48 - Daddy Issues

48
Any Gabrielly
New York, NY

Eu e o homem de pé na minha frente estávamos em choque com o que Noah tinha acabado de revelar. A revelação foi tão surpreendente que parece ter tido um efeito anestésico nos meus machucados, eu não estava sentindo mais nada e meus pensamentos estavam todos silenciados. Nada estava fazendo sentido pra mim. Esse é algum plano de Noah para nos tirar dessa e ele esqueceu de me avisar? Quero dizer, meu pai está morto.

- O quê? - Pronuncio as palavras, saindo do meu transe.

Noah parece atordoado. O ferimento em sua bochecha ainda escorre sangue mas ele não parece ligar nem um pouco com seu estado atual, ele parece apenas preocupado. Peter olha para mim meio perdido, me encarando como se estivesse estudando todas as minhas características. Eu não sei como reagir nesse momento, apenas desvio meus olhos dos dele e olho para Noah a procura de respostas para isso.

- Any, é uma longa história... - Ele começa mas é interrompido pela risada nasalada de Peter.

Peter roda o canivete em seu dedo indicador e se afasta de mim, ainda me encarando mas agora seu olhar está mais frio.

- É uma história engraçada, eu acredito. Na verdade, será uma honra explicá-la para você, filhinha. - Peter pronuncia a palavra com certo desgosto. - A sua mãe, Miranda, era minha namorada há anos atrás. Nós tínhamos essa mesma merda que você tem com o Urrea, até ela achar que suportar o peso que eu carregava nas costas era demais para ela. Sua mãe simplesmente me largou depois que você nasceu, ela sumiu no mundo com você e desde então eu venho procurando vocês duas. E parece que eu acabei de achar não é mesmo...

- Não, isso não faz sentido. - Balanço a cabeça em negativa. - Meu pai está morto! Ele morreu quando eu nasci... Ele... Não é você! Minha mãe não me esconderia isso.

- Foi isso que ela inventou para você? - Peter ri. - Miranda sempre foi uma vadia traiçoeira, querida. Lide com isso.

Eu realmente queria que minha mãe estivesse aqui agora, talvez ela pudesse esclarecer tudo. Ou não. Noah não brincaria com algo sério e suas acusações sempre tem provas então isso só pode ser real... A realidade é que eu vivi uma mentira durante toda minha vida. Meu pai estava vivo o tempo todo e minha mãe sabia disso, mas escondeu de mim e ainda mentiu.

Como era suposto eu ficar agora? Meu pai está mesmo na minha frente após me sequestrar e me ferir. Meu namorado está na mesma situação que eu, e ainda descobri o segredo que ele escondeu de mim. Está tudo desabando em mim de uma vez só e é como se eu não pudesse suportar o peso de tudo isso. As minhas certezas sobre minha própria vida agora não valem mais de nada.

- E você quer a parte mais cômica? Eu vou contar então para você o que eu entendi sobre tudo isso... - Peter se vira para mim mais uma vez com um sorriso demoníaco no rosto. - Noah descobriu que você era a filha que eu procurava antes de mim e isso coloca sentido em tudo... É por isso que Noah Urrea se tornou um apaixonado por você. Na verdade, isso é só mais um plano dele. Parabéns por ter sido enganada, querida.

Junto tudo o que Peter acabou de despejar, me sentindo cada vez mais sem ar. Olho para Noah procurando qualquer coisa que anulasse o que Peter está falando mas não encontro nada além de um olhar impassível de sua parte, o máximo que ele faz por mim é negar com a cabeça.

Como todo o meu mundo está desabando tão depressa? Sinto meu coração doer com tudo isso, bem mais do que minha coxa dói com meu ferimento atual. Como Noah pôde? Como ele pôde me envolver em toda essa merda dele? Por mais que possa parecer tolice da minha parte, eu realmente não esperava isso dele. Noah sempre foi honesto em relação ao que sentia por mim, ele nunca mentiu sobre algo que sentia mesmo quando isso me magoava e por isso eu não entendia como ele podia ter brincado comigo dessa forma. Então eu sou apenas parte de um plano dele contra seu inimigo?

