24 - Any Blood

24
Noah Urrea
New York, NY

Merda.

Merda.

Merda.

Pelo barulho eu posso concluir que o carro capotou mais de três vezes. Quais as chances da garota estar viva? Any pode estar morta agora e não há nada que eu possa fazer para reverter isso. Não sei se vale a pena eu tentar descer até lá, não quero ter todo esse trabalho apenas para ver que ela está mesmo morta.

Puxo o meu cabelo tentando decidir logo e acabar com meu conflito interno. Bufo alto antes de abrir o porta-luvas do carro e pegar a minha arma ali, eu a prendo no cós da minha calça jeans antes de sair do carro. Ando até a beirada da estrada para tentar enxergar o carro ou o que sobrou dele, essa rua é iluminada apenas por alguns postes de luz. O relevo não é tão alto quanto eu esperava, mas também não é tão pequeno; é o meio-termo.

Consigo enxergar o carro no final do relevo, ele está capotado na entrada da mata. Eu preciso tirar o corpo da Any de lá antes que essa porra exploda e ela vire cinzas. Desço o relevo com cautela pra não me quebrar inteiro e corro até o carro que está de cabeça para baixo. Metade do corpo de Any está para fora e outra para dentro da janela do carro, seu rosto está coberto de sangue e ela está desacordada.

Me abaixo ao lado do seu corpo e checo a sua pulsação, ela ainda está viva. Essa filha da puta é sortuda pra caralho. Seguro em seus braços e puxo o seu corpo completamente para fora do carro, o cheiro de gasolina já está forte. Dou uma checada na altura da ribanceira em que eu desci e penso nas possibilidades de conseguir subir isso carregando ela, é meio impossível conseguir subir de volta sem nós dois cairmos.

O jeito seria ir pelo matagal e dar a volta para encontrar a pista, e assim andar ainda mais até chegar no meu carro. São quilômetros de distância e não seria nada legal percorrê-los carregando a Any, ela parece ser leve mas cansa depois de alguns minutos a carregando. Eu preciso dar um jeito de sair daqui com ela antes que o carro exploda, preciso de um plano rápido mas nada me vem a cabeça.

- Vamos, vadia. Acorda! - Dou um tapa fraco em seu rosto tentando fazê-la despertar. - Porra, Any!

Passo um de meus braços na dobra de seu joelho e o outro em seu pescoço, a pegando no colo. O certo seria eu não mexer nela porque eu não sei se ela está com alguma parte do corpo quebrada e nem a gravidade dos seus machucados mas ou é isso ou eu deixo ela virar cinzas ali. Começo a me afastar do carro segurando ela em meus braços mas eu paro quando escuto o som de um carro acelerando, o farol se aproxima cada vez mais. Quem diabos estaria dirigindo no meio do mato?

Minhas perguntas são respondidas quando o carro de James entra no meu campo de visão, ele freia abruptamente o carro quando me vê ali, o que causa um barulho já que ele estava em alta velocidade. James sai do carro, seu olhar se torna confuso quando ele vê Any em meus braços com o seu rosto coberto de sangue e desacordada.

- O que diabos você fez com ela, Urrea?

- Eu não fiz nada. - Reviro os olhos. - É uma longa história, eu te conto no caminho para o hospital. Que tal sairmos daqui agora antes que essa porra exploda? - Gesticulo com a cabeça para o carro capotado à alguns metros de distância.

Coloco a garota no banco de trás do carro de James antes de entrar no lugar do carona, James faz a volta com o carro e acelera para longe dali, indo pelo mesmo lugar que veio. Ele mantém uma velocidade mediana enquanto estamos no meio do mato, o som do carro explodindo não é tão alto porque nós já nos encontramos quase no final do matagal quando ele explode.

- Já pode me explicar que porra acabou de acontecer. - James quebra o silêncio assim que volta com o carro para a pista.

