16-OURO DE TOLO
Você me disse que ficaria comigo
E me abrigaria para sempre
Alguma vez você acreditou nas mentiras que me contou?
Você ganhou o ouro de tolo que me deu?
Fool's gold— Lhasa de Sela
Chegamos em meu apartamento num silêncio desconfortável, abri a porta, acendi as luzes e dei passagem para Cíntia que ficou me encarando.
—Vampiros não entram sem serem convidados — ela disse e antes que eu pudesse respondê-la passou por mim rindo, e se sentou numa das poltronas. — Você ficou com medo que eu fosse um deles, não ficou? Confessa.
—Você nem imagina o quanto. — Era óbvio que ela não era uma morta-viva, vampiros me causavam uma sensação estranha no pescoço, e ela só estava me deixando... sem saber lidar sóbria com ela. Fui direto para a cozinha e abri uma cerveja. — Aceita?
— Prefiro vinho, você tem?— Neguei e ela estalou a língua.— Serve água então.
— Para quem só bebia sidra roubada, seus gostos ficaram bastante sofisticados.
— E foram as melhores que bebi, mas... as pessoas mudam.
— Percebi. — Entreguei o copo e sentei na poltrona de frente a dela.— Sou toda ouvidos.
— Quem é essa? — Ela tirou o porta retrato da mesinha de centro e me mostrou. — Você?!
— Minha mãe.
Tirei o porta retrato da mão dela e coloquei na mesa.
— Ela é linda.
— É.
— Vocês se parecem muito. — Ela me encarou por um tempo deixando o ambiente carregado por um tensão estranha e deu uma golada na água. — Então, você realmente conseguiu o que queria. Tá feliz?
— É, pode ser dizer que sim. — Nem a pau que eu diria a ela o quanto sofria com o que descobri. — Mas você não tá aqui pra saber sobre mim, se fosse o caso, teria mantido o contato, do jeito que tinha prometido.
Cintia deu mais uma golada na água, sorriu e se levantou para levar o copo na pia. Acompanhei com os olhos a movimentação dela dentro de minha casa. Além de muito curiosa, parecia bastante confortável.
—Está errada. Eu queria mesmo saber como você estava. Senti saudades. — Soltei um risinho anasalado. — É sério! E eu estava preocupada. Você perto de vampiros era algo que eu nunca sonhei ver em toda minha vida.
—Eu também jamais imaginei te vê saindo do banheiro depois de fazer sabe Deus lá o que com um vampiro. Mas aqui estamos nós, surpreendendo uma à outra. — Dei uma golada na cerveja. — Foi a sua curiosidade, quer dizer, preocupação, que te fez ir até ao Fangtasia? E como soube que eu estaria lá? Não precisa responder, eu sei, foi ele, o vampiro...
— Foi.— Ela se debruçou sobre a bancada pelo lado de dentro da cozinha, me obrigando a ficar de pé para olhá-la de frente. — Ele comentou que a garota que vimos no banheiro era a nova humana do Eric Northman e que diferente das outras, essa ele mantinha bem perto. Eu pensei: ele só pode estar brincando, a Lara que eu conheço jamais faria isso, ela morre de medo de vampiros e Eric Northman, bem... ele é um pouco vampiro demais para ela. Além de outras coisas, sem ofensa... mas, Devon não estava brincando.
— As pessoas mudam. — Ela sorriu de lábios fechados, me pareceu um pouco triste. E eu deixei passar a menosprezada, porque de fato, Eric era mesmo algo muito além do meu alcance. — Há quanto tempo você sabe disso?
— Há algumas semanas.
—E não passou pela sua cabeça que eu poderia, sei lá, precisar de ajuda? Que talvez estivesse desesperada pra a gente se esbarrar naquele dia, naquele banheiro?
— Não parece que precisava... — Com a mão indicou a minha sala. — Você tá muito melhor que eu quando cheguei nessa cidade. Muito melhor. Tem casa, emprego, e como sempre é a queridinha de alguém. Acolhida por alguém...
— Só na sua cabeça que eu sou sempre a queridinha de alguém, que estou nadando em sorte. Você não sabe de nada, cara. Nada.
— Só na minha cabeça, então me diz: por que de todas as crianças do abrigo, você foi a única que eles quiseram ficar... não... me diz como você tá conseguindo bancar esse lugar? Esses móveis? O salário de uma garçonete é uma bosta e o aluguel nessa região é pesado...