- Any, não pense demais sobre isso - Noah desperta minha atenção. - É isso o que ele quer. Você ser minha namorada não tem nenhuma relação com sua paternidade!

As lágrimas escorrem dos meus olhos sem restrições e eu já não sei mais no que pensar, já não sei mais no que acreditar que seja real.

- Saber que você é minha filha torna isso tudo ainda mais interessante. - Peter sorri, deixando o canivete no seu devido lugar no armário. - Sempre sonhei com esse dia. O dia em que eu poderia matá-la por você ter feito Miranda se separar de mim. Mas eu vou deixar você para depois, tudo bem? Seu namoradinho vai primeiro. Vai ser mais divertido se você sofrer um pouco vendo quem você ama indo embora, como você fez comigo!

Peter realmente acreditava que eu era a culpada pelo fim do seu relacionamento com minha mãe? Eu não tenho culpa se com o meu nascimento ela tivesse repensado sobre sua vida e decidido que seria melhor deixá-lo. Noah pensou que ao revelar que eu era a filha que ele tanto procurava faria Peter me poupar de todo esse sofrimento mas na verdade será o contrário, agora sim ele vai querer me ver morta da maneira mais sofrida possível.

Eu vou morrer pelas mãos do meu próprio pai.

Solto um grito sufocado quando Peter acerta um soco no rosto de Noah com tanta força que eu ouço algum osso seu estalar. E agora eu estava entendendo que nós inverteríamos os papéis, agora eu seria obrigada a assistir enquanto Noah sofre.

Peter volta até o seu armário, tirando de lá agora um soco inglês. Ele coloca o objeto em sua mão e, sem delongas, acerta mais um soco no rosto de Noah, fazendo-o cuspir seu próprio sangue e causando um novo machucado em seu lábio inferior. Peter não espera uma recuperação e dá um segundo soco no mesmo lugar, fazendo o ferimento aumentar.

- Para! - Eu grito rouca graças ao choro quando Peter se prepara para mais um soco. - Por favor!

Peter ri da minha cara, limpando seu soco inglês sujo de sangue na camisa de Noah.

- Para de ser idiota, Any. - Ele solta mais uma risada. - Vai mesmo defendê-lo? Você deveria estar querendo ver o sangue dele nesse momento. Qual é, ele mentiu pra você, garota.

- Posso ser sua filha mas isso não nos torna iguais. Eu nunca desceria ao seu nível de resolver as coisas. - Cuspo as palavras.

Noah tem os lábios ensanguentados e me repreende com o olhar, como se estivesse me mandando calar a boca e eu faço isso.

Dois capangas de Peter entram no cômodo com pressa e Peter se afasta para falar com eles. Ele olha para nós dois com ódio antes de se retirar do cômodo na mesma pressa que seus capangas entraram, nos deixando sozinhos novamente. Suspiro um pouco aliviada.

- O que será que aconteceu? - Murmuro.

- A equipe deve ter chegado e Peter correu como o rato que é. - Noah resmunga de volta, cuspindo mais sangue no chão assim que termina de falar.

Nós voltamos para o nosso silêncio, não tinha nada para ser falado ali. Na verdade, eu sentia que nós dois estávamos apenas querendo adiar a conversa que nós teríamos que ter mais cedo ou mais tarde. Não estamos em condições de gritar um com o outro agora então o silêncio é a melhor opção.

A porta do cômodo é aberta mais uma vez e eu respiro aliviada ao ver os rostos familiares entrando ali. James vai até Noah para desamarrá-lo e Brad vem até mim para fazer o mesmo. Meus pulsos doem quando são soltos das cordas e a primeira coisa que eu faço é acariciá-los enquanto Brad tenta soltar as cordas que prendem meus tornozelos.

Noah vem até mim quando está solto e eu me surpreendo quando ele me pega no colo, se lembrando do ferimento em minha coxa.

- Vamos logo dar o fora daqui. - Noah diz para os caras e alguns seguranças que estavam ali.