- Ela me enviou uma mensagem pedindo ajuda, pensei que era mais uma das idiotices dela mas quando eu cheguei em sua casa eu vi Ethan a colocando no carro. - Olho por cima do meu ombro para Any desacordada no banco de trás. - Eu o segui, eu tinha vantagem porque meu carro era bem melhor do que o dele. Ele me trouxe até esse atalho e foi quando eu me comuniquei com você porque eu sabia que era território rival e se eu estivesse ali sozinho eu ia me foder. E então eu fechei a pista para bloquear a sua passagem e obrigar ele a parar mas ele jogou o carro para fora da pista e capotou naquela ribanceira.

- Você checou a pulsação dela? - Volto a prestar atenção no caminho que James está percorrendo.

- Sim, ela está viva. - Confirmo. - Mas e você? Como me encontrou naquele matagal?

- Rastreei o seu carro e quando cheguei lá ele estava parado no meio da pista e você não estava lá, quando me aproximei da ribanceira eu vi um carro capotado no fim e deduzi que tinha dedo seu naquilo então eu fiz a volta para ir até a entrada do matagal e dirigi no meio daquele mato todo pra encontrar você, você me deve uma. - James esclarece. - Por sorte eu não estava tão longe quando você me ligou e cheguei lá a tempo.

O caminho até o hospital demorou uns vinte minutos, eu entro no hospital com Any em meu colo e James vai na minha frente gritando para trazerem uma maca para ela. Coloco o corpo desacordado da morena na maca assim que uma enfermeira se aproxima com uma, ela a leva para dentro de uma grande porta junto de um médico e uma outra enfermeira me pede para aproveitar o tempo de espera para preencher a ficha da Any.

Eu não tenho todas as informações que pedem na ficha então apenas coloquei o necessário: motivo da emergência, nome completo, idade e essas coisas obrigatórias. Me sento no sofá ao lado de James na sala de espera quando eu termino a ficha, eu poderia ir embora mas não vou fazer isso agora. A vadia pediu ajuda pra mim, ela esperava que eu a salvasse daquele filho da puta e eu só vou sair daqui quando me falarem que ela está ótima.

- Eu liguei para Claire e mandei ela ir buscar o seu carro. - James diz.

- Você contou o que aconteceu?

- Foi preciso. Você sabe como é a Claire e todas as suas perguntas. - Reviro os olhos. - Eu deveria estar te consolando agora, cara. Sua garota está desacordada.

- Não é como se eu me importasse com ela o suficiente, eu não preciso ser consolado.

- Se você não se importasse o suficiente você não estaria aqui ainda. - Ele rebate.

- É como se a Any fosse responsabilidade minha agora. - Bufo, encostando a minha cabeça na parede. - Ela só tem dezesseis anos e eu fodi com a vida dela, o motivo de ela estar aí dentro agora é indiretamente minha culpa. Me sinto responsável por ela e isso é ridículo.

- Você está se tornando um viadinho apaixonado.

- Nós dois sabemos que não estou nem perto de me apaixonar por ela. - Solto uma risada nasalada.

Eu não estou me apaixonando por ela e acho que nunca vou, mas talvez eu goste do que nós fazemos juntos. Já estive com várias outras garotas depois que ela apareceu, mas a Any consegue me deixar louco com mais facilidade do que as outras. Ela consegue mais de mim do que qualquer outra já conseguiu e talvez esse seja o motivo de eu não ter a abandonado até agora.

- Vocês são os acompanhantes da paciente Any Gabrielly? - Um médico se aproxima de nós e eu não me dou nem ao trabalho de me levantar da poltrona. Estamos há mais de uma hora esperando por alguma notícia.

- Sim, nós somos. Como ela está? - James pergunta, se levantando da poltrona.

- Não foi nada grave, ela está fora de perigo. Foi apenas um corte em seu supercílio que causou todo aquele sangue em seu rosto, foi necessário três pontos para fechar o ferimento. E ela também tem alguns ferimentos superficiais que provavelmente não deixarão nem marcas quando sarar e uma fratura na sua perna esquerda, nada que algumas semanas com a perna engessada não resolva. - O médico explica. - Acreditamos que o seu desmaio foi causado devido ao choque da batida, a pressão que teve e ela bateu a cabeça na hora. Ela vai dormir a noite inteira por causa dos medicamentos e estará sob observação, vou checar seus sinais vitais pela manhã e se tudo estiver certo ela já vai receber alta.

