Parte 4 - 5
Na fuga, Dois não teve tempo para pensar. Correu para o norte daquela região não muito popular para salvar também os adultos.
Das sujeiras nos pequenos alemães com trajes listrados, a do curativo do pé destacou-se. O esparadrapo pedia para ficar pelo caminho.
Após caminharem com pressa por mais ou menos quinhentos metros, as crianças queixaram-se de cansaço. Começaram, então, a andar mais lentamente, e assim as dores foram expostas.
Foi quando o adolescente restante sugeriu: ''Os maiores carregam os menores nas costas. A criança do meio sobra''.
O novo líder agachou, e a segunda criança mais nova, um garoto de oito anos, subiu em suas costas. Dois olhou para a menor, uma menina de cinco anos, que não conseguia dar muitos passos sem que o choro de dor a tomasse.
''Eu a carrego. Ela é minha irmã. E você já parece bem machucado'', disse o garoto de dez anos.
Assim todos foram, lentamente, com o garoto sério no meio dos carregados e dos carregadores.
O tempo para pensar e para tentar entender o porquê de tudo aquilo apareceu: ''Talvez eu precise saber o que aconteceu antes de eu perder a memória pra entender os motivos de tudo isso que acontece em tão pouco tempo. Ou talvez não. Todos do meu país estão passíveis a escravidão, pois neles foi jogada toda uma culpa. Eu não somei como escravo, e nem tive influência individual na raiva do velho. Ele cuspiu em mim... não por eu não lhe dizer meu nome, mas por eu ter nascido em determinado pedaço de terra. Não sinto nada ainda. Nada mudou. Volto a ser um completo 'Zero'. Um número maiúsculo que nada soma''.
*
A trilha da terra que ficava seca ao passar dos metros estava terminando. Na diagonal, no caminho dos fugitivos, uma cerca alta de arame farpado, iluminada por alguns postes de luz da parte de dentro dela, surgiu. Ela era claramente elétrica. Dentro existia algumas casas de tijolos pequenas.
''Chegamos'', disse o adolescente, agachando para a descida do garoto.
O outro de dez anos fez o mesmo. Então, os pequenos alemães de pijamas listrados e sujos sentaram-se na grama, ao lado da cerca, um do lado do outro.
Zero foi o último a sentar-se, antes de sua atenção ser chamada pelo adolescente, que procurava pelo auxílio do segundo mais velho: ''Ei, garoto novo. A gente vai libertar os adultos, e precisamos de um plano. O que pensa em fazer?''
''Não sei. É fundamental saber a localização da saída, dos prisioneiros, e a quantidade pessoas que monitoram o local'', respondeu ele, ainda frio e sério, só seguindo o fluxo coerente da situação.
''Não são muitas pessoas que ficam cuidando daqui. E os adultos devem ficar em uma casa grande. Eles são cerca de trinta. Só que provavelmente estão bem fracos, pois estão aqui há 9 meses comendo muito pouco e trabalhando bastante. É o que me contaram...'', disse o adolescente.
''Não faz sentido manter tantas pessoas assim em um lugar onde pouco pode ser produzido. Provavelmente eles são mandados pra outros lugares periodicamente'', Zero concluiu.
O menino gostou do que foi concluído e traçou um plano: ''Se sua teoria estiver certa, então precisamos achar o portão e encontrar um jeito de entrar quando algum adulto estiver saindo ou entrando''.
''Eu estou certo. Ocorrerá tudo bem. Se distrairmos quem estiver na vigia, uma pessoa pode entrar lá'', argumentou Zero.
Eles planejaram.
Procuraram e acharam o portão que estava em uma parte bem iluminada e contrastada com a noite. Era um portão simples de arames que formavam pequenos quadrados. Tinha um homem franzino vigiando pela parte de dentro.
Os dois mais velhos aproximaram-se e esconderam-se atrás de um muro que completava a parte da fachada do local, na parte onde não havia mais cerca, e sim uma parede de tijolos, da mesma altura da cerca elétrica. As crianças ficaram no mesmo lugar.
Esperaram por horas. A noite ia, faltando pouco para a manhã. Já nem passava pela cabeça do adolescente e do garoto sério se preocupar com a fome, sede, frio ou cansaço.
"As crianças já devem ter dormido na grama mesmo", o adolescente comentou.
"Sim. É mais confortável que aquele colchão", Zero concordou.
