42-SALTO DE FÉ


5 minutos de olhos fechados concentrada. Esse foi o tempo da terceira e última tentativa. Suspirei fundo ao levantar do banco que haviam me oferecido para sentar. Todos estavam decepcionados comigo, exceto o vampiro. Seu rosto como sempre não dizia nada, mas eu sentia sua preocupação.

— Preciso falar com ela a sós — Eric disse para o líder dos lobis. E fomos escoltados para fora do galpão, deixados em um local longe o suficiente para termos privacidade e perto para que ficássemos sob suas vistas. — O que está acontecendo?

— Não sei. Desde dos atentados... naquela noite eu senti tudo. E agora não sinto nada. A gente tá fudido... eu to fudida.

— Sei que está com medo. Mas confia em mim, você vai conseguir.

— Como sabe? Como tem tanta certeza sobre isso, mas não tem sobre a gente? Da boca pra fora sou sua amada, noiva... eu sei que tem um motivo oculto para você me chamar assim, mas é só... artimanhas? Ou você realmente sente isso?

De todos os momentos, escolhi o pior para deixar aflorar minhas inseguranças. E a raiva e frustração dele não melhoravam meu humor. E eu queria muito sair correndo dali, pois a minha salvação dependia só de mim, e eu iria falhar. Meu peito ardeu. Literalmente. Puxei debaixo da minha blusa de manga comprida meu pingente e ele brilhava e pulsava. E por mais que ardesse, o ardor saía das minhas mãos percorrendo todo meu corpo como se estivesse em minhas veias, não era de todo ruim. Era familiar. Meus olhos encontraram os olhos do vampiro. Ele não tirava os olhos do meu pingente, e um calafrio percorreu meu corpo com intensidade daquele olhar.

— Eric... Eric! O que foi?

Guardei a joia dentro da roupa, e como quem desperta, ele apenas disse:

— Nada. Você pode voltar e tentar de novo?

— Você vem comigo?

Ele assentiu, mas não saiu do lugar.

— Só preciso de um tempo.

Voltei para dentro do galpão, e fui em direção a menina. Sentei de novo e segurei a mão dela. Não pensei no que aquela brasa pulsante sobre o meu peito significava, apenas deixei fluir e gradativamente a sensitividade se fez presente. E a primeira coisa que captei foi o medo. E ele era tão forte e afiado, como adagas geladas no meu coração. Não lutei contra ele, o tomei todo para mim. E ela abriu os olhos para fechá-los em seguida. Quando me ajeitei no banco, para relaxar, encostei a cabeça no tronco do vampiro. Ele tinha se colocado atrás de mim sem eu perceber sua aproximação.

— Consegui .— Tudo o que emiti foi sussurro fraco. Era madrugada quando alcancei enfim a aura da vítima, meu esforço foi tanto que até suava apesar do inverno. — As memórias dela estão "sujas" pelas emoções. — Não tive palavras melhores para explicar. — Não me peçam para falar cor de roupa ou pele, cabelo. Tudo é amarelo, ok?

— Por que amarelo? — alguém perguntou.

— Medo. Ela é sobre, a aura deveria ressoar em vermelho, como todos vocês, mas o medo é tão forte que ... vou começar. 

Ler a aura de um sobre sempre foi muito difícil e dessa vez estava pior.  Não havia um fluxo constante, era tudo fragmentos de memórias que a impactou, um dia que se perdeu da mãe, cair e ralar o joelhos, a primeira decepção amorosa, até algo importante ser revelado: 

— Gêmeas!? Elas eram gêmeas. As duas foram levadas... é escuro, frio. Água! Perto do rio. O medo é palpável. " Você não ouve, Marina, me chamando?" disse a mais velha antes delas serem levadas...

E nada. Não havia mais memórias. Não havia mais nada. E dela ecoou bem baixinho aquela melodia melancólica, mas parecia o eco de um eco. E ela me chamava . Num pulo, larguei a mão da garota e desabotoei a parte de cima do pijama e toquei em seu peito. E o coração dela era uma densa camada escura, mimetizando a vida. Marina abriu os olhos, agarrou minha mão me puxando até a altura do seus lábios e sussurrou:

— Ela vem para você agora.

E o silêncio caiu ao mesmo tempo que a jovem largou minha mão. Eric me puxou em direção a saída e os homens de Calvin se colocaram no caminho, os olhos brilhavam em dourado. Eles estavam dispostos a não nos deixar sair.

— Saiam — Eric grunhiu.

Como ninguém se moveu, ele soltou da minha mão e segurou pelo pescoço um dos homens, abrindo o caminho para eu correr. Mas não fui longe, alguém segurou com força meus braços. Às vezes, Eric me superestimava muito.