Quando saímos da espécie de cabana abandonada no meio da floresta damos de cara com os carros ali. Noah me coloca deitada no banco traseiro de um carro e evita contato visual comigo quando fecha a porta. Eu esperava que ele fosse no mesmo carro que eu mas afasto essa ideia quando o vejo entrar no carro ao lado e um segurança entra no lugar do motorista no carro que estou.

O ferimento na minha coxa ainda arde e parece latejar, meus pulsos estão com algumas queimaduras e cortes causados pelas cordas e meu pescoço ganhou um novo corte pequeno porém tenho minhas suspeitas de que deixará cicatrizes.

Encaro o meu corpo no espelho do banheiro assim que saio do banho, podendo ver melhor todas as marcas que as últimas horas me deixaram. Deslizo meu dedo indicador com cuidado pelo pequeno corte em meu pescoço, podendo sentir a dor dele. Não dor física e sim emocional. Meu próprio pai estava mesmo prestes a me matar, ele realmente queria fazer isso.

Vejo pelo reflexo do espelho Noah escorado na porta me observando e eu rapidamente puxo a toalha de volta para mim, enrolando-a em meu corpo. Olho para ele por cima do ombro antes de voltar a encarar nosso reflexo no espelho. Noah também tinha suas novas marcas. Seu lábio inferior estava com um machucado que seguia até o cantinho da sua boca, a parte abaixo do seu olho estava arroxeada e sua bochecha tinha um corte.

Quando chegamos na mansão ele foi para seu quarto e eu optei por vir tomar banho no quarto de hóspedes. Precisava de alguns momentos sem Noah ao meu redor para conseguir pensar, conseguir entender tudo o que aconteceu na cabana.

- Eu nunca menti pra você - Ele diz baixo, com sua voz saindo rouca. - Você sabe que não. Se eu estou com você agora é porque eu quero, não por causa de um plano. Você não faz parte de um plano pra mim, Any, você é mais que isso.

- Por que você não me contou?

- Eu não achei que isso precisaria vir à tona. Sua mãe estava escondendo isso de você por algum motivo e ela só quer o seu bem então eu pensei em deixar isso baixo também, eu também quero te ver bem. E eu não sabia as intenções de Peter com você, hoje eu confirmei que são as piores possíveis. - Ele esclarece. - No começo eu pensei em usar tudo isso ao meu favor, usar você ao meu favor... Mas tudo saiu do controle e quando eu vi já estava completamente louco por você e a única coisa para qual essa informação servia era para eu te proteger ainda mais dele.

Me viro de costas para o espelho, me encostando no mármore.

- Noah, você é a minha única certeza agora. - Praticamente balbucio. - Se você não puder retribuir tudo isso eu te peço que me deixe ir. É demais para mim! Eu preciso estar com alguém que seja meu apoio nessas horas porque, porra, eu estou destruída! Se você não pode ser esse alguém, me deixe ir.

Noah se aproxima devagar como se estivesse decidindo se é seguro a essa altura. Ele segura minha cintura coberta pela toalha e me puxa para cima, me colocando sentada no mármore e ficando no meio das minhas pernas. Ele segura meu rosto da maneira mais delicada que consegue e beija meus lábios brevemente.

- Eu sempre vou estar nessa com você, Elly. - Ele jura.

- Estou com medo do que ele pode fazer contra mim. - Confesso, suspirando. - Você viu como ele guarda ódio? Ele só vai se sentir bem quando me matar.

- Ei, bebê, relaxa aí. - Noah beija meu ombro desnudo. - A única pessoa que pode te matar sou eu, ninguém mais. Peter nunca mais te machucará.

- Nós não podemos garantir isso.

- Eu posso garantir isso. - Ele diz sério. - Nunca o deixarei te machucar novamente. Você não precisa se preocupar quanto a isso.

Enrolo meus braços ao redor do seu pescoço e o puxo para mais perto, para um abraço. Ele abraça minha cintura e me puxa mais para a borda do mármore apenas para me ter mais perto. E eu fico ali, apenas na paz do seu abraço como se todos os problemas tivessem desaparecido e tudo estivesse certo novamente.

