Capítulo VII


A semana passa voando com milhares de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eu e Ateus ainda não conseguimos conversar direito depois do nosso encontro no hospital, Zayn está melhor e combinei com Ateus de passar hoje na casa dele, mas o pior acontecimento aparece quando abro a porta para ver os meus funcionários chegando para trabalhar. O clima melhorou um pouco escuto até algumas pessoas interagindo antes de começar o trabalho. Mas quando a porta do elevador se abre fico horrorizada com o que vejo saindo do elevador. Ingrid cortou o cabelo acima do ombro, ficando idêntica a mim. Todos olham para ela e depois me olham.

– Ingrid, posso ter uma palavrinha com você. – Digo e ela se assusta.

– Claro Anisa.

Ela passa por mim de cabeça baixa, fecho a porta e vou para minha cadeira.

– Pode sentar. – Percebo que suas mãos estão tremendo e quando ela finalmente me olha, percebo medo estampada na sua cara.

– Por favor não me demita. – Sou pega desprevenida, porque não era nada disso que eu queria saber.

– Porque iria te demitir?

– Pensei que quando me visse assim – ela toca no cabelo – iria brigar comigo.

– Não vou brigar com você e nem te demitir. Quero saber o motivo que está te levando a me imitar?

Ela cruza as mão no colo e olha ao redor. Observando tudo, menos me encarando. Permaneço seria, olhando diretamente para ela. Cruzo as pernas e entendo tudo quando ela pensa em falar algo e fecha a boca.

– Porque Daniel está te obrigado a se parecer comigo. É esse o motivo?

– Anisa não posso perder esse emprego, tenho dois filhos para cuidar sozinha.

Ingrid fica desesperada, quase se ajoelha no chão, suplicando. Levanto da cadeira e fico na sua frente, levando ela do chão e coloco de volta na cadeira, onde ela chora com medo de ser demitida por mim.

Entendo bem o que ela está falando. Temos esse peso para carregar, quando aceitamos ser mãe. Fazemos o que for possível para os nossos filhos, até mesmo se humilhar dessa forma.

Fico com tanta raiva por essa situação que somos obrigados a passar que tenho total empatia por ela.

– Não vou deixar que ele faça nada com você. Eu te prometo, mas eu preciso saber o que tá acontecendo.

– Ele não tá mais tomando os medicamentos dele. – Ela me diz parando o choro, olhando ao redor.

– Que remédio? Quero saber de tudo. – Pego um copo com água para ela e sentamos uma de frente para a outra.

– Fui contratada pelo seu pai, certa de um ano depois que você saiu. Quando ele começou a ficar doente. Precisei aprender como funciona tudo em pouco tempo, e quando seu pai piorou e decidiu se ausentar da empresa, Daniel apareceu. No início ele foi um bom chefe, atencioso e inteligente. Comecei a cuidar da agenda dele empresarial, mas depois passei a cuidar da sua vida pessoal também. Foi quando descobri que ele tinha passado mais de seis anos em uma clínica psiquiátrica. Ele sofre de transtorno obsessivo.

"Sempre achava estranho a forma como ele falava da senhora, como se tivessem em um relacionamento. Todo assunto que estávamos discutindo acaba sempre parando no mesmo lugar, na mulher que ele amou, você. Ano passado ele achou uma foto sua na internet, segurando seu filho nos braços. Ele surtou Anisa. Nunca tinha visto ele daquela forma antes. Quebrou tudo da sala. Me obrigou a descobrir em qual agência estava trabalhando e onde morava. Não foi fácil, mas achei. Ele começou a me obrigar a fazer o que ele queria ou iria me demitir, só iria descansar quando me visse morando debaixo da ponte com meus filhos."

"Fiz tudo que ele pediu. Até mesmo alisei meu cabelo para ficar parecido com o seu."

– Faz quanto tempo que ele não toma o medicamento dele? – Pergunto em choque.

– Faz exatos um ano que não agendo seu atendimento psicológico e dois meses que não recebo a receita do psiquiatra dele. Desde o dia que você deixou seu trabalho em Istambul.

Levanto da cadeira com a mão na boca, horrorizada com tudo isso. Sei que Daniel não era uma boa pessoa, mas nunca associei ele a uma pessoa que sofria de algum tipo de transtorno mental.

Fico paralisada, tentando recalcular todos meus planos. Como posso discutir com uma pessoa que nada estável. Ingrid não pode mais trabalhar para ele, não vou conseguir dormir sabendo que ele usa e abusa dela a vontade. Não tenho mais poder de mandar em nada na empresa, porque como Alana adorou dizer para todo mundo ouvir, meu nome não vale de nada no momento. Posso assinar os papéis e mudar isso. Mas não quero ficar presa a empresa como meu pai ficou.

– Ingrid fica aqui por um momento.

Sai da minha sala e vou direto para a sala do Daniel. Entro sem bater e ele me olha com um sorriso no rosto. Fechando o notebook para me dar atenção.

– Daniel, preciso de uma assistente. – Digo firme, parada na sua frente.

– Claro meu bem, pode contratar quem quiser. – Deixo essa passar, porque meu intuito não é deixá-lo estressado.

– Tenho muita coisa para organizar e estudar, então quero lhe pedir para Ingrid trabalhar comigo.

Ele me olha de cima a baixo e tento não deixar nada transparecer. Daniel sorrir e por um momento lembro dele quando a gente namorava. Da forma como ele me olhava, como se eu fosse o maior troféu já conquistado. Naquela época me sentia assim. Eu o amava tanto que...

– Porque ela? – Ele pergunta.

– Porque ela é ótima no que faz, é rápida e pensa como eu. – Chego perto da sua mesa e ele se inclina para trás, passando a mão na boca pesando. – Por favor? – Peço sabendo que ele não vai me negar nada.

