Capítulo 11 Um Jantar Com Daniel

Quando o Daniel me convidou para jantar, desconfiei logo. O que um homem daquele, cheio de pose e dono de fábrica, queria com uma jantazinha comigo? A resposta era óbvia: queria me convencer a desistir da bendita bananeira. Eu já estava há dias batendo o pé, defendendo aquele pedaço de terra com unhas e dentes, e ele, com seu sorriso debochado, achava que uma refeição resolveria tudo. Claro que aceitei o convite, porém, já estava armando meu plano. Se ele achava que ia me ganhar com um jantarzinho, estava muito enganado. Eu ia fazer da noite um verdadeiro inferno.

Coloquei um vestido que comprei numa promoção, mas que tinha um caimento meio duvidoso, e passei perfume o suficiente pra deixar qualquer um tonto. Fui ao restaurante da cidade, que só de pensar já me dava uma certa agonia, porque não sou do tipo que janta em lugar metido a chique. A dona Rosa, que era quem comandava o lugar, já me olhou atravessada, como se dissesse "o que é que essa maluca tá fazendo aqui?".

Quando o Daniel chegou, pontual como só um empresário sabe ser, o sorriso dele se alargou assim que me viu. Parecia encantado, mas eu sabia que ele estava era se achando esperto. Me trouxe uma rosa, coisa que só aumentou minha desconfiança. Quem é que ainda leva flor pra jantar, meu Deus?

— Que bom que veio, Rafaela. — ele disse, colocando a mão no meu ombro de um jeito que parecia natural demais. — Espero que esse jantar seja agradável.

Sorri de canto, já pensando nas minhas próximas jogadas.

— Ah, vai ser uma noite inesquecível, Daniel. Pode acreditar.

Sentei na mesa com toda a elegância que eu consegui reunir, o que não era lá muita, contudo, suficiente para ele achar que eu estava colaborando. O garçom apareceu com o cardápio e eu, claro, pedi tudo que de mais estranho tinha. Polvo, escargot, uns pratos que eu nem sabia pronunciar. Estava torcendo pra que ele ficasse horrorizado. Porém, ele apenas levantou uma sobrancelha e deu uma risadinha.

— Não sabia que gostava de frutos-do-mar, Rafaela.

— Ah, eu adoro experimentar coisas novas. — menti descaradamente, enquanto pensava no quão nojento ia ser mastigar aquele polvo borrachudo.

A comida chegou, e enquanto eu tentava engolir aquele monte de coisa esquisita, Daniel estava impassível. Elegante, cortando os pratos com uma calma que me irritava profundamente. Ele era o oposto de tudo que eu esperava que fosse. Em vez de reclamar, fazer caretas ou mostrar algum desconforto, ele parecia se divertir.

— Então, sobre a bananeira... — ele começou, e eu, que já estava com a boca cheia de um camarão gigante, quase engasguei. Claro que o assunto ia surgir.

— Ah, Daniel, não vamos falar disso agora. — falei, tentando ser casual, mas sabendo que era isso que ele queria. — Estamos num jantar, né? Tem hora pra essas coisas.

Ele me olhou por um instante, como se estivesse me avaliando. Aquele olhar de quem acha que está no controle da situação. Era quase irritante, no entanto, eu não ia perder a pose. Não agora.

— Tudo bem, não falamos da bananeira. Só espero que você esteja disposta a dialogar em algum momento. — ele disse, com aquele tom suave que me fazia querer jogar o guardanapo na cara dele.

— Claro, claro. — concordei, com um sorriso forçado. — A gente resolve isso outro dia.

E aí, foi a minha vez de começar o plano de sabotagem. Fingi que deixei cair o garfo no chão e me abaixei para pegá-lo, aproveitando para chutar a mesa com força. Os copos balançaram, o vinho quase caiu, mas Daniel, com uma agilidade que eu não esperava, segurou tudo antes que virasse desastre.

— Tudo bem aí? — ele perguntou, com um sorriso de quem percebeu a tentativa, mas não se abalou.

— Ah, que desastrada eu sou, né? — ri nervosa, já pensando no próximo movimento.