— Engraçado é você me perguntando isso quando tá andando pra cima e pra baixo naquele carrão. Até imagino como conseguiu, mas eu não me importo. Não me importo com nada da sua vida, parei de me importar na mesma época em que você perdeu o direito de saber sobre a minha.
— Você ainda está ressentida só porque eu não te mandei mais as malditas cartas!? Supera, Lara. Você é melhor que isso.
Soltei um suspiro incrédulo, não era só pelas cartas, e ela sabia.
— E como eu deveria superar isso? Chupando o pau de morto vivo num banheiro?— Peguei pesado, eu sei, mas iria até o fim já que ela tinha me machucado primeiro. — Virando a vadia dele?
— Olha, ela mostrando as garras. — Cintia saiu da cozinha parando de frente a mim, com o rosto vermelho e o olhar marejado. — E aquelas freiras diziam que eu era uma influência ruim para a gentil e perfeita Lara, sendo que você é tão podre quanto eu! — E sorriu.— Tão vadia, quanto eu!
— C-como é que é? O que você tá querendo dizer com isso...
— Se eu sou vadia, você também é, afinal, é dinheiro de vampiro que tá pagando as suas contas.— Tentei respondê-la, mas não consegui. — O quê, o quê?! Fala! Não consegue porque é verdade, sua hipócrita. Devon me deu o carro, como outras coisas. Em troca o divirto com minha companhia e sangue, não tive que chupar o pau dele pra isso, mas faria se fosse necessário já que não posso me dar o luxo.
Estávamos muito próximas uma da outra, tanto que se eu levantasse um pouco a mão dava pra tocar na aura verde turva que emanava dela, por segurança me afastei e ela segurou meu braço. Tive ânsia de vômito com o tanto de inveja e amargura que ela tinha.
— Me solta.
Ela afrouxou o aperto.
— Escuta, eu não quero brigar, não vim pra isso.
— Veio pra que então? —Ficamos em silêncio, além do hipnotizante show que era a aura dela mudando de verde para um rosa pálido, suas emoções fluíam como torrentes. Havia algo morno, tenro, parecia carinho. — Hum? Pra me tirar a paz? Se for, devo te dizer que chegou tarde. Fala, Cintia! O que você quer? É cansativo pra caralho tentar adivinhar.
— Eu já disse.
—Não, não disse. — Me afastei cortando aquela enxurrada de sentimentos confusos que vinham dela. — Você disse o que achou que eu queria escutar. Eu quero a verdade, por que você tá aqui? Não só isso, por que você sumiu?
— Sabe que dia é hoje?
— Quarta-feira?! E?
—É 10 de setembro — Uma lágrima caiu e ela limpou rapidamente. — Você se esqueceu, não foi?
—Esquecer não é bem a palavra, eu só não lembrava que dia era hoje.
Sei que não deveria me explicar, tão pouco ela merecia, mas eu não conseguia deixar de me culpar. A verdade era que eu nunca esqueceria o que essa data significava para ela. Nunca. Esse foi o dia em que a vida dela, que já era ruim, virou um inferno.
A versão que Cintia contava era de ter perdido os pais, artistas brilhantes ou grandes cientistas, em um acidente de carro ou na queda de um avião, voltando de sei lá onde, com pressa para comemorar o aniversário da filha. A história sempre mudava, dependia do dia e do humor dela. E por um tempo, eu acreditei nela; e por que não acreditaria? Às vezes, um trauma é tão grande que deixa tudo confuso, mas tudo mudou quando eu invadi o gabinete da madre superiora apenas para provar a Cíntia que conseguiria e encontrei a ficha dela.
E descobri que no aniversário de quatorze anos a mãe dela a trocou por algumas pedras de cristal. Cintia ficou duas semanas na casa dos traficantes até que a mãe se deu conta do que fez e chamou a polícia alegando que eles a sequestraram. Cintia foi tirada da mãe e ficou aos cuidados do Estado. E eu nunca contei a ela que sabia a verdade. Era o direito dela pintar de rosa esse quadro horrível.
—Eu odeio meu aniversário! — ela disse após um longo silêncio. — Odeio todas as lembranças que essa data me traz, menos as que eu estava com você.
