4-CAPCIOSA
Com as pernas suspensas no ar, olhos fechados, boca contraída, e me tremendo mais que vara verde, antecipava uma dor agonizante.
Dor que não veio.
E quando, corajosamente, abri os olhos, Eric estava com o rosto tão perto do meu que era só um movimento em falso e nossas bocas se juntariam. Para o meu alívio, os caninos estavam retraídos, deixando o semblante dele mais relaxado; ou algo do tipo. Não era muito fácil identificar as reações naquela máscara mortuária branca que ele chamava de cara, não. A única pista que eu tinha eram os olhos que brilhavam como se o vampiro estivesse se divertindo.
E a risada vazia do vampiro explodiu, ecoando pela noite, subindo e descendo o peito em movimentos descontrolados. Fazendo eu choramingar mais ao sentir meu corpo sacolejar no mesmo ritmo da gargalhada sinistra dele.
Até que ele parou de rir e me soltou no chão com menos delicadeza do que havia pego.
—Merda, isso dói — resmunguei.
— Ops! — Eric deu uma boa agachada para ficar na minha altura caída no chão, a flexibilidade daquele corpo gigante me impressionou. — Foi mal. — Apoiou um dos cotovelos na coxa se aproximando de novo do meu rosto. — Eu gosto da sua coragem, Lara, mas eu recomendo que daqui pra frente você tenha um pouco mais de... consideração.
Revirei os olhos. Ele tava me pedindo consideração? Ele? Depois de tudo. Se eu não estivesse me sentindo tão mole e vazia talvez até percebesse a idiotice que era fazer aquilo, mas naquele momento eu estava pouco me importando com o que ele queria e murmurei:
— Minha bunda.
E só então me dei conta que ele me chamou pelo nome, mas como se eu não tinha falado? O encarei, pronta para perguntar, e ele riu de novo. E com a cabeça fez uma mesura, como se confirmasse algo.
Sinceramente, não entendi muito não.
— O que você é?— Parecia ser uma curiosidade verdadeira.
— Eu não sei, cara — atropelava-me toda com a voz rouca olhando para os sapatos manchados de sangue. — Senhor Eric... Northman. Não sei...Achei que você soubesse. Por isso eu vim. E para ser sincera eu nem me lembro de muita coisa da minha vida, não, só alguns fragmentos...e você...o senhor, tá neles.
— Eric. Pode me chamar só de Eric...então, você se lembra de mim... entendo. — Segurou entre o polegar e o indicador meu rosto ardido, me obrigando olhar nos olhos dele. — Sabe, Lara, aquela noite foi apenas um sonho terrível... um sonho do qual você não se lembra. De fato, você sofreu um acidente... um grave acidente de carro... com seus pais...
— O que você tá fazendo? — Fui envolvida em teias de aranhas e passei a mão em frente ao rosto para tirá-las. — Tá tentando me hipnotizar?
— Algo do tipo.
— Pra quê? Você é louco?...Espera, então, foi você quem apagou minhas memórias... por quê?
Eric não respondeu.
O silêncio da noite foi quebrado apenas pela minha respiração descompassada, e nem ele e nem eu desviamos o olhar. Senti de novo as teias, e as tirei.
Ele era insistente nessa coisa.
Eu estava certa desde o início, ele estava envolvido no que aconteceu comigo no passado, eu só não sabia o quanto e como fazê-lo cooperar. Precisava conquistar a simpatia daquela criatura, e insistir na pergunta que ele, claramente, se recusava a responder não era o caminho.
Foi estranho perceber que a única lâmpada que restou na rua oscilava e que, ainda assim, conseguia vê-lo perfeitamente. E por uma fração de segundo, o rosto pálido ganhou vida, os olhos frios, calor. Assim como havia acontecido no bar, o vampiro se transformava em alguém familiar, trazendo uma sensação assustadora de carinho, a resposta estava na ponta da língua. Eric se levantou, me puxando com ele e dissipando aquela imagem da minha mente.
— Você está um caco, talvez precise de um médico.
— Obrigada.
Usei o mesmo tom irônico dele, pensando em como arrumar meu cabelo, que deveria estar um ninho de cobra, apalpando as roupas e conferindo se o colar estava intacto. Ele estava.
— Disponha.
E me deu as costas, caminhando.