A noite seguiu com mais algumas tentativas de estragar o clima. Fiz questão de falar alto, inventei histórias sobre minha vida que não faziam o menor sentido, e até bati o cotovelo na vela que quase derrubou tudo em cima da mesa. Mas nada abalava o Daniel. Ele ria, fazia piadas e, pra piorar, ainda parecia estar gostando de tudo.

— Você é uma figura, Rafaela. — ele disse, entre uma garfada e outra, olhando pra mim com uma intensidade que eu não esperava. — Sabe, eu gosto dessa sua autenticidade.

Aquilo me pegou desprevenida. Como assim, ele estava gostando? Isso não fazia parte do meu plano.

— Autenticidade? — perguntei, confusa, enquanto limpava um pouco de molho que tinha caído no meu vestido. — Tá de brincadeira, né? Você devia estar me achando uma maluca.

— Pelo contrário. Acho fascinante como você não tenta ser ninguém além de você mesma. Não se encontra isso todo dia. — ele disse, me encarando como se estivesse vendo algo profundo.

Fiquei sem fala por um segundo. Isso não estava no roteiro. Eu esperava que ele fosse desistir de mim, da bananeira, de tudo. Que saísse correndo da mesa. Mas, ao invés disso, ele continuava ali, firme, me olhando daquele jeito que me desconcertava.

— E a bananeira? — perguntei, meio sem jeito, só pra tirar o foco daquele momento estranho.

— A bananeira... bom, ainda acho que precisamos conversar sobre ela. Mas, por agora, tô aproveitando esse jantar. Podemos deixar isso pra depois, não é?

Por um momento, esqueci completamente do meu plano. Daniel estava... sendo gentil. E eu, sem querer, estava começando a gostar da companhia dele. Como é que isso foi acontecer?

— Talvez eu tenha exagerado com essa comida. — brinquei, olhando pro prato e tentando desviar daquele turbilhão de pensamentos.

Ele riu, relaxado, como se aquela noite não fosse nada além de uma boa oportunidade de conhecermos um ao outro. E, pra minha surpresa, eu estava começando a achar a mesma coisa.

Enquanto a noite avançava, percebi que o plano tinha falhado. Eu não o afastei, nem fiz ele correr. Pelo contrário, parecia que quanto mais eu tentava, mais ele se aproximava. E, de alguma forma que eu não conseguia explicar, isso já não parecia tão ruim assim.

Depois do jantar, Daniel insistiu em me levar em casa. Eu tentei recusar, claro, porque a última coisa que eu queria era prolongar aquela noite confusa. Entretanto, ele era persistente, daquele jeito calmo e educado que te deixa sem argumento. Antes que eu percebesse, já estávamos no carro dele, um daqueles modelos modernos e confortáveis, que eu nem sabia o nome. Ele dirigia tranquilo, sem pressa, o rádio tocando uma música suave que só deixava a atmosfera mais estranha.

Tentei quebrar o silêncio com uma piadinha sem graça.

— Olha, Daniel, preciso confessar que aquele polvo... não sei se foi minha melhor escolha de prato.

Ele riu, e o som da risada dele parecia preencher o carro de um jeito que me incomodava e, ao mesmo tempo, me deixava desconcertada. Eu odiava admitir, porém, estava começando a gostar daquele jeito dele.

— Vou confessar que também não foi minha preferência. — ele disse, ainda rindo. — Mas acho que você tentou me sabotar, então... acho justo.

— Sabotagem? Eu? — fingi indignação. — Claro que não, eu só estava explorando o cardápio.

— Claro que estava. — ele respondeu, me olhando de lado, com aquele olhar que parecia ver através das minhas intenções. Revirei os olhos e tentei ignorar o fato de que estávamos a poucos metros de casa.

Quando ele parou o carro em frente ao meu portão, o ar dentro do veículo ficou pesado. Eu abri a porta rápido, querendo sair antes que algo mais acontecesse. Contudo, Daniel desceu também, como se fosse uma atitude natural. Ele sempre agia como se tivesse todo o tempo do mundo.

