54 - Three words
54
Any Gabrielly
New York, NY
Eu continuava na mesma posição há horas. Sentada amarrada em uma cadeira no centro do espaço onde estava. Era um lugar com apenas um cômodo mal iluminado e sem nenhuma mobília, apenas com três cadeiras de madeira espalhadas ali.
Minha cabeça doía por causa do meu choro mas eu não conseguia parar, alguma coisa dentro de mim estava deixando meu coração apertado. Mas pelo menos eu não tinha sido machucada fisicamente, Peter e seus capangas não tinham tocado um dedo sequer em mim depois que me amarraram na cadeira.
— Sabe, eu estive pensando nos últimos dias... — Peter começa, interrompendo o silêncio. — Eu era jovem demais quando estava com Miranda, ela foi a primeira mulher por quem me apaixonei. Os jovens costumam fazer todas as coisas possíveis com medo do amanhã não existir e eu não era diferente, eu era capaz de levar um tiro no peito por ela se ela quisesse. Eu fazia de tudo por ela e mesmo assim ela me deixou, e eu me afundei por anos. Acumulei tanta dor e mágoa que eu queria fazê-la ir até o inferno e voltar, igual a mim. E aí eu soube sobre você, ela te ama e eu pretendia te tirar dela, Miranda ia sofrer pra caralho e eu iria adorar isso. Mas aí eu matei seu irmão e eu vi de perto como ela ficou ao saber da notícia, isso já fez eu me sentir vingado e você já não me era útil para isso.
Permaneço em silêncio, sem saber onde ele estava querendo chegar com essa conversa. Fungo mais uma vez na tentativa de parar de chorar.
— Mas aí eu tive uma ideia incrível. Eu vi que você é para o Noah o que Miranda era para mim e que ele faria qualquer coisa para salvar você, você é o ponto fraco dele. — Peter continua. — Tenho certeza que ele entregaria todo o seu império no tráfico para mim apenas para você continuar viva. Eu verei Noah Urrea caindo antes mesmo de conseguir me alcançar sem ao menos sujar minhas mãos.
— Noah nunca entregaria o império dele em troca da minha liberdade. — Rio em escárnio.
— Isso é o que você pensa, Any. — Peter sorri. — Eu não sei como mas você colocou Noah Urrea em sua mão. E eu tenho você nas minhas, então tudo tem que correr conforme o planejado.
Peter estava fora de si se achava que isso daria certo. Noah já me disse inúmeras vezes que não me amava, que o que ele sentia por mim não era tão intenso quanto o que eu sentia e que nosso namoro era só uma tentativa. Qual é, ele não abriria mão do que ele construiu com anos de esforço apenas para eu sair viva dessa.
O som de um carro é ouvido e logo em seguida uma porta sendo fechada. Peter me olha com os olhos de um demônio enquanto sorri.
— Vamos descobrir agora o que ele vai decidir. — Peter cantarola e eu engulo em seco.
Noah Urrea
New York, NY
O lugar que Peter me mandou a localização é quase na divisa entre Nova York e Nova Jersey. Caminho em passos calmos até a porta entreaberta do lugar e respiro fundo antes de entrar, dando de cara com uma escada. Subo os degraus sem pressa alguma.
Eu fiz exatamente o que foi pedido, nem mesmo mencionei com a equipe que estava vindo para cá. Eles não fazem nem ideia, eu estou sozinho nessa. Me sentia um otário por não estar no controle dessa situação.
Solto a respiração que eu nem sabia que estava segurando quando chego ao segundo andar e meus olhos encontram os de Any. Ela parece nervosa e, como eu já esperava, ela chora. Pelo menos é um choro silencioso, eu não sou capaz de me concentrar em nada quando Any está chorando como um bebê.
— Aí está você, Urrea! — Peter chama minha atenção, ele está com uma arma na mão mas a mesma está travada. — Infelizmente não tenho um beck para te oferecer aqui pra você relaxar, foi tudo combinado de última hora, você sabe...
— Sem gracinhas, Anderson. — Digo ríspido. — Vá direto ao ponto. O que você quer?
Peter pega um papel dobrado do bolso da sua calça e estica o braço para que eu pegue-o. — Leia isso e saberá o que fazer. — Diz.
