Capítulo 3 - parte 1 (não revisado)
Em agosto de 2817, uma nave de passageiros pousou em Porto Alegre, oriunda do Rio de Janeiro. Tratava-se apenas de uma escala porque destinava-se a um planeta a cerca de sessenta anos-luz de distância. Entre outros passageiros, uma mulher de grande beleza desceu na capital. Quando saiu do ambiente climatizado, arrepiou-se bastante e não gostou muito do clina gelado, já que, uma hora antes, estava num lugar em que fazia a agradável temperatura de vinte e seis graus. Mas, como todos os portadores acima de cinquenta por cento, era capaz de resistir ao frio. A moça era o que se chamava de orientadora cívica ou, como antigamente se diria, uma policial ou agente do governo. No caso dela, era uma agente especial do Império. Um carro aguardava-a na entrada e levou-a direto para o palácio do imperador.
Era de idade indefinida, aparentando cerca de dezoito anos, cabelos ruivos, brilhantes da cor do fogo, um rosto lindíssimo de olhos verdes, entre um metro e oitenta e um e oitenta e cinco, nariz arrebitado, cintura fina, seios firmes, bem modelados e lábios carnudos, porém sem excessos. De olhar alegre, apreciava a capital do Império, a Cidade Jardim como era conhecida Porto Alegre que, tal como todas as grandes cidades da Terra, sofreu uma violenta queda na população durante a Expansão. Muitos prédios foram derrubados e, nos seus lugares, apareceram gigantescos parques. De uma cidade de seis milhões de habitantes em 2150, contava agora com cerca de um milhão e meio. No palácio, que ficava na zona sul da cidade, encontrou-se em segredo com o Imperador.
– Olá, Helena, minha querida – disse ele ao vê-la, levantando-se e dando-lhe um abraço. – Desculpa chamar-te assim tão de repente, mas sinto que é demasiado importante.
– Oi, tio, estava com muitas saudades – respondeu a bela moça, com um sorriso franco. – Tem algum problema?
– Sim e não, mas preciso muito da tua ajuda. Olha só para este artigo.
Ela leu o artigo, lembrando-se que já o vira antes.
– Tio, este homem é um visionário! Ele tem toda a razão em tudo o que disse, em especial no que se refere ao início de uma decadência. Mas Daniel Moreira é o presidente da Cybercomp. Então, por que motivo me chamou?
– Querida, este artigo não foi escrito pelo presidente da Cybercomp. Todos os primogênitos dos Moreiras chamam-se Daniel. É uma tradição deles desde o século XXI.
– Mas nesse caso, quem o escreveu?
– Este – respondeu o imperador apresentando um retrato do autor – o filho do presidente.
A moça olhou a fotografia e ficou abismada com a beleza do jovem. Era másculo, de corpo atlético, com um dos rostos mais lindos que ela já viu, olhos castanhos muito expressivos e cabelos também castanhos, lisos. Aparentava ter dezessete ou dezoito anos. Os seus olhos brilharam muito ao ver a imagem.
– Meu Deus, tio, ele é muito lindo – deixou escapar. – E tem todo esse saber? Não foi ele quem criou uma nova teoria matemática que promete revolucionar o Império? Que idade tem?
– Isso mesmo, Helena, e tem apenas quatorze anos, embora aparente ter bem mais – ela sentiu um baque ao ouvir a idade do jovem –, até mesmo para um portador. Eu preciso que tu te infiltres na roda de amigos dele e descubras mais detalhes da sua vida. As revelações que fez nesse jornal são, para mim, demasiado preocupantes. Aparentemente, ele tem planos que não quer revelar e que podem vir a se tornar problemas para a sociedade. A tua missão, consiste em que tu ganhes a confiança dele e consigas informações adicionais. Não me agrada, em absoluto, ouvir alguém dizer que está construindo uma espaçonave com capacidades bélicas.
– Mas como? – perguntou, incrédula. – Bem, isso não é ilegal, ninguém é proibido de construir armas. A nossa constituição é ultraliberal.
– Armas é uma coisa. Uma espaçonave armada é outra, bem diferente...
– Afinal o que devo fazer, tio? – perguntou, interrompendo.
– Querida, aparentas ter, no máximo, dezessete ou dezoito anos. Vou providenciar para que te ponham na escola dele. O resto é contigo. Usa de sedução, sei lá. És uma agente do Império. Descobre como fazer.
Ela ficou muito séria, incrédula porque não gostou nada do que o tio disse. Seduzir um garoto desagradava-a, ainda mais porque ela não é esse tipo de agente. Além disso, ao ver a fotografia dele sentiu algo forte dentro de si, uma coisa que não sabia explicar nem a sim mesma.