– Tá. Tudo bem, mas você vai atrás de uma nova pessoa para assumir o lugar dela.

– Tudo bem, sem problema. Obrigada!

Viro de costas e tento sair o mais rápido possível da sua sala sem levantar suspeita.


Eu e David estamos no meu escritório, ajustando o orçamento da agenda que Freya organizou do lançamento do meu próximo livro que ainda não terminei de escrever. Freya e Vanessa saíram para olhar algo relacionado ao casamento. Sei que deveria estar mais envolvido, mas devido aos últimos acontecimentos me sinto no meio de jogo de xadrez, sem saber onde devo movimentar minha peça, sem precisar sacrificar nem uma peça.

– Olha amigo, sei que sua cabeça deve ta cheia de coisas nesse momento, então acho melhor falarmos sobre isso depois. – David fecha o notebook e começa a recolher algumas pastas espalhadas na mesa, que estava lendo, antes de me distrair.

– Desculpa, a gente pode ver isso depois mesmo. – Ele para de guardar as coisas me olha com pena.

– Isso tem a ver com Anisa? – Infelizmente nossos amigos às vezes nos conhecem melhor que nós mesmos.

– Eu não sei – sou sincero. – Eu realmente não sei o que tá acontecendo comigo. Não sei como devo me sentir. Estava tudo indo tão bem e de repente isso.

Levanto da mesa e ando pela sala, com David me acompanhando com olhos, julgando cada fala minha.

– Não quero interferir na sua escolha, mas Vanessa esteve com você em tudo e pelo que você me contou, Anisa nunca quis nada sério com você. Então não tem muito o que pensar. Ter um filho com ela não significa que um casamento precisa acontecer entre ambos.

– Por acaso você não acha que eu não sei de nada disso? Eu amo a Vanessa, ela é importante para a minha vida, mas acontece que não fui criado dessa forma. É difícil para mim ter um filho longe, não sei como agir quando estou perto dele e tenho medo que ele acabe não gostando de mim por ficar tão longe.

– Parabéns Atreus, isso é o medo paterno falando. – David levanta da cadeira tocando com o indicador na testa, ele tem esse hábito quando ta pensando em algo. – Sabe, antigamente meu amigo Atreus não iria ficar esperando Anisa marcar um dia para conversar não, ele iria atrás de resolver toda essa confusão interna.

Ele tá certo, nunca fui de ficar esperando algo cair na minha mão. Sou reativo. O que me paralisa nesse momento é saber que tudo que envolve Anisa nesse meio, acaba saindo errado meus planos. Mas... Ele tem razão.

– Tá certo, preciso falar com ela.

Saio da sala e pego a chave do carro. Em menos de vinte minutos estou entrando na empresa Saad. Um lugar que jurei que nunca mais iria pisar.

Uma mulher baixinha e arrogante me olha de cima a baixa concordando com a cabeça e sorrindo para a amiga.

– Oi, preciso falar com Anisa Saad.

– Boa tarde! Tem horário marcado com ela benzinho. – Franzo as sobrancelhas achando estranho esse tipo de atendimento, mas tudo bem, tenho um objetivo e se for preciso vou utilizar toda arma que tenho.

– Meu nome é Atreus. É só falar isso para ela.

– Atreus! – Ela repete meu nome lentamente me olhando nos olhos. – Bonito nome, só um momento.

– Obrigado. Eu acho. – Digo baixinho mandando outra mensagem de texto para ela.

– Ela pediu para subir.

A empresa está diferente de quando trabalhei lá. O silêncio é ensurdecedor. Metade das cabines que trabalhamos estão desocupadas e a porta da sala dela está aberta. Bato na porta por educação e vejo sua mesa lotada de manuscrito e pastas empilhadas. Ela anda de um lado para o outro com uma mulher que é sua cópia.

– Quer ajuda com a papelada, chefinha? – Digo encostado na porta, lembrando o dia que nos conhecemos.

Anisa levanta a cabeça e sorrir me vendo parado na porta.

– Estou realmente ocupada. Qual é o assunto? – Ela para na minha frente segurando na cintura e respirando fundo. – Ah sim, essa é a Ingrid, minha assistente.

– Oi Ingrid, sou Atreus, fui assistente dela. Boa sorte. – Digo e nós três começamos a rir.

– Para com isso. – Ela dá um soquinho no meu ombro e volta a ajeitar a mesa. – Entra e fecha a porta.

– Quero falar sobre Zayn. Sei que está ocupada nesse momento, na verdade nesses dias né, mas eu...

– Tudo bem vamos falar sobre ele, só não quero falar aqui.

Seu tom de voz muda e sua postura fica mais séria.

– Tá escondendo alguma coisa de mim não é? – Pergunto mesmo sabendo que a resposta é sim. Anisa e Ingrid se olham rapidamente e percebo que estou por fora de algum assunto importante. – Tudo bem eu já esperava por isso.

Viro as costas abrindo a porta e ela corre segurando meu braço.

– Não Atreus, eu quero dizer que não quero conversar nesse prédio. – Anisa expressão o mesmo olhar de medo quando falava do pai dela. – Eu te encontro no restaurante da Maria em vinte minutos, pode ser?

– Pode.

Saio da sala dela e deixo a porta aberta. As portas do elevador abrem no exato momento que aperto o botão para descer. Um homem loiro de olhos azuis bem vestido, sai de dentro do elevador, olhando no celular. Ele me vê parado na sua frente e me olha por alguns segundos e vira o rosto, seguindo em frente. Temos o mesmo porte físico, mas algo que me diz que não temos nada em comum. 

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