— Eric, não me deixe aqui! Eu realmente preciso de ajuda... proteção — sussurrei essa última parte, engolindo o pouco de orgulho que tinha. — E se aquelas coisas ... ela voltar?
— A Gnosis?! Ela não vai voltar... Não hoje.
—G-gnosis?! ... Tipo gnomos? Mas gnomos não são coisinhas minúsculas?
Por cima do ombro, o vampiro, que eu chutava ter 1.95 de altura, soltou um sorrisinho me olhando de cima a baixo.
— Eles pareciam minúsculos para você? — Neguei com a cabeça, ele se aproximou tanto que ficou impossível olhá-lo sem levantar o pescoço. Qual o problema dele com o espaço pessoal? — Você sabe grego antigo?
— Sei?! — Ergui os ombros em desinteresse. — Ela não vai voltar hoje, o que significa que vai voltar um dia... me ajuda, por favor? Eu... eu posso ser útil para você...
— Como uma coisinha minúscula como você pode me ser útil, querida?
— Por favor, Eric... Eu posso — Virei o pescoço com a humilhação palpitando nas veias, oferecendo a única coisa que eu tinha.
— Patético — murmurou no meu ouvido. —Eu não preciso do seu sangue e nem quero ele. Guarde pra você ou pra Longshadow... Ele parecia bastante interessado.
— Quem?
— O barman...
— Não! — Dei muita ênfase à minha negativa, parecia um grito. E a erguida de sobrancelha dada por Eric, percebi que foi ofensivo para ele. —Obrigada, mas eu não vim aqui pra isso. Eu só quero saber o que aconteceu comigo ...
— Talvez você não goste.
— Ainda assim, é meu direito saber. — Ele me deu aquele olhar sem um pingo de humanidade, mudando rumo da conversa. — Você não tá curioso sobre mim? Sobre as partes que não sabe? O porquê eu lembrar de você...
— Passo... — Afastou-se. — Sua vida não é tão interessante assim.
— Espera!— Dei passos curto devido a dor dos joelhos e cóccix machucados. Mas, o que realmente doía era a garganta, sentia arder e o gosto alcalino do sangue, e piorava cada vez que falava, por isso sussurrei: —Eu posso ver seu futuro.
— Humano algum pode ver o futuro de um vampiro...
— Mas eu posso.
— Então, me diz o que você vê?
Ele ofereceu a mão com uma sobrancelha erguida.
O contraste entre nós dois ficou gritante quando segurei sua mão grande, pálida, gelada nas minhas pequenas e acastanhadas, úmidas do suor e do sangue. No entanto, a sensação não foi tão ruim quanto imaginei que seria.
Ruim era o meu desespero. Uma coisa era mentir para o pessoal de Sainte Croix des Âmes, aqueles caipiras acreditavam em qualquer coisa, inclusive que após a minha rápida e milagrosa recuperação, eu também tinha a capacidade de curar os outros. E os caipiras que não tinha medo vinham até mim pedir um abraço, pegar na minha mão... uma coisa levou a outra, virei uma espécie de vidente, milagreira.
Passei a aceitar o dinheiro, ou qualquer coisa, que eles me ofereciam em troca por inventar histórias, coisas bobas como achar a chave perdida, ser bem sucedido no novo emprego, achar um novo amor. A questão era que, às vezes, eu errava; mas, às vezes, eu acertava. Sinceramente, mal lembrava das vezes que errei, mas eram coisas bobas, tive sorte.
Contudo, dizer essas coisas para um vampiro já era outra coisa. E torcer para que isso fosse suficiente para ter um pouco da boa vontade dele beirava a insanidade. Mas não dizem que a loucura e o desespero são filhos da mesma mãe? Ajeitei-me na pose de quem sabia o que fazia e, pela primeira vez, torci para ter mesmo um dom, pois minha vida dependia disso.
—Eu vejo, vampiro Eric — improvisei—, que se você não me ajudar, coisas tão insignificantes e desagradáveis quanto você acha que sou, vai fazer da sua vida um inferno... Por favor, me ajuda.
Eric soltou outra gargalhada.
—É. Você realmente é capciosa. — Tocou o indicador gelado na minha testa. — Até nunca mais, Lara!
E sumiu na noite me deixando sozinha.
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