– O senhor quer que eu seja como uma prostituta, tio? – Perguntou, irada. – Já se deu conta do que pede?
– Helena, a segurança do Império está em primeiro lugar. Já és uma mulher adulta, então atua como tal.
– Tio, o senhor pede-me uma coisa que eu não gosto. Fá-lo-ei, mas a contragosto.
– Helena, eu vi nos teus olhos que te encantaste por ele. Aproveita e faz disso uma diversão. A diferença de idade quase não se nota. E vocês são primos muito afastados. Qual é o problema?
– O problema, meu tio, é que eu nunca me liguei a um homem. Sempre esperei pela pessoa certa, que ainda não encontrei. Eu não me vou deitar com esse rapaz só para satisfazer o maldito ego do Império – retrucou, zangada. – Embora eu admita que ele mexeu comigo, é apenas uma criança. Ele não tem a menor condição de me acompanhar!
– Helena, de criança ele não tem nada a não ser a idade. Bem podes ver pelo que mencionou no jornal porque isso não é forma de uma criança ou adolescente comum falarem. É um portador de alto grau e, como tal, já tem maturidade completa desde os treze. O que vais fazer para ganhar a confiança dele é contigo. Não disse que precisavas de dormir com ele. E toma cuidado que é grau cem, então não penses que é ingênuo ou possa ser facilmente enganado.
– Sério!? – espantou-se, ficando rígida. – Existem graus cem?
– Sim, só há dois no império. Ele e uma menina em Canopus. Agora, vou mandar-te para uma equipe que te vai dar um curso relâmpago para poderes entrar na escola dele e te infiltrares.
― ☼ ―
No final de Setembro, a escola do Daniel ganhou uma aluna nova. Quando a garota entrou na sala de aula, o jovem perdeu o fôlego, arregalou ao olhos e seu coração ficou descompassado. Ela era bela como jamais vira outra mulher, embora não fosse esse o motivo. O que lhe ocorreu é que sentiu que estava revivendo algo que já lhe acontecera, muito no passado. Apresentaram-na como sendo Helena, vinda do Rio de Janeiro, mas ele nem ouviu, porque não conseguia tirar os olhos da moça e o seu coração roubava-lhe o raciocínio. Sem pensar, deixou escapar uma simples palavra, murmurada e trêmula, mas que ela ouviu, apesar de quase inaudível.
– Jéssica!
Helena olhou para ele, entre assustada e surpresa. Os olhos de ambos cruzaram-se e ela sentiu o coração bater mais rápido. Ele era ainda mais belo do que na fotografia. Sem resistir, deu-lhe um sorriso, com os olhos brilhantes. Ele ficou vermelho, mas correspondeu. Helena não sabia o que lhe aconteceu porque, ao ver o rapaz, ficou confusa, muito confusa. Ele não era nada do que imaginava ou esperava encontrar.
Já Daniel, pela primeira vez interessou-se por uma garota. Também bastante confuso, ficou quieto no seu lugar, sem conseguir tirar os olhos da moça que sentou perto. No intervalo, vários rapazes cercam a nova garota, tentando entabular conversa com ela, liderados pelo João, um namorador nato. Daniel, discreto, saiu de fininho em direção à piscina onde havia uma lanchonete, a sua preferida. Pegou um refrigerante e sentou-se no fundo da sala, pensando muito e apreciando a bebida. De olhos fechados, pensava na sua vida, tentando pôr a cabeça em ordem. Mesmo nesse estado, estava consciente das pessoas à sua volta, embora nem quisesse saber de qualquer delas. Encostou-se à parede, deixando a cadeira parcialmente no ar e visualizou o rosto da nova colega. Estava deslumbrado com a moça que não lhe saía da cabeça. Aqueles cabelos laranja avermelhados, da cor do fogo e tão belos, os olhos verdes como esmeraldas, o nariz arrebitado, mãos delicadas de dedos longos e o sorriso, santo Deus, que sorriso! Sem se dar conta, também sorria.
– "Se não fosse a cor dos cabelos" – pensava –, "seria uma gêmea exata da..."
– Oi – diz uma voz doce, sentando-se ao seu lado – por que você me chamou de Jéssica?
– "...Jéssica, mas o espírito é o mesmo." – Assustado ele abriu os olhos, quase caindo da cadeira. Ao vê-la, ficou um tanto sem jeito.
– O... oi – sorriu, tímido. – Desculpa, mas lembraste-me alguém, só isso.
– É que o meu primeiro nome é mesmo Jéssica, mas ninguém me chama assim. E você, como se chama?
– Daniel Moreira, mas costumam chamar-me de Dan.