— Estamos com a garota, vampiro. É melhor soltá-lo. — Calvi tirou uma arma das costas e apontou para a minha cabeça. Eric soltou o cara, mas não foi nada delicado. — Qual dos dois vai me explicar a merda que está acontecendo aqui?

Eric estava com seu ego muito abalado para responder.

— Tira a merda dessa arma da minha cara. — E ele afastou — A garota tá morta, é só um fantoche. Precisamos fugir. Agora... seja lá o que for, está vindo para cá. E quer matar todo mundo.

Eles não a tinham escutado, ainda bem, pois era certo eles me fazerem de isca ou barganharem minha vida para salvar a deles.

— Calvin, veja só — Paty o chamou para ver o resto do corpo da menina murchar.

Aquilo deu um peso maior às minhas palavras, quem me segurava afrouxou o aperto o suficiente para eu me soltar e correr em direção ao Eric. E dessa vez, ele me pegou no colo, e saiu correndo comigo porta a fora. Corremos até a saída da propriedade, mas ao chegarmos nela fomos expelidos para trás. Só não me machuquei para valer pois o vampiro recebeu a maior parte do impacto ao cair.

Rolei no chão para sair de cima dele. E ele se colocou de pé e correu de um lado para outro buscando uma brecha na barreira invisível. Por fim, ele tentou escapar voando, mas não conseguiu também. E voltamos para o ponto de partida, o acampamento.

— A saída está bloqueada por magia— Eric sentenciou aos presentes.

Houve um burburinho, um dos homens de Calvin arrancou as roupas e se transformou em lobo enorme, com um pelo mesclado espesso. Era um animal fantástico. E correu na direção que viemos. E depois de alguns instantes ele voltou e se posicionou ao lado do líder. Talvez lobos se comunicassem por telepatia, pois Calvin disse:

— A única saída é a floresta. Há uma trilha que leva à rodovia. 4 horas de caminhada. Não há tempo de mandar os batedores verificarem se o caminho está limpo. Os humanos amigos da matilha tomem cuidado e não saiam de perto guia. Vampiro, você e sua humana tem muito o que me explicar, mas por hoje desejo apenas boa sorte.

Seguimos com eles no início da trilha, mas estávamos por nossa conta. Eu não enxergava um palmo e tropeçava um pouco até Eric me colocar em suas costas como se fosse uma mochila infantil. E quanto mais embranhavamos no mato, mais aquela escuridão que senti no coração da garota nos rodeava.

— Merda — resmunguei. — Não sente a magia?

Ele assentiu e disse: 

 — Ainda sente as pessoas?

— Bem longe da gente...

— Foi o que imaginei, acho que estamos fora da trilha...

— Merda..

— O poder emanando parece fraco, por isso estão nos isolando... se não fosse isso, teriam apostado no ataque direito. É o que eu faria. — Ele me colocou no chão. — Mas essas bruxas são necromantes... precisa ficar longe de mim... pelo menos essa noite.

— Não pode me largar no meio de uma floresta, no escuro e esperar que eu sobreviva. Não pode. — Naquele momento, uma nuvem decidiu sair de frente da lua, e a luz atravessou a copa das árvores iluminando a gente um pouco. — Consigo sentir as pessoas mas não o caminho.

— É perigoso.

— Quando está perto de você não foi? — segurei sua mão, mais por medo dele me deixar do que necessidade de carinho. — Tá decidido. A gente vai sair daqui junto, e depois você vai me contar o que sabe, porque eu sei que você sabe de algo. Você sequer estranhou o que aquela garota disse... Enfim, vampirão. Me coloca nas suas costas de novo e vambora.

Mas não houve tempo. Aquela massa veio em nossa direção, jogando o vampiro longe. E corri pela minha vida, usando os braços para afastar os galhos que atrapalhavam o caminho. Tropecei algumas vezes, caí outras e levantei.

O que fosse aquela massa, parecia brincar comigo, pois estava sempre um passo atrás, soprando em meu pescoço. E aquela maldita canção não parava de me chamar. Como era possível algo tão bonito e puro vim de uma coisa tão assustadora? Uma luz verde espectral surgiu um pouco mais longe, seja o que fosse não poderia ser pior do que a estava atrás de mim, não parecia. Forcei minhas pernas em direção a ela e num salto, literalmente, de fé me joguei sobre o clarão verde.

Com graça e destreza, a fonte da luz se levantou como se nem tivessem caído, enquanto eu me apoiava nas laterais de pedra úmida coberta de musgos gemendo e resmungando um pouco. A gnose nem olhou para mim, seguiu em frente. Meus olhos correram pelo lugar, tentando me orientar. O chão, o teto, tudo era de pedra coberta de musgo.

Eu definitivamente não estava mais na floresta.

Sem opção, a seguia, em silêncio, em direção a única fonte de luz, derrapando algumas vezes no caminho. As pernas estavam me matando. Todo aquele tempo convivendo com Eric me ensinou que perguntas como " Onde estou estou? O que você quer? O que vai fazer comigo?" eram desperdício de tempo quando se tratava de seres sobrenaturais. Então segurei muito minha língua para não irritar a gnose.