Mas não estava. Nada estava certo. A minha nova realidade estava ali, eu não poderia fugir dela dessa vez.

- Eu preciso ir pra casa. - Murmuro ao desfazer nosso abraço.

- Não precisa ser agora.

- Noah, eu saí ontem e não voltei mais. Minha mãe deve estar louca atrás de mim.

Desço do mármore e caminho para fora do banheiro, sendo seguida por Noah. Eu passo rápido pelo corredor apenas de toalha e entro no quarto de Noah, ele entra depois de mim e fecha a porta.

Eu não tinha muitas peças de roupa aqui no closet de Noah, apenas algumas roupas íntimas e um único short jeans. Coloco a minha roupa íntima azul e o short jeans, colocando também uma camisa de manga comprida branca de Noah que bate no meio das minhas coxas.

- Quer que eu te leve até lá? - Noah oferece e eu aceno com a cabeça positivamente.

Quando eu volto para o quarto, Noah me empurra para que eu fique sentada na cama e eu o olho confusa. Ele se abaixa e coloca o kit de primeiros socorros no chão, levantando a camisa que eu visto para ver o ferimento em minha coxa.

- Isso provavelmente vai arder mas se você abrir a boca chorando eu juro que jogo álcool puro nessa merda. - Ele avisa.

Noah pega um algodão com remédio e passa em meu machucado para limpá-lo, a ardência me faz estremecer e eu mordo meu lábio inferior. Ele olha para minha expressão com certa diversão em seu olhar e eu reviro os olhos. Noah parece concentrado enquanto limpa todo o corte, logo fazendo um curativo nele.

Levanto quando minha coxa está devidamente enfaixada e sorrio para ele em agradecimento, o mesmo apenas ignora e empurra o kit para debaixo da cama.

Nós vamos até a garagem juntos em silêncio, entrando no carro da mesma forma. Noah parece concentrado agora no caminho, batucando seu dedo no volante provocando ruídos.

- Você acha que ele virá mesmo atrás de mim? - Pergunto baixo, quebrando o silêncio ali.

- Tenho certeza. - Ele dá de ombros como se não fosse grande coisa.

Noah está acostumado com tudo isso, está acostumado a ser rondado pelo perigo mas eu não estou. Eu estava fora dessa antes de conhecer Noah e ainda não aprendi a lidar com isso. Não tenho toda essa sua superioridade para acreditar que sou intocável, não tenho toda essa confiança para crer que irei sair ilesa dessa. Um sentimento ruim está presente em mim desde que vi como Peter me olhou, como se fosse o verdadeiro demônio.

- Quer que eu entre com você? - Ele pergunta, me fazendo abrir um sorrisinho por ver o quanto ele está se esforçando.

- Eu preciso fazer isso sozinha. - Me inclino para beijar seus lábios, Noah resmunga e se afasta, me fazendo lembrar do seu machucado. - Desculpe!

- Você é a porra de um desastre. - Ele reclama.

- Você gosta disso. - Dou de ombros e mando um beijo no ar antes de sair do carro.

Minha respiração parece pesar mais a cada passo que eu dou em direção a porta da minha casa. Respiro fundo antes de girar a maçaneta para entrar, tendo a visão da minha mãe sentada no sofá com a cabeça baixa. Ela levanta a cabeça com o barulho da porta se fechando e suspira aliviada antes de correr até mim.

- Graças a Deus, Any! - Seu alívio se transforma em preocupação assim que ela se aproxima o suficiente para ver o corte no meu pescoço, o que a faz me checar dos pés a cabeça e ver o curativo em minha coxa também. - O que aconteceu com você?

Ela estica o braço para me tocar e eu rapidamente o empurro, fazendo-a me encarar confusa.

- Por que você não me disse que meu pai está vivo? Por que você não me disse que Peter Anderson é meu pai?

Minha mãe parece paralisar com a minha pergunta, confirmando toda essa história com sua reação.

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