– Prazer, Dan – sorriu-lhe de novo.
Daniel estava extasiado. Ele desejava aquela garota como nunca desejou nada em toda a sua curta vida, mas sentia-se desarvorado. Respondeu-lhe com um pequeno sorriso. Após poucos segundos, disse sem saber mais o que falar:
– O intervalo está acabando, vamos para a aula?
– Vamos sim – respondeu, com a voz sempre suave. Enquanto se levantavam e caminhavam, ela perguntou – Dan, você mostraria a cidade para mim? Eu mal cheguei do Rio e não conheço nada.
– Com prazer, Jessy... Helena, desculpa.
– Tudo bem. – Ela deu-lhe um sorriso caloroso. – Gosto desse apelido. A minha mãe chamava-me assim e sinto falta. Mas diga uma coisa, com quem me pareço, alguma namorada?
– Não, está mais para uma lembrança de outra vida. Deixa pra lá que eu não saberei explicar. – Sentia-se sem jeito, tímido. – Mas não é uma namorada, não.
Ela sorriu-lhe mais uma vez e voltaram juntos para a sala de aula.
– Então, Dan, quando você pode me mostrar a cidade?
– Quando tu quiseres... Jessy – disse ele, sem poder resistir a chamá-la assim.
– Pode ser depois da aula?
– Claro, podemos sim. Eu mostro-te um belo restaurante para almoçarmos que, por si só, já é um passeio.
– Combinado, Dan. – Ela estava feliz e, cada vez que ouvia o seu primeiro nome dito pelo Daniel, o seu coração disparava. Algo aconteceu-lhe, quando o viu, e ficou incapaz de entender o que ocorria, pois, apesar da diferença de idade, acabou perdidamente apaixonada. Sentia que ele correspondia, porém sabia manter a devida distância bem como notava com clareza que Daniel não percebia os seus sentimentos. Durante a aula, uma linda garota aproximou-se dele e disse-lhe algo. Helena observava pelo canto do olho e viu Daniel ajudando-a com a sua dúvida.
O que ele não prestava atenção, mas ela observava muito bem, era a garota insinuando-se ao rapaz. Sem pensar, sentiu logo uma onda de calor e ira. Quando ele terminou de ensinar a garota, ela sorriu-lhe e beijou-o no rosto. Daniel sorriu de volta, mas não demonstrava interesse algum na moça, virando o rosto para Helena, que assustada, desviou o olhar o mais rápido que pôde. Após as aulas, conforme combinado, o rapaz conduziu a nova colega ao estacionamento para irem almoçar juntos. Isso não passou desapercebido, deixando algumas garotas zangadas e rapazes frustrados.
– Nossa, Dan, que carro magnífico este seu! – disse, bastante impressionada. – Eu nunca vi um assim. Deve ser um modelo especial.
– É uma Lamborghini. – Explicou, abrindo-lhe a porta. – Este carro tem mais de setecentos anos e era do meu bisavô. Quando eu fui morar na minha casa, que era a dele, encontrei vários carros antigos na garagem e este deixou-me apaixonado, então reformei-o todo. É fantástico. Chega a atingir quase quatrocentos por hora.
– Incrível. – A garota entrou. O carro mais parecia uma nave. O assento era muito confortável, feito para se ajustar ao corpo humano. A porta, em vez de se abrir para o lado, abria-se para cima, dando um charme todo especial ao pequeno veículo negro.
Ambos rodaram por cerca de quinze minutos e ele estacionou numa rua perto do Guaíba, onde abriu a porta para a moça descer, estendendo-lhe a mão e ajudando-a a sair. Quando se tocaram, o jovem sentiu um choque forte.
Levou-a a almoçar em um restaurante chinês que apreciava muito e onde era freguês regular, muito bem tratado pelo proprietário que se deliciava com a perfeição do seu sotaque tão puro. O restaurante era uma casa ao estilo chinês da idade antiga, à beira do Guaíba e com a decoração toda no gênero, o que deixou a garota impressionada com a simpatia singular do local e gostando logo dali. Também espantou-se quando Daniel conversou com o atendente ao fazer os pedidos.
– Caramba, Dan, você fala a língua deles! – disse ela com um sorriso, bastante surpresa. – Isso é incrível!
– Falo muitas línguas. – Encolheu os ombros. – Acho que é um dom que eu tenho.
– Que legal. Você tem mais outros dons? – Ambos não conseguiam tirar os olhos dos olhos, que brilhavam forte, embora não se dessem conta.
– Alguns. – Ele sorriu-lhe, enigmático. – Então, gostaste daqui?
– É maravilhoso, Dan, e eu sou loca por comida oriental desde muito nova.
– É, eu sei...