— Bom, chegamos. — eu disse, virando pra ele e tentando soar casual. — Obrigada pelo jantar. Foi... interessante.

— Interessante? — Ele riu de novo. — Acho que isso é um elogio vindo de você.

— Não se acostuma! — brinquei, cruzando os braços, sem jeito com o rumo que a conversa estava tomando.

E então, aquele silêncio constrangedor se instalou de novo. Eu sabia que deveria entrar, fechar a porta e fingir que aquela noite não tinha mexido comigo. Mas meu corpo parecia congelado ali, na frente dele. O jeito que ele me olhava, com uma intensidade que eu nunca tinha visto antes, fazia meu coração bater mais rápido. Algo estava prestes a acontecer, e eu sabia disso.

Daniel deu um passo à frente, se aproximando mais, e meu corpo inteiro ficou tenso. Eu não queria ceder àquele impulso, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim gritava que eu já tinha passado do ponto de não retorno.

— Rafaela, eu... — ele começou a falar, a voz suave, mas com um tom sério. Ele levantou a mão devagar e tocou meu rosto, os dedos deslizando pela minha pele como se quisesse prolongar o momento.

Eu deveria ter afastado. Deveria ter dado um passo pra trás, feito qualquer coisa pra evitar o que estava por vir. Mas, em vez disso, fiquei parada, esperando, sentindo o calor da mão dele e o jeito como meu coração batia descontrolado.

E foi aí que ele me beijou.

Foi devagar, como se quisesse me dar a chance de fugir, porém, eu não fugi. Quando os lábios dele tocaram os meus, a última coisa que consegui pensar foi em fugir. Ao invés disso, eu retribuí o beijo, deixando-me levar por aquele momento absurdo. Senti as mãos dele em minha cintura, me puxando mais pra perto, e eu me deixei levar pela intensidade daquilo. Por um segundo, tudo fez sentido. As brigas, a tensão, a bananeira... tudo parecia culminar naquele beijo.

O problema foi que o segundo passou, e quando o beijo acabou, a realidade voltou com força. Eu me afastei rápido, como se tivesse acordado de um sonho.

— Eu... eu preciso entrar. — falei, quase tropeçando nas próprias palavras, e me desvencilhei dos braços dele antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

Corri até a porta, sentindo o rosto quente e o coração disparado. Entrei em casa sem olhar pra trás e fechei a porta com força, encostando-me nela logo em seguida, como se aquilo fosse impedir o caos na minha cabeça de escapar.

"O que foi que eu fiz?" pensei, ainda sentindo o gosto dele nos meus lábios.

Eu tinha beijado o Daniel. De novo. E pior, eu tinha gostado. Respirei fundo, tentando entender o que estava acontecendo comigo. Como é que, em tão pouco tempo, eu tinha passado de odiá-lo a... isso?

— Eu devo ter enlouquecido de vez. — murmurei pra mim mesma, andando de um lado pro outro na sala, ainda tentando processar tudo.

Olhei pro espelho perto da porta e vi meu reflexo. Parecia que eu tinha sido atropelada por um furacão de emoções. Meu cabelo estava bagunçado, e o olhar confuso. Aquela não era eu. Não podia ser. Eu era a Rafaela, teimosa, que defendia suas coisas até o fim, que não cedia a ninguém. E agora, ali estava eu, beijando o dono da fábrica que queria derrubar a bananeira do meu pai.

— O que você tá fazendo, mulher? — continuei falando sozinha, tentando encontrar uma explicação lógica. — Você odeia esse homem! Ele tá querendo destruir sua história, seu passado... e você... você beija ele?

O silêncio da casa parecia zombar de mim. Nada fazia sentido. Sentei no sofá, escondendo o rosto nas mãos, ainda sentindo o toque dele. Eu precisava esquecer aquilo. Precisava colocar minha cabeça no lugar. Esse beijo não podia significar nada... ou pelo menos, era o que eu estava tentando me convencer.

Fechei os olhos e respirei fundo. Talvez, com uma boa noite de sono, eu conseguisse organizar meus pensamentos. Porque, naquele momento, a única coisa clara era que eu estava, sim, enlouquecendo.

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