Pego o papel um pouco apreensivo e desdobro o mesmo para ver do que se trata. É um contrato. Um contrato que passa todo meu império do tráfico para ele, incluindo a minha equipe, e que me deixaria recluso do mundo do crime por um ano, contando com a segurança de Peter para continuar vivo.
Basicamente Peter queria me tirar do jogo. Eu sou o único que o faz se sentir ameaçado. Se eu entregar tudo isso que ele quer, ele vai ficar cinco vezes mais poderoso do que agora e meu ano de reclusão vai servir para que ele se fortaleça sem que eu atrapalhe.
Dou risada, deixando de olhar para o papel para encarar Peter.
— Você só pode estar surtando. — Digo, achando sua ideia até mesmo divertida.
— Se eu fosse você eu pensaria em aceitar, Urrea. — Peter sorri. — A proposta aqui é: você assina o contrato e eu deixo a sua garota ir embora daqui com você, sem maiores transtornos. Caso contrário, Any morrerá e você sofrerá as consequências por ter vindo aqui desprotegido. Você escolhe.
Peter é um grande filho da puta e eu sou um otário por ter vindo aqui sem ninguém ao menos saber onde estou; eu estava tão focado em salvar a Any que eu nem parei pra pensar que estava caindo em uma emboscada.
Leio o contrato mais uma vez. Eu não podia fazer isso. Eu comecei do zero e tudo o que eu tenho agora eu tive que me esforçar igual um filho da puta para ter, me arrisquei várias vezes, passei coisa pra caralho até chegar aqui e assinar esse contrato seria como jogar tudo isso no lixo. E também tem a parte da equipe, além de serem da minha equipe eles também são meus amigos e as únicas pessoas que eu confio; não tinha como abrir mão deles assim.
Mas do outro lado tem a Any. Mesmo odiando admitir, eu gostava dela pra caralho e ela me fazia um bem surreal. Perdê-la seria como se pegassem tudo o que há de bom dentro de mim e acabassem com tudo, eu perderia minha cabeça já que ela é a única pessoa que consegue me manter são. Apesar de toda a merda que aconteceu nos últimos meses, o fato de eu estar com Any fez com que parecesse que tudo estava bem e a vida tinha um gosto bom novamente. Eu também não poderia perder a pessoa que eu mais gostei na minha vida inteira.
— Noah. — A voz fraca de Any me chama e eu levanto a cabeça para encará-la. Seus olhos estão inchados e seu nariz está vermelho por causa do choro. — Não faça isso. Está tudo bem.
Any estava mesmo querendo que eu o deixasse matá-la?
— Pirou, Any? — Indago confuso. — Você vai ser morta, tem noção disso?
— Isso precisa acabar. — Ela continua, completamente impassível agora. — Você assina o contrato e nós vamos embora agora, e aí? Você só vai perder tudo o que você conquistou e todas as pessoas que estão nessa com você, depois de um tempo toda a perseguição irá recomeçar e seremos só eu e você, não teremos chances. E você não me ama, isso não é o suficiente, você não vê? Não tem jeito. Isso nunca foi o suficiente.
— Cala a boca, garota. — Peter rosna para ela.
Any desvia os olhos dos meus como se não fosse mais capaz de sustentar nossa troca de olhares; ela respira fundo antes de olhar para Peter e eu posso notar que ela está se segurando para não começar a chorar novamente.
— Acaba logo com isso e me mata. — Ela diz, decidida.
— Any! — A repreendo mas ela me ignora.
Um calafrio estranho toma conta de mim, sinto meu estômago se revirar como se alguém tivesse acabado de me dar um soco certeiro e minhas mãos parecem esfriar. Porra, eu estou nervoso só com a possibilidade de perder essa vadia.
Antes que Peter possa entrar na de Any, nós escutamos barulhos vindos do lado de fora do local. Nós três nos viramos para a porta, onde James entra com as mãos para cima – segurando sua arma com uma delas – e logo atrás dele um capanga de Peter apontando uma arma para a sua nuca.
— Olha quem eu encontrei lá fora, chefe. — O capanga diz.
James para do meu lado, ainda com as mãos para cima e na mira da arma do cara.
— O que eu disse que aconteceria se você desse uma de esperto e trouxesse alguém, Urrea? — Peter estala a língua no céu da boca, destrava sua arma e aponta-a para a cabeça de Any.
— Eu vim sozinho. — Digo. — Se você apertar o gatilho vai se arrepender.