– Como você pode saber se acabamos de nos conhecer?
– Instinto – esquivou-se à pergunta. – Então, queres conhecer a cidade?
Enquanto passeavam pelos belos parques da capital, Daniel foi pensando nos seus sentimentos. Estava demasiado confuso, mas sabia que desejava aquela garota com tanta intensidade que ele mesmo se estranhava. Jéssica devia ter uns três ou quatro anos a mais e ele perguntava-se por que é que ela lhe deu atenção. Terá sido por tê-la chamado assim?
– "Será que ela também tem algumas lembranças anteriores embotadas?" – questionava-se. – "O jeito é esperar e ver o que acontece."
Enquanto pensava, ficou em silêncio e, por isso, assustou-se quando a garota lhe disse:
– Uma moeda pelos seus pensamentos, Daniel – sorriu-lhe, sempre com os olhos brilhantes.
– Como? – perguntou, espantado e surpreso.
– É um termo muito antigo. Quando uma pessoa está muito calada, pensando, a outra diz isso para saber o que ocorre.
– Desculpa, foi falta de educação. – Ele ficou sem jeito. – Mas é um termo meio estranho esse, num mundo onde somos telepatas.
– Entretanto, todos nós temos barreiras mentais que protegem a nossa privacidade. A desvantagem é que, quando as erguemos, não nos conseguimos comunicar por telepatia. Acho que hoje em dia, só os casais na intimidade da alcova derrubam as suas barreiras.
– Eu posso me comunicar, mesmo com as barreiras erguidas, Jessy – replicou, tranquilo. – Não é difícil, basta ter um pensamento seletivo. Na verdade posso até mais que isso.
– O quê, por exemplo?
– "Posso transmitir o meu pensamento mesmo a um cérebro bloqueado." – Disse-lhe por telepatia.
– Meu Deus, que legal! E você consegue ler um cérebro bloqueado, Dan?
Ele ficou em silêncio, sorrindo para ela que interpretou mal o sorriso e exclamou, assustada:
– Você não se atreva, Daniel!
– Eu jamais faria isso, Jessy – sorriu meigo – e nunca minto. Seria errado, mas sim, sou capaz de o fazer.
– Afinal a quem eu o lembro, você falou em outra vida?
– Eu tenho pequenas lembranças da minha vida anterior. Por exemplo: no restaurante falei cantonês, mas nunca me ensinaram a língua. Quando ouvi alguém falar no templo Shaolin onde recebi parte da minha educação, comecei a conversar na mesma língua. Eu sei falar quatorze idiomas os quais nunca me ensinaram e outros seis que aprendi ainda criança. Às vezes pergunto-me o que mais posso me lembrar. Mas tu, recordas-me uma pessoa que se chamava Jéssica.
– No mínimo isso é fascinante, Daniel, mas você acredita mesmo nesse negócio de reencarnação?
– Sim, do fundo do meu coração, embora não possa provar. Além disso, a nossa família é budista.
– Não sei, não – a garota sorriu-lhe com simpatia, enquanto abanava a cabeça. – Acho que a reencarnação pode ser um falso preceito. Há muitas correntes filosóficas que debatem isso até hoje sem chegarem a resultado algum e isso não falando nas religiões.
– Eu sei, Jéssica – disse, após alguns segundos. – Por isso é que te disse que não posso provar.
– A sua cidade é linda demais, apesar do frio – disse ela, mudando de assunto.
– Fico lisonjeado, já que o comentário veio de alguém que nasceu em uma das cidades mais belas do mundo.
– Bem, em belezas naturais sim, mas como cidade, não. Nós não temos tantos parques nem todo este cuidado com a limpeza e a estética. Mas o frio...
– Quanto ao frio – ele deu uma risada espontânea –, espera o verão e verás o que é bom prá tosse. Isto aqui não difere muito do Rio.
No final do passeio, Daniel largou a garota em casa. Ao se despedir, ela deu-lhe um beijo que lhe deixou o rosto queimando e o coração aos pulos.
No carro, indo para casa, pensava nela, sorrindo para si mesmo. Apesar da confusão enorme, sabia que aquela moça teria de ser sua. De alguma forma, precisava dela e o seu espírito exigia-lhe isso com tamanha intensidade que chegava a doer. Sentou-se na sala em frente à lareira e não parava de pensar na carioca.
Com os olhos fechados visualiza o seu rosto suave e os lindos olhos verdes sorrindo para si. Enquanto devaneava, imaginava-se tomando a garota nos braços e beijando-a com ternura. Deu um suspiro e levantou-se para ir ao escritório trabalhar um pouco no seu projeto, coisa que fazia sem parar há bastante tempo.
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