E ela segurou de novo meus braços, porém com muito mais delicadeza. E os momentos mágicos que dividimos me atingiram em cheio. A gente matando aula para irmos nadar no Lago Clark e beber sidra roubada. O beijo que ela me roubou quando pulei na água para salvá-la do falso afogamento e a promessa que ficaríamos juntas quando eu saísse do abrigo que trocamos nuas dentro da velha cabana de caça do senhor Willy, promessa que ela cumpriu por um tempo. Depois, " preciso realizar meu sonho de ser modelo, antes que eu fique mais velha, já tenho quase vinte...é minha última chance... vou primeiro e quando tudo der certo, eu te busco. Ou eu volto para você, se não der. Mas vai dar". E eu fui, para ela, o porto para voltar por um ano. E ela nunca voltou... ou mandou as cartas como prometeu.
— Eu vim aqui — ela continuou, me puxando para um abraço — porque sentia saudades. Vim porque você é a minha pessoa favorita. E sei que caguei tudo. Mas não me manda embora... deixa eu ficar aqui. Só essa noite.
Devolvi o abraço. Até fechei os olhos buscando encontrar nela um cheiro familiar. O toque dela me deixava confusa. Não só por ser dela, mas por todas aquelas emoções que me atingiam. Droga, ela realmente sentia muito. E me desejava com tanta força. Senti seus lábios roçarem nos meus, e tremi com a maciez deles.
Foi mais amargo do que doce aquele beijo.
Ela tinha razão, nossas memórias eram muito bonitas, mas eram só memórias. Eu não era mais aquela menina apaixonada pela melhor amiga, que fazia de tudo para deixá-la feliz. Saí do seu abraço e a encarei.
—Você acha que meia dúzia de palavras vai adiantar? Não vai. Eu sinto muito, de verdade, por esse dia de merda, mas você não pode fazer isso comigo. Não pode. Não sou uma boneca que você deixa de canto e brinca quando tá com vontade. Foi um ano, Cintia. Um ano sem notícias suas. Um ano imaginado o pior. Quer saber uma coisa patética sobre mim? — Eu estava fazendo o meu melhor pra não chorar — Quando eu te vi naquele banheiro eu fiquei tão feliz em te ver, que demorou pra eu me tocar que você estava me evitando. E foi naquela noite que eu enfim percebi que você tinha mentido pra mim, que suas promessas foram vazias desde do início, que elas valiam o mesmo que ouro de tolo. Por que diz que eu sou a sua pessoa favorita no mundo, se você nunca me tratou assim?
— Eu não menti quando disse essas coisas... eu só não sei como... Eu não queria ficar, não queria ter te deixado sem notícias. Eu tentei, juro. Muitas vezes. Eu sonhei, várias vezes, em te buscar em grande estilo. Eu juro. É que as coisas foram mais difíceis do que eu pensei que seriam. E quando dei por mim estava fazendo coisas que eu não consigo me orgulhar e fiquei com medo e vergonha de contar para você... de você me rejeitar.
— Besteira, besteira das grandes porque se você tivesse me falado a verdade, indiferente do que ela fosse, eu teria vindo do mesmo jeito e você sabe disso. Eu nunca te julgaria.
Dessa vez, foi ela que soltou um riso anasalado.
— Lara... você acabou de fazer isso.
— E não te julguei. Não de verdade.
— Mas você fez. Eu estava certa de ter medo...
— Não, Cíntia, você sempre teve medo do que sentia por mim. E merda, não tinha nada que você me pedisse que eu não faria por você. O que mais me dói é você tá aqui como se nada tivesse acontecido, porque não quer ficar sozinha. Eu vejo claramente agora. Você até pode gostar de mim, mas não do mesmo jeito que eu gosto... que eu gostei de você... Vai embora, por favor.
Precisei de três noites e dois dias regado a comidas gordurosas e açucaradas, com doses cavalares de autocrítica e autopiedade, para me sentir um pouco melhor com o fim do que quer que fosse que eu e Cintia tínhamos. E graças a Deus que ninguém no trabalho tirou minha paz, pelo contrário, nesses últimos dois dias, eles pareciam saber que eu não estava muito bem, falando comigo o necessário, Eric mal olhando na minha cara.
E dele eu realmente queria distância. Pelo menos até eu conseguir me situar naquele tornado de emoções que era minha vida. Por outro lado, eu me agarrava a Taylor como um bote salva vidas. Ele tinha me mandado mensagem na noite anterior, perguntando se eu gostaria de tomar café da manhã com ele. Aceitei. Não só isso, como eu pedi um favor para ele.