— Ah, vou? Por que eu iria? — Peter debocha.
— Porque aí você não terá seu contrato assinado. — Rebato, mostrando o papel em minha mão.
Any e Peter me olham surpresos, como se não esperassem isso de mim.
O esquema é que esses contratos são informais, tudo o que garante que ele funcione é a palavra da outra pessoa e eu não me importaria de me tornar um caloteiro. Eu sabia as consequências, sabia que Peter viria duzentas vezes mais furioso se vingar de mim e que eu perderia vários aliados, mas é minha única saída agora. Me daria tempo o suficiente para sumir com a minha namorada e a minha equipe para ajeitarmos tudo antes de voltar para lidar com as consequências do meu calote.
Peter se distrai um pouco com seu capanga, Any me lança um olhar cúmplice e eu vejo que ela conseguiu se livrar das cordas; eu entendo o seu olhar, dizendo que era nosso momento de virar o jogo e olho para James ao meu lado para lançar o mesmo olhar para ele, James faz um sinal negativo com a cabeça e me lança outro olhar como se dissesse que não é uma boa ideia.
Ignoro-o, começando a balbuciar a contagem regressiva, até chegar no um.
E tudo aconteceu rápido demais.
Eu rasguei o contrato, Any tentou desarmar Peter e James se virou golpeando o capanga e conseguindo desarmá-lo. Dois tiros são ouvidos e o galpão parece ficar em um silêncio desconfortável. Um dos tiros saiu da arma de James e atingiu o capanga, que caiu morto no chão. Engulo em seco antes de me virar para ver de onde veio o segundo tiro.
Peter já não se encontrava mais ali mas Any sim, sua camiseta branca estava agora vermelha por causa da quantidade de sangue. E ali estava o segundo tiro. James corre até ela e segura o seu corpo antes do mesmo cair no chão e eu continuo ali sem saber o que fazer. Em choque. Perdido. Desnorteado.
Passos são ouvidos e eu sinto a presença de mais pessoas no local. A minha equipe estava ali agora.
— Oh meu Deus! — Claire solta um gritinho ao ver a Any.
— Vou chamar uma ambulância. — Chris diz nervoso, pegando seu celular.
E eu continuo ali. Não conseguindo me mover.
Ela ainda está viva, James fala algumas coisas para ela que eu não consigo ouvir para tentar animá-la. E é quando eu termino de processar tudo o que aconteceu, aperto meus olhos fechados antes de voltar a abri-los, acabando com minhas esperanças de que isso fosse apenas coisa da minha cabeça e nada tivesse acontecido.
Corro até Any e me abaixo ao seu lado, James me olha com pena quando vê meu estado atual. Ignoro-o e puxo Any para os meus braços com cuidado, James se levanta e se retira dali, indo para perto do resto da equipe.
Any estava mais pálida do que o habitual, seus lábios que sempre estavam avermelhados agora estavam brancos igual papel. Seu corpo estava frio e ela estava perdendo muito sangue. Any estava lutando contra a inconsciência.
— Any, você não pode morrer agora, está me ouvindo? — Fungo, me sentindo um fraco por causa dessa vontade de chorar que surgiu.
— N-Não vai dar pra ser forte dessa vez. — Any se esforça para falar com sua voz saindo baixa e fraca.
— É claro que dá. A ambulância já está vindo, eles vão cuidar de você. — Tento engolir o nó que se formou na minha garganta. — Você só precisa aguentar firme por mais um tempinho.
Olho por cima do ombro e vejo a equipe. James anda de um lado para o outro, Chris está encostado na parede com o maxilar contraído e eu o conheço o suficiente para saber que ele está tentando segurar o choro também, Brad está abraçado com Claire e os dois também parecem afetados com toda a situação. Volto a olhar para Any e vejo seus olhos lacrimejados, ela tosse um pouco como se estivesse em busca de ar e eu instintivamente a seguro com mais força, como se isso fosse a ajudar em alguma coisa.
— Eu te amo. — Ela diz em um sussurro. — Vai ficar tudo bem, eu prometo que vai.
Any tosse mais uma vez a procura de ar, mas dessa vez é mais fraco. Any já estava entregando o jogo, ela já estava desistindo. Quando foi que eu comecei a me importar tanto com alguém que não seja eu mesmo? Quando foi que eu comecei a considerá-la a coisa mais importante da minha vida, mais importante mesmo do que toda essa merda de império que nos trouxe a essa situação? Quando foi que eu comecei a amá-la dessa forma?
