Dança, paixão e sangue
Egito, VI A.C.
Atravessar o deserto durante o dia fora, em poucas palavras, uma péssima ideia. Com isso ela foi obrigada a me refugiar em uma gruta nas paredes rochosas e arenosas até que anoitecesse. Quando a noite invernal chegou, Abner preparou sua partida, montou em seu camelo e voltou à viagem até a cidade principal do Egito, Uaset, cidade dividida pelo rio Nilo entre Cidade dos Vivos e Cidade dos Mortos. Observava bem o lugar e algo a atraiu para a cidade dos mortos.
Em um dos mais estreitos becos, desmontou de seu camelo e o prendeu em uma estalagem. O ar daquele lugar era tentadoramente conhecido, havia luxúria e desejo vindo daqueles sorrisos e vozes sussurrantes. Entrou no local e imediatamente olhares pousaram sobre ela, pelas vestes poucos se importaram. Aparentemente mais um jovem querendo descobrir os prazeres da noite, já que era um rosto belo e sem barba, um molecote. Uma mulher envolta em véu se aproximou.
— Posso ajudá-lo? — Olhou-a de cima a baixo. — Como se chama, meu jovem?
Abner caminhou olhando o lugar e suas narinas dilataram sentindo aquele aroma maravilhoso, era o desejo e o sangue se misturando ao ar a sua volta. Olhou de lado para a mulher, estranhando-a a tratar como um homem. Olhou para as suas vestes, os lábios se abriram suavemente e o som de sua voz soou envolvente e encantadora:
— Abner...
— Abner?! Perdão, achei que fosse um homem, mas onde está seu véu? Por que usa as vestes de um homem? Não me diga que foi atacada no deserto?
Abner balançou suavemente a cabeça e confirmou que fora atacada e estava ali para se refugiar, seus instintos lhe precaveram para concordar com aquela história.
— Deseja ficar conosco essa noite, Abner?
— Sim.
Andou entre aqueles homens, imponente e altiva, porém as vestes pesadas que balançavam poderiam esconder seus atributos físicos, mas não a sensualidade, o suave rebolar e seu quadril eram um chamariz para eles. Ela soltou seus longos cabelos ruivos ao chegar no centro do lugar e aquele ato provocou olhares desejosos e voluptuosos em cada um dos homens e mulheres do local.
— Quem é a nova mulher? — Um homem alto de pele parda castigada pelo sol se aproximou e encarando Abner, devorando-a por inteiro com os olhos.
— Abner. — Olhou-a e depois voltou a ele — Só ainda não sei se é uma apreciadora do que servimos nessa estalagem.
Abner fitou-o e, como quem correspondesse aquele olhar desejoso, virou e dirigiu-se a ele na mesma e provocativa insinuação.
— O que seria servido nesse local, Senhor...?
O homem abriu um largo e pervertido sorriso a ela, pousou a mão sobre o ombro e a fez se aproximar mais dele, sussurrando em seu ouvido.
— Vamos ao meu quarto que lhe mostrarei.
O olhar dele era de pura luxúria e ela o correspondia na mesma intensidade, inclinou a face para a outra mulher e indicou que o seguiria. O homem a puxou, envolvendo-a pela cintura e a levou para seu quarto deixando na mesa várias moedas ao passar. Ao passarem por um servo do lugar, ele notou nitidamente seus olhos vermelhos. Piscou várias vezes, sem acreditar, mas preferiu não pensar muito e continuou seus afazeres.
Com volúpia e luxúria Abner o levou à cama, o homem se despiu urgente e ali, nu diante dela, deitou-se esperando-a. A mulher tirou aquelas vestes e revelou o corpo escultural, fazendo-o gemer com a cena. Ansioso, ele levantou estendendo a mão para puxá-la para si, tão envolto em desejo que chegava a ser animalesco. Urrou quando ela se deitou sobre si e agarrou-a forte pelos cabelos, beijando-a com ferocidade. Abner o afastou e tocou seu peito, elevando seu corpo e montando sobre ele, estava totalmente em transe naquele ato, se encaixou e o homem gemeu alto com o contato dela.
A sede ardia em suas vísceras, queria beber dele e as presas cresceram. O olhar escarlate pousou sobre o homem, que naquele momento tomara consciência do que estava prestes a lhe acontecer e, antes que gritasse, a mão dela cobriu-lhe os lábios abafando o som. Somente gemidos foram ouvidos diante das presas que sorveram o sangue na mordida voraz em sua jugular. Sugou-lhe até a última gota e ali sem vida, aquele ser tinha a expressão de pavor para ela.
— Não gosto desse olhar. — Abner se levantou e saiu de cima dele, andou nua pelo quarto limpando os lábios e virou para a janela. Abriu-a e debruçou-se sobre o batente olhando o luar, o ar gélido da noite tocava-lhe os cabelos. Pensativa sobre sua atual condição, voltou para suas vestes pegando de dentro delas aquela espada que havia amarrado na cintura. — Infelizmente o fiz perder a cabeça. — Sorriu e o decapitou.