— Wow.

Soltei ao chegarmos num local mais aberto. O chão, coberto de folhas secas, era de vidro colorido, ou algum outro material translúcido, lembrava muito os vitrais da igreja. Árvores de pequeno porte circundavam o lugar, os galhos retorcidos e secos era indício que estavam mortas. E mesmo não havendo nenhuma saída, o ar era mais fresco e o teto estava coberto de vagalumes que iluminavam tudo com um ar fantasmagórico.

Bem no centro, em uma pedra retangular de pedra esculpida com símbolos de animais e folhas, o irmão dela estava em cima. E se eu não tivesse visto Eric o matar, diria que estava apenas descansando. Como não havia nada sobre os gnosis naquele livro, estava no escuro sem saber se era magia ou apenas o processo natural dos corpos deles que o mantinha intacto.

Ela foi até o irmão e acarinhou o rosto e braço dele com o mesmo afeto urgente que presenciei na noite que cheguei em Shreveport.

Sem saber o que fazer, me sentei em um canto afastado, imaginando quando ela me mataria ou me torturaria. Esperava que fosse a primeira opção, e que fosse rápida, estava cansada demais até para implorar pela minha vida.

— Ele ainda guarda um sopro de vida... — Ela veio na minha direção, me arrastei para atrás de forma instintiva. Ela parou, coçou a cabeça e voltou para perto do corpo do irmão. — Não vou te fazer mal.. se quisesse, já teria feito, não acha? — Não achava nada, por isso fiquei em silêncio. — Ele conserva sopro de vida... faça.

Só uma vez, queria que os sobrenaturais não chegassem em mim falando por enigmas.

— Faça o quê?

Os olhos verdes brilharam e caíram sobre mim e algo como uma risada de desprezo saiu por entre os dentes dela.

— Você sabe.

— Cara, com todo o respeito, você é louca? Se você quer me matar, me matar logo. Se quer algo, diga en inglês o que quer. Eu não sou adivinha. E que merda de lugar é esse? Pra onde me trouxe? O que quer?

E ali estava todas as perguntas que jurei não fazer; nunca fui boa em manter minhas decisões mesmo.

— Mais respeito. Estamos em Galma Yeroo*. Não quero te matar, já disse... nunca quis. Foi Feyisa que quis, desde o princípio, vingança. Agora ele se foi e estou sozinha. Devolve a vida dele, você nos deve isso.

Levantei do chão, cansada daquele estado de espírito apático, se ela quisesse briga, bom... daria uma rápida e talvez sem graça para ela.

— Não que eu saiba fazer isso, mas você não acha que seria burrice reviver alguém que quer me matar?!

— Garanto pelo sangue de Dachee Kan Akaakilee** que ele não vai. Não há mentiras em minhas palavras, veja você mesmo. — Ela agarrou minha mão e levou ao seu coração. — Está vendo? — Ainda era fraca as emoções que captava, mas havia sim sinceridade. Puxei minha mão e me afastei dela.  — Faça aquilo que fazia quando a gente brincava por aí.

— Gnose...

— Desconheço que isso significa; Dachee Kali***, não se lembra?

— Dachee Kali... — ela balançou a cabeça — Kali? — ela assentiu — Kali, eu não me lembro mesmo de você, não sei o que quer e mal faço ideia que lugar seja esse. — Ela se aproximou tanto de mim que senti seu hálito fresco. Percebi alguns hematomas em seu rosto e sangue verde escorrendo. As roupas usadas por ela também parecia a mesma do dia em que me atacou. E seus olhos brilharam mais, me ofuscando. — Caramba, você pode me dar um pouco de espaço?

— Não se lembra mesmo de mim, de nós, Asheeta irra****?

Ela apontava para ele e para o irmão.

— Não. Sou completamente ferrada da cabeça. Também desconheço isso ai do que me chamou... meu nome é Lara.

— Asheeta keessaa dhufaa jiru — ela se afastou, seus olhos estavam cheios de água. — Vinda das cinzas. Você comeu da nossa comida, recebeu os afagos de nossas mães e aprendeu nossa língua... éramos o que os humanos chamam de amigos. Covarde... quis esquecer. Se eu não posso esquecer, também não vai

Dessa vez, ela aproximou tanto que tocou a testa na minha, e segurou meu rosto para que não desviasse o olhar. E soprou na minha boca. 

* Galma Yeroo: Salão do tempo.

**Dachee Kan Akaakilee: Terra Ancestral, título para a mais velha, a mãe primordial dos Dachee

***Dachee Kali: Dachee é como eles reconhecem a própria espécie, chamá-la de Dachee Kali é como chamar humana Lara.

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