46 - Date night

46
Any Gabrielly
New York, NY

Noah fez reserva no melhor restaurante da cidade. Já tinha afastado o mau pressentimento de mim assim que me sentei na mesa posta para dois, com uma linda vela decorativa no centro.

Ele estava mesmo se empenhando, nenhum comentário rude foi feito da sua parte e ele até pediu por mim um dos pratos do cardápio tentando parecer um cavalheiro. Seus ombros estavam relaxados, é raro não encontrar rastros de preocupação em suas feições mas dessa vez eu não as encontrei.

Noah me encara com um sorriso presunçoso, obviamente esperando por elogios. Ele sabe ser incrível quando quer, e ele sabe disso. Ele mesmo alimenta seu próprio ego. Posso apostar que ele está se gabando em sua mente.

— Certo, tenho que admitir que você está me surpreendendo. — Suspiro, desistindo do nosso pequeno jogo de olhares.

— Isso deve estar servindo pra você reforçar a ideia de que eu sou perfeito. — Ele se gaba.

— Tudo bem, já entendi. — Resmungo. — Não me faça querer espetar você com esse garfo por estar sendo um convencido.

— Me espetar com o garfo? — Noah arqueia a sobrancelha, o sorrisinho não se desfaz em seus lábios. — Essa é sua melhor ameaça, Any? Sério? Será que você não aprendeu nada comigo?

— Eu disse que espetaria, não disse onde. Estava pensando em sua jugular, para causar uma morte por hemorragia ou algo assim. — Dou de ombros, acabo sorrindo também quando o sorriso dele vai de presunçoso para orgulhoso. Noah gosta desse humor negro.

— Agora sim você está falando como minha namorada! — Noah dá uma breve risada e um sorriso idiota aparece em meu rosto.

Ele nunca tinha se referido à mim como namorada, até agora. Pode parecer algo tão pequeno mas diante de tudo que passamos até que eu conseguisse ocupar esse lugar faz disso algo especial. Dessa vez eu não sou a única que está levando isso a sério.

— Tenho uma coisa pra você. — Ele chama minha atenção enquanto vasculha o bolso de dentro do seu paletó, tirando de lá uma pequena caixa de veludo.

— Oh meu Deus! Noah! Isso é mesmo real?

— Qual é, Any. Não faça o papel da adolescente histérica agora. — Ele revira os olhos com diversão.

Noah abre a caixinha de veludo, revelando um lindo anel de diamantes. Julgando pela grande pedra de diamante no topo eu posso garantir que esse anel vale mais do que a minha casa. Pego a caixinha com um sorriso no rosto, pegando o anel para analisá-lo melhor. É maravilhoso! Revestido com diamantes e com as iniciais de Noah na parte de dentro. Não demoro mais tempo e coloco-o em meu dedo, notando o encaixe perfeito.

— Tudo bem, agora você realmente me surpreendeu. — Digo, deixando de olhar para o anel em meu dedo para olhar o rapaz em minha frente.

— Se acostume com isso. — Ele pisca pra mim.

O garçom se aproxima da mesa e coloca nossos pratos, ouvindo um agradecimento só da minha parte já que Noah é um imbecil mal educado.

Me sinto em um sonho agora. Noah mantém seu bom humor durante todo o jantar, não fazendo nenhum comentário rude que poderia me chatear. E a melhor parte nisso é como tudo isso está sendo tão genuíno, ele não parece estar se obrigando a isso, só está sendo ele mesmo com alguém que ele se sente a vontade para isso.

Trago a taça de vinho para os meus lábios, tomando um longo gole do vinho italiano. Ao deixar a taça na mesa novamente eu noto o olhar de Noah em mim.

— O que foi?

— Não sei se eu deveria estar deixando uma criança beber. — Reviro os olhos. — Não revira os olhos pra mim, você bêbada é um porre!

— Será apenas uma taça.

— Você é fraca pra bebidas, Elly.

— Isso não é verdade! — Abro a boca incrédula. Noah me olha com uma sobrancelha arqueada como se estivesse me pressionando. — Tudo bem, talvez não seja completamente mentira.

— Você não funciona sobre pressão. — Ele dá uma breve risada. — Isso vai me ajudar muito quando você tentar mentir pra mim.

— Eu nunca minto para você, nem mesmo tento.

— Qual é, Any. Esqueceu que sou profissional nisso? — Ele bebe um gole do seu vinho sem deixar de me encarar. — Sei que você acabou de mentir. Mas relaxa, todos nós temos nossas mentiras.

