatia por ele. Viu como um filho! Por mais que ele fosse alemão, era um garoto muito parecido com seu filho. Ele queria torná-lo escravo por ele ser alemão, mas sentia empatia por ele ser parecido com seu filho. Só enxerguei isso agora. E tendo mais informação fica tão óbvio! Ele não sentiu empatia por Heiko, mas sim pelo seu filho reencarnado nele!'', disse em voz alta Zero, não escondendo o abatimento que o contexto entendido lhe causou.
''Você perdeu mesmo a memória, né Dois?!'', falou Ludka, dando uma leve risada.
''Zero'', corrigiu ele. ''Heiko disse algo para mim. Quando eu era pela primeira vez um número nulo, após o acidente. Foram suas últimas palavras. Ele disse que... que amava muito sua família... Foi a única frase que não ouvi ele gaguejar.'' Mas uma amargura vem, forçando sua menta a não negá-la mais.
Ludka e o pai fecham os olhos, segurando o choro. A mãe fez o mesmo, mas foi-se aos prantos novamente após ouvir a pouca memória que Zero tinha.
''E... eu peguei a jaqueta suja dele, e não fechei seus olhos... Como eu fui tão frio? Continuo sendo um 'Zero' de qualquer forma...'', finalizou o assunto em pensamento, olhando para o resto que vestia.
*
Passou-se um dia. O desconforto em dormir no concreto puro e comer ração de guerra estragada não seria o maior problema de tudo aquilo.
Na primeira manhã, naquele antigo campo de concentração, no meio do nada polonês, Zero teve mais uma visão. Esta um pouco mais resumida.
Viu Ludka berrando e sendo levada para uma câmara de gás. Em poucos minutos, os berros cessaram. Zero não podia se mexer nesta visão. A via de cima, com a cena totalmente desbotada de cores.
Sua empatia não foi mais negada. Queria finalmente fazer algo para que a visão não acontecesse, ignorando a ordem natural e fria do destino, que foi o porquê de ter deixado Heiko morrer.
Não se importava mais se tudo no tempo seria bagunçado. Não ligava mais para a sorte dos movimentos aleatórios do acaso. Tudo isso sendo causado pelas memórias que não existiam e foram criadas. Memórias de sacrifícios, de tristeza, de vingança, de arrependimento, de compaixão, de medo, de saudades não esquecidas...
Não podia fazer nada. Não podia evitar a morte da moça. Justamente quando queria, não podia. Pois, naquele mesmo dia, antes que a previsão pudesse acontecer, ele foi executado friamente com um tiro na testa pelo velho polonês. No dia anterior, o velho fez o mesmo com o adolescente líder que ficou para trás na fuga.
Os dois corpos que vestiam os pijamas listrados e sujos foram queimados. Os pais de Ludka foram levados para outro local pelos judeus. E, depois de meses, foram resgatados. Pois o filho do velho denunciou o esquema depois de saber da morte de Zero e do adolescente líder. Ele se arrependeu finalmente pela vingança que planejou contra os alemães, tendo a imagem de seu filho morto novamente. E foi preso junto com o pai e com cerca de trinta outros homens judeus, que ajudavam a fazer a guarda, a vigia dos lugares e outras funções.
O garoto serviu para algo de fato. E isto após começar a sentir empatia. Partiu como um número que pôde somar. Morreu. E só assim pôde dar liberdade aos que restavam nas prisões. Morreu. E sem ao menos poder se incomodar com a falta de sentido em ter previsto algo estando morto. Morreu. E dentro de suas poucas memórias, sentiu o arrependimento por não ter salvado Heiko. Sentiu a tristeza pelos seus pais e sua irmã. No momento em que derramou uma lágrima, sentiu medo da morte, há segundos antes de conhecê-la. E sacrificou-se, seguindo o conselho do adolescente líder.
Morreu sem saber o porquê de não ter tido memória. Morreu sabendo que a falta dela não tirou sua inteligência, mas sim sua empatia. Esta foi a principal causa pela qual viveu nas suas curtas e únicas lembranças, antes de sua morte, desbotando tudo. Desbotando toda a vida. Transformando tudo ao seu redor em números frios, sem cor e sem brilho. Sem sentir empatia por si mesmo. Sem sentir empatia pelos outros.
***
Muito obrigado por ler! Por favor, critique sinceramente o conto.
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