O outro riu, se lembrando: "Eu queria estar em casa... Com minha cama, meus pais, meu cachorro... É uma droga viver fugindo, como um culpado!"
"E de quê somos culpados?", Zero interessou-se no assunto não lembrado.
"Não se lembra?" O outro estranhou. "Você bateu a cabeça antes de ser pego? Já me disseram que isso pode acontecer... Sabe, eu queria bater a cabeça e esquecer de minha vida de antes, só pra não ter do que sentir saudade..."
Zero pensou, tentando entender novamente o porquê de não se lembrar de nada, tentando estabelecer o que sentiu antes de entrar na caminhonete. Mas foi sem sucesso. Só recordou do homem de máscara ninja e de Heiko.
"Não sei porque não me lembro... Nem meu nome me vem à mente...", Zero continuou interessado no assunto.
"Nomes... isso tanto faz pra prisioneiros. Antigamente, me chamavam de Adam, mas, há alguns meses, eu sou o '0075'", falou, apontando para o peito.
Zero olhou para o próprio número, mas ele estava tão desbotado que não podia ser identificado.
"Você tem sorte," o outro comentou "pois pode ser chamado do que quiser."
"Zero", ele respondeu "eu me chamo Zero. Um número maiúsculo que nada soma."
O adolescente voltou a estranhar, mas continuou: "Que conveniente... Então, Zero, todos os alemães são considerados culpados por terem causado uma guerra e..." Abaixou a cabeça tristemente. "... e por prender e matar milhões de pessoas judias... de outra religião, sabe... E alguns dessa religião estão nos fazendo passar pelo mesmo que eles passaram."
"E isso é justo?"
"Não mesmo!" A cabeça se ergeu. "Nem todo o alemão odeia judeu, e eles culpam a todos. Eu, pelo menos, não os odeio... Sabe, meus bisavós eram judeus, antes da minha família se converter."
Zero pensou, unindo tudo o que aconteceu naquele curto espaço de tempo. Concluiu que vive em uma injustiça, com sua vontade de ter sucesso naquele plano aumentando um pouco. Sim, somente um pouco... Ele ainda se via como um número maiúsculo que nada somava.
*
Após três horas de uma imensa inércia no local, eles foram recompensados por um movimento. Um carro, na estrada de terra, ao lado contrário de onde eles estavam, surgiu no escuro da madrugada. Olharam sorrateiramente, curiosos, e viram uma mulher na parte de trás e um homem dirigindo.
O guarda franzino abriu o portão para receber a moça de pijamas listrados azuis e brancos. Percebem logo quem era esta moça. Era Ludka, a jovem que colocou o curativo no pé de Zero, que o deixou cair.
Ela andava de cabeça baixa, sendo levada pelo mesmo velho que cuspiu em Zero até o portão aberto. O guarda e o idoso começaram uma conversa, deixando a moça de frente para o muro.
O guarda estava do lado de fora, quando o adolescente pensou em agir. Ele levantou-se para partir para cima do homem franzino, mas foi interrompido pelo outro, que disse que aquilo não iria dar certo, já sugerindo um plano melhor: ''Vamos desligar a energia. Assim fica tudo escuro e poderemos agir melhor. Aí entraremos abrindo a cerca com ajuda do alicate sem tomar choque. Lá dentro, conseguiremos arrombar as portas de madeira das casas facilmente''.
''Como a gente vai fazer isso?''
Zero não pensou muito, já agindo. Ele colocou a cabeça para fora do muro, e foi visto por Ludka, que assustou-se de início, mas logo forçou uma calma. O garoto faz um gesto para ela, como se estivesse puxando uma manivela para desligar o gerador. Repetiu algumas vezes o gesto.
Depois de ela temer, fazendo uma expressão de medo, sinalizou, ainda com a mesma expressão, balançando a cabeça positivamente.
Ele falou para o adolescente, e eles então voltaram a se juntar com as crianças.
As três estavam dormindo na grama, como previsto pelo mais velho. Este deitou-se ao lado delas, olhando para o céu, viajando em seus pensamentos, tendo saudade do que queria esquecer, esperando as luzes se apagarem.
Zero ficou em pé, olhando em direção ao clarão do poste de dentro do local, com um rosto sério e frio, ignorando o cansaço que pedia para ele se deitar.
Após meia hora, o esperado finalmente aconteceu. As luzes se apagaram. A cerca fina, não mais eletrificada, foi cortada com o alicate e eles conseguiram forçá-la.
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