Me remexo desconfortável na cadeira. Minha consciência começa a pesar por estar escondendo dele tudo sobre Ethan. Eu sei o grande problema que isso se tornaria se ele soubesse a verdade, ou melhor: se ele soubesse a minha mentira.

— Mentiras em relacionamentos nunca dão certo. — Suspiro.

— Ok, podemos ajeitar isso. — Ele diz, semicerrando os olhos para mim. — Você pode começar contando as suas.

— Noah — Choramingo. — Você vai mesmo querer estragar nossa noite com isso? Podemos ter essa conversa outra hora.

Ele suspira, mas continua me encarando como se quisesse me deixar pressionada o suficiente ao ponto de me fazer confessar todos meus pecados. Seus dedos batucam a mesa, eu arrasto minha mão sobre a mesma até encontrar a sua e ele para de batucar os dedos quando os mesmos se entrelaçam com o meu.

— Para de me olhar assim. — Ele repreende.

— Assim como? — Questiono.

— Assim, como uma garotinha apaixonada. — Ele completa. — Você faz parecer como se eu fosse a melhor pessoa do mundo e nós dois sabemos que eu estou longe disso.

E o Noah idiota está aparecendo novamente.

Me calo e tento puxar minha mão mas ele a segura com mais força, suspirando.

— Foi mal. — Noah acaricia minha mão com o polegar. — Eu estou tentando. Mas eu me sinto um filho da puta quando você me olha desse jeito.

— Não consigo te olhar de outro jeito. — Murmuro.

— Sinto uma puta vontade de te agarrar quando você faz essa cara de inocente. — Um sorriso volta a aparecer em seus lábios. — Não tem noção de como estou me controlando desde que vi você nesse vestido.

— Se não fizesse algum comentário safado, esse não seria você.

Os ombros de Noah se tensionam de repente e ele olha por cima do mesmo, encarando algumas pessoas do restaurante. Quando ele volta a olhar pra frente eu percebo seu esforço para tentar parecer tranquilo, aperto sua mão para atrair sua atenção.

— Há algo errado?

— Não. Nada. — Ele responde rápido, suspirando logo em seguida. — Você sabe que a situação está ruim para o meu lado, então eu ando mais neurótico do que o comum. Não quero que algum filho da puta estrague a nossa noite ou consiga chegar até você.

— Deixa isso pra lá. Vamos nos concentrar em nós dois agora. — Sorrio. — Ninguém vai estragar nossa noite.

Noah suspira antes de assentir, seus ombros relaxando novamente.

— Que tal darmos o fora daqui? — Ele sugere, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios. — Estou curioso pra saber o que tem embaixo desse vestido.

— Seria um prazer matar sua curiosidade. — Pego a minha taça e bebo o resto do vinho sem quebrar o contato visual.

Noah fecha a conta do restaurante e nós seguimos para a entrada, onde o manobrista devolve a chave do carro. Nós ocupamos nossos lugares e Noah acelera para longe dali enquanto eu ligo o rádio, mesmo sem sua permissão.

Sinto sua mão em minha coxa e viro meu rosto para olhá-lo, ele abre um pequeno sorriso e aperta minha coxa com uma mão enquanto segura o volante com a outra.

Fico olhando através da janela enquanto sinto a mão de Noah acariciar minha coxa, a estrada vazia e escura é iluminada apenas pelo farol do carro. Olho para o novo anel em meu dedo e giro o mesmo por distração.

— Você sabe, vou ficar bem puto se um dia eu ver você sem ele. — Noah consegue minha atenção, se referindo ao anel.

— Pode ficar tranquilo, não tirarei ele do dedo. — Digo com diversão, me inclinando para depositar um beijo em seu rosto.

Vejo pelo retrovisor dois carros entrarem na mesma pista que estamos, continuo brincando com o meu anel enquanto encaro os carros pelo retrovisor. Vejo os carros se separarem e se posicionarem um de cada lado do nosso carro, como se estivessem iniciando uma perseguição.

Olho para Noah e o mesmo parece distraído demais com seus pensamentos, seus olhos fixos na estrada. Ele não reparou os carros.

— Noah — Chamo sua atenção, ele olha rapidamente para mim antes de voltar a encarar a estrada. — Acho que não estamos sozinhos.

Noah une as sobrancelhas em confusão mas entende quando olha os carros pelo retrovisor.

— Puta que pariu.

Ele segura o volante com mais firmeza e afunda ainda mais o pé no acelerador, com uma mão ele tateia o porta-luvas até conseguir abrí-lo, tirando de lá uma arma e jogando-a em meu colo. Arregalo os olhos para o objeto em minhas coxas.