Pegou a cabeça e enrolou nas roupas, precisava se livrar dos restos mortais de sua caça, porém ainda não sabia o que faria com os demais. E se descobrissem o que ela fizera, deveria matar todos?! Ao abrir outra porta, se deparou com o lado de fora e com uma estribaria, passou por lá rapidamente quase como o vento. Mesmo quem a visse não entenderia o que estava a passar, era veloz demais para os olhos acompanharem.
Longe dali no meio do nada, perto da beira do Nilo se desfez dos restos da sua caça e voltou à estalagem na mesma velocidade que saíra. Como uma brisa suave, entrou de novo naquele quarto e se deitou.
O dia seguinte passou, e logo que a noite caiu Abner saiu do seu quarto e desceu as escadas, dessa vez tinha vestes mais femininas dadas pela dona do local. Abdala sorriu e olhou-a mostrando o salão que estava mais cheio que o normal.
— Hoje teremos música, sabe dançar a dança do ventre?
Abner olhou-a por um momento e virou para o local analisando uma jovem que dançava com uma veste que lhe agradava muito, sua sensualidade e o modo como mexia o corpo e quadril lhe atraía. Ali no centro do salão, Abner dançou suavemente ao ritmo daquela música, lançando o quadril de um lado e para o outro, aquele jogo de véus e cinto de brilhos ofuscavam os olhos sedentos de desejo dos homens naquele lugar. Ela era estonteante e deixava aquela estalagem envolta em uma luxuosa mágica envolvente, que seriam um atrativo para as próximas vítimas da serpente sedenta.
Assim, noite após noite aquele lugar se tornava um ponto de atração noturna na cidade, todos queriam ver a dama da noite dançar e muitos queriam uma noite em seus braços saciando desejos e luxúria.
Seus pensamentos se perdiam ao luar, ela admirava aquele final de noite e no horizonte os primeiros raios matinais tocavam a cidade como um manto cobrindo o lugar.
— Admirando o amanhecer? — Uma voz masculina veio do batente da janela ao lado, era o servo da estalagem que estendia lençóis do quarto ao lado.
Ela olhou-o por um tempo e se afastou com um suave e convidativo sorriso, insinuando que o servo viesse até ela. Mais um pouco daquele néctar não faria nenhum mal, pensou enquanto a porta se abria e o servo apareceu.
— Necessita de algo Abner? — perguntou. Ele parecia não estar tão abalado com ela, mesmo que em momentos seu corpo estremecesse com sua proximidade. Ali, de pé na porta aberta, ele não entrou.
— Quem sabe? Talvez você queira algo que eu possa lhe servir.
Ele abaixou a cabeça olhando para o chão e seu corpo bambeou um pouco quase entrando no quarto. Deu um sorriso nervoso e balançou a cabeça negando.
— Sou só um humilde servo, nada tenho que possa lhe agradar e muito menos ter o privilégio de ser servido por ti, Abner.
Ela estranhou o fato dele não se mexer e seguir até ela, e ficou ainda mais intrigada por ele não seguir sua voz ou despertar desejo pela mulher.
— Está certo disso, podemos descobrir algo que lhe seja útil. — Deitou-se na cama, sensualmente expôs as pernas e deixou ombros a mostra. — Venha ... — estendeu a mão lhe convidando.
O jovem servo engoliu seco, olhou para fora do quarto e depois novamente para ela. Quando ia entrar, ouviu a voz de Abdala solicitando seus serviços. Ele sorriu se desculpando, virou-se e se afastou rapidamente pelo corredor, suando frio, nervoso. Abner olhou-o intrigada, ele resistira aos seus encantos de forma fora do comum. Levantou-se, fechou a porta e, deitada novamente na cama, adormeceu com a imagem daquele servo em sua mente e a promessa de que na próxima noite ele seria dela.
Na noite seguinte e por diversas noites a dançarina sensual fez sua apresentação, despertando a cobiça e desejo nos homens que visitavam o lugar. A senhora da taberna estava maravilhada com a sua lucrativa meretriz e não se importava com os relatos de alguns homens que visitavam o estabelecimento. Eles diziam que a noite era amaldiçoada, que alguns homens que saiam não retornavam para suas famílias, relatando que havia algo na cidade que lhes despertavam o horror.
Abner ouvia tais relatos despreocupada, afinal homens tem a terrível mania de contar histórias para assustar as crianças. Ela não se importou, afinal seu objeto de desejo estava negando seu chamado, cada noite que despertava mais e mais o desejava. Aquele homem jovem e com olhar belo e gentil, sempre servido e educadamente lhe dando tudo que pedia, menos a sua companhia.
— Abner vim lhe trazer novas vestes. — Ele parou no batente da porta do quarto.
Abner caminhou sensualmente até ele estendendo a mão para receber aquelas peças de seda e brocados dourados. Fitava-o com desejo e segurou o punho dele.
— Diga-me, por que resiste a mim?
O rapaz a olhou confuso.
— Abner somente a respeito, não a desejo.
— Não me respeite. – Abner puxou-o para dentro de seu quarto e fechou a porta.