Meus olhos lacrimejam também e eu me sinto um babaca completo. Um fracote.
— Cala a porra da boca, Any. — Rosno. — Você não vai entregar os pontos agora, entendeu? Se você fizer isso eu te meto a porrada.
Eu já conseguia ouvir o barulho das sirenes longe, indicando que o socorro estava chegando.
— Ouviu isso? — Pergunto, fungando. Coloco minha mão em seu rosto e acaricio sua pele fria com meu polegar. — A ambulância está chegando.
Any abre um sorrisinho e olha no fundo dos meus olhos com toda calma do mundo. Ela segura meu pulso vagarosamente.
— Está tudo bem. Já não dói mais.
Fico um pouco confuso com suas palavras, não querendo entender o significado delas. Any solta um gemido e fica em silêncio. Ela não pisca mais. Seu peito que antes subia e descia com dificuldade agora está parado. Sua mão que antes segurava meu pulso cai ao lado do seu corpo, completamente mole.
— Elly? — Chamo-a. — Any! — Chamo mais alto, balançando seu corpo, ainda sem resposta. — Me responde, porra. — Peço. O líquido começa a escorrer dos meus olhos e molham meu rosto, não me lembrava qual foi a última vez que eu chorei. — ANY — Tento mais uma vez, fungando. — Você não pode morrer agora — Seguro seu rosto, seus olhos ainda estão abertos mas ela já não reage mais. — EU TE AMO, SUA VADIA. Era o que você queria ouvir? EU AMO VOCÊ. — Falar essas palavras foi como tirar um peso enorme de mim. — Eu te amo e você não pode morrer agora.
Abaixo a minha cabeça e encosto minha testa em seu peito coberto de sangue, chorando como um idiota. Sinto alguém colocar a mão em meu ombro mas eu não me mexo, continuo na mesma posição sentindo meu rosto completamente molhado pelas lágrimas.
— Noah, acabou... — James fala com calma e aperta meu ombro em conforto. — A ambulância está chegando, precisamos sair daqui.
Levanto o rosto, rapidamente secando-o. Olho para Any novamente e ela continua na mesma, nenhum sinal de que ela estava apenas jogando comigo para ver a minha reação com tudo isso. Deixo um último beijo em seus lábios – que agora estavam gelados – e fecho seus olhos, colocando-a com cuidado no chão.
Demoro algum tempo para me recompor, mas sou obrigado a fazer isso quando o som das sirenes fica mais forte. James me encara com cautela antes de todos começarem a sair dali, dou uma última olhada no corpo de Any jogado no chão antes de deixar o lugar também.
Nós saímos pelos fundos, pelo mesmo lugar que toda a equipe entrou antes. Tinha apenas a minivan ali, e todos pararam antes de entrar no veículo. Os olhares de pena já estavam me irritando.
— O que faremos agora? — Claire pergunta em um tom baixo.
— Nós vamos atrás de Peter. — Digo, firme. — Ele reservou uma passagem só de ida para o inferno e eu faço questão de mandá-lo para lá.
Claire conseguiu a informação de que Peter estava em uma casa em território aliado e todos nós fomos para a minivan. Brad entrou no lugar do motorista e Chris no do passageiro, eu, James e Claire fomos no banco de trás.
— Sinto muito pelo que aconteceu. — Claire diz, parecendo sincera com suas palavras. — Sei o quanto você sentia por ela e o quanto deve estar sendo difícil agora, sempre estarei aqui se você precisar de alguma coisa. — Ela beija meu ombro em um gesto de carinho.
Apesar de tudo, Claire sempre seria alguém importante para mim. E eu sabia que suas palavras eram verdadeiras, mas eu apenas assenti para tudo o que ela falou.
Uma parte de mim se foi junto com a Any. Ela tinha resgatado um lado bom de mim, por menor que ele fosse, e ele passou a pertencê-la, assim como todo o resto; mas o pedaço bom foi o que eu a ofereci e ela o levou também. As coisas não estavam certas, eu não estava sabendo lidar com toda a confusão de sentimentos dentro de mim, estou me sentindo perdido e vazio. Any estava sendo minha direção por esse tempo todo, tudo o que eu estava fazendo era por ela e para ela e agora eu não tinha mais nada, não me restou mais nada a não ser as lembranças e toda a dor que a ausência causaria.