— Obrigada por me levar a Bons Temps. — Afivelei o cinto ao me sentar no banco do carona da pick de Taylor. — Espero que não esteja te dando muito trabalho.
— Trabalho nenhum — sorriu para mim com seus dentes perfeitos, camiseta branca por baixo da uma camisa xadrez e jeans azul. Como um bom garoto fazendeiro. — Na verdade, seu pedido caiu como uma luva. Eu tinha que ir pra aquelas bandas na segunda de manhã, uma vistoria, aproveitei para adiantar esse trabalho. — Apontou com a cabeça para uma bolsa de ferramentas jogadas no banco de trás — A gente só vai precisar fazer uma parada antes, não vai demorar. Espero que não se importe.
— Bem, foi eu que tirei a magia do nosso encontro pedindo esse favor, então, não.
— Mas isso não era um encontro.
— Não?!
—Não.
— Mas você me convidou para tomar café...
— Sim, tomar um café, conversar um pouco mais...
— Isso me parece um encontro.
— Mas, não é. Entenda, sou cara tradicional: ainda quero te levar pra jantar, experimentar uma saborosa sobremesa — Talvez eu estivesse um pouco emocionada com o interesse dele, pois eu sorria como uma boba. — A gente pode caminhar um pouco ...faz um tempo muito gostoso perto do cais à noite. Aliás, você gosta de caminhar?
—Um pouco. — Na verdade, odiava caminhar, ainda mais perto de pessoas com as pernas tão longas e fortes como as dele. Só de imaginar os passos extras que teria que dar para acompanhar um passo dele, já estava cansada. — Mas a gente não iria ver o show de ilusionismo?
— É que achei que você não tinha curtido muito a ideia...
— Não! Eu curti sim. Muito.
— Ok... — Taylor sorriu para mim. — Se é que eu posso perguntar, mas o que você vai fazer em Bons Temps? Você é de lá?
— Eu quero fazer uma visita pra uma conhecida minha — menti mais uma vez. Talvez isso estivesse se tornando um hábito ruim, mas o que eu iria dizer? A verdade? Nem ferrando. — Eu não sou de lá, não; vim de Sainte Croix de Ames. Sabe onde fica? — Sem tirar os olhos da estrada ele balançou a cabeça como se ponderasse, e negou. — É uma cidadezinha daqui do interior da Louisiana. Sou uma menina do interior, quem diria...
— Todos nos somos, baby —a voz dele saiu mais grave e profunda, e seu rosto estava fechado mas em seguida sorriu de um jeito que fez com que eu quisesse mordê-lo.— Como uma menina do interior foi trabalhar com vampiros? Esse é seu lance de rebeldia antes de se endireitar ou coisa do tipo? Seus pais não ficam preocupados?
— Bem, a verdade é que eu não tenho pais, sou órfã.
—Ah...me desculpa, Lara. Eu nem imaginava. Sinto muito. — Pela cara dele deu para notar o quanto ele se sentiu mal pela pergunta. — Mas eles morreram ou... quer dizer, tudo bem te perguntar essas coisas?
— Eles morreram. Faz alguns anos. Mas eu não me lembro... Não consigo me lembrar do meu passado. Sequela do acidente de carro em que eles morreram. Isso é um problema pra você?
— O quê? Você ser órfã? Por que seria?
— Não sei! As pessoas são, às vezes, maldosas e qualquer coisa é motivo para odiar os outros, sabe? E eu trabalhar com vampiros, isso é um problema?
—Não pra mim. Quer dizer, sua relação com aquele seu chefe é só profissional, né? Porque, sendo sincero, Lara, eu acharia muito estranho, se ele não fosse um vampiro, estar na porta da sua casa de noite. Mas como ele é um vampiro e você tinha me falado que tinha comprado o celular naquele dia...achei razoável a situação. Mas eu gostaria de saber onde estou me metendo. E sem julgamentos, a vida é sua. Só não quero fazer parte de algum triângulo amoroso estranho.
— Eu e o Eric juntos!? — Gargalhei com gosto. — Nossa, não. Nunca aconteceria. Ele é só meu chefe. E Taylor... eu não sou uma vampirófila. É só que o trabalho realmente é bom.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top