— Noah — Digo um pouco desesperada demais.

— Não é hora de surtar. — Ele me repreende. — Está na hora de aprender a usar uma arma, bebê.

— Não é assim que funciona! Eu não consigo, isso é demais pra mim. — Falo rápido demais por causa do meu nervosismo.

— Any, eu estou dirigindo então você vai ter que parar com essa porra e aprender a usar um objeto pra se defender.

Engulo em seco e pego a arma, Noah me diz o que eu tenho que fazer para usá-la e eu sigo. Destravo a arma quando vejo os carros se aproximando mais, um de cada lado do carro nos cercando. Noah aumenta ainda mais a velocidade do carro, o que não parece adiantar já que os dois carros que nos seguem parecem ser tão rápidos quanto ele.

Reprimo um grito quando o carro que nos cerca pela direita bate no nosso carro, bem no lado em que eu estou. Felizmente Noah parece acostumado a lidar com situações como essa já que ele consegue dominar a direção do carro. Ele parece mais preocupado com o que pode acontecer comigo do que com o resto, ele não é novato nisso e não é a primeira vez que isso acontece com ele mas eu posso ver que ele está temendo por mim. Noah está realmente preocupado comigo, eu posso sentir isso.

— Abaixa. — Ele diz em um tom autoritário e puxa a arma da minha mão sem cuidado algum.

Apenas sigo o que ele falou e me abaixo no banco, ficando de cócoras no assoalho do carro.

O primeiro tiro é disparado, e pelo xingamento que Noah solta eu posso concluir que não partiu da sua arma. Ele abre o vidro do carro e aponta a arma para fora, fazendo vários disparos seguidos enquanto se preocupa também em não perder a direção do carro. Ouço sua reclamação quando descobre que os carros são blindados. O estranho nisso tudo é que os caras no carro não tentam revidar os tiros.

Depois de algum tempo na mesma posição, usando minhas mãos para tapar meus ouvidos,  eu volto para o banco por não estar mais ouvindo sons de tiro. Os carros que nos cercam aceleram mais e vão na nossa frente, o maxilar de Noah trava.

— Merda. — Ele pragueja ao mesmo tempo que pisa no freio.

Tenho que me segurar no painel para não bater a cabeça por causa da freada brusca. Os dois carros que antes nos cercavam agora bloqueiam a pista para impossibilitar nossa passagem. Noah recarrega a arma que está em sua mão com uma habilidade invejável, apontando a mesma para um dos caras que sai do carro.

— Não pense com a bunda, Urrea. — O homem parado na frente do nosso carro diz, ele parece relaxado mesmo sob a mira de Noah. — Você não vai atirar em mim.

— Como pode ter tanta certeza? — Noah desafia.

— Porque, se você atirar em mim, estará dando sinal positivo para matarem sua garota. — Ele diz, se referindo à mim.

Noah vira para me olhar, engolindo em seco antes de voltar a olhar pra frente e abaixar a arma. Fico confusa com a sua reação mas entendo ao olhar meu reflexo no espelho, uma pequena bolinha vermelha no meio da minha testa indicando que eu estou na mira deles. Minha respiração falha ao ter noção do perigo que estou correndo agora.

— Que porra você quer? — Noah diz entredentes.

— Por que não sai do carro com ela para conversarmos melhor? — O homem mantém um sorriso perverso nos lábios.

Noah olha para mim como se estivesse confirmando que seria isso que iríamos fazer, eu rapidamente nego com a cabeça quase desesperada. Esse seria o primeiro passo para nossa morte, não? Como Noah poderia estar nos entregando tão fácil assim? Ele pode estar acostumado a brincar com a vida dele mas eu não estou. Não é sempre que eu me encontro em uma situação como essa.

— Any — Noah praticamente sussurra para que apenas eu consiga ouvir. — Confia em mim, tudo bem? Eu só estou tentando proteger você.

— Me proteger me entregando de bandeja para esses caras?

— Só vamos sair do carro, porra. — Ele diz entredentes. — Tem a porra de um alvo na sua cabeça, não podemos arriscar. Só confia em mim, eles não vão fazer nada com você.

Engulo o choro antes de assentir, sentindo meus olhos marejados. Tento abrir a porta para sair do carro mas Noah segura meu pulso com força antes que eu consiga completar minhas ações, ele puxa a minha mão para a luz e olha para o anel em meu dedo antes de me soltar e sair do carro sem falar mais nada. Seco a lágrima que escorre em minha bochecha e respiro fundo antes de sair do carro.