— Você sabe que é arriscado pra caralho nós apenas invadirmos o lugar onde Peter está e você matá-lo assim. — James diz para mim. — Alguém pode acabar ferido, você pode acabar ferido,
— Eu não me importo nem um pouco. — Falo baixo após rir sem humor.
— Será que com a morte da Any você não aprendeu merda nenhuma? — James acena com a cabeça em negativo. — Você precisa parar de se fechar para as coisas, Noah, não há nada de errado em sentir. Você é humano e não uma pedra. Você parou pra pensar no tempo que você perdeu tentando pagar de sem sentimentos? Você podia ter aproveitado tempo pra caralho com a Any se você não tivesse se reprimido tanto. Você esperou a garota morrer para falar que a amava, para transformar em três palavras uma coisa que você já sabia há tempo mas nunca tinha falado por orgulho. E eu espero que com a morte dela você não volte a se fechar para tudo e para todos como antes e sim entenda que isso nunca vai te levar para lugar nenhum, só vai fazer você perder coisas incríveis e sentir também.
E mais uma vez James tinha razão. Perdi muito tempo com a Any enquanto não queria deixar transparecer meus sentimentos por ela. Todas as vezes que eu estraguei tudo mesmo sabendo que eu sentia pra caralho, mas era covarde demais para admitir.
FLASHBACK:
— Tudo bem, lá vai... — Any respira fundo antes de soltar tudo de uma só vez. — Eu te amo. Eu não tinha certeza antes mas eu nunca tive mais certa de alguma coisa do que estou disso, eu amo você.
O silêncio se instalou no local, ela se virou para me olhar quando a resposta que ela desejava não veio. Eu não esboçava sentimentos, estava completamente impassível enquanto a encarava.
Me sentia nervoso com os mil sentimentos que davam um nó no meu cérebro. Podia sentir minha mão gelar e meu estômago incomodar, eu estava nervoso. Não esperava ouvir essas três palavras, não agora. Isso estava indo muito longe, eu estava perdendo o controle das coisas e isso era perigoso demais. O fato de eu não querer fugir daqui só por ouvir essas três palavras é preocupante, a possibilidade de tudo isso que ela sente ser recíproco é preocupante também.
Amor é apenas uma fraqueza e eu não podia me permitir fraquejar dessa forma.
— Eu acabei de admitir que amo você e tudo o que você me dá em troca é seu silêncio? — Ela fala baixo, quase em um sussurro.
— O que você espera? Quer que eu minta pra você só pra ser mais agradável? — Eu continuo impassível, como se estivesse entrado na defensiva. — Eu não amo você, Any. Não posso dizer isso de volta.
FLASHBACK OFF.
Sempre disse para a Any que o amor é uma franqueza e a franqueza só serve para te destruir. E porra, olha pra mim, estou em pedaços agora.
Tudo o que eu sempre temi está acontecendo. Logo eu, que sempre neguei amor de tudo e todos a minha volta para não me enfraquecer tinha me deixado levar por esse sentimento inocente mas que pode levar qualquer um a ruína. Any tinha se tornado meu ponto fraco e a única coisa que despertava amor em mim, e eu perdi tudo isso da forma mais dolorosa possível.
Olho através da janela tentando procurar alguma outra coisa para ocupar minha mente, aquela sensação estranha como um nó na garganta voltava a me atormentar. Eu era a porra de um fraco agora!
FLASHBACK:
— Estou com medo do que ele pode fazer contra mim. — Ela me confessa, suspirando. — Você viu como ele guarda ódio? Ele só vai se sentir bem quando me matar.
— Ei, bebê, relaxa aí. — Beijo seu ombro desnudo. — A única pessoa que pode te matar sou eu, ninguém mais. Peter nunca mais te machucará.
— Nós não podemos garantir isso.
— Eu posso garantir isso. — Digo sério. — Nunca o deixarei te machucar novamente. Você não precisa se preocupar quanto a isso.
FLASHBACK OFF.
Falhei. Achei que eu conseguiria protegê-la de tudo isso. Any me afundou em toda essa anestesia de sentimentos que me iludiram a achar que só amor é suficiente, que só o fato de eu não querer que nada acontecesse com ela fosse o suficiente para ela ser protegida e poupada de tudo. Mas não é assim que a vida real funciona.