No momento que o lançou entre seus lençóis subiu em seu colo e roçou a virilha. Deslizou o rosto até próximo ao dele e sussurrou.
— Eu o desejo e deve me desejar.
O rapaz estava trêmulo e mesmo assustado ele não conseguia evitar aquele olhar. Os olhos da mulher serpentem eram intensos. Levantou a mão passando delicadamente os dedos suavemente na face dela.
— Quisera eu ter a benção dos deuses de ter tal beldade em meus braços, mas... Desejo é algo que desaparece depois de saciado. Eu quero mais...
A mulher serpente abriu os olhos surpresa, com o contato e aquelas palavras. O que ele mais queria dela se não fosse o que ela lhe oferecia? Já teria seu corpo e ela teria saciado suas vontades e sede.
— Eu não entendo.
— Uma pena. — O rapaz forçou para sair e não encontrou dificuldade ao se levantar da cama. Ajeitou suas vestes e caminhou para porta virando-se para ela antes de sair. — O que quero nunca irá me dar.
Abner olhava-o confusa e irritada quando a porta se fechou após sua partida.
— Vamos todos, a maldita vai escapar. — Um soldado levantou a lança no ar, excitando a tropa que corria pelos becos escuros.
Abner corria como vento entre os becos e vielas da cidade dos mortos, estava sangrando. Seu ferimento, feito por um dos soldados, era grave e doía muito em seu ventre. Ofegante parou em uma vala próximo a duas casas, xingando-os. A mulher não imaginara que seu rastro havia sido seguido pelos caminhos por onde passara, descobrira que alguns homens caçavam a serpente devoradora. Necessitava de sangue para se recuperar, mas as suas alternativas eram cada vez menores.
Quando estava preste a sair, foi agarrada por trás e lutou desesperadamente até ouvir a voz dele sussurrar em seu ouvido.
— Quieta, vão ouvi-la. Vamos, lhe esconderei.
Sem muitas opções ela o seguiu até se afastarem da cidade. Caminharam pelas dunas até à beira do rio Nilo, onde havia uma pequena embarcação preparada para eles.
— Você pensou em tudo. — Abner olhou-o com seus olhos rubros.
— Vamos, embarque, lhe tirarei do Egito. – Ele entrou no barco e estendeu a mão.
A serpente sedenta segurou sua mão e entrou no barco, tremia de desejo e sede.
— Volte. — Ela o empurrou.
— Vou acompanhá-la. — O rapaz pegou o remo.
— Não.
Ele parou e ficou olhando-a por algum tempo, até que suspirou dizendo:
— Abner, sei quem é e sei o que é capaz de fazer, não a temo.
A mulher sibilou e baixou o rosto, era um esforço monstruoso em evitar atacá-lo.
— Sabe quem sou, deve saber que nesse momento o meu desejo é me saciar. – Ergueu o olha vermelho para ele. – Vou fazer se continuar ao meu lado.
Ele ainda a olhava quando e baixou a cabeça, tremia quando se aproximou.
— Eu sei, mas não posso evitar. — Suspirou baixo. — Se é esse meu destino servirei a ti. — O rapaz fechou os olhos inclinando a cabeça, expondo a jugular.
Abner abriu os olhos surpresa, gemeu baixo tamanho era seu desejo pelo sangue daquele rapaz. Ela agarrou-lhe pelo ombro e puxou-o para morder até que parou ao sentir algo estranho no seu íntimo que a fez hesitar. O que era aquela sensação nova? Por que não conseguia saciar a sua sede desesperadora?
Seus olhos estreitaram e ela rugiu ferozmente, sacudiu o rapaz e o lançou para fora da embarcação. Pegou o remo, e então empurrou o barco para longe da margem.
— Abner!!!
Ela o olhava correr para dentro do rio, tentando segui-la e inutilmente conseguindo.
Inspirou fundo e virou o rosto, deixaria aquele lugar para sempre. Não entendia aquela nova sensação, seu peito ardia e a face do rapaz aparecia diante de seus olhos.
— AHHHHHHHHHHHHH!!!!
Um grito aterrador tirou-a de seus pensamentos, quando virou o rosto viu o rapaz ser golpeado por um dos soldados com uma lança que o atravessou.
— A maldita está fugindo, capturem-na!
Abner olhava ao longe o corpo daquele que ajudou a fugir cair ao chão com a lança atravessada, seus olhos estavam estáticos, fixos naquela cena. Ela caminhou pela embarcação e o que ocorreu em seguida tornou aquela local lenda contada por eras.
O rio Nilo tornou-se vermelho e a serpente que ali habitara devorou todos os soldados que a caçavam.
Os milênios passaram e continuei minha existência solitária viajando pelo mundo. Hoje, olho para trás e me recordo de seu olhar e carinho.
De pé, olhando a cidade pela enorme janela, a jovem de longos cabelos ruivos tragava suavemente um cigarro. As lembranças iam e vinham e a única coisa que Abner nunca conseguiu se perdoar foi não morder aquele que seria seu par por toda eternidade.
Fim?!
https://youtu.be/UuEKpHX_8mc
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