- Certo. Obrigado. - Eu tenho vontade de rir ao ver James sendo tão educado.

- E mais uma coisa, - Reviro os olhos quando ele volta a falar. - Any é menor de idade, algum de vocês é o responsável por ela ou devemos nos comunicar com seus pais?

- Eu sou o seu irmão mais velho, doutor. Já liguei para os nossos pais avisando tudo o que aconteceu. - James mente, o médico assente acreditando na sua mentira.

- É permitido apenas um acompanhante com ela no quarto, é só pegar o crachá na recepção. - O médico diz. - Eu volto mais tarde com mais notícias.

O médico volta a atravessar a grande porta branca, a mesma por onde levaram a maca da Any. James enterra suas mãos nos bolsos da calça e se vira para me olhar, ele levanta a sobrancelha para mim me deixando sem entender seus sinais.

- O que você está esperando, cara? - Ele diz. - Vai ficar no quarto dela.

- Eu estou bem aqui.

- Noah, vai logo lá. - James revira os olhos. - Vou ligar para Claire me encontrar aqui.

- Pra quê? Claire não precisa vir para cá.

- Claire vai trazer o seu carro até aqui e me fazer companhia. Eu sei que você não vai sair daqui até essa garota ter alta e eu também não vou, nós estamos juntos nessa.

- Essa merda está ficando muito sentimental para mim. - Faço um careta, me levantando da poltrona.

Eu pego um crachá de visitante e passo pela porta branca, ando pelo extenso corredor daquele primeiro andar a procura do quarto 21A. Entro no quarto, tendo a visão de Any deitada na cama do hospital com um curativo em cima da sua sobrancelha, com alguns fios ligados ao seu corpo e com sua perna engessada pendurada em uma faixa branca. Ela está desacordada do mesmo jeito de antes, a única diferença é que agora o seu rosto está limpo.

Me aproximo da cama devagar para poder examiná-la com os olhos. Ela tem um pequeno corte em seu lábio inferior, os seus lábios não estão avermelhados como o de costume. Fora isso ela está consideravelmente bem para quem estava em um carro que capotou várias vezes. Any é uma vadia sortuda, quando eu vi o carro capotando eu pensei que ela nem iria sobreviver e aqui está ela com apenas alguns machucados insignificantes.

A única coisa que tem nesse quarto para eu ficar é uma poltrona que parece ser desconfortável pra caralho, faço uma careta antes de me sentar ali sem deixar de observá-la. O que eu disse para James não era mentira, eu me sinto responsável por ela. Any teve a chance de mandar mensagem para a polícia ou qualquer merda desse tipo mas ao invés disso ela mandou para mim, ela esperava que eu fosse lá mantê-la segura.

Já tive uma conversa com Claire sobre ela e Claire me disse que Any estava criando ilusões em sua cabeça, ilusões do tipo amor. Segundo a ela, Any poderia estar se apaixonando por mim e se prendendo a todas as esperanças de que eu também poderia estar sentindo a mesma coisa por ela. Talvez seja por isso que ela tenha mandado mensagem para mim, em sua cabeça de uma garotinha de dezesseis anos existe todas essas histórias de desenhos onde o cara salva a mocinha e todas essas merdas clichês.

Não dou motivos para ela gostar de mim, é muito pelo contrário. Any só pode ser idiota se ela estiver realmente criando sentimentos e esperando que seja correspondido. Pelo menos eu não vou ser chamado de canalha no final disso tudo porque eu sempre deixei bem claro que não sinto nada por ela, e nem vou. Ela está se iludindo sozinha, eu não estou nem tendo trabalho.

Acho que nunca vou sentir nada por ela além de desejo.

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