Desperto dos meus pensamentos quando a minivan para e a equipe me olha como se estivessem esperando ordens, mas eu também estava perdido. Eu não sabia o que fazer. Só sei que quero matar Peter, só isso.
— Ele está aí. — Claire gesticula para uma casa de classe baixa de apenas um andar ali.
— Me dêem cobertura. — Digo após pigarrear para me livrar do nó na garganta. — Agora seremos apenas eu e ele.
Nós deixamos a minivan. Claire, Chris, Brad e James se espalham ao redor da casa para me darem a cobertura. Destravo minha arma e caminho em passos firmes em direção a casa, podendo sentir meu sangue ferver de raiva.
Entro na casa com minha arma em punho, encontrando Peter de costas para mim e de frente para uma lareira. Meu dedo paira no gatilho enquanto mantenho ele na minha mira.
— Observe mesmo o fogo, tem muito disso no lugar pra onde eu vou te mandar. — Digo entredentes, anunciando minha presença ali.
Peter demora alguns segundos antes de se virar de frente para mim, e faz isso lentamente. Ele levanta suas mãos como se estivesse se rendendo e continua sustentando nossas trocas de olhares.
— Você não vai querer fazer isso, Urrea. — Peter tenta. — As consequências serão pesadas demais, você sabe disso. Isso não trará a Any de volta, só te afundará mais.
Disparo um tiro em sua direção quando ele pronuncia o nome de Any, acertando seu ombro. Peter geme de dor e leva sua mão até o local atingido.
— Eu avisei que se você a machucasse eu te mataria. — Rosno. — Podem me matar logo em seguida mas você vai morrer, nem que seja a última coisa que eu faça.
— Então aperte o gatilho, Urrea. — Ele me desafia.
A morte parece muito pouco para ele. Peter merecia ser torturado todos os dias até decidir se matar por não aguentar mais. Mas era o que Any queria, ela o queria morto. Eu preciso fazer isso por ela, pra que ela tenha paz onde quer que ela esteja por saber que esse filho da puta estará pagando pelos seus pecados no inferno.
— Te vejo no inferno, filho da puta. — Digo com ódio.
Aperto o gatilho mais uma vez, dessa vez acertando o centro da sua testa e vendo o seu corpo sem vida cair no chão, me trazendo um alívio momentâneo.
Brad entra na casa ao ouvir o tiro e vai até Peter, checando sua pulsação para garantir sua morte.
— Temos que ir antes que a polícia apareça. — Brad avisa, passando por mim ao sair da casa.
Engulo em seco, ainda parado na mesma posição de antes. O alívio que eu senti ao matá-lo não foi capaz de acalmar a dor pela morte da minha namorada. Uma parte de mim, a parte que ainda tem esperança de tudo ser apenas a porra de um sonho, estava se agarrando a essa última esperança de que Any apareceria milagrosamente na minha frente assim que eu puxasse o gatilho, que eu fosse acordar assim que Peter estivesse morto. Mas isso não aconteceu. Era tudo real, não era um sonho ou a porra de um conto de fadas.
A única pessoa que eu amei a minha vida inteira estava morta. Any tinha morrido por minha culpa e eu não poderia fazer nada para mudar isso.
— NOAH! NOAH! — Claire entra na casa gritando pelo meu nome, ela parece atônita quando para na minha frente ofegante com seu celular na sua mão. Seus olhos estão lacrimejando.
— Fala logo, vai ficar me olhando com essa cara de lesada pra sempre? — Resmungo, afastando a vontade de chorar e meu sentimentalismo mais uma vez.
— O hospital me ligou. — Ela fala. — Any deu entrada lá há mais de uma hora e ela está entrando no centro cirurgico agora.
— Como? — Semicerro os olhos para Claire, eu não estava no clima das suas piadinhas. — Any está morta, eu chequei sua pulsação. Ela morreu.
— Ela teve uma parada cardíaca, os médicos que chegaram na ambulância animaram ela com o desfribilador e ela voltou a respirar com a ajuda de aparelhos e foi levada para uma cirurgia de emergência. O tiro não foi certeiro, ela se salvou por milímetros de que ele acertasse o seu coração. — Claire abre um pequeno sorriso. — Any vai ser operada agora e o médico que falou comigo pelo celular disse que ela tem chances de sair viva da cirurgia. — Ela continua. — Any ainda está viva, Noah.