Me apresso em ir para perto de Noah como modo de proteção, ele segura minha mão e entrelaça nossos dedos, me dando um olhar reconfortante antes de voltar a olhar para o cara em nossa frente.

— Vamos acabar logo com essa merda. — Noah diz com frieza. — O que vocês querem?

— Vocês virão com a gente. — Aperto mais a mão de Noah.

— Vamos deixar a garota fora disso. O problema de vocês é comigo, não é? Então vamos resolvê-lo, mas ela fica fora dessa.

— Isso já passou de ser um problema apenas nosso. — O homem ri, enterrando as mãos no bolso da calça. — A garota também vai. Só vamos dar um passeio.

— Deixa ela fora dessa. — Noah fala pausadamente, posso ver sua raiva aumentar ainda mais e posso sentir isso também já que ele aumenta o aperto em minha mão.

— Pagar de apaixonado que se importa não combina com você, Urrea. Vamos parar com isso e ir logo porque não tenho a noite toda. — O homem ameaça vir até a gente e Noah é rápido em puxar sua arma do cós da calça e apontá-la para ele.

— Se você tocar um dedo nela eu juro por Deus que acabo com sua vida.

— Não use o nome de Deus em vão, Urrea. — Ele estala a língua no céu da boca. — Vai ser por bem ou por mal. Você pode escolher.

— Eu já disse que ela não vai a lugar nenhum. Deixa ela fora disso, porra.

E então tudo aconteceu rápido demais.

Um dos caras que estavam lá chegou perto de Noah sem ser notado e tirou a arma de sua mão, aproveitando para dar uma coronhada em sua cabeça, o que o deixou desnorteado. O meu grito foi tão alto que fez um eco na estrada deserta. Um outro cara me puxou pelo braço para longe de Noah, me obrigando a soltar sua mão.

A essa altura as lágrimas escorriam dos meus olhos sem restrições. Me debato nos braços do cara que tenta a todo custo me imobilizar enquanto grito por socorro, mesmo sabendo que tudo isso será em vão.

— Faz essa garota calar a boca, pelo amor de Deus. — O homem que antes "conversava" com Noah diz para o cara que me segura. — Mas não a machuque, precisamos dela bem.

— Solta ela. — O grito enfurecido de Noah chama minha atenção, mesmo com minha visão borrada por causa das lágrimas eu consigo vê-lo vindo em minha direção e o cara que tinha roubado sua arma estava agora no chão cuspindo sangue.

Me debato com mais força tentando escapar do aperto e correr para os braços do meu namorado mas isso só colabora para o cara me segurar com mais força e me machucar. Antes que Noah consiga chegar até mim um cara consegue chegar nele por trás e pressionar um paninho branco em sua boca e nariz. Noah tenta relutar para afastar a mão do cara mas isso é em vão, em seus olhos eu posso ver toda a preocupação que ele tem; ele não está preocupado com o que pode acontecer com ele e sim comigo.

Meu choro se intensifica quando eu vejo Noah cair na inconsciência e ser levado por dois caras para dentro de um dos carros que antes nos seguiam. Meu choro provoca soluços, eu não desisto de tentar me livrar das mãos do cara.

— Fica quieta, porra! — Ele esbraveja.

O homem para na minha frente com um sorriso cínico, ele passa sua mão em meu rosto e tenta secar minha lágrima mas eu uso essa oportunidade para morder sua mão. Ele trava sua mandíbula ao se livrar da minha mordida e usa a mesma mão para dar um tapa em meu rosto, que faz minha cabeça virar para o lado com o impacto e um grito trêmulo escapar de meus lábios.

— Já está na hora de acabar com isso. — O vejo tirar do bolso um paninho parecido com o que usaram para apagar o Noah. — Você está me fazendo perder a paciência e infelizmente eu não posso te dar uma lição então é melhor levá-la para quem pode.

— Não... — Digo quase em um sussurro. — Por favor, não...

O desespero toma conta de mim quando ele pressiona o paninho em meu nariz e boca, da mesma forma que fizeram com Noah antes. Me debato e tento mexer meu rosto para me livrar daquilo, mas tudo parece inútil. Lutar contra isso é inútil.

Minhas pálpebras pesam cada vez mais, eu tento me manter acordada mas meu corpo fica cada vez mais cansado, de uma forma que eu não tenho forças nem para me debater mais. O homem com um sorriso demoníaco enquanto me encara nos olhos e as lágrimas que deixam minha visão turva é a última coisa no meu campo de visão antes que eu caia na inconsciência também.

Notas Finais:
Bom feriadinho ❤️

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