Any ainda está viva.
Porra!
Minha namorada estava viva!
— Vamos para o hospital agora! — É a única coisa que eu consigo dizer, completamente atônito com a situação.
•
Ando de um lado para o outro no hospital, já fazem algumas horas desde que a cirurgia da Any foi realizada e tecnicamente deu tudo certo, eles só estavam a esperando acordar para ter certeza de que não foi deixada nenhuma sequela. A anestesia podia deixar de fazer efeito a qualquer momento e Any finalmente acordaria.
Eu não tinha saído do hospital por um minuto sequer, mesmo com todos da equipe me dizendo que eu deveria descansar um pouco para vê-la. Claire trazia minhas roupas para que eu tomasse banho no hospital mesmo. Ninguém arriscou me mandar embora, mesmo sabendo que eu estar aqui agora é perigoso já que agora sou duas vezes mais caçado depois que matei Peter.
James segura em meu ombro para me fazer parar de andar igual um tonto de um lado para o outro.
— Relaxa aí, Urrea. Você está me deixando tonto.
— Ela está viva, James. — Digo, suspirando. — Tem noção disso? Eu não a perdi.
— Eu espero que você dê valor a essa segunda oportunidade que a vida está te dando e faça as coisas certo dessa vez. — Ele me aconselha. — Deixe-a saber que você a ama pra caralho, não fale isso pra ela só quando uma coisa horrível acontecer.
Antes que eu o responda o médico que está cuidando da Any aparece, a equipe toda se aproxima.
— E aí? — Pergunto quando ele está perto o suficiente.
— A cirurgia foi um sucesso. — Ele informa e todos comemoram, eu apenas solto a respiração. — Any aguentou firme, ela acordou e passa bem. Vou permitir uma pessoa por vez no quarto.
Os caras me incentivam a ir até lá e eu não demoro a começar a fazer o caminho até o quarto dela, respiro fundo antes de girar a maçaneta e entrar, encontrando-a deitada na cama. Any tem vários fios conectados em seu peito, um sorriso surge em seus lábios quando ela me vê ali e eu sinto como se estivessem devolvendo minha paz.
— Eu prometi que ficaria tudo bem, não prometi? — A voz dela soa e eu sinto meu coração disparar.
Me aproximo da cama sentindo uma felicidade surreal me invadir só por vê-la ali, por vê-la bem.
— Caralho, garota, você me deu um puta susto! — Resmungo, ouvindo sua risadinha. — Sério, Any, se você fizer isso de novo eu mesmo te mato!
— Parece que alguém não gostou muito da ideia de ficar sem mim. — Ela cantarola.
— Eu não suportei essa ideia. — Admito, suspirando.
Sento ao lado do seu corpo, segurando sua mão que descansava em sua barriga e entrelaçando nossos dedos, me acalmando completamente.
— Sabe, quando você ficou inconsciente eu disse umas coisas... — Começo.
— Foram ruins? — Any faz uma careta e eu rio, negando.
— Depende do seu ponto de vista. — Zombo.
— Me deixe saber. — Ela pede, curiosa.
— Eu disse que eu te amo. — Confesso, vendo Any entreabrir a boca em total supresa por ouvir as três palavras virem de mim. — Eu amo você, Any. Eu amo você desde quando eu não te deixava ir porque a possibilidade de seguir a vida sem você me assustava pra caralho, desde quando eu tirei sua virgindade e fingi que não foi grande coisa, desde quando eu surtei por ver você com outro, desde quando você disse que me amava mas eu era a porra de um covarde e não disse de volta. Eu amo você desde sempre. E eu sinto muito por ter esperado essa merda toda acontecer para conseguir admitir tudo isso pra você.
Any se emociona como a menininha que ela é a ponto de seus olhos lacrimejaram. Ela sobe sua mão para minha nuca e me puxa para perto dela, cobrindo seus lábios com os meus. Uma explosão de sentimentos acontece ali, toda a paz que tinha sido retomada a mim quando soube que ela estava viva se manifesta e eu a beijo de volta como se não quisesse parar nunca mais, e eu não queria.
Ela corta o beijo com um selinho demorado, mantendo seus lábios próximos aos meus.
— Eu amo você, babaca. — Ela sussurra contra meus lábios, me fazendo voltar a beijá-la.
F i m
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